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Quiosque da Joana

handmade life

01.12.17

uma história de Natal...

Joana Marques

Tinha 8 anos.

E o meu pai tinha tirado a semana do Natal para irmos todos ao Alentejo.

Mal chegámos a casa da minha avó pus os olhos num gato.

A minha avó lá explicou que tinha aparecido um gato lá em casa.

Os meus avós tinham um cão. Que o meu avô adorava. E o gato chateava demasiado o cão.

O meu avô já tinha dito à minha avó para não alimentar o gato.

Mas a minha avó lá ia dando às escondidas comida ao gato.

O gato era pouco simpático. Medroso. E arisco.

O aspeto também não ajudava. Era o gato mais feio que alguma vez já tinha visto.

Esqueçam os gatos amorosos. Este parecia o anti-cristo.

- Joana não toques no gato que te arranha. E doenças. E pulgas.

Avisou-me a minha mãe.

 

É claro que não dei ouvidos à minha mãe.

E passadas duas horas de lá ter chegado, estava irreconhecível.

Tal era o nível de arranhanço.

 

Não me dei por vencida.

Claro, que não.

Comecei a roubar leite aos poucos. Via quando estava livre a cozinha e cá vai disto...

Depois, meus amigos. Os horizontes abriram-se para mim...quando percebi que a minha avó guardava na despensa, leite para alimentar todos os gatos de Portugal continental...

Entrar pela cozinha e seguir para a despensa era perigoso. Podia ser apanhada.

E convenhamos...era pouco elaborado para mim....

Um dia entrei na despensa e deixei a janela aberta. Uma fresta. Não se via. Não se notava.

Foi fácil. Comecei a entrar na despensa pela janela.

Ao fim de dois dias, eu Joana, não andava pelo quintal da minha avó.

Desfilava com uns 5 ou 6 súbditos atrás de mim.

Para além do gato da minha avó, tinham aparecido mais, não sei bem de onde...

 

Nunca fui apanhada. Embora a minha avó começasse a achar que nós os 5, bebíamos demasiado leite.

Também estranharam lá por casa o facto dos gatos de um momento para o outro me adorarem...

 

Algo não batia certo. Nem em casa da minha avó. Nem nas redondezas.

Um dia, fui à mercearia com a minha avó, e uma vizinha queixava-se:

- O meu tareco desapareceu, há 5 dias que não o vejo....

- Também o meu. Já o tenho há 10 anos e é a primeira vez que desaparece...

 

Lembro-me de ver a minha avó. De repente com os olhos postos em mim. E a juntar as peças.

E percebeu.

Claro que percebeu.

A minha avó chegou a casa e arranjou um canto na cozinha para o gato.

O gato aos poucos foi-se adaptando.

Quando voltei lá pelo Carnaval o gato já passava os serões na sala com os meus avós.

A minha avó morreu 5 anos depois. O meu avô morreu logo a seguir. E o gato foi adotado pela minha tia Luz.

Jacaré, o gato. Morreu 5 semanas depois da minha avó ter morrido.

 

A minha avó nunca me denunciou pelo roubo.

Ficou um segredo só nosso. Até hoje..

 

10.08.17

estar fora do país. Responsabilidade!

Joana Marques

"não pergunte o que o seu país poderá fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu país."

 

Ouvi pela primeira vez esta frase ao meu pai. Estava a citar JFK. 

Nunca mais me esqueci dela.

Para mim faz todo o sentido.

E acho que o meu comportamento se foi moldando em torno dela.

 

Quando eu era miúda era um pequeno demónio à solta.

Fiz a cabeça em água aos meus pais e irmãos.

O mais extraordinário é que, quando passava férias em casa da minha avó ou em casa dos meus tios, o meu comportamento melhorava.

Quando a minha mãe nos ia buscar.

Não perguntava pela Sofia.

Não perguntava pelo Tiago.

A pergunta era sempre a mesma:

- Como é que se portou a Joana?

 

E levava as mãos à cabeça à espera do pior. Era com incredibilidade que ouvia...

- Portou-se bem.

Não era só a minha mãe que não acreditava.

O meu pai também ficava com um ar de desconfiado.

Tanto um como outro achavam que era dito, apenas, por simpatia. 

