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Quiosque da Joana

07.02.18

Um sorriso, uma gargalhada e uns olhinhos encantadores...

Joana Marques

skype. É um instrumento fundamental para quem trabalha em casa.

Uso-o muitas vezes. Normalmente, para falar com o meu chefe que está em Inglaterra.

Hoje tinha uma reunião marcada.

Pontualidade britânica. Nem um minuto a mais. Nem um minuto a menos.

Ali estávamos nós a "discutir" detalhes, sobre o projeto que tenho em mãos. Angola.

Um ar sério. Dele.

Um ar sério. meu.

 

Dados, muitos números. Conclusões. Que já tenho. Embora tenha trabalhado ainda pouco no projeto.

 

E. Do outro lado.

O meu chefe mostra um sorriso de orelha a orelha.

Olhei, outra vez. Para confirmar que não estava a ver coisas...

O meu chefe começa a rir às gargalhadas.

- Será que meti o pé na argola e disse uma blasfémia qualquer. Em inglês?

- Será que não reparei e comecei a falar em português com ele?

- Oh! Não! Será que disse aquela palavra começada por F? Caneco...

 

Não.

Ao meu lado.

Mesmo, mesmo colado a mim.

De pé.

Com as patas em cima da secretária.

Estava o cão.

Com a língua de fora.

Um sorriso brutal.

A fazer olhinhos ao meu chefe.

....

 

07.02.18

vezes 4!

Joana Marques

O Vasco detesta calor.

Aqueles dias muito quentes. Abafados. E escaldantes. Dão cabo dele.

Anda aos caídos. Com um humor de cão.

Adaptou-se bem à Noruega. Muito bem. Demasiado bem. Tenho ideia que foi o clima fresquinho que o ajudou.

 

Esta semana. Tem estado muito frio.

Para poupar a Alice do frio mudei um pouco a rotina.

Na segunda feira ficou comigo.

Trabalhei durante as sestas dela.

E como adormece entre as 19h e as 20h. Trabalhei a partir dessa hora.

Na terça feira tive de a ir deixar nos meus pais. Mas, saí de casa só às 10h. Já aquele frio da manhã se tinha ido embora.

Estava frio, mas às 7h da manhã é bem mais agreste.

 

Hoje tive de a deixar cedo.

Enquanto a estava a preparar. E a transformar uma menina de 9 meses no abominável homem das neves.

Roupa mais roupa e mais roupa. Via-se o nariz e pouco mais.

Vasco o cão. Foi dando sinais que também queria sair.

Até porque precisava de fazer o seu xixi e cocó matinal.

 

Estou ainda a morar na casa do meu irmão.

O prédio do meu irmão tem 4 andares. E cada família ocupa um piso.

A casa do meu irmão é no rés do chão. E tem porta diretamente para o jardim do condomínio.

O carro é estacionado quase à porta de casa dentro do condomínio.

 

Saí com a Alice e o Vasco. Fecho a porta.

E o Vasco fica no tapete da entrada.

Põe uma pata na relva. E chora.

Tira a pata da relva.

Experimenta com a outra. E guincha.

Queria fazer xixi. Queria fazer cocó. Mas sem ficar com as patas enregeladas.

Lá conseguiu. Com uma mestria nunca vista.

Fez o xixi mesmo, mesmo perto do tapete. E o cocó.....também.

Um exercício de equilibrio só à altura de grandes Vascos.

 

Mas, ele queria ir para o carro. E entrar no carro implicava andar. E andar implicava pisar o chão. E o chão estava frio.

E.....

-Não! Não ponho as patas nesse chão.

Desvalorizei. Ignorei.

- JOANA! Não ponho as minhas patas nesse chão.

Choradeira. Aflição.

Abri o carro.

Coloquei a Alice na cadeirinha.

 

O drama. O horror. A tragédia. Estavam naquele tapete.

Os olhos diziam tudo.

Passou o meu vizinho de cima.

Aquele, que tem um peixe em casa. Diferente, do que tinha anteriormente. Vocês sabem do que é que eu estou a falar...

- O que é que se passa?

- O cão está com frio.

- Só isso? Parece tão aflito...

- Só isso.

 

Com tanta choradeira. Apareceu à janela uma vizinha do rés do chão do prédio ao lado.

- Ah! Coitadinho! O que é que ele tem??

- O chão está gelado. E ele sente frio nas patas.

Digo eu, sem fazer grande alarido. A arrumar uma quantidade de tralha no carro.

- Não sei se será bem isso...

Diz o meu vizinho, que ficou a ver o desfecho do caso do cão enregelado.

 

Volto ao tapete.

Uma lamuria só.

Pego nos 30 kg de cão.

Deposito-o no carro.

Era uma vez um cão feliz da vida....

Era uma vez dois vizinhos boquiabertos...por verem um cão a ser Vasco...

 

Cheguei a casa dos meus pais.

O meu pai veio cá fora para me ajudar.

Abri a porta do carro.

O cão saiu do carro?

Claro que não...

Tirei a Alice. Passei-a ao meu pai.

E depois, tirei o Vasco. Ao colo....

 

O mais chato é que quis voltar comigo.

E eu, voltei a pegar nele. A pôr no carro.

O meu pai só se ria.

 

Quando cheguei a Cascais.

Recusou-se a sair do carro.

Eu bem lhe disse.

- Vá, desce! Já não está tanto frio!!

A minha capacidade de persuasão anda uma lástima....e aqui está a prova...

30 kg. Outra vez.

 

Com isto tudo.

Parece-me que encontrei o meu próximo projeto de tricot....

