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05
Jul17

as férias grandes...

Joana Marques

Era mais ou menos por esta altura que ia de férias.

Tinha pouco mais de meia dúzia de anos.

A escola tinha acabado. A minha, a do meu irmão e a da minha irmã.

Já estávamos de férias há quase um mês.

Em nossa casa, o stress aumentava de dia para dia.

 

A dona Aurora que trabalhava lá em casa dizia para a minha mãe:

- Dona Mariana, assim não consigo dar conta do trabalho. É muita coisa.

Tendo em conta que a minha irmã andava pelos 17 anos.

Passava o dia com amigas e quando estava em casa estava no quarto dela ou na sala.

O meu irmão com uns 12 anos passava o tempo a brincar com os amigos na rua.

O que a dona Aurora queria dizer era:

-Dona Mariana, com o traste da Joana aqui sempre a rondar não consigo dar conta do recado..

 

Era mais ou menos assim:

- Dona Aurora, posso cortar as batatas?

- Dona Aurora, posso passar a carne?

- Dona Aurora, podes fazer caldo verde para o almoço?

- Dona Aurora, e farófias! Faz farófias!! Se faz favor, faz farófias. (olhos de Vasco quando quer um biscoito!)

- Dona Aurora, que horas são?

- Dona Aurora, em que ano está o seu filho?

- Dona Aurora, sempre vai fazer farófias?

- Dona Aurora, conta-me uma história?

- Dona Aurora, quando é que vai aspirar?? Posso aspirar??? Posso? Posso? (olhos de Vasco quando quer um biscoito)

 

É óbvio que estas perguntas não eram feitas num dia. 24 horas.

Estas perguntas eram feitas em 5 minutos.

Ou menos....depois de comer farófias, a disposição aumentava.

Escusado será dizer que a pobre da dona Aurora tinha uma paciência infinita para mim.

E só se queixava mesmo quando não aguentava mais.

 

Princípio de Julho, era a altura ideal para irmos para o Alentejo.

Quase três meses em casa da avó Maria.

Não podia ser melhor.

No primeiro fim de semana de Julho rumávamos até ao Sul.

Ficava eu e o meu irmão.

A minha irmã fazia a viagem connosco, para visitar os meus avós.

Voltava para Lisboa.

17 anos. E toda uma vida social em Lisboa. Não queria perder tempo no Alentejo com pirralhos.

Tal como o meu pai que nos conduzia e a minha mãe. Iam, deixavam-nos e voltavam alguns fins-de semana.

Aproveitavam para ir uma semana para fora. Normalmente para o estrangeiro.

 

Antes de ir, havia coisas a tratar.

Cada um individualmente, preparava a sua mala.

Eu, Joana ia carregadinha de livros. Tinha 7 anos. Tinha aprendido a ler.

 

A minha mala não passou na inspeção.

Se a nossa casa fosse um aeroporto tinham disparado todos os alarmes.

- E roupa? Achas que não precisas de roupa?

- Levo num saco à parte.

- Tira metade dos livros. E já há espaço para a roupa.

- Levo num saco à parte.

- Joana, tira metade dos livros.

- Posso levar num saco à parte?

- Joana, estou te a dizer para tirar metade dos livros.

- TIAGO!! Tens espaço na tua mala? Posso pôr aí a minha roupa???

- Não.

Homens...uns imprestáveis quando precisamos realmente deles....

- Onde é que vais?

- Vou pedir o saco que a Sofia costuma usar, quando vai passar o fim-de-semana, a casa da Ana Maria.

- JOANA, TIRA METADE DOS LIVROS....

- Ó Sofia, podes-me emprestar o saco que costumas usar, quando vais passar o fim-de-semana, a casa da Ana Maria??

- Não.

- Não?

- Claro que não. Vais estragá-lo. E eu posso precisar dele nos próximos meses.

- Empresta-me até chegarmos ao Alentejo. Quando chegar lá, tiro tudo e arrumo no armário do quarto. Juro!!

- Empresto-te o saco, devolves-me o saco logo, mal chegues a casa da avó e deixas-me ir à janela durante a viagem.

- Pode ser. Passa para cá o saco.

-Toma lá o saco. Não te esqueças da promessa!

- Pronto. Problema resolvido. Posso levar os livros e a minha roupa.

- João. Eu não sei o que fazer à Joana.

- Deixa lá. Quer levar livros. Faz-lhe bem ler.

 

Saímos, sábado 7h, da manhã.

O meu pai gostava de ir muito cedo.

Eu já estava acordada há um bom par de horas.

Dormia pouco. E com a excitação ainda dormi menos.

- O Filipe vai lá estar?

- E o António vai lá estar?

- Vão ficar por quanto tempo?

