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Quiosque da Joana

handmade life

Quiosque da Joana

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22
Mai17

por terras de sua majestade....

Joana Marques

Em Fevereiro deixei o meu emprego numa empresa Portuguesa.

E aceitei trabalhar para uma empresa Inglesa.

Já sabia que ia trabalhar entre Oslo e Barcelona.

Acabei por me sediar em Oslo. O trabalho rende mais...

Terei de ir a Londres de vez em quando.....e isso é mesmo, mesmo chato!

Não é nada!

Adoro Londres...

Uma cidade cheia de vida.

Onde estuda e mora a minha sobrinha Madalena.

 

Estou em Londres. Cheguei ontem à noite.

E amanhã pelo entardecer regresso a Oslo.

O Vasco está comigo....pois claro!

Ficou em casa da minha sobrinha. E tanto quanto sei ainda não há nenhuma surpresa desagradável!

poster.jpg

Aqui está um poster alusivo à nossa passagem por Londres.

Obrigada, João!

Já viram o post hoje, do João?

Da raposa que encontrou em Boston?? Vejam lá!

22
Mai17

Vasco, o cão bipolar...

Joana Marques

Quando os meus tios chegaram e o Vasco os viu, foi só amor e carinho.

Ele deu beijinhos, deixou que lhe fizessem festinhas, deu a pata. Um querido!

A minha tia em pleno parque disse para o meu tio:

- Nem sei porque não temos um cão!

Tal foi o amor à primeira vista pelo Vasco.

Ao que o meu tio respondeu.

- Realmente, bem que podíamos ter um.

- É só chato quando saímos. Disse a minha tia.

- Deixamos com um dos miúdos. Respondeu o meu tio.

Dizer que os miúdos são os meus primos, um tem 40 anos e o outro 42.

 

Chegámos a casa.

Preparei o jantar.

Vasco, o amoroso e bem disposto.

Durante o jantar, esteve sempre em local estratégico.

A ver se lhe chegava alguma coisa.

Como sabe que eu não dou.

Vagueou entre a minha tia e o meu tio. Caíram que nem uns patinhos.

- Tão querido o teu cão, Joana! Disse um e depois o outro, sempre babados com a receção.

 

No dia seguinte, eu fui trabalhar e os meus tios já tinham o dia todo planeado.

Dei-lhes uma chave que tinha a mais. Para o caso de quererem voltar antes de mim.

Quando cheguei a casa nem vestígio dos meus tios.

 

Até que chegaram.

Com uma história para contar.

Tinham tentado ir a casa. Para lanchar e descansar um bocado.

O Vasco, apareceu do outro lado com um tom ameaçador.

Rosnava e ladrava.

Acabaram por desistir.

- Para a próxima, entrem à mesma. Nem sei o que lhe deu. Ele não faz mal a uma mosca.

- Talvez. Mas tivemos mesmo medo.

Dizer que por esta altura já o Vasco andava a fazer olhinhos de cão aos meus tios.

Um fofo. Este cão.

- Realmente, ele é tão querido. Fomos mesmo medricas. Disse a minha tia.

Jantar. Pedinchou comida ou não se chamasse Vasco João Marques!

 

No dia seguinte, sexta-feira. Acordei cedo como de costume. Fui ao ginásio do meu prédio.

Subi as escadas novamente.

Reinava a paz em minha casa.

Vasco no seu sofá. Todo estendido.

Os meus tios a acordar.

Tomei banho.

Eles também.

Eu com mais pressa porque ia trabalhar.

Tomei o pequeno almoço.

Lavei os dentes.

E depois vesti-me.

Estava pronta.

 

Saí. Quando saí os meus tios ficaram a tomar o pequeno almoço.

Passados uns 3 minutos recebo uma chamada.

O meu tio:

- Podes voltar a casa Joana, o Vasco encurralou-nos na cozinha.

- Como?

- Estamos fechados na cozinha.

- Como assim? Não conseguem abrir a porta??

- O Vasco encostou a porta e não conseguimos sair da cozinha. Mostra-nos os dentes e rosna. Podes vir cá?