 

A verdade é que fora de casa era diferente.

E se eu me portasse mal? Era eu. Mas também os meus pais....

E desde muito nova que tomei consciência disso.

 

Tal e qual como agora.

Estando fora do país.

Sinto esse peso.

Se alguma coisa não correr bem, não sou só eu que estou em causa. Mas o meu país.

É muito fácil extrapolar. Generalizar. Dizer: 

- Os portugueses são todos assim.

 

Por isso.

Todos os dias me levanto com esse sentimento de responsabilidade.

De alguma forma,  o bom nome do país e do povo português depende um pouco de mim.

Todos os dias trabalho. Com isso no pensamento.

Para além das saudades.

Estar fora do país é também isto...é tentar ser sempre melhor!

Por mim, claro!

Mas também pelo país ao qual pertenço.

 

27.07.17

a quem julgar o meu caminho...

Joana Marques

A minha irmã mais velha tinha acabado de ter a Inês.

Já tinha a Madalena com 8 anos, o Pedro com 2 e agora a Inês.

Andava exausta.

O meu cunhado estava a trabalhar.

A minha mãe ajudava no que podia mas mesmo assim...

Estávamos em férias escolares e tanto o Pedro como a Madalena estavam em casa.

 

Eu, com 21 anos, achava que sabia tudo. 

Olhava para os três.

Não percebia porque raio se queixava tanto a minha irmã.

Três anjos. Que sorte!

Não dão trabalho nenhum...

 

A minha mãe sugeriu que podia ficar a tomar conta da Madalena e do Pedro.

-A Madalena pode ir.....mas o Pedro...

O Pedro ainda era pequeno...

.....e a minha irmã não estava pronta para abdicar dele. Nem que fosse por um dia.

 

Eu sabia tudo. Tudo era canja.

- A mãe leva a Madalena e eu vou passear com o Pedro. Não te preocupes com o jantar. E não te preocupes que o entrego a horas decentes.

A minha irmã olhou para mim.

Muito calma.

Sempre calma. Disse que sim...

 

Peguei no puto. Toda a confiança do mundo e fui com ele passear para o Cascais Shopping.

Viagem até lá espetacular.

Os dois a cantar no carro. Quando me pede para pôr uma música qualquer que eu desconhecia...

- Oh, Pedro! Não conheço. Podemos ouvir antes esta?

Disse eu confiante...

- NÃO!

E começa uma berraria no carro.

Chego ao parque de estacionamento e tento acalmar o puto.

A coisa ficou por ali...

 

Sou um espetáculo.

Tenho mesmo jeito para crianças.

Fazem tudo aquilo que eu quero...

Adoram-me...

 

Pois, pois presunção e água benta cada qual toma a que quer.....

Entro numa loja de roupa e o puto atira-se para chão.

Pedro, em modo ovo estrelado.

Ainda fiquei na dúvida.

Fujo e finjo que não o conheço....uma possibilidade!

Não me parece que alguém me obrigue a fazer um teste de ADN.

Ou, digo que me pertence?

 

Fiquei. Que remédio.

Lá tentei persuadir o puto. Esticadinho no chão. Num berreiro.

Montes de gente a olhar. E com um ar...

- Oh!

- Tão triste quando não sabem educar uma criança.

- Os putos de hoje em dia não têm regras...

- Coitada, que mãe tão incompetente.

- Se fosse meu filho não fazia nada disto.

- Tão nova e já tem um filho.

 

Vários minutos de negociação.

A promessa de um carro telecomandado, um gelado, um bolo, um chupa-chupa e um rim.

Os dois rins. Em caso de tragédia, a sério!

Certificados de aforro. Um PPR. Um par de patins.

Ah! E uma pista de comboios.

Um cão, um gato e um canguru.

E foi só!

O puto fez o favor de se levantar.

 

O puto parecia bem disposto.

Continuámos o nosso passeio.

Os meus níveis de confiança já não estavam assim tão altos.

Mas também não estavam baixos.

 

Ok! Já tinham passado 5 minutos.

A minha irmã. Que exagerada.

O Pedro fez uma birra e depois? É uma criança. É normal...

Alguma vez este fofo é cansativo? Nunca...

Ó! É tão fofo este sobrinho. Dá cá um beijinho....

