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handmade life

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17
Mai17

como um camião TIR. Desgovernado...

Joana Marques

Desde que sou pessoa que tento organizar a vida de toda a gente.

Tenho uma parte. Uma parte grande. Que pensa que a felicidade do mundo depende de mim.

Nasci controladora.

Se o nível de controlo fosse medido em monumentos. Eu seria a Capela Sistina.

 

Lembro-me da minha mãe separar a roupa do meu irmão e eu lhe dizer:

- Essas calças ficam mal com essa camisola.

E o pobre do meu irmão ficava meio aparvalhado...

- Ó mãe não quero estas calças..

A minha mãe tentava convencer o meu irmão...

E eu olhava para ele, sem a minha mãe ver, e abanava a cabeça.

- Mãe não posso ir assim..

Era impossível para mim ver o meu irmão mal vestido e não intervir...

E instalava-se o caos de manhã. Devia ter uns 4, 5 anos...

 

Ia para o infantário.

E claro, era a porta voz de todos os miúdos.

Mais depressa vinham ter comigo porque precisavam de ir à casa de banho do que com a educadora.

A Mariana não gostava de sopa.

Eu, Joana resolvia o problema.

Comia a dela e a minha. Nunca ninguém desconfiou.

 

Na escola primária era mais do mesmo.

Esta minha forma controladora de ser nunca me deixou.

As melhores alunas da turma era eu e a Maria João.

Eu tirava melhores notas mas ela portava-se melhor.

Antes das aulas começarem, todos os dias, partilhava o meu trabalho de casa com os meus colegas.

Um de nós ficava feito suricata à espreita da Maria João. Se ela soubesse acusava a turma toda.

Quando alguém não sabia responder.

Cá vai! Respondia eu. A professora ralhava.

Se fosse preciso logo de seguida fazia o mesmo.

Não para brilhar.

Ou para a professora achar que eu era um génio. Nunca fui.

Era para tirar a pressão dos meus colegas.

Se eu respondesse, o foco vinha para mim e eles podiam respirar.

 

Quando cresci e mudei de escola continuava a partilhar os trabalhos de casa e não só.

Aqueles colegas desprovidos de qualquer espírito artístico e que se viam à nora nas aulas de Educação Visual podiam contar comigo.

Fazia desenhos em série em casa.

Todos diferentes para o professor não desconfiar.

 

E assim foi sendo a minha vida.

Tens um problema?

A Joana resolve. A Joana faz. A Joana decide.

O não puder ajudar corrói-me. Não é fácil ser a Capela Sistina...

É claro que com a idade uma pessoa vai aprendendo a gerir melhor.

Mas a controladora, está cá!

 

Cheguei, à Noruega. Aqui no trabalho, o que é que eu encontro?

Pessoas que se alimentam mal.

Ó diabo.

Respirei fundo várias vezes.

- Joana, finge que não vês...

- Ok! Eu estou a fingir que não vejo.

- O que é aquilo??? Uma sandes ao almoço, outra vez??

- Não é da tua conta...

- Eu sei que não é da minha conta...coitadinhos..credo! O que é aquilo?? Uma panqueca de batata???

- Não te interessa. Come e não olhes para a comida dos outros. Não és mãe deles...

- E será que estas pobres almas têm mãe??? Ia jurar que nasceram de geração espontânea. Sem pai, sem mãe. Das pedras da calçada...ou das couves.....só assim se explica...

 

Fiz das tripas coração....

A sério...

Eu tentei....controlar a fera que há em mim...

 

Deus é testemunha em como tentei...

Mas não deu....

A minha natureza controladora, apareceu.

E apareceu de forma imparável...

...em modo camião tir desgovernado....a 200 km/hora...

 

Na segunda à noite fiz mousse de manga a contar com os meus colegas.

Ofereci a todos.

Ficaram meio aparvalhados. Já se sabe que os noruegueses são bichos do mato...

No meio da conversa deixei escapar que em Portugal é comum as pessoas falarem umas com as outras.

Chama-se conviver.

Sem acharem que queremos casar com elas. Disse isto a olhar para o Hans!

 

A minha chefe perguntou-me como se fazia a mousse.

- Para cada manga, 10 cl de leite de coco.

- coco??

- Sim, coco...

- Ah!

Sai confusa. Entra com um creme.

Num país onde se vendem ovos em pacotinhos tipo leite pasteurizado, em que duas colheres de sopa equivale a um ovo.

É perfeitamente plausível que o coco para eles seja uma bisnaga de creme para as mãos.

Trouxe-lhes um coco. Verdadeiro.

Tive medo que pegassem na manga e a besuntassem com creme de mãos....isto é se souberem o que é uma manga.

 

E percebi porque é que tinha de vir trabalhar aqui.

- Esta gente estava mesmo a precisar de uma mãe.

.....digo eu...Capela Sistina...

Quem será a próxima vítima...o camião Tir anda por aqui e por aí.....

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