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Quiosque da Joana

23.01.18

a cápsula do tempo...

Joana Marques

Desde muito pequena que me lembro dos meus pais nos dizerem para não aceitarmos nada de estranhos.

 

Era eu uma pirralha de 4/5 anos e era completamente impossível de aturar.

Passava o dia no infantário. Corria, saltava, pintava, construia e desconstruia tudo à minha volta.

Chegava a casa ainda com as pilhas a 98%.

A minha irmã ia-me buscar ao infantário quase todos os dias.

E era com alguma dificuldade que fazia o caminho para casa.

Pernas para que te quero. Lá ia eu a correr para chegar a casa. E a minha irmã que se amanhasse.

Se queria vir comigo...corresse.

Era parada pelo senhor da mercearia que me achava graça e me dava rebuçados.

- Toma lá, Joana.

Eu parava. Pegava no rebuçado. E corria até ao meu prédio. Subia as escadas. Tocava à campainha compulsivamente. Entrava.

E deitava fora o rebuçado.

minha irmã chegava uns minutos depois...sem fôlego.

 

Tanta vez fiz isto que me perguntaram lá por casa. Porque deitava os rebuçados fora.

- Vocês disseram-me para não aceitar nada de estranhos. Aceito para não o deixar triste mas deito fora.

Tiveram de me explicar que daquele senhor podia aceitar. A minha mãe era cliente e conhecia-o.

Foi uma descoberta maravilhosa. A partir daquele dia comecei a moderar a velocidade à frente da mercearia. A minha irmã agradeceu.

 

Tinha 7 anos. Continuava a ser uma pirralha chata. E insuportável. Estávamos à mesa.

Os meus pais tinham ido ao Alentejo. E tinham trazido um saco grande de limões.

E falavam entre eles a quem iam dar limões. Para não se estragarem.

Eu. Arranjei logo uma solução. Obviamente a solução certa.

- Porque é que não dão à Petra Marisa, o irmão dela consome e ela diz que precisam de limões.

 

A tensão arterial da minha mãe deve ter disparado. Parece-me que vi a veia da testa a bombear sangue desmesuradamente.

Muito calma a minha mãe disse.

- Petra? Nunca me tinhas falado nela.

- Petra Máaaaaaaaaarisa. Respondi eu. Aquele Máaaaaaaaaaarisa dito daquela forma desconcertava a minha mãe de alguma maneira.

A tensão arterial da minha mãe estava nos píncaros.

A minha mãe bebeu água.

O meu pai sempre menos stressado que a minha mãe. E normalmente divertido com as minhas coisas.

- O que é que disseste sobre o irmão da Petra Marisa?

- Consome. A Petra Máaaaaaaaaaaaaarisa diz que ele já vendeu o recheio da casa duas vezes.

A minha mãe quase sucumbiu. 

- Consome?? O que é isso?? Perguntou o meu irmão.

E eu com o ar mais natural do mundo. Disse.

- Consome!

É claro que eu não percebia nada do que estava a dizer.

Só estava a reproduzir uma conversa que uma colega de escola tinha tido comigo e com outros miúdos.

 

Lembro-me de o meu pai nos ter sentado a todos no sofá e nos explicar de uma forma simples o que era.

E alertado para os perigos.

A minha irmã tinha 16 anos já sabia alguma coisa sobre o assunto.

O meu irmão chocado perguntou-lhe:

- Porque é que não nos disseste antes?

E o meu pai respondeu.

- Vocês comeriam vidro?

É claro que eu sabia a resposta. Atropelei toda a gente. E respondi eu.

- Claro que não. É demasiado estúpido...

- Exatamente.

Fiquei inchada de orgulho. Eu era a mais nova e tinha respondido, certo. Toma lá Tiago, toma lá Sofia.

- Nunca vos falei sobre este assunto porque acho que tenho 3 filhos inteligentes que na altura de saber escolher, escolherão bem. Droga é como comer vidro. É estúpido.

Ficou por ali a conversa.

Eu nunca experimentei. Os meus irmãos que eu saiba também não...

 

Isto veio-me à memória. Porque  agora tenho uma filha.

E porque ao que parece há pessoas a comer cápsulas de detergentes.

Faz me pensar...

E se eu não conseguir ser tão eficaz como os meus pais..

A experiência que eu tenho em educar é tão curta e não muito recomendável...

...vocês sabem como se comporta o cão...

 

Era tão bom. Uma cápsula do tempo.

