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Quiosque da Joana

handmade life

31.12.17

em 2018! Não tenhamos pressa..

Joana Marques

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

 

Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega.
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.

 

Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

 

Alberto Caeiro

 

 

Feliz 2018!

30.12.17

Alice e Vasco. O gang...

Joana Marques

O meu pai é daquelas pessoas que as crianças adoram. Desde sempre.

Nas festas de anos, minhas, dos meus irmãos e dos meus primos, o meu pai era sempre convidado a participar nas brincadeiras.

Com os netos foi a mesma coisa. Antes queriam estar ao colo dele que no dos pais. Sobrinhos netos. Crianças.

Este João tem uma espécie de mel. Qualquer coisa. Não sabemos o quê. Mas que tem, tem....

A Alice não foi excepção. E adora-o desde o primeiro momento.

 

Só que este mel não se manifesta só nas crianças. Também os animais adoram o meu pai.

É frequente visitarmos algum familiar e o gato deitar-se ao lado do meu pai. Ou o cão.

Joka, o cão do meu primo Diogo, sempre que o meu pai ia à casa de banho esperava por ele à porta.

O pobre do meu pai tinha de fazer xixi sobre pressão.

Ainda não experimentamos com cobras. Mas é bem capaz de as enfeitiçar sem precisar de grandes coisas.

O Vasco, meus amigos. Adora o meu pai.

E estar a morar comigo e com o meu pai na mesma casa deve ser um sonho tornado realidade.

 

Hoje de manhã o meu pai foi a casa da minha irmã.

A minha mãe ficou comigo porque tem medo que eu não dê conta do recado. Alice, Vasco e perna.

Tem razão. A perna ainda está meia aparvalhada...

Estávamos aqui pela sala.

A minha mãe a ler. O Vasco a dormir. A Alice e eu a brincar no chão.

Toca a campainha.

Levantei-me.

O meu pai. Tinha-se esquecido da chave.

Assim que o meu pai entra em casa. O Vasco acorda e corre para ele. Muito alegre. Demasiado alegre.

O meu pai entra na sala.

Alice estende os braços.

O meu pai pega na Alice e senta-se no sofá.

 

Em 30 segundos. Não mais do que isso.

O Vasco cumprimenta o meu pai e tira-lhe os óculos.

Alice espeta os dedos nos olhos do meu pai.

Vasco rouba-lhe o relógio...

 

Estão todos bem. Incluindo o assaltado.

O relógio também já foi recuperado. Em bom estado.

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(imagem)

 

29.12.17

esqueci-me do telemóvel...

Joana Marques

Os meus 36 anos, não parecem 36 anos.

No fundo parece que tenho 80. Não de aspeto. Mas de alma.

Há certas coisas que não me consigo adaptar.

Certas regras que não quebro.

E nem é porque não consigo. É mesmo porque não quero.

 

Mal cheguei a Portugal, espalhou-se a notícia que tinha voltado.

A equipa com a qual trabalhava e que chegou a ser de 34 pessoas. Está agora reduzida a 10.

Fruto de uma privatização a meu ver mal pensada. Uma equipa de pessoas competentes foi desmembrada e já não existe mais.

A parte mais lucrativa do negócio foi enviada para França. Tal como os melhores dos melhores.

Os meus ex colegas portugueses estavam fartinhos de me convidar para ir jantar.

Só que com a perna partida e dores de bradar aos céus. Fui recusando. E eles foram adiando.

Depois apareceu a varicela. Pior ainda. Não podia andar por aí a passear-me e a contagiar as pessoas. Adiámos outra vez.

 

Queria mesmo revê-los. E por isso quando marcaram para ontem, aceitei.

Tenho a Alice, agora. E estas saídas começam a ser muito ponderadas.

Mas como estou em casa dos meus pais ficou em boas mãos.

E quando saí já tinha adormecido. E nem deu conta que não estive.

 

Combinámos aqui no Estoril. E à hora marcada lá estava.

15 pessoas. Alguns ainda pertencem à equipa outros como eu saíram.

Cumprimentos da praxe.

 

Entradas. Toda a gente tira o telemóvel. E toca de tirar fotografia.

Telemóvel, telemóvel, telemóvel. Uma ex colega minha tinha uma máquina fotográfica. E outro um Ipad.

Eu comi a entrada.