 

 

Entro na Chicco.

Ó....grande erro!

Mesmo, um grande erro....

Por instantes, larga-me a mão. E em meio segundo, perco-o.

Ouço um barulho!

- Credo. Parece que estão a destruir a loja.

- Ehhhhh! Eu conheço aquela pessoa que está dentro da montra...

- C'um caneco! É O PEDRO QUE ESTÁ DENTRO DA MONTRA!

Só tive tempo de o puxar.

Um manequim da montra veio junto com ele.

Eu só queria sair dali...pronto! Fugir!

Pedi muita desculpa. Peguei no Pedro. E adeuzinho...

Nem tive tempo de ver, como deve ser, os olhares reprovadores das pessoas.

Adoro esses olhares...daqueles que tudo sabem.

Também eu, tinha saído de casa da minha irmã com esse olhar...

...mal eu sabia, que nunca mais o iria fazer.....

 

O dia ainda não tinha acabado.

Ainda tinha de lhe dar o jantar.

- MAS PORQUE RAIO É QUE EU DISSE QUE LHE DAVA O JANTAR???

Durante o jantar.

Recusou-se a comer.

Embodegou-se todo com a sopa.

Embodegou-me a mim com a sopa.

Chorou.

Ameaçou vomitar.

Esperneou.

Andei eu, pela minha casa toda, a correr atrás dele com a colher de sopa. Embodeguei a casa toda.

Carpetes. Tapetes. Chão. Teria sido mais fácil se já tivesse um cão....comilão...

De um momento para o outro ficou todo ranhoso.

Assoou-se ao casaco.

 

Entreguei-o à minha irmã. Uma hora mais cedo que o combinado.

A minha irmã calma como sempre.

Pegou no filho e começou a tratar dos danos. Não sei muito bem se aquela roupa serviu mais alguma vez....

Eu fiquei com nódoas que nunca mais saíram...

Para não falar do trauma....Não vamos falar do trauma...

E da lição que aprendi? Sim, isso podemos falar...

 

"..a quem julgar o meu caminho, empresto os meus sapatos...."

 

A minha irmã Sofia faz hoje 46 anos.

...tem sido desde o dia que nasci uma referência para mim.

Sem grandes julgamentos ou palavras.

Apenas está....

.... a indicar-nos o caminho certo...

 

02.06.17

o que raio está escrito no postal????

Joana Marques

Olá, tio Zé!

Ontem saí às 15h. Como saio todos os dias.

Tinha aula de desenho geométrico mas antes, passei por casa para passear o Vasco.

Subi as escadas com a pressa que tenho sempre. Sabes como é. Até levanto pó pelas escadas acima....

Dirigi-me à porta e vi uma caixa.

Parei. E sabes que para eu parar é porque alguma coisa se passou...

Vi a caixa e pensei:

- Será que os noruegueses me odeiam tanto que me enviaram uma encomenda armadilhada??

A sério. Foi mesmo isto que me veio à cabeça...

 

Depois de andar às voltas com a caixa percebi que vinha de Portugal.

- Será que os portugueses me detestam tanto e me enviaram uma encomenda armadilhada para eu nunca mais voltar?

Mentira.

Esta parte já estou a inventar...

 

Abri a porta de casa. Lá dentro já sentia o Vasco. Impaciente.

Recebeu-me como se fosse a rainha de Inglaterra.

Voltei cá fora, peguei na caixa e entrei.

Pesada a caixa!

Mais umas voltas na caixa e encontrei o remetente. Tio José!

O Vasco quis a caixa.

 

Atrás de mim. Tentou todos os malabarismos...

Ajudou-me a abrir a caixa.

E o que estava dentro da caixa?

 

Primeiro vi isto!

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Depois começo a tirar o resto. Não está aqui tudo. Como sabes.

Não consegui encaixar na fotografia...

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 Comecei aos pulinhos quando cheguei a isto!

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Só para dizer que já comi mais de metade do terceiro!

Estava a olhar para mim...e teve de ser!

Dá-me tudo tanto jeito!

 

Os livros vieram mesmo a calhar porque vou de férias.

E tenho como planos, esturricar o maior tempo possível ao sol!

A ler....

E um livro de crochet.