Para que a Alice pudesse presenciar esta conversa.

 

 

 

 

22.01.18

rumário. Com U.

Joana Marques

Estou a morar em casa do meu irmão até a minha casa ficar um sitio habitável.

Na segunda feira passada tocaram-me à campainha.

Era a vizinha de cima.

 

Os vizinhos de cima são muito amigos do meu irmão.

Conheço-os das festas de anos dos meus sobrinhos.

E de outras almoçaradas que às vezes dão em casa. Têm duas gémeas de 4/5 anos.

Elisabete, a vizinha tinha na mão um aquário com um peixe preto lá dentro e uma caixinha cilíndrica com a comida do peixe.

Quando me viu, fez um ar tão admirado, achei que não me conhecia.

Eu também estranhei porque a família do meu irmão já cá não está desde Outubro.

- Ah! Joana? Tenho ouvido pessoas aqui em casa pensei que tinham voltado.

 

Contei-lhe a história da minha casa e porque tinha ocupado aquela.

- Queres que fique com o peixe?

- Se não te importares. Vamos passar uns dias ao norte. Voltamos segunda feira para evitar o trânsito de domingo.

- Sem problemas. Vai descansada.

 

O cão não estava em casa. Estava em casa dos meus pais com a Alice.

Peguei no peixe.

E comecei a olhar para ver se encontrava um local seguro para o bichinho.

Achei que ficava bem no móvel da sala.

Numa prateleira alta.

 

À tarde fui buscar a Alice e o Vasco.

E mal entra em casa. O cão dá conta.

Posição de ataque. Virado para a prateleira do peixe. Orelhas à escuta.

Porque como todos sabemos é super perigoso aquele tipo de peixe.

E a qualquer momento pode saltar do aquário e vazar uma vista a um de nós.

 

Fiquei preocupada. E se cão se atira à estante e vem tudo parar cá abaixo.

E se conseguir chegar ao aquário.

E se bebe a água......coisas que me passaram pela cabeça.

Em vão a preocupação.

O cão logo sentiu um odor a fralda suja.

Bastante mais aliciante que um peixe cabisbaixo dentro de um aquário.

Nunca mais olhou para ele.

E eu relaxei.

O cão falhou. Eu falhei.

Quem é que eu quero enganar...falhei eu....

 

Dizer em minha defesa.

Todos os dias tenho de tratar da Alice e do Vasco.

Tenho de fazer jantar e almoço. Faço de uma vez só, para a semana toda, mas tenho de o fazer.

Todas as semanas faço pão.

Todas as semanas faço leite de aveia e de amêndoa.

Arrumo a casa, limpo, passo a ferro, organizo a roupa...enfim, sabem como é.

Ah! E trabalho ...tenho uma profissão a tempo inteiro.

Fui para o Alentejo o fim de semana...e tive de fazer as malas..

 

 

Isto não serve de desculpa para o que eu fiz.

Digamos que levei o #rumoaoesquecimento demasiado  a sério.

E, mais.

Confundi as personagens.

E esqueci-me. Mesmo, mesmo bem esquecido. Do peixe.

 

Lembrei-me dele hoje de manhã.

Porque fui ao móvel buscar um livro que o meu pai me tinha pedido e reparei que o peixe estava estranhamente parado.

Nem queria acreditar.

Foi um dos momentos mais deprimentes da minha vida.

Apelei a quem achei que me podia ajudar naquele momento trágico.

- Alice! O peixe morreu....Vasco, o peixe está morto!

 

 Para além de me ter esquecido do peixe.

De ter deixado o peixe morrer.

Ainda apelei a duas entidades...conhecidas e reconhecidas mundialmente por darem vida a peixes falecidos.

Vasco e Alice. Alice e Vasco.

Sim, senhor! Sanidade mental, TOP!

 

Saí de casa.

Deixei a Alice e o Vasco na casa dos meus pais.

Com um camadão de nervos em cima.

Como é possível eu ter-me esquecido do peixe.

Não contei nada aos meus pais porque ainda estava em choque.

Cheguei a casa e resolvi ir comprar um peixe. Um substituto. Pôr no aquário. E fingir que sou uma pessoa de confiança.

 

 

Liguei para o veterinário do Vasco.

- Olha lá sabes onde vendem peixes pequeninos. Em preto. Assim, daqueles bolachudos...