Voltei.

Estavam as três almas na cozinha.

Não cheguei a ver o Vasco a rosnar.

Quando sentiu a minha presença ficou outra vez doce.

Para não haver mais contratempos e para os meus tios estarem à vontade fez-me companhia no trabalho.

 

vasconotrabalho.jpg

Querem amolecer o coração de um norueguês.

Sejam simpáticos? Não.

Ofereçam mousse de manga? Melhora um pouco mas não..

....Tenham um cão querido, fofo e amoroso para lhes apresentar!

Vasco João Marques foi uma simpatia no trabalho! E toda a gente gostou de um conhecer!

Um experiência a repetir.

18
Mai17

aconteceu mesmo.....

Joana Marques

O meu tio João, irmão da minha mãe morou muitos anos nos EUA.

Foi para lá estudar gestão. E ficou.

Apaixonou-se. Casou-se. E teve dois filhos.

 

Em 1986, o meu avô materno decidiu que já era tempo de se retirar das empresas.

Falou com os filhos todos e ninguém manifestou interesse em ficar no lugar dele.

Eram empresas da família que ninguém queria ver geridas por estranhos.

Vender? Também não era solução. Ninguém via com muito bons olhos a venda das empresas.

Estávamos num impasse. O que fazer?

Fomos salvos pelo meu tio João.

Voltou para Portugal com a mulher, a minha tia Ingrid e com os meus primos.

 

Chegaram em Abril de 86.

Primeiramente, ficaram em casa dos meus avós mas pouco depois arranjaram casa própria no Porto.

A minha avó Adélia, conservadora e 100% devota descobriu que o filho tinha casado apenas pelo civil.

E não, os meus avós não tinham ido ao casamento. Primeiro porque as viagens eram um pouco diferentes do que são hoje mas principalmente porque a minha avó não entrava num avião nem que estivesse em coma.

 

A descoberta de que o filho e a nora, já com dois filhos, não estavam casados pela igreja foi como se lhe tivessem arrancado um rim, a sangue frio. E tratou logo disso.

Nem se preocupou em perguntar ao casal, se por acaso estariam interessados em casar pela igreja. Não!

Arranjou tudo por ela e comunicou-lhes: dia 17 de Maio têm casamento marcado na Igreja de Santa Luzia em Viana do Castelo.

A minha avó já tinha organizado tudo. A parte religiosa, o copo de água e os convites.

O meu tio João e a minha tia Ingrid estavam-se nas tintas se casavam ou não. E não quiseram entrar em confronto. Aceitaram.

 

 

No dia 17 de Maio de 1986 tinha 5 anos.

Estava numa fase muito glamourosa da minha vida.

O meu pai tinha-me levado ao aeroporto, uns meses antes, para ver os aviões levantar voo.

A partir daquele dia comecei a dizer que queria ser um avião.

 

Três dias antes do casamento, Joaninha experimentou voar.

Em plena rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique, atirei-me do cimo de uma árvore.

Foi a primeira experiência que fiz do género.

Mal sucedida.

Joaninha não voou.

Por acaso até voei mas não da forma como estava a imaginar.

O meu irmão que assistiu a todo este espetáculo levou-me para casa.

A minha mãe quase teve um ataque cardíaco.

Nas vésperas do casamento do irmão, a menina das alianças, eu, estava assim. Sem ponta por onde pegar.

Um galo na cabeça. Os joelhos esfolados. Os cotovelos todos raspados.

- O que raio é que te aconteceu?

- A Joana caiu. Respondeu o meu irmão. Sem referir que tinha caído de uma árvore.

Eu chorava. Tudo me doía...

Ou melhor. Eu não chorava. Eu berrava....

- Ai Deus mas como é que a Joana vai entrar na igreja neste estado. Atirava a minha irmã.

Tudo tem solução, menos a morte e eu ainda estava viva.

Aliás, até estava muito viva, pelo menos sentia muito bem as dores.

A minha mãe passou a noite a baixar a baínha do meu vestido. Branco. De princesa.

Eu a experimentá-lo para ver se se via os joelhos esfolados.