- Achas que a avó nos faz um pãozinho com chouriço?

- Quantas galinhas é que a avó terá?

- Acham que posso pedir à avó para me contar a história da gata borralheira?

- Será que a avó me fez uma coroa com aquelas flores amarelinhas que cheiram bem?

- Acham que posso pedir para dormir no quarto que tem a janela que dá para o tanque?

 

- ACHAS QUE TE PODES CALAR POR 5 MINUTOS, JOANA??? Faz um esforço, filha. 5 minutos??

- Papáaaaaaaaaa, já passaram 5 minutos??

 

A minha irmã ainda dormitava mas já tinha assumido o seu lugar à janela.

O meu irmão segredou-me ao ouvido.

- Vai no meio. Se teimares em ir à janela digo aos pais que foste tu que partiste a janela da arrecadação da Dona Arminda.

- Mas não fui eu....foste tu..

- Achas que vão acreditar em quem??

A minha reputação por aqueles dias andava pelas ruas da amargura....cedi.

 

O carro ia tão cheio.

Tão cheio.

Tão cheio.

Não cabia nem mais uma noz.

A minha mãe levava um melão para o almoço que foi durante toda a viagem debaixo dos pés dela.

Um calor insuportável. Era cedo, mas o calor sufocava.

 

O meu pai ligou o rádio.

Numa daquelas rádios entediantes.

Só gente a falar.

Sobre qualquer coisa sem jeito. Os meus pais pareciam gostar.

A minha irmã dormitava.

O meu irmão tinha um walkman. Ouvia a música dele e não estava para ninguém.

Os meus pais falavam entre eles.

E ali estava eu.

Sem janela.

Sem ninguém para conversar.

Sem nada para fazer.

 

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

 

Um choro.

Acordou todos os passageiros do carro.

- Por amor de Deus, Joana o que é que se passa?

- Esqueci-me de uma coisa em casa.

E mais choro.

Lágrimas aos litros.

Ranho.

Muito choro.

E gritos de sofrimento.

- Ó filha mas já estamos do outro lado do rio. Não podemos voltar para casa.

Choro.

Uma aflição tamanha.

Berros por todo o lado.

Um olhar fulminante da minha irmã.

Um olhar de:

- É mesmo um bebé esta miúda. Por parte do meu irmão.

 

- Joaninha, o que te esqueceste? Diz-nos. Se for importante compramos lá.

- Não se pode comprar lá. Se não voltarmos, vai morrer.

Muito choro.

Lágrimas.

Nem eram lágrimas. Eram cataratas. De verdade.

Fariam corar de vergonha as do Niágara.

Uma chinfrineira insuportável no carro.

- Morrer?? Como assim?

- Não liguem. Pai, segue viagem...ninguém aguenta muito mais tempo neste carro. oh! caloooooooor...

Dizia a minha irmã.

- Joana, uma mala cheia e um saco, de certeza que está dentro de um deles e achas que ficou em casa.

A minha mãe com toda a paciência. Porque mãe é mãe, até quando é chato ser mãe.

- Por todos os santinhos, avancem. Se te esqueceste não há nada a fazer. Percebeste, Joana???

Acrescentou a minha irmã. Com ódio no olhar....

 

Todas as quartas-feiras.

A minha mãe encontrava-se com as amigas na pastelaria Versailles.

Desde que a escola acabou. Eu ia a reboque.

 

Foi lá que conheci Pedro Simão.

Pedro Simão era filho de uma amiga da minha mãe.

Pedro Simão era o amor da minha vida.

Pedro Simão gostava de mim também.

 

E tinha tido a prova de que era amor. Verdadeiro amor.

Pedro Simão ofereceu-me um grilo. Dentro de uma casota de grilo. E a casota do grilo era verde e branca.

Também ele tinha um grilo. Numa casota vermelha.

Sendo ele do Sporting. Deu-me a verde. E ficou com a vermelha.

Uma prova de amor irrefutável.

Escondi o grilo dentro de uma malinha que levava.

E em casa estava escondido no meu quarto.

Dava-lhe alface às escondidas de toda a gente.

E agora ia a caminho do Alentejo sem o grilo.

 

- BUÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

- Joana, pare com isso se faz favor. Quer-nos dizer o que é que deixou em casa.

- O grilo. Deixei em casa o grilo que o Pedro Simão me deu. Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

- Um grilo? Que nojo...

- Joana, não pode ser. Não podemos voltar agora, para trás...por causa de um grilo.

 

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

 

 

Já estávamos perto de Montemor.

O meu pai fez inversão de marcha.

 

Cheguei a casa da minha avó Maria, com uma mala cheia de livros.

O saco da minha irmã com os meus pertences.

E um grilo numa casota verde e branca.

 

carro.jpg

 

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