Como é que adivinhaste que eu quero passar uma parte das férias a esturricar o maior tempo possível ao sol, a crochetar e a tricotar.

Já abri o livro e quero fazer tudo! É espectacular!

 

Depois vi o postal!

Emocionei-me...

Isto nem é uma Joaninha!

É A JOANINHA!

Finalmente no corpo certo....

Ainda dizem que a natureza tem sempre razão....NEM SEMPRE!

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Tão fofinho!

Abri-o. Arrependi-me logo.

Sabes a tua letra?

...como dizer....se a tua letra fosse uma pessoa....era o Trump!

(Desculpa tio...mas é verdade!)

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 COM MIL SLIMANIS E UM CAMPEONATO DE ANDEBOL

....O QUE RAIO ESTÁ ESCRITO NO POSTAL????

 

 

19.03.17

olá! Pai...

Joana Marques

Espero que já tenhas recebido a minha prenda do dia do pai.

Se já recebeste deves ter pensado:

- Não assinou outra vez. Mas será possível que nunca assina os quadros??

 

E de certeza absoluta que vais tirar o quadro da moldura. Porque sabes que eu às vezes assino atrás.

E vais encontrar isto!

pai (6).JPG

E por isso, acho que vais passar por aqui hoje...

 

É o meu primeiro abstrato e não está perfeito. Prometo melhorar!

No canto superior direito aparecem 5 figuras.

pai1 (16).JPG

E não, não foi para encher...

Essas 5 figuras têm sempre três linhas.

Representam os teus três filhos.

Que se juntam sempre no mesmo ponto.

Que és tu. O nosso ponto de encontro.

 

Acabei?

Não!

36 anos disto...não podia ser assim tão simples, pois não?

 

Cada figura é uma letra.

E cada cor representa também uma letra.

Essas cinco letras formam uma palavra.

P3180219 (1).JPG

E é essa mensagem que te deixo hoje aqui..hoje e sempre!

Como só tu tens o original vai ser extremamente fácil chegar lá...acho eu!

Beijinhos...

Um dia feliz!

15.03.17

também é a minha história...

Joana Marques

Sexta-Feira, 15 de Março de 1963..

 

João.

Vivia e estudava em Lisboa.

Os pais estavam a maior parte do tempo no Alentejo.

João vivia com dois irmãos.

No fim de semana anterior tinha estado no Alentejo.

Adoentado.

A mãe preocupada fez-lhe uma canja de galinha e mimou-o.

O pai mais pragmático não ligou. Achou que era uma desculpa. Para não ir ao Porto. Ao aniversário da tia.

Os irmãos não podiam ir, a mãe não tinha paciência para este convívios.

O marido, pai de João fazia-lhe a vontade.

Ficavam pelo Alentejo.

 

João lá foi. Nauseado. Febril. Chateado e amarelado. 

Chegou ao Porto, a casa dos tios, à sexta-feira.

Sábado era dia de festa. Maria do Rosário fazia 50 anos.

- Os teus pais?

- Não puderam vir.

- E os teus irmãos?

- O José e o Joaquim estão fora. O Luís e o Nuno estão com exames.

- Que pena. Fica para a próxima.

João nada disse. Tinha pena era de ter de estar ali. Nauseado. Febril. Chateado e amarelado.

 

20h.

O jantar foi servido.

À mesa. O tio Joaquim e a tia Maria do Rosário. O primo António Diogo. A prima Catarina. Ao lado de Catarina, mesmo em frente ao João ficou Mariana, melhor amiga da prima.

João não tirou os olhos de Mariana.

 

Nauseado. Febril e amarelado.

Deixou de estar chateado.

E começou a achar que tinha sido uma boa ideia ter ido ao Porto.

Mal tocou na comida.

- Não me sinto muito bem.

- Deve ter sido da viagem e da mudança de ares.

- Deve ser isso.

 

 

A meio da sobremesa, João sentiu-se pior. 

Uma dor forte na barriga. Muito, muito forte.

 

O apêndice deu de si...

Primeiro esperneou.

Depois regorgitou.

E depois....depois fez buuuummmm!

E era uma vez um apêndice!

 

(um minuto de silêncio pelo apêndice falecido.....) 

