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Quiosque da Joana

03.11.17

daqui. Até à lua...

Joana Marques

Passava as férias no Alentejo.

As intermináveis férias de Verão.

Às vezes, uma parte das férias do Natal e da Páscoa.

Fins de semana. Muitos, ao longo do ano.

No Alentejo, com os meus avós era tratada por Joaninha. A neta mais nova e querida de sempre.

Em casa, era tratada como o traste mais novo.

Mentira! Eu é que achava que era tratada assim. Eu era chata. E a paciência tem limites. Eu sei disso....agora.

 

A melhor amiga da minha avó Maria, a avó Emília, dava-me passas de pêssego. Sempre que eu ia a casa dela.

E eu. Ia lá muitas vezes. Pelas passas. E não só...

A avó Emília tinha um tear. E eu ficava horas a vê-la trabalhar.

Sentava-me numa cadeirinha alentejana. Pequenina. E ficava ali a ver.

E a falar, claro. Muito...

Chamava-lhe avó. Não me era nada. Mas eu chamava-lhe avó.

 

Por alturas da Páscoa. Tinha eu os meus 5 anos.

Estávamos todos a lanchar lá em casa. Eu e os netos, o Pedro e a Rute.

E o Pedro. Deixou-nos brincar com uma retro-escavadora que ele tinha.

De plástico. Azul. E amarela.

Só que se arrependeu e tirou-nos a restro-escavadora. Assim. Uma limpeza.

A avó Emília viu. E disse ao neto..

- Ai seu grande magano. Quem dá e volta a tirar nasce-lhe um corno na testa.

 

Ó senhores!

Eu que era roubada pelos meus irmãos dia sim, dia sim. Fiquei mesmo feliz.

E logo que cheguei a Lisboa fartei-me de mirar os meus irmãos. E as respetivas testas.

Ainda não havia vestígios. Nada. De corno.

Mas como tinha estado fora. Podia ainda não ter chegado o efeito.

...aguardemos pelo corno na testa...pensava eu.

 

Chegou Junho. E Junho foi o mês que o meu irmão Tiago fez a 1ª comunhão.

Uma ocasião importante numa família católica como a minha.

Estava na segunda ou terceira filas da igreja. Com a minha irmã. O meu pai e a minha mãe.

Empoleirada no banco. Para ver se via tudo. Pelo meus olhos nada escapava. Porque eu não deixava!!

O meu irmão estava junto dos coleguinhas.

Deu-se início à missa.

E já para o final. Os meninos que iam fazer a primeira comunhão saíram. Para entrarem novamente.

O Padre dava a cada um, uma oferenda simbólica. Eles pegavam na oferenda e tinham de dizer qualquer coisa e entregar a outro padre no altar.

 

O padre entregou a oferenda ao meu irmão. Mas enganou-se.

Tirou-lha.

Antes dele ter tempo de lhe dar a oferenda certa. Intervim.

Não podia ficar calada.

E não transmitir uma informação ultra importante.

 

- Cuidado, quem dá e volta a tirar nasce-lhe um corno na testa.

Disse eu em alto e bom som ao Padre. De uma ponta à outra da igreja. Daqui até à lua.

Ouviu-se em todo o lado.

Com eco.

 

Não sei bem porquê. Fiquei de castigo. Três meses sem ver televisão. E um mês sem sobremesa.

 

A avó Emília continua a ser avó.

E também já é bisavó.

Faz hoje 99 anos.

Gosto dela. Daqui até à lua.

Com eco.

 

 

 

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