- Joana. Em primeiro lugar bom dia! Em preto? Conheço peixe espada preto...diz que a praça de Benfica tem bastante qualidade..nunca lá fui mas a minha mãe costuma lá ir e gaba muito a praça...posso-lhe perguntar se tem lá alguém de confiança...

- NÃO É NADA DISSO. Fiquei de tomar conta do peixe espada do vizinho e esqueci-me de o alimentar e o peixe morreu..e preciso de o substituir..

- O teu vizinho tem um peixe espada em casa??

- Não. É um peixe preto..não é espada...é só preto e é daqueles que tem bochechas...ou orelhas...parece o Dumbo em peixe...estás a ver??

- O Dumbo em peixe? Devo ter faltado a essa aula...

 

Do outro lado alguém estava prestes a sufocar com a história.

Deste lado, alguém estava prestes a rebentar uma veia no cérebro.

- Calma. Passa nas lojas de animais e vai perguntando. E vais ver que encontras.

 

Peguei no peixe cadáver, coloquei-o numa caixinha pequenina. Do ikea. Daquelas com tampa azul.

E saí de casa.

Toda a minha planificação do dia por água abaixo. Que se lixe.

Joana.

#rumoaopeixepretoebolachudo.

Ó senhores. Perdi a conta às lojas de animais que fui.

Hoje. Olhei para pelo menos um milhão de peixes.

Comparei tamanhos.

Comparei bochechas.

Comparei guelras.

Comparei preto com preto.

Liguei a meio mundo. À procura de lojas de animais.

Um bom início de semana, portanto.

 

Se encontrei o peixe?

Preto?

E bolachudo?

O Dumbo em forma de peixe.

Um peixe em forma de Dumbo.

 

Sim.

Mas a que preço.

Tive de ir à margem sul.

A um local chamado Vale de Figueira (acho eu).

Ao Bricomarché.

Mostrei o cadavérico. E um senhor simpático pôs-me diante de um aquário.

Trouxe dois. Antes que um estivesse doente...e quinasse, também.

Um foi para dentro do aquário. Outra para dentro de um copo. O suplente.

 

E quando a campainha tocou. E a vizinha recebeu o peixe.

- Bem, Joana. Até parece maior. E olha que vivaço que ele está...

Só me apeteceu dizer...

...Devias ter passado por cá de manhã...tão mortiço e em decomposição...

 

E sim.

Tenho um peixe dentro de um copo.

Pretinho.

Bolachudo. Parece que tem asas nas bochechas.

Chama-se #rumário. Com U.

21.01.18

azar ao jogo. Só ao jogo...

Joana Marques

Para além da casa onde vivem, os meus pais têm mais 3 casas.

Uma no Algarve que a minha mãe herdou de uma tia. Herdou uma ruína que com o tempo se transformou numa casa bem gira.

Passei lá muitos Agostos. Sobretudo Agostos, mas também Julhos, algumas passagens de ano e muitos fins de semana.

 

Têm a casa no Alentejo que o meu pai herdou dos pais. A casa da minha avó Maria e do meu avô Joaquim e que foi dos meus bisavós.

Uma casa cheia de história. Em bom estado mas antiga.

 

E uma casa na Sertã.

Quando a minha irmã comunicou ao meu pai que ia seguir design de interiores o meu pai disse-lhe:

- Porque é que não escolhes uma profissão a sério.

- Mas é uma profissão a sério!

Para o meu pai não era.

E precaveu-se. Comprou uma ruína na Sertã. E tinha como objetivo fazer daquilo algo relacionado com turismo de habitação.

A minha irmã fez o gosto ao dedo e decorou a casa como ninguém. Está absolutamente magnifica.

E se não fosse o stress anual relacionado com os incêndios que rondam a zona 20 vezes em Julho, Agosto e outras tantas em Setembro, seria considerado o paraíso...

Não se construiu mais nada lá porque a minha irmã desde o dia em que acabou o curso até hoje sempre teve trabalho.

O meu pai deu o braço a torcer. E quando a minha sobrinha quis seguir as pisadas da mãe...nem uma palavra!

 

No Natal deste ano fomos confrontados com algo que não estávamos nada à espera.

Os meus pais apanharam-nos todos juntos e disseram-nos que nos queriam oferecer as casas.

- Já não estamos para novos e começam a dar trabalho e assim ficava cada um com a sua...

 

Nem consegui dizer nada. Foi um choque para mim.

A constatação.

A herança.