E a minha irmã passou a noite a aplicar-me gelo na cabeça.

Pomada às toneladas.

E mais gelo.

E pomada.

O galo acabou por ceder.

Sexta-feira quando rumámos até ao norte, mal se notava. E o vestido tapava os joelhos.

Mau, mesmo, é que a minha mãe não tirava os olhos de mim.

Medo que eu fosse contra uma árvore ou um poste de eletricidade.

 

O casamento era às 10h.

Chegámos um pouco antes.

A noiva atrasou-se imenso.

Não por ser noiva mas porque a minha tia Ingrid era mãe.

E uma mãe é uma mãe, mesmo no dia do casamento.

A minha avó Adélia espumava.

E a minha mãe sempre a controlar-me.

Quase morri de tédio.

Eu era a mais nova dos meu primos.

Eram todos rapazes excepto a minha irmã que já tinha 15 anos.

Ninguém me ligava.

Estava vestida de branco para levar as alianças.

E com a minha mãe sempre a olhar para mim.

Só que Deus é grande. E é meu amigo.

A minha avó Adélia chamou a minha mãe.

- João toma conta da Joana. Disse a minha mãe ao meu pai.

Ah! Estava entregue aos cuidados do meu pai. E queria ser um avião.

Não me dava por vencida.

Falhei à primeira mas não ia falhar à segunda.

Já tinha debaixo de olho um muro, capaz de testemunhar tamanha façanha. Aquele muro ia ver-me voar!

E sem o meu pai dar conta. Afastei-me. Subi ao muro. E atirei-me.

Voei??? Podemos falar sobre isso noutra altura?

 

Em menos de nada tinha ao meu lado a minha família toda.

A minha mãe desvairada.

- JOOOOOOOÃO foi só por um minuto! O que raio é que estavas a fazer??? Esta miúda precisa de 20 olhos nela..

Tentaram levantar-me mas tinha dores horríveis.

Estava paralisada do lado direito. Não me conseguia mexer.

Chamaram uma ambulância. Não havia telemóveis e foi também todo um filme.

Fui para o hospital.

Tinha a clavícula partida.

Escusado será dizer que a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos não foram ao casamento do meu tio João.

Fiquei em observação mais um tempo. Como tinha ficado meia paralisada queriam ter a certeza que não era nada.

 

À tarde. À tardinha.

Apareceu o meu tio João e a minha tia Ingrid. Já casados.

Trouxeram-me uma fatia de bolo. Partiram o bolo de noiva mais cedo para eu poder comer.

E o meu tio João para me reconfortar disse-me assim:

- Joaninha, não estejas triste. Fica aqui combinado. No dia 17 de Maio de 2017 vamos todos comer bolo.

-?

- Em 2016 fazemos 30 anos de casados é uma data redondinha. Em 2017 fazemos 31. Comemoramos contigo...

- Ainda falta tanto!

Ao longo da nossa vida fomos falando sobre isso. Sempre a rir.

- Não se esqueça, tio, 17 de Maio de 2017!! Disse-lhe eu quando tinha 10, 15, 20 ...30 anos.

- Então Joaninha, não te esqueças dia 17 de Maio de 2017!! Dizia-me o meu tio pelos Natais, anos e sempre que falávamos ao telefone ou estávamos juntos.

Parecia algo inatingível.

Parecia impossível de alcançar. Tal e qual como eu querer ser um avião.

 

Ontem já passava das 16h e estava num parque aqui de Oslo. Para quem conhece Oslo estava no parque das esculturas. Recebo uma mensagem do meu tio João.

- Então Joana, como estás? Por onde andas?

- Estou bem.

- E onde estás?

- Estou em Oslo.

- Eu sei que estás em Oslo! Estás em casa?

- Não. Estou num parque.

- Como se chama o parque?

- Vigeland.

Estranhei...mas...

 

Qual não é o meu espanto quando passado uns 20 minutos recebo um telefonema.

- Ainda estás no parque?

- Estou.

- Nós estamos aqui junto a umas escadas que estão rodeadas de estátuas. Sabes onde é?