 

Prato principal. Telemóvel. Fotografias.

Selfies. Partilha.

Já eu ia a meio e continuava a sessão fotográfica.

Devo ter sido apanhada de boca cheia uma quantidade de vezes.

Fui ali para jantar e para conversar. Já que não podia conversar. Pelo menos comia.

 

Sobremesa. Telemóvel. Máquina fotográfica. Ipad. Fotografias. Partilhas.

Alguém comenta. Respondem ao comentário.

Tiram fotos ao grupo. Partilham.

Eu comi a sobremesa.

 

Devo ter sido a única que apreciei a comida. Como deve ser.

Comeram os pratos já frios e sem grande graça.

 

Ao redor. Casais a jantar. Cada um agarrado ao seu telemóvel.

Outros grupos a fazer o mesmo que o meu...

Estou velha?

Inadaptada?

Num restaurante come-se, convive-se e de certa forma partilha-se com quem partilha o mesmo espaço. Ou estou completamente errada?

A verdade é que não quero mudar. Serei a velha do Restelo se tiver de ser....

 

Despedi-me. Saí antes de todos. Porque estava a ficar com urticária nervosa...

- Já vais? Fica mais um pouco...

- Não posso. Esqueci-me do telemóvel...

 

Fizeram uma cara de horror...

E toda a gente percebeu....que era um motivo válido para me ir embora...

....se possível depressa..

 

28.12.17

por aqui. Muito amor...

Joana Marques

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Preparem-se.

Estou a um passo de ficar como aquelas mães.

Que eu fiz pouco a minha vida toda.

Aquelas que acham piada a tudo o que a cria faz.

Que têm um orgulho que rebenta com todas as escalas.

E que tiram fotografias por tudo e por nada.

E que no supermercado sacam do telemóvel e mostram as fotografias a desconhecidos.

 

Prepara-te Alice. Para teres muita vergonha da mãe.

A sério. Estou a tentar controlar-me. Mas não estou a conseguir...

Oh! A Alice  já tem um lacinho na cabeça.

Reparem...eu escrevi lacinho. E não laço..

- Bebe o leitinho. Olha o ursinho.

Oh! Não....estou a transformar-me na minha mãe....

 

27.12.17

2018. As resoluções..

Joana Marques

Com 2017 a dizer adeus. E 2018 a espreitar.

É tempo de começar a pensar a sério no novo ano.

E estabelecer novas metas. E novos desafios.

Nada de loucuras. Ou é meio caminho andado para não cumprir nada e achar que não valeu a pena.

 

 

 Exercício Físico

 

Desde que parti a perna deixei de fazer. E não devo começar logo, logo em 2018.

Vou ter de fazer fisioterapia. E aos poucos retomarei.

Quando estiver recuperada o meu objetivo é correr 2 a 3 dias por semana.

E chegar a Dezembro de 2018 e conseguir correr dois passeios marítimos (14 km), ao ritmo que tinha antes de partir a perna. Não sei bem que tempo fazia porque não é importante para mim. O importante mesmo é conseguir correr....

 

Queria retomar o yoga. Na Noruega fiz aeroyoga, não sei se em Portugal haverá. Se conseguisse encontrar aqui para estes lados (linha de Cascais) de certeza que vou retomar...se não...pode ser yoga, normal. Ajuda-me muito e contribui muito para a minha felicidade.

 

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(imagem)

 


 Blog

 

Tenho um amor-ódio a este blog. A verdade é que gosto mais dele do que o odeio.

E cada vez me apercebo mais que sou alguém que escreve compulsivamente.

Nestes últimos dias tinha pensado terminar de escrever no dia 21 com o post Endlessxmas.

Mas depois vi numa montra uns cortadores giros e achei engraçado fazer um postal de Natal com as bolachas e fiz o post de dia 22.

Dia 23, o Vasco escondeu-se do veterinário e achei que tinha mesmo, mesmo de escrever. E depois achei que tinha de contar a história do Natal que nasceu torto.

E dia 25, tive mesmo, mesmo de partilhar a minha prenda de Natal ou podia ficar com a história engasgada e morrer sufocada.

Por outro lado, quase todas as semanas penso que não devia perder tempo com o blog. E acho sempre que vai ser a ultima semana.

 

Eu sei que a minha vida vai mudar muito em 2018. A verdade é que não queria acabar com o blog. Mas se não tiver tempo é provável que seja o blog o sacrificado.