Não reagi muito bem. Nem eu nem os meus irmãos.

Mas tanto insistiram que lá aceitámos.

 

Perguntaram-nos se queríamos alguém a avaliar as casas. Porque é óbvio que não valem o mesmo.

Dissemos que não. Que nos entendíamos.

E decidimos tirar à sorte.

3 papelinhos: Alentejo. Algarve. Sertã.

 

Tirou a minha irmã primeiro. É a mais velha. Algarve.

Tirou o meu irmão a seguir. Alentejo.

Tirei eu. Sertã.

 

A minha irmã.

- Preferia a Sertã.

Eu.

- Troco contigo.

Trocámos.

O meu irmão.

- Preferia o Algarve.

Eu.

- Troco contigo.

Trocámos.

Eu.

- Queria tanto, tanto o Alentejo!!

 

Rimos que nem parvos.

Os três com azar ao jogo.

- Olha que três....

 

Insignificante. Porque temos o principal.

A sorte de nos termos cruzado nesta vida.

Da melhor maneira possível...há lá sorte maior que ter irmãos?

 

 

20.01.18

o juramento...

Joana Marques

Quando tinha 8 anos.

Na escola. Tinha dois grandes amigos.

A Cátia e o Miguel.

Andávamos sempre juntos. Éramos unha com carne.

O pai do Miguel trabalhava numa empresa espanhola e passava cada vez mais tempo em Espanha.

Um sábado de manhã fui às compras com a minha mãe e encontrámos a mãe do Miguel.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe que era provável daí a uns tempos irem todos viver para Espanha porque o marido passava a maior parte do tempo lá.

Não disse nada ao Miguel. Mas ele sabia.

 

Dividíamos os trabalhos de casa. E antes da escola começar encontrava-me com eles e trocávamos os tpc's.

Se tínhamos 3 contas para fazer, cada um fazia uma e depois era só copiar.

Uma tática infalível. Só usada pelos melhores amigos, os que podemos confiar.

Sabemos que no quinto aperto não contam nada a ninguém quanto mais no primeiro.

E nós sabíamos que em caso de desconfiança, os adultos não tinham tempo de nos apertar até à morte...

 

Entre a cópia, a conta de multiplicar e a de dividir o Miguel disse-nos que ia morar para Espanha.

Chorámos os três.

E nesse dia chorámos outra vez. Porque não fizemos os trabalhos de casa como deve ser e a professora contou aos nossos pais.

Foi um dia dos diabos.

 

No dia seguinte o Miguel disse-nos que tínhamos de jurar que íamos ficar sempre amigos.

-Sim, juramos. Respondi eu e a Cátia.

- Não é assim que se jura. Disse o Miguel.

- Como é que se jura?

 

O Miguel explicou-nos. Tínhamos de cuspir na mão. E com um aperto de mão, como faziam os homens, selar o juramento.

Numa fase em que tudo me dava volta ao estômago, incluindo os beijos na boca.

Tive de me abstrair bastante para fazer tal coisa.

- Tens a certeza que é assim?

- Tenho. Vi num filme com o meu irmão.

O Miguel tinha um irmão fixe. O meu só servia para me roubar o tulicreme do pão.

 

O juramento funcionou. Somos amigos até hoje.

A Cátia nunca saiu da minha beira.

O Miguel foi para Espanha. E depois para Inglaterra. Mas acabava sempre por vê-lo nas férias de Natal. Vivíamos próximo.

Perdi contacto com o Miguel quando comecei a trabalhar e saí de casa. E os meus pais saíram de Campo de Ourique e mudaram de telefone fixo.

Só que a vida dá voltas e voltas. E quando eu pensava que nunca mais o ia ver.

No Natal de 2012 em pleno Colombo. E com milhares de pessoas lá dentro. Alguém me bate no ombro. Era o Miguel.

Jantámos, nesse dia. E ele contou-me que estava a viver na Nova Zelândia. E que ia ficar por um mês em Portugal, depois voltaria.

Convidei-o para jantar em minha casa. Convidei a Cátia, claro! E uma outra amiga minha, a Raquel.

Nesse dia o Miguel apaixonou-se pela Raquel e a Raquel pelo Miguel.

Nunca mais se largaram.

Ele voltou para a Nova Zelândia. Mas regressou três meses depois. Casaram. E são felizes.

Actualmente, vivem na Nova Zelândia, e têm dois filhos...Sportinguistas.

 

 

Hoje de manhã. Acordei.