- Na Noruega?? Têm a certeza? Vocês estão em Oslo?

Respondi eu. Mesmo não acreditando já ia a caminho.

Com passo apressado a puxar o Vasco. Lento. Lentinho. O meu caracolinho....

- Joaninha. Hoje é dia 17 de Maio de 2017. Esqueceste-te?

 

E pronto.

Era uma vez, uma Joana que nunca conseguiu ser um avião. Mas que por ter tentado ser um, estava prestes a viver um momento tantas vezes falado mas assim mesmo...muito inesperado!

E ao longe avistei o meu tio João e a minha tia Ingrid.

E só tive tempo de me atirar para cima deles. Ninguém partiu a clavícula desta vez...

Comemorámos juntos os 31 anos de casados.

Comemos uma iguaria norueguesa que tem todo o aspeto de ser uma porcaria feita de batata mas era um dia especial!

oslo2 (2).jpg

E depois jantámos em minha casa.

 

Ontem foi a prova de que os milagres podem acontecer.

Mas para acontecerem temos de lhes dar uma mão?

Uma clavícula?

Não. Não!

Temos de querer ser um avião!

17
Mai17

como um camião TIR. Desgovernado...

Joana Marques

Desde que sou pessoa que tento organizar a vida de toda a gente.

Tenho uma parte. Uma parte grande. Que pensa que a felicidade do mundo depende de mim.

Nasci controladora.

Se o nível de controlo fosse medido em monumentos. Eu seria a Capela Sistina.

 

Lembro-me da minha mãe separar a roupa do meu irmão e eu lhe dizer:

- Essas calças ficam mal com essa camisola.

E o pobre do meu irmão ficava meio aparvalhado...

- Ó mãe não quero estas calças..

A minha mãe tentava convencer o meu irmão...

E eu olhava para ele, sem a minha mãe ver, e abanava a cabeça.

- Mãe não posso ir assim..

Era impossível para mim ver o meu irmão mal vestido e não intervir...

E instalava-se o caos de manhã. Devia ter uns 4, 5 anos...

 

Ia para o infantário.

E claro, era a porta voz de todos os miúdos.

Mais depressa vinham ter comigo porque precisavam de ir à casa de banho do que com a educadora.

A Mariana não gostava de sopa.

Eu, Joana resolvia o problema.

Comia a dela e a minha. Nunca ninguém desconfiou.

 

Na escola primária era mais do mesmo.

Esta minha forma controladora de ser nunca me deixou.

As melhores alunas da turma era eu e a Maria João.

Eu tirava melhores notas mas ela portava-se melhor.

Antes das aulas começarem, todos os dias, partilhava o meu trabalho de casa com os meus colegas.

Um de nós ficava feito suricata à espreita da Maria João. Se ela soubesse acusava a turma toda.

Quando alguém não sabia responder.

Cá vai! Respondia eu. A professora ralhava.

Se fosse preciso logo de seguida fazia o mesmo.

Não para brilhar.

Ou para a professora achar que eu era um génio. Nunca fui.

Era para tirar a pressão dos meus colegas.

Se eu respondesse, o foco vinha para mim e eles podiam respirar.

 

Quando cresci e mudei de escola continuava a partilhar os trabalhos de casa e não só.

Aqueles colegas desprovidos de qualquer espírito artístico e que se viam à nora nas aulas de Educação Visual podiam contar comigo.

Fazia desenhos em série em casa.

Todos diferentes para o professor não desconfiar.

 

E assim foi sendo a minha vida.

Tens um problema?

A Joana resolve. A Joana faz. A Joana decide.

O não puder ajudar corrói-me. Não é fácil ser a Capela Sistina...

É claro que com a idade uma pessoa vai aprendendo a gerir melhor.

Mas a controladora, está cá!

 

Cheguei, à Noruega. Aqui no trabalho, o que é que eu encontro?

Pessoas que se alimentam mal.

Ó diabo.

Respirei fundo várias vezes.

- Joana, finge que não vês...

- Ok! Eu estou a fingir que não vejo.

- O que é aquilo??? Uma sandes ao almoço, outra vez??

- Não é da tua conta...

