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handmade life

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16
Out17

éramos 5

Joana Marques

Éramos 5.

Foi num verão. Antes das férias grandes. Devia ter uns 6 anos.

Tinha seis anos. Porque em Outubro ia para a primeira classe. E não falava noutra coisa.

O meu pai e a minha mãe decidiram que íamos os cinco. Eles, eu e os meus irmãos.

Passear. Por sítios que eu e os meus irmão não conhecíamos.

Luso. Vimeiro. Coimbra. Águeda. Viseu.

 

As aulas já tinham acabado. O meu pai tirou uma semana de férias. Lá fomos nós.

Sem grandes planos. Almoçávamos e jantávamos onde dava. A uma hora qualquer.

Dormíamos em pensões. Ou pequenos hóteis.

E fomos subindo. O país.

Vila Real. Vila Nova de Foz Coa.

 

Foi tão bom.

Agora acho que foi bom.

Na altura. Eu tinha de ir no meio. No carro. Porque nenhum dos meus irmãos abdicava da janela.

E eu falava. Falava. Falava.

A minha mãe falava com o meu pai.

O meu irmão e a minha irmã. Mais velhos. Passavam o tempo a dormir. Ou a conversar com os meus pais.

E eu. Sabia lá eu, conversar.

Éramos 5. Uma família. A minha família.

O meu irmão pré adolescente. A minha irmã adolescente. E eu. A mais nova. A mais chata. A que ia no carro. No meio.

Um dos dias.

Tinham-me roubado o pão com tulicreme. Ao pequeno almoço.

Disseram à minha mãe que eu não queria beber o leite.

Era branco.

Toda a gente sabia que eu só gostava de leite com chocolate.

A minha mãe obrigou-me a beber o leite.

Tinha nata. Quase morri.

Ia, no carro. No meio.

Triste e deprimida.

A minha vida era um chatice.

Os meus irmãos eram os piores do mundo.

E os meu pais não gostavam nada de mim. Só dos meus irmãos.

 

Nesse dia.

Tivemos um furo.

Em Santa Comba Dão.

Não sei muito bem porquê. O meu pai não conseguiu mudar o pneu.

É claro que eu. No alto dos meus 6 anos. Achei que tinha de me meter na conversa.

E como ninguém tinha paciência para me dar atenção.

Fiz. O que uma pessoa altamente inteligente deve fazer....

Chorei.

Berreiro épico.

Daqueles com direito a estender-me no chão.

E a gritar.

E a envergonhar a família até à quinta geração.

Já era tarde. E os meus pais decidiram ficar numa pensão. E arranjar o carro no dia seguinte.

 

Éramos 5.

4 + eu.

Eu chorava.

A minha família já nem ligava. Eram doutorados em birras épicas de Dona Joana.

Foi então. Que uma senhora me deu a mão.

A dona da pensão.

Com uma grande, grande paciência. Não me largou mais.

Foi dos actos mais generosos que tiveram para comigo.

Sentia-me mesmo triste.

Hoje, sei que não tinha razão para tal. Na altura, não sabia a sorte que tinha. Nem lhe dava valor.

 

Esta pensão. Ardeu entre ontem e hoje.

Não sei se ainda é das mesmas pessoas.

Só sei que ardeu.

 

Éramos 5.

Temos sorte.

Ainda somos 5.

 

Infelizmente, hoje, algumas famílias não podem dizer o mesmo.

Para elas.

 

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