E fiz o que tenho feito neste último mês.

Vou espreitar o berço da Alice.

Gosto de olhar para ela.

 

Olho para ela.

Sinto-me uma sortuda.

E agradecida.

Alguém que eu não conheço.  Achou que merecia ser abençoada desta maneira.

Não mudava nada nela.

Porque é perfeita.

 

Desperto.

Os meus pensamentos são interrompidos por um bafo quente e húmido.

Enquanto eu olhava para ela por cima do berço.

O Vasco olhava para ela pelas grades da cama.

Os dois em silêncio a zelar pelo sono dela.

 

Acordou.

Viu-nos.

Riu-se tanto que até os olhos se fecharam outra vez.

Deu-me os braços para a tirar da cama.

 

Peguei nela.

E sentei-me num cadeirão.

Com ela ao colo.

O Vasco pôs a cabeça no meu colo em cima dos pés da Alice.

Com o braço esquerdo segurei a Alice.

Com o direito fiz festas ao cão.

 

Os 3.

Geneticamente diferentes.

Unidos pelo amor. Para sempre.

Um juramento selado....

 .....por aquele ribeiro de cuspo...saido diretamente da boca do cão.

 

 

19.01.18

o trolley...

Joana Marques

Uma vida passada a viajar e a trabalhar em aviões percebi que tanto mulheres como homens viajam cheios de tralha.

Não todos. Claro! Mas a maioria.

 

Quando viajo gosto de ir leve.

Só o indispensável tem lugar. E mesmo assim, muitas vezes fica de fora...

Por exemplo, não levo maquilhagem nenhuma. Até porque não uso muito no dia a dia.

Quando viajo é absolutamente desnecessária.

Levo roupa escolhida a dedo. Que ocupe pouco espaço. E que se lave facilmente.

Nunca levo 3 ou 4 biquínis, por exemplo. Escolho um e já está.

Já viajei com amigas que levavam um look diferente para todos os dias.

Secador de cabelo e cheguei a viajar com pessoas que levavam o ferro de engomar.

E sapatos. Muito sapatos. O champô e o amaciador que usam. E o creme hidratante. E mais uma quantidade de coisas completamente desnecessárias.

Fazer uma mala destas deve ser um pesadelo. E desfazê-la ainda pior.

Detesto desfazer malas...para mim é o pior da viagem.

 

 

Estou para ir passar o fim de semana ao Alentejo.

E rapidamente percebi que vou cheia de tralha.

A Alice é em parte responsável pelo acréscimo. É uma bebé e eu tenho de prever algumas situações.

Mas com a tralha da Alice posso eu bem. O pior é a tralha da diva aqui de casa. O cão.

É o ursinho. E o coelhinho.

Um boneco em forma de frango que os meus tios lhe ofereceram, faz muito barulho mas não passa sem ele.

A cama.

A comida normal.

Os biscoitos preferidos. Porque pode ver uma aranha e descompensar.

Os biscoitos dos dentes. Porque pode ver uma osga e descompensar.

Uma caixinha com frango assado. Porque pode ver uma osga e uma aranha e enfartar.

A trela/coleira azul que é a preferida e às vezes recusa-se a sair sem ela.

Umas gotas que está pôr nos olhos.

E umas gotas para os ouvidos em caso de se queixar.

Medicação para o ouvido porque pode precisar de medicação mais forte em caso das gotas não funcionarem.

Champô porque é mais do que certo que se vai embodegar.

E a escova porque quando se embodegar vai dar jeito tê-la por perto.

 

Para mim, vai um saquinho de mão.

Para Alice, uma mochila.

Para o cão vai um trolley.

Bom fim de semana.

 

18.01.18

Alice. Report! #2

Joana Marques

Não tem dentes. Ainda não tem dentes.

Nem vestígios de que virá a ter dentes.

 

Ri-se muito. Muito.

Sorri a toda a gente mas colo só quer de quem conhece.

E diz adeus.

Quando na rua se metem com ela, ela sorri e depois diz adeus.

Parece que as quer ver pelas costas.

 

Parece que é feita de borracha.

Começou a gatinhar. E gatinha a toda a velocidade quando é para ir atrás do Vasco.

Com a pressa e falta de coordenação. Desfaz-se no chão.

Rapidamente volta à base. E retoma o rumo. E lá vai ela atrás do cão.

O Vasco ganha sempre.

Ela bem refila. E tenta. Não desiste. E nunca chora.