Proponho-me este ano escrever, pelo menos 50 posts. É mais ou menos um por semana se não contar contar com as férias e com  alguma semana mais intensa. A compulsão de escrever deverá continuar à espreita e o Vasco também...

Vamos ver...como corre!

 

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(imagem)

 

 

 Inventar 10 receitas culinárias este ano

 

Passei de alguém que olhava para a cozinha como burro para palácio para uma pessoa que gosta muito de cozinhar.

É claro que este processo não foi de um dia para o outro.

Levou mais ou menos 20 anos. Um pouco menos.

Com 17 anos percebi que não sabia cozinhar.

Uns tempos mais tarde percebi que tinha de fazer alguma coisa por isso.

Clique.

E pronto, comecei a aprender.

Depois disso, aprendi muitas receitas. Dietas. Correntes.

Em 2018 quero continuar com a linha que segui em 2017. Talvez não tão rígida.

10 receitas. E gostava de as publicar. Vamos ver...

Cozinhar até cozinho. Fazer a reportagem fotográfica para colocar no blog já é outra questão. Pelos vistos escrevo compulsivamente mas não tiro fotografias dessa forma. Fotografia é tirada a ferros mediante sofrimento...

 

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(imagem)

 

Ler 15 livros

 

Já fui uma leitora voraz. Durante muitos anos lia tudo o que gostava e o que não gostava.

Não sei o que aconteceu. De um ano para o outro deixei de ler.

Deve ter sido mais ou menos por altura do tricot e do crochet. O tempo não dá para tudo e claro! Alguma coisa tinha de ficar para trás.

Este ano li mais do que em 2016. E em 2018 quero continuar.

Faz-me falta. Muita falta.

Mas o tempo não dá mesmo para tudo. Se conseguir ler 15 livros no próximo ano ficarei feliz e com o objetivo cumprido.

 

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(imagem)

 

 

 

Tricotar ou crochetar 5 peças novas

 

Peças de jeito. Que sirvam para alguma coisa.

Uma camisola ou um casaco. Um cachecol também é válido. Ou uma manta.

Ainda não tenho nada definido. Vamos ver o que sai daqui.

Se fizer 5 peças diferentes. Ficarei feliz.

5! O objetivo é pequeno. Pelo menos parece.

Mas uma peça destas demora tempos infinitos.

E aqui a Joana tricota, desmancha e torna a tricotar.

Só vale a pena se ficar como eu gosto e como idealizei.

 

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(imagem)

 

 

Comer comida caseira 95% das refeições

 

Vou deixar uma margem de 5% para quando for jantar ou almoçar fora.

Para as sextas feiras em que irei buscar um franguinho assado à churrasqueira do bairro.

Porque não vou ter vontade de cozinhar.

E para quando estiver de férias e não puder cozinhar.

De resto. Vou ser eu. E sempre eu. A cozinhar.

É muito mais saudável.

A comida é melhor. A sério...adoro a minha comida. Posso fazer tudo mal mas cozinho bem.

Olho sempre com pena para os tempos em que não sabia cozinhar. Sou muito mais feliz agora.....com a barriguinha cheia...

 

 

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Aprender a fazer duas coisas novas

Ou fazer dois workshops

 

É uma resolução que me acompanha todos os anos. E nunca me lembro de a não cumprir.

É importante para mim aprender alguma coisa nova todos os anos.

Outro dia lia no blog da Graça algo que fez tocar sininhos na minha cabeça.

Dizia ela, que ia fazendo presépios sem nunca repetir técnicas e que por isso nunca as aperfeiçoava.

Eu sou tal e qual. Gosto de tudo e mais alguma coisa. E por isso, aprendo uma coisa aqui e outra ali.

Sem nunca fazer, completamente bem nenhuma delas.

A minha mãe, tentou contrariar esta minha forma de ser. Mas desistiu.

Eu própria também. Mas faz parte da minha personalidade.

E eu gosto mesmo é de pôr a mão na massa. E começar do zero.

Ainda não sei ao que me vou dedicar este ano. Mas tenho a certeza que encontrarei depressa....e chegarei a um ponto que terei dificuldade em escolher. É só olhar para os workshops do Museu do Oriente e Joaninha tem um pequeno enfarte...

