Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quiosque da Joana

10.01.18

só queria uma festa...

Joana Marques

Este post começou por não ter título.

Porque o que se passou foi tão surreal que nem conseguia dar nome ao post.

Pensei. E lá me surgiu este.

Aconteceu o que aconteceu por falta de uma festa...

...de um carinho. De uma atenção.

 

O meu pai tem um hobbie. Gosta muito de carros e de aviões. Miniaturas.

Compra-os em peças. E depois passa longas horas a montar peça por peça

A minha mãe dá tanta importância aquilo como a um escaravelho decapitado.

Quando saíram de Campo de Ourique e se mudaram para o Estoril, a minha mãe propôs logo ao meu pai fazer uma oficina no fundo mais profundo do quintal para ele se dedicar, sem chatear as pessoas normais. Ela, própria, a minha mãe.

E assim foi. Ao lado da garagem nasceu uma oficina que o meu pai usa para as suas miniaturas e ao lado da oficina nasceu o atelier da minha mãe.

Mas isto ainda não tem propriamente a ver com o que aconteceu ontem.

Avancemos.

 

A casa dos meus pais só tem uma televisão. Na sala.

Em tempos tiveram uma televisão no quarto mas o meu pai começou a queixar-se que andava a dormir mal.

Deitava-se a ver televisão. Adormecia a ver televisão. Acordava. Despertava. E demorava uma eternidade para adormecer.

Acabaram por tirar a televisão do quarto. E o meu pai resgatou-a para a sua oficina.

O meu pai segue os campeonatos todos de futebol e isso são muitos jogos por semana.

Quando a minha mãe quer ver alguma coisa diz para o meu pai ir para a oficina. E lá vai o meu pai ver o jogo entre as ilhas mémé e as ilhas múmú....Homens!

Enfim. Avancemos!

 

A televisão da oficina desde Dezembro andava com interferências esquisitas.

O suspeito número um, quem foi? O Vasco.

Acha super giro andar a comer os fios que apanha.

Com as festas, a minha perna partida, a Alice adiou-se a chamada da TV Cabo.

O meu pai ligou um dia destes e agendaram para ontem às 14h.

O meu pai concordou. A minha mãe quase lhe bateu.

- DIA 9??? É quando vamos almoçar a casa do Joaquim...

O meu pai ia enfartando. Que falha.

Todos os meses almoçam com estes amigos, este mês é em casa deles, para o próximo será em casa dos meus pais.

Disse-lhes que não havia problema. Trabalhava até às 13h e fazia as honras da casa ao senhor da TV Cabo.

O meu pai suspirou de alívio. A minha mãe...

- És sempre o mesmo. Uma pessoa fala contigo e nunca ouves.

Enfim. Mulheres!

Avancemos.

 

Cheguei a casa dos meus pais. Ainda a tempo de dar o almoço à Alice. Eu, já tinha almoçado.

Ainda brinquei com ela.

Entretanto adormeceu. A sesta é algo que a moçoila aprecia.

Para o senhor não tocar à campaínha fiquei cá fora à espera dele. Não queria arriscar o acordar prematuro da pequena.

Estava a chover mas paciência.

 

O senhor chegou eram umas 14h40. Abri-lhe o portão.

E mal o Vasco põe os olhos no senhor não o largou mais.

O Vasco é mesmo assim. Ou adora as pessoas ou então não lhes liga nenhuma.

Este senhor da TV Cabo tinha mel! Ou cheirava a biscoitos...

O senhor perante tamanho entusiasmo não lhe ligou grande coisa.

Não me pareceu que fosse antipatia, pareceu-me quase medroso em relação ao cão.

O Vasco sentiu-se ignorado e vá de ladrar e correr atrás, ao lado, à frente do senhor. Ora aparecia do lado esquerdo. Ora do direito.

Com tanto espalhafato, tive medo que a Alice acordasse.

 

Expliquei a situação ao senhor. A televisão. As interferências.