 

60, 59, 58, 57, 56, 55, 54, 53, 52, 51, 50, 49, 48, 47, 46, 45, 44, 43, 42, 41, 40, 39, 38, 37, 36, 35, 34, 33, 32, 31, 30, 29, 28, 27, 26, 25, 24, 23, 22, 21, 20, 19, 18, 17, 16, 15, 14, 13, 12, 11,  10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1....

 

 

João desmaiou. 

E acordou no dia seguinte no hospital.

Tinha sido operado. Tinha corrido bem. 

Os seus pais já estavam a caminho.

 

E às 15h teve visitas.

A família inteira que vivia no Porto.

Incluíndo Catarina. Acompanhada da sua melhor amiga. Mariana. 

 

Depois deste fim de semana, muitos mais se seguiram. Muitos mesmo...

Namoraram 7 anos! 

 

As idas ao Porto tornaram-se semanais.

Para ver Mariana. 

Para lhe dar a mão.

Para passear no jardim.

E até hoje não houve arrependimento de parte a parte..

 

Mariana e João.

Esta é a história dos meus pais. Também é a minha história...

....e dura há 54 anos...

06.03.17

dia mundial do catano!

Joana Marques

Tinha tirado a carta há pouco tempo.

Não gostava muito de conduzir. Aliás continuo a não gostar. Conduzo por necessidade.

Para Março, estava um dia muito quente.

Estava a subir uma rua na Graça.

Daquelas ruas ingremes que Lisboa nos oferece.

 

O meu ponto de embraiagem era o mais manhoso possível. Ou melhor, não sabia fazê-lo.

Péssimo requisito para subir uma rua.

Se não tivesse de travar. Espectacular!

É claro que tive de travar.

Na minha faixa estavam carros estacionados e vinham carros a descer.

O carro à minha frente travou e eu que remédio.

Travei também com o travão de mão.

 

Atrás de mim, outro carro.

- Bonito!

O carro da frente avança.

E eu não.

Tinha acabado de tirar a carta. Muita coisa em que pensar. Aqueles piscas, o travão...dois ainda por cima. Três pedais, dois pés....

 

Aparece outro carro a descer.

- Fixe. Tenho de o deixar passar!

O carro de trás começa a dar sinais de quem está a dizer impropérios contra a minha pessoa, em voz baixa.

Antes que os impropérios começassem a ser em voz alta. Saí do carro!

Dirijo-me ao senhor que estava atrás.

- Se faz favor.

-

- Tirei a carta a semana passada e não estou a conseguir tirar dali o carro.

-

(os homens fazem sempre um sorriso parvo quando as mulheres são azelhas....comigo sorriem muito porque eu continuo uma nódoa!)

- Está a ver aquela rua com aqueles carros todos estacionados?

-

(continuou com o sorriso parvo....)

- Pode estacionar-me o carro lá? E fiz o meu melhor sorriso para ver se convencia o senhor...

- Não quer que o estacione já aqui? E apontou para um lugar vago.

- Acha? E depois como é que eu o ia tirar daí? Se faz favor onde eu pedi...que é uma rua plana.

 

É claro, que nesta altura do campeonato estava formado um casamento.

Montes e montes de carros.

Só faltava aquele bocadinho de tule na antena...

Buzinas por todos os lados.

Impropérios. Vários...e dos simpáticos!

O senhor fresco e fofo desviou o carro dele para o tal lugar vago e enquanto fazia isso eu andava a avisar as pessoas que era só mais um bocadinho que o meu carro ia já sair do caminho.

 

Nervosa? Claro que não....sou um poço de calmaria.

Pode o mundo estar a acabar que eu continuo zen.

Nervos de ferro!

zen11.jpgO senhor lá estacionou o meu carro.

E eu convidei-o para beber um café. Ele aceitou.

Chamava-se Zé!

E eu percebi que ele dizia "catano" muitas vezes.

Estivemos duas horas à conversa. Duas horas do catano.

 

O café era do catano. Lisboa era do catano. As férias dele iam ser do catano. Até eu era do catano!

 

E hoje faz exactamente 15 anos. Que eu parei o trânsito em Lisboa!

Nunca me esqueci porque umas horas mais tarde nascia a Inês, a minha sobrinha!

Desde esse dia que o dia 6 de Março é para mim o DMC. Dia Mundial do Catano!