 

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(imagem)

 

 

 

Viajar para dois países diferentes

Sem ser a trabalho

 

A trabalho será fácil para mim viajar. Até porque posso tirar um ou dois dias para passear.

Mas não conto com essas viagens.

Aqui estou a contar com férias. Férias. Propriamente ditas.

Não sei ainda onde nem quando. Logo se vê.

Neste capitulo tenho sempre muitos destinos a dizerem-me: Olá!

Ao longo do ano decidirei. Estes dias cinzentos fazem-me desejar praias paradisíacas...veremos!

 

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(imagem)

 

 

Ter um diário gráfico

 

Já comprei um bloco que será o meu diário gráfico.

Diário só de nome. Não conseguirei que seja diário.

A minha meta são 50 desenhos. Até 31 de Dezembro de 2018.

De preferência abstratos. E sem sentido. Porque é nisso que quero apostar este ano.

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(imagem)

 

 

 

 

Sporting campeão

 

Esta é a resolução que não me tem deixado cumprir as resoluções de anos anteriores.

Depende de mim um bocadinho.

Porque sou sócia e adepta. E por isso tenho a responsabilidade de contribuir dessa forma.

Apoiar da melhor maneira o meu clube.

Orgulho-me muito de pertencer a esta família. É das coisas que me orgulho mais. É ter o Sporting no coração.

 

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(imagem)

 

 

E pronto! É só isto!

Que venha 2018!

Estou pronta!

 

26.12.17

a primeira passagem de ano do Vasco...

Joana Marques

2014!

Tinha o Vasco desde o final de Abril.

Só tinha convivido com o cão dos meus avós. E às vezes com um ou outro de algum amigo. Mas nada é como ter o nosso próprio bicho.

Desde o início que percebi, o diferente que era este cão.

Das conversas que tinha com pessoas amigas, percebia isso mesmo.

Diziam-me para estar à espera de x e ele fazia y.

O próprio veterinário me dizia coisas que depois não aconteciam.

Toda a gente com quem falei me alertou para o fogo de artificio da passagem de ano. E como os cães detestam.

Por isso, decidi não deixar o Vasco sozinho.

 

Fui convidada por um casal, amigo meu, para uma festa, em casa deles.

Tinham acabado de se mudar para um apartamento espetacular, em Caxias, com vista para o mar. Ou melhor, para o rio...

Estavam nitidamente contentes e orgulhosos.

A minha amiga Maria também foi convidada. E levou o namorado. O Miguel.

Estava lá também a irmã do César, o dono da casa e o irmão da Rita, a dona da casa.

Ah! E o Vasco.

 

O apartamento parecia aqueles que vemos em filmes. Tudo muito sóbrio. Mas tudo no lugar certo.

Tudo novo. Tudo lindo.

E eu com o coração nas mãos. O Vasco.

Mais uma vez. O cão surpreendeu. Chegou lá. Deitou-se num tapete e dormiu.

Acordava quando alguém lhe fazia festas. E ali esteve. A dormitar.

Uma noite agradável. Em boa companhia.

Mas o meu coração palpitava. E se à meia noite, com o fogo de artifício que há sempre nessa noite em muitos sítios?

- Ai se ele se vira do avesso. Pensava eu.

 

Não. Nada aconteceu. Continuou a dormitar.

Meia noite. Muito barulho. Em casa dos meus amigos. No prédio. Na rua. Foguetes ou fogo de artifício. Nem sei...

E o cão. Impecável.

Parecia norueguês. Civilizado da unha da pata direita até à pontinha do último pêlo.

Já passava das duas da manhã quando saímos.

Tinha vindo com a minha amiga Maria e com o namorado Miguel e eles iam-me deixar em casa.

Só que a noite ainda era uma criança. E a praia estava mesmo ali ao lado. Mesmo ao lado do Forte de São Bruno.

E resolvemos ir dar uma volta na praia. A noite estava muito agradável. Não havia sono.

 

Entrámos na praia. Não estávamos sozinhos. Várias pessoas estavam na praia. Não muitas, algumas.

Resolvemos ficar sentado na areia.

A conversar.

Quando ouço ladrar ao longe.

O Vasco tinha saído de perto de mim e estava à beira mar.

Chamei-o.

E ele foi para dentro de água.

Entrei em pânico. E corri para a beira mar. Para o chamar de forma mais assertiva.

