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14
Ago17

a caçadora de heranças...

Joana Marques

Convivo muito mal com a morte.

Com a minha mas sobretudo com a morte dos que me estão mais próximos.

Estremeço quando o telefone toca a horas estranhas.

E quando alguma coisa de diferente acontece. Acho que pode ser um sinal.

Eu sei que é parvo. Muito parvo.

A minha parte racional não compreende. É mais forte do que eu.

Tenho medo. Reajo mal. E volto a ter medo. 

Sou super, hiper hipocondríaca em relação aos meus.

E aviso-os.  E ralho com eles quando cometem erros gastronómicos por exemplo.

Sou mesmo, mesmo neurótica. E não há nada a fazer.

 

 

Quando tinha 13 anos. A minha avó Maria morreu.

De repente.

Num momento estava connosco. No outro seguinte já não.

Este acontecimento marcou a minha vida para sempre. E eu nunca mais fui a mesma.

Não superei. Nunca consegui.

Passado pouco tempo morreu o meu avô. E eu percebi que se pode morrer de amor.

E isso convive comigo todos os dias.

 

Para mim, ir a um funeral ou a um velório é horrível.

É claro que ninguém gosta.

E provavelmente sofrem tanto ou mais do que eu.

 

Mas de alguma maneira ou de outra, são menos expressivos.

Mesmo com pessoas que não me são próximas choro sempre baba e ranho.

Sem conseguir controlar o que quer que seja.

 

Na sexta feira. Foi um dia muito intenso no meu trabalho.

A meio do dia recebi um telefonema da minha tia Luz a dizer que o pai de um amigo tinha morrido.

Nos anos 70 os meus tios conheceram um casal de ingleses no Estoril. Ficaram amigos. 

A minha tia fez durante muitos anos parte da administração de uma instituição de solidariedade social.

Estes amigos ingleses contribuiram muito para a tal instituição.

Tinha estado umas 3 vezes com eles. Em casa dos meus tios. A última vez, há uns 15 anos.

 

Os meus tios estão de férias no Algarve. 

Os filhos foram de férias para fora do país e eles ficaram a tomar conta dos netos.

Para eles, seria dificil ir a Inglaterra ao funeral. E pediram-me a mim....

É claro. Disse que sim. 

Ao mesmo tempo. Disse sim. Ao mesmo tempo. Já tinha as lágrimas nos olhos. 

Fiquei logo ansiosa.

O funeral era em Edimburgo. Estava em Londres.

- Compra flores. Disse-me a minha tia.

Consegui sair do trabalho por uns minutos para ver das flores.

Segui o conselho de uns colegas e lá fui a uma loja indicada por eles.

Como não sei qual é a moda verão 2017. Funeralmente falando.

Segui as indicações da senhora da loja.

Saí de lá com uma palma. Cheirosa. Com umas fitas azuis.

Sou do Sporting. Não sou do FCP. Mas já estava por tudo...

 

No dia seguinte.

Saí às 4h da manhã de casa.

Eu e o cão.

A viagem era longa.

Fui fazendo o caminho com calma. Parei de hora em hora. Conforme podia.

Passeava o cão. 

Comia qualquer coisa.

Tudo sem pressas. Tinha tempo de chegar.

Mas sempre com o stress de ter de ir a um funeral.

Muito ansiosa. 

 

Já passava das 13h quando o GPS me diz que cheguei.

Parei em frente de um palacete.

Olhei para a propriedade. Murada. Um campo imenso. Tive tanta pena de não ser rica.

Já sabia que eram muito ricos. 

Confirmei que são muito, muito ricos.

Antes de entrar ainda passeei o Vasco. Que voltou para dentro do carro. E iniciou a sua querida e adorada sesta.

Tirei as flores do carro.

 

Dei o meu nome ao porteiro.

Os meus tios já tinham avisado que eu estaria lá a representá-los.

Indicou-me a entrada.

Eu linda e transtornada. Com as flores na mão.

Entrei na capela quando alguém me diz que não aceitam flores.

O senhor que morreu era ecologista e obviamente era contra este tipo de prática.

Disseram-me que o dinheiro devia ser canalizado para uma das muitas obras de solidariedade que o senhor patrocinava.

Pois claro! O que é que eu podia fazer??

Podia tentar vendê-las no OLX.

Ou pô-las no prego.

- Alguém quer comprar flores??? 

Não disse isso. Só pensei. Dei meia volta.

 

Voltei ao carro para deixar as flores.

Voltei a entrar.

Mais uma vez. Desgraçadamente infeliz. A explodir de tristeza.

Estava muita gente.

Tentei ver se encontrava os amigos dos meus tios.

Já não os via há uns bons anos. Deviam estar mudados. 

 

Lá dei com eles. 

Quando consegui chegar a eles já eu chorava desalmadamente. Entre fungadelas. Assoadelas.

Apresentei-me.

Quando disse quem eu era. Não devem ter percebido nada.

Lá me encostei a uma parede.

A chorar. Disfarçadamente.

Era a única pessoa a choramingar.

 

O senhor tinha 97 anos.

Vários problemas de saúde.

E por isso, foi uma morte mais ou menos previsível.

 

É claro que me tentei conter mas não deu. 

Nestas alturas. Nem pensar.

Choro ainda mais.

Choro por quem morreu.

Choro pelos familiares.

Choro pelo aquecimento global.

Choro pelos passarinhos órfãos.

Choro pelo estupor da Coreia do Norte que é feio como a morte.

Choro por isto e por aquilo.

Choro por tudo e por nada.

Choro. Ponto.

 

De repente sinto alguém a puxar-me o braço.

Um homem mais ou menos da minha idade puxa-me e arrasta-me para dentro de um cubículo.

E no meio do meu vale de lágrimas:

- Ouve lá. Aqui não há nada para ti. Vai-te embora ou chamo a polícia.

- O que o meu avô fazia era lá com ele. A nossa família não vai embarcar em nada do que possas dizer ou fazer. Não cedemos a chantagem.

Até que se fez luz. 

O rapazinho, neto do velhote.

Viu-me arranjadinha.

Ainda jovem.

Bonitinha.

Chorosa. 

2+2= 4.

Achou que eu era amante do velhinho. 

Aquele choro todo, só podia querer dizer isso.

A fingida, da Joana. Chorava. Para amolecer os corações. E depois.

ZZZZZZZZZZZZás...

Apanhava toda a gente desprevenida. E pumba. Escandaleira. 

- Onde é que está a minha herança???

 

 

Ainda assisti ao funeral e a todas as exéquias.

É claro que ficou tudo esclarecido.

E o neto pediu-me desculpa.

No final peguei no carro e fui para Manchester onde apanhei o avião para Barcelona.

E quando já estava no ar. Lembrei-me.

- Ó caneco! Esqueci-me das flores no porta bagagem.

 

Só espero que a pessoa que encontre as flores seja mais descontraída do que eu. 

Se fosse comigo ia achar que era um sinal.

E não iria dormir pelo menos durante um mês.

 

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