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Quiosque da Joana

handmade life

06.08.17

lar. Doce lar...

Joana Marques

5 de Agosto de 2003

Tinha 22 anos. Era uma miúda.

Trabalhava desde os 17. No mesmo sítio. Ou seja pelo mundo.

Era hospedeira. E tinha amor à camisola.

Nesse dia. Fez ontem 14 anos. Fui chamada de urgência. Às 20h.

Lá fui. Precisavam de mim num voo. Madrid.

Nem costumava fazer Madrid. Mas se precisavam de mim. Estava pronta a servir a minha empresa. Como sempre.

Tinha tido uma semana alucinante. Daquelas sem horários. Sem rotina.

Este bónus não vinha a calhar. Mas...

Ainda por cima, teria de ficar lá para o dia seguinte.

Tudo bem. Desde que conseguisse chegar a tempo.

A tempo de ver a história a ser feita. A tempo de participar na história.

 

 

 

6 de Agosto de 2003.

Acordei cedo. Em Madrid.

Hoje era um grande dia.

Daqui a pouco estaria em Lisboa.

E mal podia esperar.

Tinha crescido no velhinho Estádio José de Alvalade.

Lembro-me de esfolar lá os joelhos por ser uma bruta a correr entre as bancadas.

Naqueles últimos anos diferentes estados de espírito. Passaram por mim.

Deixar o Estádio antigo partiu-me o coração. Mas é assim...

Por outro lado tinha de o deixar ir. Era bom sinal. Era sinal de evolução. E quem está parado morre.

Há 14 anos atrás o novo estádio foi inaugurado.

A nossa casa.

O nosso futuro.

 

 

Eram 12h. Devia estar a sair de Madrid.

Eram 12h30 quando o comandante nos disse que iríamos sair mais tarde.

Eram 13h. E mal podia respirar.

Eram 14h. E mal conseguia pensar. Tinha a aflição estampada no olhar.

Chegámos a Lisboa às 17h30. Mais ou menos. Com várias horas de atraso.

Quando me despachei de todas as tarefas.

Supliquei por boleia. Pedi a um colega meu que tinha uma mota que me levasse.

Do aeroporto a Alvalade é um tirinho. 

E de mota. É mesmo já ali.

De mota. Sem capacete. E com o meu colega a praguejar.

Eu sei que não se faz. Mas vale tudo pelo Sporting.

 

Cheguei a horas.

Ainda com o coração na boca. Mas não interessa. 

Estive lá.

Fiz parte da história.

Juntei-me à minha família toda.

Pais. Irmãos. Cunhado. Sobrinhos. Tios. Primos. Amigos.

E a todos os outros. Sendo sportinguistas. São também meus amigos. Família, portanto.

Foi um dos dias mais bonitos da minha vida.

O dia da nossa casa.

A partir desse dia, já perdi a conta das vezes que lá fui.

Para mim é um lugar único do mundo.

Nunca fui tão feliz num lugar como sou ali.

É só entrar. Que me sinto em casa! Lar, doce lar....

A nossa casa faz hoje 14 anos. 

E eu estive lá.

 

01.07.17

a primeira palavra que escrevi na vida. Não foi Joana.

Joana Marques

A primeira palavra que escrevi na vida foi Sporting.

Foi o meu pai que me ensinou.

 

Nasci numa família sportinguista.

Antes do meu pai nascer, já toda a família era sportinguista.

O meu pai e todos os irmãos são sportinguistas. O meu avô nem se teve de esforçar muito porque para todos era óbvio que eram do Sporting. Ponto Final!

 

Tal como aconteceu na minha família.

Quando nasci, toda a gente era do Sporting.

O meu irmão, a minha irmã, a minha mãe e obviamente o meu pai.

Antes de ser registada como cidadã portuguesa, fui registada como sócia do Sporting.

Tenho 36 anos de sócia e uns mesinhos.

 

Do lado da minha mãe existiam todas as cores. A minha mãe é nascida e criada no Porto.

