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Quiosque da Joana

29.05.17

como se gerem as saudades...

Joana Marques

Estar fora não é fácil.

Longe do país. Longe da família.

Ainda que tenha a sorte de ser visitada por amigos e família muitas vezes, não é a mesma coisa.

Quando saí de Portugal em Novembro, o plano era voltar no fim do projecto.

Nunca me ocorreu não voltar.

Só que, quando acabou, percebi que tudo tinha mudado.

O mais provável era ter sido enviada para França, como muitos colegas meus.

E tendo eu pêlo na venta e a mania que sou eu que controlo a minha vida, achei que devia ser eu a escolher.

Tive convites para ficar em Barcelona.

Ficaria a gerir o projecto que estive a implementar. Não me agradou. Nada. Se corresse mal, teria de ir contra a minha empresa antiga e não estava preparada para isso.

 

Quando aceitei Oslo e escolhi ter um mês de férias antes de iniciar a minha vida aqui, o primeiro pensamento que me passou pela cabeça foi:

- Portugal, não! Se vou a Portugal já não volto.

E assim foi.

Fui para a Grécia um mês e tentei não pensar muito nas saudades.

Como estava a fazer voluntariado e era tudo avassalador.

O tempo passou depressa.

E em pouco mais de um segundo estava em Oslo.

 

Aqui em Oslo já fui visitada pelos meus pais, irmãos e duas amigas.

Quando estão de saída é duro. Muito duro.

 

Na sexta-feira saí do trabalho, depois de passear o Vasco, deixei-o e fui às compras.

Cheguei ao mercado do peixe e estava uma senhora à minha frente. Estava acompanhada de uma menina pequena.

De repente a menina diz qualquer coisa e a senhora responde:

- O que é que disseste?

 

Percebi que eram portuguesas. E assim do nada. Por ouvir a língua. Começaram a cair lágrimas cara fora.

Geri como consegui.

Cheguei a casa arranjei o que fazer.

Jantei.

Estive largo tempo ao telefone com uma pessoa que gosto. Apaziguou-me de alguma forma.

Tentei dormir já passava da uma da manhã.

Só que não dava. Precisei exorcizar ainda mais o que estava a sentir.

E pintei Lisboa. Não da forma como costumo fazer.

Usei preto e branco. Só.

10 (2).jpg

Daí a umas horas, poucas horas, fui acordada pelo Vasco.

Estava um dia novo a começar.

Ainda tentei dormir mais um bocadinho.

Mas não dava.

Na minha cama já se dançava algo entre o tango e o fandango.

E quando o rebuliço saiu de cima da cama. Recebi em cima de mim um par de chinelos voadores.

Nada como uns bons chinelos voadores para me fazer à vida.

E perceber que há vida para além da saudade.

E que na maioria dos dias até sou feliz.

 

Joana Marques

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