- Eu sei que não é da minha conta...coitadinhos..credo! O que é aquilo?? Uma panqueca de batata???

- Não te interessa. Come e não olhes para a comida dos outros. Não és mãe deles...

- E será que estas pobres almas têm mãe??? Ia jurar que nasceram de geração espontânea. Sem pai, sem mãe. Das pedras da calçada...ou das couves.....só assim se explica...

 

Fiz das tripas coração....

A sério...

Eu tentei....controlar a fera que há em mim...

 

Deus é testemunha em como tentei...

Mas não deu....

A minha natureza controladora, apareceu.

E apareceu de forma imparável...

...em modo camião tir desgovernado....a 200 km/hora...

 

Na segunda à noite fiz mousse de manga a contar com os meus colegas.

Ofereci a todos.

Ficaram meio aparvalhados. Já se sabe que os noruegueses são bichos do mato...

No meio da conversa deixei escapar que em Portugal é comum as pessoas falarem umas com as outras.

Chama-se conviver.

Sem acharem que queremos casar com elas. Disse isto a olhar para o Hans!

 

A minha chefe perguntou-me como se fazia a mousse.

- Para cada manga, 10 cl de leite de coco.

- coco??

- Sim, coco...

- Ah!

Sai confusa. Entra com um creme.

Num país onde se vendem ovos em pacotinhos tipo leite pasteurizado, em que duas colheres de sopa equivale a um ovo.

É perfeitamente plausível que o coco para eles seja uma bisnaga de creme para as mãos.

Trouxe-lhes um coco. Verdadeiro.

Tive medo que pegassem na manga e a besuntassem com creme de mãos....isto é se souberem o que é uma manga.

 

E percebi porque é que tinha de vir trabalhar aqui.

- Esta gente estava mesmo a precisar de uma mãe.

.....digo eu...Capela Sistina...

Quem será a próxima vítima...o camião Tir anda por aqui e por aí.....

16
Mai17

bem-vinda. Joana.

Joana Marques

Sexta-feira passada foi um dia enorme.

Fui trabalhar.

Saí do trabalho a pensar que me ia pôr à estrada.

Só que estava à espera de uma amiga para me acompanhar e o avião dela atrasou para níveis nunca esperados.

Quando estava a preparar tudo para levar para a cabana o Vasco deu o ar de sua graça.

Só vejo a voar 3 garrafinhas com leite de coco.

Vidro por todo o lado.

Leite de coco atirado num raio de 200 000 km.

Toda a cozinha cheira a coco...o que não era nada desagradável!

Tive de pegar nos 30 kg de Vasco e fechá-lo no quarto. Tinha medo que se cortasse nos vidros.

Depois de ter passado a cozinha toda a pano, soltei a fera que passa a cozinha toda a língua.

 

Já tarde vou buscar a minha amiga ao aeroporto. Ainda lhe pergunto se quer só ir de manhã. Diz que não.

Seguimos para o fim do mundo.

 

O carro tinha gps e eu decorei: direita e esquerda em norueguês.

Detesto gps's. Odeio-os.

Têm a mania que sabem tudo.

E ainda por cima nunca se calam.

E isso é insuportável!

Para falar pelos cotovelos estou lá eu.....

 

Tinha dito à minha amiga e a todas as pessoas que tinha falado nesse dia que ia demorar uma hora e meia...afinal tinha-me enganado. Demorámos quase 6.

Chegámos de madrugada. Ao fim do mundo. A uma cabana sem luz. E temperaturas negativas. Foi lindo...

Tinha levado lanternas porque na imobiliária onde aluguei a cabana deram-me uma lista de coisas que eram imprescindíveis.

E a lanterna constava em primeiro.

O Vasco mal chegou apoderou-se do sofá. Aconchegou-se. E dormiu.

 

Eu e a Mafalda andámos um bocado à nora.

Em baixo era a sala e a cozinha.

Em cima os quartos.

A cabana tem um sistema de aquecimento. Uma lareira na sala. E está preparada para enviar calor para toda a casa.

Estava frio. Muito frio.

