Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quiosque da Joana

handmade life

30.08.17

não podemos tudo. Mas podemos muito...

Joana Marques

Tinha 13 anos.

E como em todos os verões, desde que era gente, passava as férias no Alentejo.

A minha irmã nunca passou. Demasiado coquete e citadina para tal.

O meu irmão passou muitos verões comigo e com os nossos primos.

Há 23 anos, já tinha 18 anos.

Os objetivos eram outros.

 

-Tens a certeza que ainda queres ir para o Alentejo?

Perguntou-me a minha mãe em Julho.

- Claro que quero ir para o Alentejo.

Fui eu e o meu primo Filipe. Tinha 15 anos na altura.

Éramos muito amigos. Falávamos ao telefone regularmente. E via-o nas festas de família.

Na altura a tecnologia não era o que é hoje. E a presença das pessoas era mais urgente.

 

O que nós nos divertimos naquele Verão. Eu, ele, a minha avó e o meu avô.

Fomos tendo a visita de familiares que ficavam por dois ou três dias e que se iam embora para a vida deles.

Corríamos.

Riamos.

Éramos livres.

Éramos crianças.

Como uma criança deve ser.

Eu estava tão escura que a minha avó pegava em mim, punha-me na banheira e esfregava-me as pernas.

Na ânsia de ali sair alguma sujidade.

E sair até saía. Mas a cor. Era do sol.

As sardas saltavam da minha cara. E a felicidade de ali estar nunca passava.

 

No último domingo de Agosto os meus pais foram nos buscar.

Ia começar Setembro. E Setembro, vida nova.

Não começava logo a escola mas havia muitas coisas a tratar.

A roupa do ano anterior tinha deixado de servir.

Os sapatos deviam estar feitos num oito. Era preciso tratar disso.

Ia comprar o material para a escola. E os livros. Enfim, o normal. O regresso à rotina.

 

Saí de lá ao Domingo. Abracei a minha avó. E o meu avô.

Há 23 anos atrás, terça feira.

O telefone tocou. De manhã cedo.

A minha avó Maria tinha morrido.

Ainda no Domingo estava bem. E hoje....

E a vida nunca mais. Foi a mesma.

A leveza de ser criança.

De viver sem preocupações.

Morreu. Quando o meu pai desligou o telefone e nos deu a noticia.

Ainda anestesiados com esta perda. Passado pouco tempo morreu o meu avô.

 

Faz hoje 23 anos.

Que a avó Maria nos deixou.

Todos os dias me lembro dela. Todos. E....

...continua viva. Na nossa cabeça e no nosso coração.

 

Dizia-me ela:

- Não podemos tudo. Mas podemos alguma coisa. Sabes, Joana, não podemos tudo. Mas podemos muito...

 

Tenho tantas saudades. 

 

Hoje aqui em casa. A ementa é a do costume.

30 de Agosto. Frango guisado com esparguete.

 

35 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Joana Marques

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Comentários recentes

  • P. P.

    Deliciosamente bem escrito e com sentimento.Um bei...

  • Andreia

    Tão bom ver este caminho pelo mundo da bloggoesfer...

  • Ladys

    Que bonito, até fiquei emocionada. Tens um coberto...

  • C.S.

    Descobri este texto hoje e ainda bem. Ri e quase c...

  • Anónimo

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D