 

Querida Inês,

Muitos Parabéns!

Que todos os teus dias sejam felizes e especiais! 

 

Zé, se leres este post!

Obrigada!

Se não fosses tu...ainda agora estava entre o travão de mão e o de pé a decidir o que ia fazer.....mas sempre com muita calma...que eu sou neta de uma alentejana!

Olha Zé! Foi do catano....

01.03.17

um shot de vitamina c!

Joana Marques

Provavelmente muita gente já pensou nisto.

E se calhar já fazem isto.

E eu acho que estou aqui a pensar que inventei a roda.

Ninguém me ensinou a fazer.

Nem vi em lado nenhum.

Comecei a fazer sozinha.

 

O meu pai por herança ficou com a casa dos pais no Alentejo. E com a casa um campo com algumas árvores de fruto.

O meu pai passa a vida a dizer mal das laranjeiras.

Que vai arrancá-las. Que não prestam. Que quer de outra qualidade.

E eu que fico de coração desfeito a pensar que um dia vou lá e as minhas queridas laranjeiras já lá não estão... e resolvi dar uso às laranjas.

E torna-las apetecíveis aos olhos da família.

 

E o que é que eu fiz?

Fiz gomas.

- Gomas??

Sim! Gomas carregadas de vitamina C.

 

Precisamos de:

- 150 ml de sumo de laranja.

- duas colheres de açúcar de coco diluído em 50 ml de água quente ou outro tipo de adoçante. (se acharem que não precisam de adoçar esqueçam este passo)

A esta água quente juntar, aos poucos, 50g de gelatina em pó (a gelatina em pó pode ser substituída por 4/5 folhas de gelatina previamente demolhada ou por agar agar). Mexer tudo muito bem. 

Misturar com o sumo de laranja.

Colocar em forminhas.

Gosto de polvilhar as forminhas com canela.

Frigorífico.

......esperar, esperar, esperar.......

 

E aqui têm um snack espectacular para comer entre refeições. Não para todos os dias...mas para os especiais!

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Podem usar laranjas ou outra fruta. Também fica bem com ananás. E pêssego. E manga. E papaia...OMG! tantas possibilidades!

 

Por enquanto tenho conseguido salvar as laranjeiras...alentejanas!

Mas...nunca é demais implorar!

 

porfavor.jpg

 

26.01.17

tia Luz...

Joana Marques

A minha tia Luzinha é uma das minhas pessoas.

Quando for grande quero ser como ela.

Conheceu o meu tio José com 16 anos no liceu.

Apaixonou-se por ele e ele por ela.

Casaram-se.

Ela com 17, ele com 18 anos.

O meu tio com 18 anos trabalhava na empresa do pai e prosseguiu os estudos na universidade.

A minha tia ficou em casa.

E um ano depois de estar casada nasceu o primeiro filho, o meu primo Francisco.

Teve 5 filhos.

Todos rapazes.

Nunca trabalhou fora.

Outros tempos!

Os meus primos entraram na escola e foram ficando cada vez mais independentes e a minha tia Luz voltou ao liceu.

Fez o 12º ano, quase com 40 anos.

O meu primo Francisco e o meu primo António (os mais velhos) terminaram as suas licenciaturas.

Os meus primos mais novos estavam na faculdade e a minha tia Luz inscreveu-se também.

Fez a sua licenciatura de 5 anos ao mesmo tempo que os filhos mais novos.

Ficou habilitada a dar aulas de Educação Visual.

O meu tio reformou-se.

Os meus primos já tinham saído de casa e alguns até já tinham casado.

A minha tia concorreu ao país todo e ficou colocada no Minho

Foram os dois para o Minho.

Estiveram no Algarve.

E também em Peniche.

No ano seguinte foram para a Madeira.

Passaram pelos Açores também.

Foram trocando de região conforme a minha tia ia sendo colocada.

E é preciso ser uma grande pessoa para fazer isto.

E é preciso ter uma grande pessoa ao lado para poder fazer isto.

 

 

A minha Luzinha faz hoje 65 anos!

E está cheia de planos...

Não sei se é pelo nome..mas é uma pessoa carregadinha de Luz!

O tempo é o que fazemos com ele e não importa a altura...nem a idade..