- Joana, e se acendêssemos a lareira. Disse a Mafalda.

Não concordei.

Ainda não dominava o local.

Tive medo de morrer de noite por inalação de monóxido de carbono.

E não era fixe morrer ali. No fim do mundo.

Ainda por cima agora, que sou paleo, e que vendo saúde.

Morrer não estava definitivamente nos meus planos.

- Não. Os edredons são bons! embrulha-te toda. Deixa o nariz de fora!

E assim foi. Eu num quarto. A Mafalda noutro. O Vasco no sofá.

 

Entretanto no meio do meu sono. Ouço um barulho. Meio estremunhada acordo. Sem saber bem onde estava.

Alguém batia à porta da cabana.

Lá desço as escadas.

Vasco tem apenas um olho aberto. Grande guarda.

Completamente a dormir, desgrenhada e a sonhar, abro a porta.

 

Atiro um grito. Ou vários.

Acho mesmo que foram muitos gritos.

Não sei o que estava a sonhar.

Apanhei o susto maior da minha vida

Estava um homem à minha porta e eu achei que era o Trump.

 

Nem percebi o que se passou a seguir.

O homem assustou-se com a minha reação.

E atirou-me um cesto para as mãos.

Eu falava em português e ele em norueguês.

E foi-se embora. Entrou no carro e foi.

E de repente..sai da minha porta um cão...elouquecido e a rosnar. Atrás do homem...

Sim Vasco...ainda vais a tempo. Corre, Vasco! Corre....

 

Mais tarde encontro o senhor no café onde vi a eurovisão. Fartamos-nos de rir....

E quando lhe contei que me tinha assustado porque tinha achado que ele era o Trump...o café quase veio abaixo.

O senhor só me queria entregar um cesto de boas vindas.

E eu também lhe dei as boas vindas....mas de uma forma diferente.

 

15
Mai17

cuidado! Estou armada...

Joana Marques

No final do mês de Abril, os meus pais, irmão, cunhada e sobrinhos estiveram aqui em Oslo.

O meu pai fazia anos e aproveitámos para estar juntos.

O meu irmão, cunhada e sobrinhos ficaram só o fim de semana porque os pequenos têm aulas e faltar não é opção.

No dia em que chegaram demos por aqui uma volta e levei-os a um centro comercial.

Nada como o Colombo. Nada disso. Muito mais pequenino e familiar.

O meu pai disse aos meus sobrinhos algo que me fez viajar no tempo:

- Escolham lá o que quiserem.

Quando nós íamos de férias. O meu pai dizia-nos isso às vezes:

- Escolham o gelado que quiserem.

Os meus sobrinhos obviamente não se fizeram rogados mas o meu pirolito mais pequeno respondeu ao meu pai:

- E a tia Joana? Não pode escolher o que quiser?

Até me faltou o ar. E disse-lhe:

- Eu sou adulta. Quando era pequena também escolhia, agora é a tua vez e da mana...

O pirolito não se conformou. E não descansou até o meu pai dizer:

- Pronto! Escolham todos qualquer coisa....

 

A minha mãe escolheu uma caixinha para colocar anéis muito gira.

A minha cunhada escolheu um colar muito giro.

O meu irmão escolheu um carrinho muito giro

E eu.....escolhi uma pistola de cola quente, muito gira!

 

colaquente.jpg

Andava-me a fazer tanta falta para organizar as gavetas aqui de casa.

As gavetas a abarrotar e que ameaçam vomitar este mundo e o outro e mais um par de botas. Tiram-me do sério.

O primeiro segredo é não ter conteúdo a mais.

Se só usar 10 pares de meias por semana.

Tenho na gaveta 11, para uma eventualidade e o resto está noutro lado.

 

O segundo segredo é:

- cortar tiras de feltro.

- com a pistola de cola quente colar as laterais e o meio.

- depois é só colocar na gaveta e arrumar o conteúdo nestas pequenas bolsas.

 

gaveta.jpg

Aqui está a minha gaveta de camisolas de alcinhas.

Também uso este método na gaveta das meias e na roupa interior.

Podem ver neste vídeo uma demonstração.