Do lado do meu pai, não! Todos os meus tios e tias. E primos. Todos do Sporting.

Desde pequena que adormecia com a voz do meu pai a contar-me histórias do Sporting.

Aquele jogo épico.

Aquele sportinguista que ele admirava.

Aquela modalidade onde éramos imparáveis.

O meu pai sabia tudo sobre o Sporting.

E quando me juntava com os meus tios, tias e primos só se falava de Sporting.

 

O meu pai, para grande desgosto da minha mãe, tinha lá em casa uma estante só com Sporting. Livros, folhetos, bilhetes antigos ou bugigangas que foi colecionando ao longo dos tempos.

 

O meu irmão, mais velho que eu 5 anos e tal como o meu pai, colecionava tudo. Recortes de jornais. Cromos. Posters. Camisolas. Cachecóis. A cada campeonato, comprava sempre uma nova caderneta de cromos. Mas só colava os cromos dos jogadores do Sporting. Deitava fora o resto.

 

 

Eu nasci e cresci neste ambiente.

E durante um tempo tive um problema grave.

Muito grave.

Não sabia ler.

Bem olhava para a estante do meu pai. Mas não sabia ler.

Até que entrei para a primária. E comecei a juntar as letras. E aos poucos a aprender a ler.

E quando comecei a ler mais ninguém me parou.

Lia tudo. Desde as paragens de autocarro, passando pelos jornais que apanhava e todos os livros que deitava a mão.

E queria ler os livros da estante do meu pai. Os livros do Sporting. A minha mãe não me deixava.

 

Tive a sorte de ter herdado dos meus irmãos uma quantidade de livros.

Do meu irmão a coleção dos cinco. E montes de livros de banda desenhada.

Da minha irmã a coleção das gémeas de Santa Clara, do Colégio das 4 Torres, da Carlota, da Patrícia, etc.

 

Foi exatamente por ler a coleção das gémeas de Santa Clara que tive a melhor ideia de sempre.

Comprar uma lanterna.

Para quê?

Para ler à noite sem os meus pais darem conta.

 

Entrei na loja do Sr. Jorge, em Campo de Ourique e perguntei o preço das lanternas.

300$.

Uma fortuna.

Ainda não tinha semanada. Com 7 anos não tinha direito. Em minha casa só a partir dos 10, quando fosse para o 5º ano.

Recebia dinheiro dos meus tios nos anos e no Natal mas ia para uma conta. Foi com esse dinheiro que comprei o meu primeiro carro. Verdinho! Lindo...

 

Comecei a juntar todo o dinheiro que ia conseguindo com esforço.

Ás vezes recebia um dinheirito para comprar rebuçados, pastilhas e às vezes um bolo.

O meu irmão e a minha irmã de vez em quando lá me davam uma esmola também.

Os meus pais também me iam dando porque pensavam que eu estava a fazer a coleção de cromos: "dias felizes".

Quais dias felizes, quais quê?

Queria era uma lanterna.

Ao fim de longos meses de poupança consegui ter 300$. E lá comprei a lanterna.

- Sr. Jorge não diga nada à minha mãe...

O Sr. Jorge sorriu. E cumpriu. E nunca disse nada.

 

Era fácil.

De noite. Quando toda a gente lá de casa dormia. Levantava-me.

Subia a uma cadeira.

Tirava um livro.

Levava-o para a cama.

E debaixo dos cobertores com a minha lanterna.

Li a história e as histórias todas do Sporting.

Li e vivi episódios. Bons e maus.

7 anos. E era feita de Sporting.

 

Para mim ser do Sporting é mais ou menos como me chamar Joana.

Ou ser filha de Mariana e de João. Irmã de Sofia e de Tiago.

Ser do Sporting. Eu sou do Sporting.

 

Parabéns!

111 anos. 111 anos de história. Que é também a minha história. E a dos meus.

 

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Joana Marques

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