O senhor posou uma maleta. E o Vasco começou a focinhar para ver se a conseguia abrir. Isto com um alarido doido.

E aconteceu o que eu temia.

A Alice acordou.

Disse ao senhor que tinha de ir a casa porque a minha filha tinha acordado.

Ele disse que tudo bem...que ia fazendo a avaliação.

Fui a casa.

A Alice tinha uma fralda suja do tamanho da Austrália. Pronto. Maior que a Austrália.

Tirei a Alice do berço e levei-a para o meu quarto.

Deitei-a na cama. Iniciei todo o processo. E ouço um alarido. O alarido vinha da oficina.

Olho pela janela. E vejo umas movimentações estranhas.

Pego na Alice e saio do meu quarto e volto a deixar a Alice no berço.

Vou a correr e entro na oficina e vejo o que não queria ver.

O senhor da TV Cabo estava com umas calças impermeáveis e com elástico e o Vasco tinha acabado de lhe puxar as calças.

Atiro um grito.

E depois chamo o Vasco.

Peço muita desculpa ao senhor. Ele diz que não faz mal. Enquanto puxa as calças para cima.

A Alice chora desalmadamente.

Pego no Vasco e arrasto-o até casa. Eu e a minha perna aleijada.

Abandono o Vasco e vou a correr ao quarto da Alice. Pego na Alice. E vou novamente até ao meu quarto.

Deito a Alice na cama. E inicio o processo. Tiro a fralda.

E credo! Um cocó que ía ida e volta até à Lua.

Saco dos toalhetes. Tinha UM toalhete!

Pego na Alice e numa toalha. Estendo a toalha no berço.

Ponho a Alice no berço.

Vou à despensa buscar toalhetes.

À pressa vou contra uma porta entreaberta...se a perna não partiu outra vez é porque já não parte mais.

A contorcer-me com dores. Ouço um rebuliço lá para os lados da oficina.

Com uma filha meia nua no berço e suja...decidi que tinha de ir à oficina.

O Vasco tinha saído pela porta da cozinha que ele consegue abrir na perfeição.

O Vasco tinha na boca a pistola de cola quente do senhor.

O senhor andava atrás dele contornando a piscina. E nisto o Vasco encesta.

Pistola de cola quente na piscina. Ah! E continuava a chover.

Até me esqueci das dores na perna.

Disse ao senhor que lhe pagava a pistola porque estava demasiado frio par entrar na piscina.

O senhor meio atarantado disse-me que tinha outra e que não era preciso.

A Alice chorava que nem uma louca.

O senhor disse-me que já sabia qual era o problema e que precisava de ir ao carro buscar um cabo para substituir o que estava danificado.

Estava confirmado. Era do cabo. Ai Vasquinho....

 

O senhor sai e eu vou socorrer a Alice.

Estava molhada até aos ossos. Mas a pequena tinha prioridade.

Tiro a Alice do berço.

Ponho a Alice na minha cama.

Vou para a limpar.

Mais uma vez, ouço sons. E olho pela janela.

Não queria acreditar.

O Vasco tinha roubado o cabo ao senhor e desfilava todo contente com o cabo na boca.

O cabo já tinha desenrolado e o Vasco parecia um novelo branco em andamento.

Pego na Alice.

Ponho Alice no berço.

E vou tirar o cabo da boca do cão.

Pego no cão. Fecho-o na garagem. À chave.

Vou buscar a Alice.

Deito-a na minha cama e mudo-lhe a fralda.

O senhor substitui o cabo.

O Vasco ladra na garagem.

O senhor termina o serviço.

Peço-lhe muitas desculpas. Tento pagar-lhe a pistola de cola quente. Não aceita.

- Não. Não. Tenho outro serviço....tenho de ir.

E fugiu dali a 7 pés.

 

O Vasco só queria uma festa.

Com uma única festa tinha ficado mais calmo e provavelmente tinha ido para casa dormir..

 

   instagram

51 comentários

Comentar post

Pág. 1/3

Joana Marques

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D