É parecido com o que fiz.

Só que eu fiz dois a dois e neste caso colam várias folhas de feltro juntas.

Não uso o feltro com 20 cm de altura como no vídeo. Uso conforme as peças.

Aqui para as camisolas sim. Se forem peças mais lingrinhas 10 cm é suficiente.

O meu método é mais flexível e dá para adaptar a várias gavetas e a várias peças.

Como podem ver, estou mesmo armada.

Em parva!

Nada de novo....na quiosquolândia!

 

11
Mai17

a segunda aula de norueguês...

Joana Marques

Saí diretamente do trabalho para a aula.

Cheguei muito cedo.

Sinto alguém a correr atrás de mim.

São os irmãos nepaleses da minha primeira aula. A eles juntam-se os gregos.

Dão-me beijinhos. E mostram-me as mochilas novas que receberam.

Um deles mostra-me contente um carrinho miniatura que um amiguinho norueguês lhe tinha dado.

Um pequeno tesouro. Lembrei-me dos meus sobrinhos que têm um quarto cheio de bugigangas que não ligam nenhuma...

Na relva do jardim. Acabamos os cinco a comer framboesas e nozes que eu tinha para comer antes da aula começar.

 

Quando faltavam 10 minutos para a aula, despedi-me deles e subi.

Fiquei à porta.

Lá nos deixaram entrar. Sentei-me do lado da janela na segunda carteira.

O mais atenta possível. Tenho mesmo, mesmo de passar no exame.

Não me está nada a apetecer pagar as aulas de História de Arte. As coisas onde eu me meto...

 

Somos 16.

Tenho ideia que na maioria são refugiados que estão a recomeçar a vida na Noruega.

Duas brasileiras.

Um americano.

Não sei nada sobre ninguém porque na aula das apresentações estava na turma errada.

E um professor. Muito amigável.

 

Agora quem está confusa sou eu.

Já me tinha conformado a tratar os homens como pedras da calçada.

Este parece uma pessoa normal.

Deu-me as boas vindas. Verificou o dossier que me tinham dado. Tinha exercícios para putos. Trocou algumas folhas.

Eu com um ar de poucos amigos. Porque fiquei traumatizada com a história do Hans.

 

O professor iniciou a aula. Muito mais dinâmico que a professora que tive a semana passada.

15 alunos concentradíssimos.

Eu incluída.

Eu não quero pagar as aulas de História de Arte.

Eu não quero pagar as aulas de História de Arte.

Eu não quero pagar as aulas de História de Arte.....

Os outros 14 porque devem querer ficar no país em definitivo e por isso têm de passar no exame. Têm 5 anos para o fazer mas segundo percebi as duas brasileiras já lá estão há algum tempo.

E depois temos a barbie. A barbie americana.

Chama-se Sam e deve achar que é a última bolacha do pacote.

Burro.

De todos nós foi o único que falhou exercícios. É claro que fomos ajudados. Mas estávamos nos a esforçar.

Ele, ao contrário. Como não conseguia.

Abanava o cabelo.

Ria-se.

E gozava com o professor.

E começou a gozar com um dos refugiados.

Tivemos a aprender palavras com várias vogais para começarmos a perceber quando se usa um som curto e um longo.

A criatura sabotou completamente a aula.

O professor falou com ele. E ele ainda se ria mais.

 

É claro que dá vontade de rir.

Uma pessoa para ali a fazer...

...em voz alta e em público uns sons...parece que saídos de um estômago que acabou de levar com meio litro de uma bebida qualquer gaseificada, made in China..

E rimos. Todos. E o professor também se riu. Mas nenhum de nós se rio do colega do lado.

Rimos de nós próprios de uma forma normal.

 

Fizemos exercícios escritos. E a aula acabou.

E a barbie. Abanou o cabelo. Riu-se. Pavoneou-se mais uma vez. E diz em voz alta...

- Olha tu, que és gira, queres sair?

E eu olho para ele e digo.

- No. Sorry. I don't go out with stupid people...

Desapareceu que foi uma beleza. Pode ser que não volte....