Já não o vi.

Bem o chamei. Nada de Vasco.

A Maria e o Miguel juntaram-se a mim.

Já tínhamos água pelo joelhos.

O Miguel, armado em homem:

- Fiquem aqui que eu entro mais um pouco...

Tínhamos luz dos candeeiros de rua mas pegámos nos telemóveis e nas suas lanternas para podermos ver melhor.

É claro que não fiquei onde estava.

Já tinha água pela cintura. E chorava.

Pensar que o tinha salvo de morte certa entre Abril e Maio. E tinha-o deixado morrer daquela maneira.

Quando de repente ouço ladrar. Ao longe.

Viro-me. Molhada até aos ossos.

E lá estava ele.

Feliz da vida.

A ladrar. A correr feito maluco pela praia fora. E a rir-se. Como só ele faz.

Espalhava areia por todo o lado. Dava pulos. E ladrava.

Deve ser assim que os cães festejam a passagem de ano.

 

Saí da água. Aliviada. Agarrei-me ao cão.

O Miguel e a Maria apareceram. Molhados, claro.

Ali estávamos os três. Vestidos a rigor. Molhados até à espinha.

Eu descalça porque a um determinado ponto tinha perdido os sapatos.

Nunca tive tanto frio na vida.

Vasco feliz da vida.

As poucas pessoas que estavam na praia. Olhavam para nós. Como se tivessem a ver o mais surreal dos espetáculos.

Surreal, mesmo. Eu participei nele e foi mesmo surreal.

 

Saímos da praia. Feitos pintos.

Fomos para o carro. Os sapatos do Miguel faziam splash splash enquanto andava.

E a Maria teve de os tirar porque tinha os pés tão congelados que não conseguia andar.

Eu que já estava descalça. Deixei de sentir as pernas no caminho. E quase não conseguia andar.

Atrás de nós deixávamos um rasto de água. A nossa roupa pingava.

Chegámos ao carro.

Entrámos no carro. Ar condicionado no máximo.

Vasco hiper feliz.

 

De Caxias a Carcavelos. Uma viagem curta. Não nesse dia.

O Miguel começou a queixar-se da garganta.

A Maria tremia de frio.

E eu continuava congelada mesmo com o ar condicionado.

Chegámos a Carcavelos.

Ainda perguntei se queriam ir a minha casa. Tomar um banho ou assim. Mas não.

Ainda não tinha fechado a porta do carro já o Miguel arrancava a alta velocidade.

Cheguei a casa. Entrei na banheira. Cozi na banheira.

Só saí do banho quando a minha pele começou a enrugar.

 

No dia seguinte, liguei à Maria. Tanto ela como o Miguel estavam de cama.

Tiveram uma gripe memorável.

O Miguel faltou ao trabalho duas semanas.

 

Não sei porquê o Vasco não é o cão preferido dele.

Estranho....o Vasco é o cão preferido de quase toda a gente...excepto do Miguel.

 

P.S. Este post foi escrito já sem gesso na perna....

 

25.12.17

o meu presente. É o mais belo de todos...

Joana Marques

A minha bisavó Maria. Mãe da minha avó Maria. Era alentejana.

Muito pobre.

Começou a trabalhar muito jovem em casa de uns senhores. Abastados.

Os senhores moravam em Lisboa. Mas iam passando pelo Alentejo. Grandes temporadas.

 

A minha bisavó começou por trabalhar no campo.

E mais tarde. Quando tinha 14 anos foi posta a trabalhar na cozinha da casa grande.

Não podia entrar na sala. Nem nos quartos. Saía da cozinha para a rua. Sempre pela porta de trás.

Era proibido vaguear pela frente da casa grande. E ser vista pelos senhores.

Nem os conhecia sequer. Só ouvia falar deles.

Um dia. Há muito tempo atrás. Uma chávena. Estalada. Foi deitada fora. Os senhores não a queriam mais.

Maria, a minha bisavó. Pegou na chávena.

E a governanta da casa. Uma boa mulher. De sua graça, Luísa. Perguntou-lhe se a queria.

Respondeu que sim.

E levou-a para casa.

Os anos passaram. E todos os dias, Maria bebeu o seu café por ali. Embora estalada. A chávena era o melhor que tinha.

