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Quiosque da Joana

handmade life

Quiosque da Joana

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01
Jul17

a primeira palavra que escrevi na vida. Não foi Joana.

Joana Marques

A primeira palavra que escrevi na vida foi Sporting.

Foi o meu pai que me ensinou.

 

Nasci numa família sportinguista.

Antes do meu pai nascer, já toda a família era sportinguista.

O meu pai e todos os irmãos são sportinguistas. O meu avô nem se teve de esforçar muito porque para todos era óbvio que eram do Sporting. Ponto Final!

 

Tal como aconteceu na minha família.

Quando nasci, toda a gente era do Sporting.

O meu irmão, a minha irmã, a minha mãe e obviamente o meu pai.

Antes de ser registada como cidadã portuguesa, fui registada como sócia do Sporting.

Tenho 36 anos de sócia e uns mesinhos.

 

Do lado da minha mãe existiam todas as cores. A minha mãe é nascida e criada no Porto.

Do lado do meu pai, não! Todos os meus tios e tias. E primos. Todos do Sporting.

Desde pequena que adormecia com a voz do meu pai a contar-me histórias do Sporting.

Aquele jogo épico.

Aquele sportinguista que ele admirava.

Aquela modalidade onde éramos imparáveis.

O meu pai sabia tudo sobre o Sporting.

E quando me juntava com os meus tios, tias e primos só se falava de Sporting.

 

O meu pai, para grande desgosto da minha mãe, tinha lá em casa uma estante só com Sporting. Livros, folhetos, bilhetes antigos ou bugigangas que foi colecionando ao longo dos tempos.

 

O meu irmão, mais velho que eu 5 anos e tal como o meu pai, colecionava tudo. Recortes de jornais. Cromos. Posters. Camisolas. Cachecóis. A cada campeonato, comprava sempre uma nova caderneta de cromos. Mas só colava os cromos dos jogadores do Sporting. Deitava fora o resto.

 

 

Eu nasci e cresci neste ambiente.

E durante um tempo tive um problema grave.

Muito grave.

Não sabia ler.

Bem olhava para a estante do meu pai. Mas não sabia ler.

Até que entrei para a primária. E comecei a juntar as letras. E aos poucos a aprender a ler.

E quando comecei a ler mais ninguém me parou.

Lia tudo. Desde as paragens de autocarro, passando pelos jornais que apanhava e todos os livros que deitava a mão.

E queria ler os livros da estante do meu pai. Os livros do Sporting. A minha mãe não me deixava.

 

Tive a sorte de ter herdado dos meus irmãos uma quantidade de livros.

Do meu irmão a coleção dos cinco. E montes de livros de banda desenhada.

Da minha irmã a coleção das gémeas de Santa Clara, do Colégio das 4 Torres, da Carlota, da Patrícia, etc.

 

Foi exatamente por ler a coleção das gémeas de Santa Clara que tive a melhor ideia de sempre.

Comprar uma lanterna.

Para quê?

Para ler à noite sem os meus pais darem conta.

 

Entrei na loja do Sr. Jorge, em Campo de Ourique e perguntei o preço das lanternas.

300$.

Uma fortuna.

Ainda não tinha semanada. Com 7 anos não tinha direito. Em minha casa só a partir dos 10, quando fosse para o 5º ano.

Recebia dinheiro dos meus tios nos anos e no Natal mas ia para uma conta. Foi com esse dinheiro que comprei o meu primeiro carro. Verdinho! Lindo...

 

Comecei a juntar todo o dinheiro que ia conseguindo com esforço.

Ás vezes recebia um dinheirito para comprar rebuçados, pastilhas e às vezes um bolo.

O meu irmão e a minha irmã de vez em quando lá me davam uma esmola também.

Os meus pais também me iam dando porque pensavam que eu estava a fazer a coleção de cromos: "dias felizes".

Quais dias felizes, quais quê?

Queria era uma lanterna.

Ao fim de longos meses de poupança consegui ter 300$. E lá comprei a lanterna.

- Sr. Jorge não diga nada à minha mãe...

O Sr. Jorge sorriu. E cumpriu. E nunca disse nada.

 

Era fácil.

De noite. Quando toda a gente lá de casa dormia. Levantava-me.

Subia a uma cadeira.

Tirava um livro.

Levava-o para a cama.

E debaixo dos cobertores com a minha lanterna.

Li a história e as histórias todas do Sporting.

Li e vivi episódios. Bons e maus.

7 anos. E era feita de Sporting.

 

Para mim ser do Sporting é mais ou menos como me chamar Joana.

Ou ser filha de Mariana e de João. Irmã de Sofia e de Tiago.

Ser do Sporting. Eu sou do Sporting.

 

Parabéns!

111 anos. 111 anos de história. Que é também a minha história. E a dos meus.

 

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