 

E sim, eu sou bruta muitas vezes...

 

11
Mai17

a minha primeira aula de norueguês...em emojis!

Joana Marques

Falo por mim. Já tinha saudades.

Se não leram o post da minha primeira aula de norueguês devem lê-lo com urgência. (Aqui)

Se leram, então estão aptos para acompanhar a história, maravilhosamente contada pelo João.

emoji (1).jpg

 

Se querem saber como correu a minha segunda aula de norueguês...têm de esperar só mais um bocadinho.

Mal de nada...

Menos de um danoninho....

 

10
Mai17

lost in translation...

Joana Marques

Trabalho no departamento financeiro.

Os departamentos estão divididos e onde trabalho, somos 11 pessoas, a contar com a minha chefe e comigo.

São 6 homens e 5 mulheres. Todos casados, excepto o Hans e eu.

 

Chego à Noruega. A pensar que estou em casa...

E no primeiro dia de trabalho trato de falar com toda a gente.

Sorrir a toda a gente.

Contar piadas a toda a gente. E a rir-me. Que é algo que eu sei fazer bem...

 

No final do dia 1, o Hans convidou-me para sair.

Estranhei. Disse que não.

 

A minha vidinha continuou. A tentar adaptar-me.

Continuei a ser eu própria. A falar com as pessoas. A tentar quebrar o gelo na hora de almoço.

No dia 3, Hans oferece-me chocolates.

- Não vais abrir e experimentar?

Claro que não. Sou paleo, meu amigo. Lá como bombons...que não sejam feitos por mim...

 

No dia seguinte convidou-me para sair outra vez. Voltei a dizer que não.

Que seca.

Que chato.

Pensei. Será que este homem se anda a picar com a água da sanita??

 

Joana, sempre a dar o ar de sua graça no trabalho.

A falar. A falar muito. A dizer olá. E adeus. E coisas....

Hans oferece-me flores.

Não queria acreditar. Flores???

Estava enganada.

Este homem não se anda a picar com a água da sanita, este homem anda-se a picar com a água da ETAR de Alcântara....

 

Peguei no Hans e disse-lhe para parar. Não estava interessada.

- Por favor, não insistas. Não vai acontecer.

Fez um ar. Parece que lhe tinha dito: olha a Noruega ficou pobre e a partir de agora vais ter de te governar com 600€ por mês.

 

Um dia, estava eu no supermercado e vi o Hans.

Olha o Hans!

Voltei a ser eu própria.

- Olá! Está tudo bem. Digo alto e a gesticular.

Hans virou as costas.

- Não me viu. Pensei.

 

Não faço mais nada. Encurralo o Hans entre a arca dos congelados e o armário das garrafas.

- Olá, como estás?

-

O pobre Hans fez um ar confuso.

Que feitiozinho que este homem tem. Credo!

 

No dia seguinte, no trabalho, Hans aparece-me no gabinete. Oferece-me um bonequinho de peluche.

- Ó valha me Deus. Será que eu irritei assim tanto São Pedro que mereço???

Voltei a dizer ao Hans. Que não. Não valia a pena.

-

Outra vez um ar completamente incrédulo.

 

Daí a uns dias, contei a história a uma colombiana que trabalha aqui.

- Joana. Já viste como falas com as pessoas? A maneira como falas, olhas nos olhos e sorris estás a dar a indicação de que estás disponível. Aqui os homens avançam se as mulheres se mostrarem disponíveis. E mostrar disponível aqui é falar, sorrir ou olhar diretamente para a pessoa. A não ser que estejam bêbados. O Hans estava bêbado?

Bêbado? Não. Duvido que a ETAR de Alcântara proporcione aos seus clientes aguardente canalizada.

 

Percebi porque é que aqui só se fala o mínimo indispensável. E só de trabalho. Ninguém está interessado em ninguém.

A não ser eu que pelos vistos estou a pensar em arranjar um harém....

 

E a partir de agora não falo com ninguém.

Quando preciso de alguma coisa...recorro ao email.

Tudo por escrito.

T-U-D-O   P-O-R    E-S-C-R-I-T-O!

 

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