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Quiosque da Joana

handmade life

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27
Jul17

a quem julgar o meu caminho...

Joana Marques

A minha irmã mais velha tinha acabado de ter a Inês.

Já tinha a Madalena com 8 anos, o Pedro com 2 e agora a Inês.

Andava exausta.

O meu cunhado estava a trabalhar.

A minha mãe ajudava no que podia mas mesmo assim...

Estávamos em férias escolares e tanto o Pedro como a Madalena estavam em casa.

 

Eu, com 21 anos, achava que sabia tudo. 

Olhava para os três.

Não percebia porque raio se queixava tanto a minha irmã.

Três anjos. Que sorte!

Não dão trabalho nenhum...

 

A minha mãe sugeriu que podia ficar a tomar conta da Madalena e do Pedro.

-A Madalena pode ir.....mas o Pedro...

O Pedro ainda era pequeno...

.....e a minha irmã não estava pronta para abdicar dele. Nem que fosse por um dia.

 

Eu sabia tudo. Tudo era canja.

- A mãe leva a Madalena e eu vou passear com o Pedro. Não te preocupes com o jantar. E não te preocupes que o entrego a horas decentes.

A minha irmã olhou para mim.

Muito calma.

Sempre calma. Disse que sim...

 

Peguei no puto. Toda a confiança do mundo e fui com ele passear para o Cascais Shopping.

Viagem até lá espetacular.

Os dois a cantar no carro. Quando me pede para pôr uma música qualquer que eu desconhecia...

- Oh, Pedro! Não conheço. Podemos ouvir antes esta?

Disse eu confiante...

- NÃO!

E começa uma berraria no carro.

Chego ao parque de estacionamento e tento acalmar o puto.

A coisa ficou por ali...

 

Sou um espetáculo.

Tenho mesmo jeito para crianças.

Fazem tudo aquilo que eu quero...

Adoram-me...

 

Pois, pois presunção e água benta cada qual toma a que quer.....

Entro numa loja de roupa e o puto atira-se para chão.

Pedro, em modo ovo estrelado.

Ainda fiquei na dúvida.

Fujo e finjo que não o conheço....uma possibilidade!

Não me parece que alguém me obrigue a fazer um teste de ADN.

Ou, digo que me pertence?

 

Fiquei. Que remédio.

Lá tentei persuadir o puto. Esticadinho no chão. Num berreiro.

Montes de gente a olhar. E com um ar...

- Oh!

- Tão triste quando não sabem educar uma criança.

- Os putos de hoje em dia não têm regras...

- Coitada, que mãe tão incompetente.

- Se fosse meu filho não fazia nada disto.

- Tão nova e já tem um filho.

 

Vários minutos de negociação.

A promessa de um carro telecomandado, um gelado, um bolo, um chupa-chupa e um rim.

Os dois rins. Em caso de tragédia, a sério!

Certificados de aforro. Um PPR. Um par de patins.

Ah! E uma pista de comboios.

Um cão, um gato e um canguru.

E foi só!

O puto fez o favor de se levantar.

 

O puto parecia bem disposto.

Continuámos o nosso passeio.

Os meus níveis de confiança já não estavam assim tão altos.

Mas também não estavam baixos.

 

Ok! Já tinham passado 5 minutos.

A minha irmã. Que exagerada.

O Pedro fez uma birra e depois? É uma criança. É normal...

Alguma vez este fofo é cansativo? Nunca...

Ó! É tão fofo este sobrinho. Dá cá um beijinho....

 

 

Entro na Chicco.

Ó....grande erro!

Mesmo, um grande erro....

Por instantes, larga-me a mão. E em meio segundo, perco-o.

Ouço um barulho!

- Credo. Parece que estão a destruir a loja.

- Ehhhhh! Eu conheço aquela pessoa que está dentro da montra...

- C'um caneco! É O PEDRO QUE ESTÁ DENTRO DA MONTRA!

Só tive tempo de o puxar.

Um manequim da montra veio junto com ele.

Eu só queria sair dali...pronto! Fugir!

Pedi muita desculpa. Peguei no Pedro. E adeuzinho...

Nem tive tempo de ver, como deve ser, os olhares reprovadores das pessoas.

Adoro esses olhares...daqueles que tudo sabem.

Também eu, tinha saído de casa da minha irmã com esse olhar...

...mal eu sabia, que nunca mais o iria fazer.....

 

O dia ainda não tinha acabado.

Ainda tinha de lhe dar o jantar.

- MAS PORQUE RAIO É QUE EU DISSE QUE LHE DAVA O JANTAR???

Durante o jantar.

Recusou-se a comer.

Embodegou-se todo com a sopa.

Embodegou-me a mim com a sopa.

Chorou.

Ameaçou vomitar.

Esperneou.

Andei eu, pela minha casa toda, a correr atrás dele com a colher de sopa. Embodeguei a casa toda.

Carpetes. Tapetes. Chão. Teria sido mais fácil se já tivesse um cão....comilão...

De um momento para o outro ficou todo ranhoso.

Assoou-se ao casaco.

 

Entreguei-o à minha irmã. Uma hora mais cedo que o combinado.

A minha irmã calma como sempre.

Pegou no filho e começou a tratar dos danos. Não sei muito bem se aquela roupa serviu mais alguma vez....

Eu fiquei com nódoas que nunca mais saíram...

Para não falar do trauma....Não vamos falar do trauma...

E da lição que aprendi? Sim, isso podemos falar...

 

"..a quem julgar o meu caminho, empresto os meus sapatos...."

 

A minha irmã Sofia faz hoje 46 anos.

...tem sido desde o dia que nasci uma referência para mim.

Sem grandes julgamentos ou palavras.

Apenas está....

.... a indicar-nos o caminho certo...

 

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