 

Um dia, quando tinha 17 anos, conheceu Francisco. O meu bisavô. Casou com ele pouco depois.

Também Francisco trabalhava nos campos. Dos senhores.

Passado um ano. Nasceu o primeiro filho.

E um tempo depois. Maria a minha avó.

A minha bisavó morreu no parto.

E a minha avó Maria ficou aos cuidados do pai e do irmão.

Também ela foi parar à casa grande. À casa dos senhores.

A minha avó Maria. Casou com Joaquim. Um dos filhos dos donos da casa grande.

Ironia, das ironias. Herdou um dos negócios do pai. E também a casa. E os campos. Do Alentejo. E as chávenas todas da casa.

 

Desde que me lembro de ser gente. Que via. Todas as manhãs. A minha avó, beber o seu chá de cidreira, pela chávena.

Era, eu pequena e insignificante. E não percebia porquê.

- Vó, porque não compras uma chávena com a abelha Maia?

- Porque, esta chávena é a única recordação que tenho da minha mãe.

E assim me calou. Mas não me convenceu.

Se a chávena da abelha Maia era muito mais gira.

Eu tinha duas.

Podia-lhe dar uma e tudo.

Porque raio é que insistia em beber o chá naquela chávena velha e estalada. Nem bonita era.

 

Ontem. O meu amigo secreto. Foi o meu pai.

Passou-me um embrulhinho para as mãos.

- Tem cuidado. É muito frágil.

 

E quando desfaço o embrulho. Vejo a chávena. Que deu de beber à minha bisavó. E à minha avó.

E só consegui pensar. Em como sou uma privilegiada. Por ter agora em meu poder um tesouro tão precioso.

O meu presente é o mais belo de todos. Por tudo.

 

Representa a vida. As voltas. E cambalhotas que dá. E as escolhas. Sim. As nossas escolhas...

 

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24.12.17

um Natal que nasceu torto...

Joana Marques

Já passámos o Natal de todas as maneiras e feitios.

Quando era pequena passávamos no Alentejo ou no Porto. Conforme.

Era onde estavam os meus avós.

Chegámos a passar a noite no Alentejo e fazer país acima para almoçarmos no dia 25 no Porto.

Não havia as estradas e autoestradas.

A noite era mal dormida.

Curvas. Buracos. E contra-curvas. Chegávamos ao Porto com ar de piaçabas. Ou pior.

 

Os meus avós morreram. Tanto os do Alentejo como os do Porto.

E começámos a passar ou em nossa casa chamando alguns tios, tias e primos. Com muita gente é mais giro.

Ou a ir a casa deles.

Foi uma fase meio chocha. Já era crescida. Continuava a gostar mas já não tinha tanta graça...

 

 

Entretanto os meus irmãos casaram.

E começaram a ter filhos.

E nesta altura, o Natal, voltou a fazer tanto sentido como quando era pequena.

Dependendo dos anos. Com mais ou menos pessoas. Passámos a ter crianças no nosso Natal. E isso deu muito mais brilho à época.

 

No ano passado a minha irmã passou com os sogros.

Eu, os meus pais e o meu irmão, cunhada e sobrinhos passámos em Barcelona. E foi muito giro.

Este ano, o plano era passarmos todos juntos o Natal.

O meu irmão e família estão a viver fora do país. O plano era virem cá passar o Natal e o ano novo.

Só que eu. Não faço as coisas por menos. E para além da perna partida. Fiquei com varicela.

E a minha sobrinha Margarida é demasiado pequenina para apanhar varicela.

O meu irmão e cunhada ponderaram ficar.

Fiquei tão desanimada.

 

O meu tio salvou-nos.

Especialmente a mim. Que não estava nada conformada.

Foi passando por cá. E pelo evoluir da varicela foi dizendo que era seguro. Que podiam vir.

E é mesmo verdade. Hoje. Não há vestígios de varicela. Nada. Nadinha.

Estou como nova. Relativamente ao borbulhedo....

A perna continua com gesso. Só terça, senhores! Só terça.

 

Este Natal nasceu torto. E quando parecia que nada havia a fazer. Milagrosamente.

Tudo se compôs...

E ainda vai ser melhor que os outros.

Sabem porquê??

Porque devido à minha condição de perna incapacitada.

No final da festa.

Não vou ser convidada a arrumar a cozinha!

 

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Joana Marques

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