 

Ainda chora quando a deixo em casa dos meus pais.

Ou quando está ao colo e a passo para colos menos conhecidos.

De resto pouco chora.

Mais para a noite quando está mais cansada é capaz de dar o ar de sua graça.

 

Adora cor de rosa. Ou a mãe adora vesti-la de cor de rosa.

Não sei bem.

Gosto mesmo de a ver de cor de rosa com um laço na cabeça.

 

Come bem. E dorme muito bem.

O que para mim é uma dádiva dos céus.

Adianto muita coisa quando está a dormir.

Porque as tarefas aumentaram bastante.

Mas continuo com tempo para as minhas coisas. Porque trabalho menos horas, também.

 

Gosta muito de música.

De folhear um livro comigo.

Adora o Vasco.

Não tem noção da força e às vezes o cão apanha.

Nunca se chateia porque é o melhor amigo dela.

 

Têm sido dias bons...

 

18.01.18

#rumoaoesquecimento

Joana Marques

Podia dizer que esta aguarela foi feita propositadamente para este post mas não seria verdade.

Esta aguarela foi feita para eu oferecer a uma pessoa. Uma pessoa importante para mim.

Que amei. E que amo ainda.

Essa pessoa gostava de uma aguarela que eu fiz. Péssima, por sinal.

Eu pintei esta para lhe mostrar o que é uma aguarela a sério.

Já a pintei há algum tempo. E foi a primeira aguarela que fiz, usando uma técnica que aprendi na Noruega.

Como foi a primeira não está perfeita. Mas eu gosto bastante dela.

A foto não a favorece. Na minha opinião.

A pintura é do Cais Palafítico da Carrasqueira, vá se lá saber porquê achei que tinha a ver com a pessoa em questão.

 

Queria ter-lha oferecido quando regressasse a Portugal.

Só que as coisas complicaram-se.

E eu adiei o nosso encontro. Adiei demasiado. Eu sei.

Mas o meu cérebro falou mais alto.

 

As relações desgastam-se. É um facto.

E o meu último ano não foi fácil para a pessoa em questão. Acho eu.

- Vou voltar. Não vou voltar. Afinal quero voltar. Vou de férias mas vou para a Grécia. Não quero ir a Portugal. Afinal quero voltar a Portugal. Afinal, decidi ficar em Oslo. Olha! Não...vou voltar para Portugal...enfim. Avanços e recuos. Recuos e avanços.

O meu último ano também não foi fácil para mim.

Algumas coisas, não consegui entender.

E por defeito ou feitio fechei-me. Para ele foi incompreensível.

Achei sempre que não era suficiente para ele. E continuo a achar.

A Alice parece-me que foi o ponto final.

Parágrafo.

 

Não resultou. Paciência.

É porque não é o homem da minha vida.

 

Se não é o homem da minha vida tenho de o esquecer o mais depressa possível.

Comecei a apagá-lo aqui.

Como sou pessoa para planificar tudo...também planifiquei este esquecimento.

Desde o post já segui vários passos.

Todos no timing que tinha planeado.

E está a resultar...aos poucos vou conseguindo!

Acreditem que já fiz muitos progressos.

 

Este será outro passo. Importante.

Não será #rumoao37.

Será #rumoaoesquecimento.

 

 

Podia deitar a aguarela para o lixo. Mas não tenho coragem.

Vou sortear a aguarela.

Para a ganhar só têm de comentar este post. De forma não anónima!

Têm até dia 25 de Janeiro.

A aguarela está datada e assinada atrás. Tamanho A4.

Espero que participem em força!

 

 

P1181765.JPG

 

 

17.01.18

à beira de um ataque de nervos. O cão!

Joana Marques

Desde que o Vasco é gente passei a ter cuidado com o telemóvel.

Depois de vários comidos, desmembrados e atirados pela janela passei a ter cuidados extremos.

Mas...

...às vezes escapa...

Com a Alice ainda escapa mais vezes. Se precisa da minha atenção, deixo tudo incluindo, o telemóvel

Deixo assim o bichinho à mercê do BICHO!

 

Na segunda feira o meu telemóvel desapareceu repentinamente.

A Alice acordou da sua sesta da tarde. E eu fui ter com ela.

Num segundo estava em cima de uma mesa de apoio e no segundo seguinte já não estava.

Tinha a certeza absoluta que o tinha deixado em cima da mesa.