 

19.01.17

a cabeça a prémio.....

Joana Marques

Com 4 anos fui para o infantário.

Em Campo de Ourique, perto de casa.

Adaptei-me logo.

Gostei do primeiro dia e de todos os restantes.

 

Todos os dias a minha irmã saía das aulas e passava para me ir buscar.

Todos os dias eu corria que nem uma desvairada para chegar depressa a casa e contar todas as novidades.

Monopolizava o tempo de tudo e de todos.

Contava a história do dia à minha mãe, ao meu irmão e à minha irmã.

E ao jantar contava outra vez.

Afinal o meu pai ainda não tinha ouvido e precisava urgentemente de saber.

 

Um dia, qual não foi o meu espanto, quando vi a minha mãe à minha espera em vez da minha irmã.

Tinham-lhe telefonado.

A minha mãe estava com um ar francamente abatido e arreliado.

Até me benzi.

Na minha cabeça comecei a imaginar que raio é que tinha feito para ela me ter ido buscar.

Na minha cabeça apareceram mil e uma possibilidades.

E isso não foi bom.

 

- Será que foi porque aprendi a lançar ervilhas com o nariz? 

- Se calhar foi porque descobriu que ando a pôr caracóis nas cadeiras dos meus colegas.

- Ou será que lhe contaram que ando a enterrar o bife do almoço dentro dos vasos das plantas.

- Ah! Não posso! Ela sabe que eu ando a imitar a professora Zelda?

 

 

Faltou-me o ar quando a minha mãe abriu a boca...

- Joana, há uma epidemia de pediculose no infantário.

Até me nasceu uma alma nova mas durou pouco tempo...

Pediculose? Caneco, não me digas que é o nome que dão a pessoas que atiram ervilhas pelo nariz...

 

Pediculose para Campo de Ourique!

Piolhos para o resto do mundo.

 

Entre as Carolinas, as Beneditas, os Bernardos e os Lourenços.

A fina flor de Campo de Ourique.

Havia agora a pairar, naquelas cabeças, indivíduos que não tinham sido convidados para a festa.

Cheguei a casa, a minha mãe confirmou o pior.

Eu tinha piolhos.

Daqueles fofinhos!

Granjolas...

Um império a ser construído na minha cabeça!

 

A minha mãe foi à farmácia do Sr. Gilberto.

A minha mãe suplicou ao Sr. Gilberto que lhe vendesse o remédio mais potente que tinha contra tais criaturas.

A minha mãe ligou ao meu pai para passar numa farmácia perto da empresa que de certeza teria outro tipo de produtos.

A minha mãe ligou ao irmão médico para passar por lá.

A minha mãe ligou para toda a gente que conhecia e que tinha filhos que já tinham tido piolhos.

Eu estava a adorar toda a movimentação extra na nossa casa.

 

A minha cabeça foi molhada.

Esfregada.

Penteada.

Molhada outra vez.

Eu estava a divertir-me tanto! Tanto!

Tinha desde sempre os minutos contados no banho.

Desta vez foi um banho de imersão e peras!

Tive de ficar com um produto mal cheiroso e uma touca na cabeça.

E passado um bocado.

A cabeça molhada.

Esfregada.

Estrafegada.

Esmiuçada. E sufocada.

Penteada.

Ó boa vida!

 

Sou uma pessoa generosa....

No dia seguinte de manhã a minha mãe quase teve uma apoplexia.

Também ela tinha piolhos.

 

Toda a gente sabe que quando as coisas estão más, podem sempre piorar mais um pouco.

E nesse dia à tarde, também a minha irmã apareceu com brindes em forma de ovo e em forma de bicho.

 

A nossa casa parecia um cenário de guerra.

Onde as armas químicas imperavam...

A minha mãe teve a um passo de incendiar a casa só para se ver livre dos piolhos.

 

O meu pai deve ter-se rebolado a rir.

Às escondidas....

Às claras dava direito a levar uma facada.....

 

E em pouco menos de nada lá se foi todo um império...

...e a nossa vida voltou à normalidade..

...ainda tentei a todo o custo reabilitá-lo...

mas nada..

...nunca mais voltei a ter a cabeça a prémio..

....ou prémio na cabeça.

 

piolho.jpg

 

Joana Marques

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