O culpado. O Vasco.

Chamei-o. E perguntei-lhe...

- Vasco, onde é que está o meu telemóvel??

- Não sei de nada. Não vi nada. E tenho raiva de quem sabe.

 

Suspirei. E comecei à procura do telemóvel.

Desisti logo. A Alice precisava de mim e um telemóvel é só um telemóvel.

Pensei que o iria encontrar, um dia destes.  Provavelmente partes dele. Se olhasse com muita atenção talvez detetasse algum vestígio no cocó do bicho papão. Foi isso que aconteceu ao meu ipad....uma parte dele acabou numa rua de Carcavelos embrulhado em caca de cão...

 

Tratei da Alice.

Fralda.

Lanche.

Fui passear o cão à rua. Com a Alice.

Voltei a casa. E insisti.

- Vasco, mostra lá à dona, onde está o telemóvel??

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

- Vasquinho, querido...por favor.

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

Alimentei o cão.

Dei banho à Alice. O cão já ressonava.

Brinquei com a Alice. O cão sonâmbulo juntou-se a nós no quarto. E dormiu.

Deixei a Alice na cadeirinha e comecei a preparar o jantar dela. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na cozinha. E dormiu.

Sim, o cão tem camas em praticamente todas as divisões...ou sofás!

A Alice jantou.

Fomos para a sala. E li-lhe uma história. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na sala. E dormiu.

A Alice começou a fechar os olhos. Deitei-a...

 

- Agora sou só tu e eu...mafarrico! Onde é que está o TELEMÓVEL!

- Outraaaaaaaa vez a mesma conversaaaaaa. Teeeeeeenho taaaaaaaantooooooo sooooooooooonooooo.

É assim que ele me trata...com desprezo, mesmo desprezo....

 

Desisti. Liguei aos meus pais pelo telefone fixo a dizer que não tinha telemóvel.

 

Recebi uma mensagem via messenger de um amigo meu e lá lhe conto o meu karma....

- Já experimentaste ligar para o telemóvel???

- Não...não me ocorreu...CLARO que já liguei. Está no silencio por causa da Alice.

- Ah...pois...olha lá, não tens antivírus no computador?

- Tenho...

- E tens o telemóvel na mesma conta?

- Sim, tenho o telemóvel, o portátil e o mini portátil...

- Vê na página deles como localizar o telemóvel, pode ser que te safes!

 

Fui até à página da mcafee e entrei na minha conta.

Selecionei o meu telemóvel. Nem sei muito bem o que raio fiz. Andei por lá meio perdida.

Cheguei a uma página que dava a localização do meu telemóvel. Não me ajudou nada porque eu sabia onde ele estava. Sabia que estava em casa. Dentro ou fora da barriga do cão, essa era a questão.

Apareceu-me um botão azul, no site. Cliquei.

E de repente. Um alarme tocou em minha casa. Um alarme como deve ser.

E percebi que o telemóvel estava dentro da cama do Vasco. O Vasco estava a dormir por cima dele.

O Vasco apanhou o susto maior da vida. A dormir deliciado da vida. Só vi o cão dar um salto. Parecia um atleta do salto à vara.

 

 

A Alice acordou assustada com o alarme.

O Vasco ficou assustado com o alarme.

Eu recuperei o telemóvel. 

 

 

A Alice voltou a dormir passados 10 minutos. Em paz...

O Vasco ficou a tremelicar.

E a chorar.

Não saiu do pé de mim.

Enquanto estive na sala aconchegou-se a mim. Sempre a tremer numa grande lamuria...

Dei-lhe mais comida. Os biscoitos preferidos. Nada...

Dei-lhe os biscoitos dos dentes que ele adora. Nada...

Dei-lhe frango assado que ele idolatra. Nada...

Ou melhor. Tudo. Comeu tudo. Continuava a tremer e a chorar.

Dei beijinhos. Fiz festinhas. Tremideira. E choro.

 

Ficou com medo da cama que estava no escritório. E quando teve de passar pela porta do escritório. Quase enfartou.

 

Quando me deitei. Ele deitou-se comigo.

Tive uma noite maravilhosa. Com um cão agarrado a mim. E a chorar no meu ouvido.

 

 

Só adormeceu na manhã seguinte.

Quando eu peguei na cama e a fechei no porta bagagem.

Não voltou a dormir no escritório. Não vá o malandro do escritório passar-se e começar aos guinchos....

 

 

Joana Marques

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