.....vezes 4!

02.02.18

tough little girl...

Joana Marques

Vasco.

Está histérico. E louco de felicidade.

Não trabalhei hoje. Estive o dia todo com ele e com a Alice.

Passeámos sem pressas.

Fomos à praia. Fomos ao jardim.

Almoçámos.

Dormiram os dois a sesta de manhã e de tarde.

E como se proporcionou. O Vasco aprendeu uma habilidade nova.

 

Sentei a Alice no chão.

Fiz-lhe origamis de várias figuras e com papel colorido.

E ela diverte-se a olhar para eles.

E a pôr e a tirar os origamis de dentro de uma caixa.

É uma brincadeira tão simples e que ela adora.

O Vasco, apareceu de repente. E tirou-lhe a chucha.

Fugiu.

Ficou entre a porta do quarto com a chucha.

- Nha nha nha...eu tenho a chucha e tu não.

A Alice.

Primeiro ficou meia atarantada.

- O que é que aconteceu? O que é que aconteceu?

Depois percebe.

Olha para o Vasco.

E ri-se que nem uma perdida.

E faz-se à estrada. A gatinhar tenta recuperar o que lhe pertence.

O cão com a alegria e a loucura deixa cair a chucha no chão.

Eu apanho e dou uma limpinha à Alice.

 

Continuamos nas nossas brincadeiras.

E o Vasco ronda. Rouba uma meia à Alice.

A Alice ri-se às gargalhadas.

 

O Vasco olha para as minhas meias.

Não teve coragem.....

02.02.18

stop! Ninguém pára o Vasco...

Joana Marques

Perto da casa dos meus pais há um sinal de stop.

Segundo os meus pais, sempre que o Vasco está em casa deles e eu paro no sinal de stop o Vasco sabe que estou a chegar.

E vai para o pé da porta.

Esta situação tem-me deixado muito apreensiva. Devo confessar.

Ou ando a pôr perfume a mais. Ou o meu odor corporal, já teve melhores dias.

 

Ontem também parei no stop.

 E lá aconteceu.

Os meus pais estavam na sala a ver televisão.

E de repente saiu do escritório um cão a alta velocidade.

Derrapou no chão de madeira.

Bateu na porta da cozinha.

- A Joana chegou.

 

Ainda fui deixar a minha irmã a casa dela.

Mora perto dos meus pais.

Entrei para cumprimentar o meu cunhado, o meu sobrinho Pedro e a minha sobrinha Inês.

Numa casa bem perto, um cão dava saltos, ladrava e dizia:

- A Joana vem aí, a Joana vem aí. O que fazem aí parados...a Joana vem aí!

Uma pessoa até acha que é importante.

Nem o presidente da junta tem este tipo de recepção.

 

Cheguei por volta das 22h.

Estacionei o carro.

Ainda não tinha saído do carro já o ouvia.

Mais. Já o via.

Se espreitasse pelo muro. Via, pela janela, um vulto de qualquer coisa aos saltos.

Era o Vasco.

Os meus pais abriram a porta.

E ninguém pára o Vasco....

Num momento estava a abrir o portão. No outro tinha um cão de 30 kg ao colo. A lamber-me a cara.

 E já não houve Joana para ninguém. Ele não deixou.

Não consegui cumprimentar o meu pai nem a minha mãe convenientemente....é por estas e por outras que eu vou acabar solteirona...

 

A Alice já estava a dormir. E não acordou com o alarido. O que parece mentira.

Acabei por ficar a dormir em casa dos meus pais. Com companhia...claro!

Hoje de manhã tinha 30 kg em cima das minhas costas. E um focinho colocado no meu pescoço...

 

Mal acordei fui logo ao quarto da pequena.

Queria ver a Alice acordar.

E vi.

Lá estava eu. E o cão. De sentinela.

A olhar para ela.

Quando me viu. Fez o sorriso mais bonito que eu já vi.

E eu....

....eu chorei como uma Madalena...

 

 

 

30.01.18

em Portugal...

Joana Marques

A Alice já nem se lembra que tem uma mãe.

Está feliz da vida com os meus pais.

Rotinas iguais.

Continua a comer bem.

A gostar de brincar com o boneco preferido. O elefante que mexe as orelhas.

Gosta que lhe leiam um livro. Gosta muito de estar ao colo.

Gatinha a alta velocidade.

Continua a mesma estouvada. A mergulhar de cabeça onde não deve. É de borracha.

 

Por outro lado.

Temos o outro filho. O que se lembra de mim.

Não come. Ou mal come.

Só se lhe derem biscoitos à boca. Se for obrigado...

A água também tem de ser dada quase à força.

Está esteirado no sofá do escritório.

E embrulhado porque treme frequentemente.

Chora.

vasco1s.jpg

Saí exausta de Portugal. Por causa dele.

Estava capaz de o deserdar....mas acho que lhe vou perdoar outra vez...

...é a última vez...a partir de agora vou ser muito mais rígida com ele...

ou não me chamo Vasquina....

 

27.01.18

O sonho. E a realidade.

Joana Marques

Estou de partida para Nova Iorque.

A semana que passou foi de loucos.

Aquelas coisas que costumo deixar para sexta à tarde e para o fim de semana foram feitas ao longo da semana.

Lavar a roupa. Passar a ferro. Trocar as camas. Limpezas.

Hoje tinha planos.

 

o sonho

Aproveitar a manhã para fazer a mala.

A Alice ia acordar por volta das 7.

 Pequeno almoço.

Sair com ela e com o cão. Dar uma volta aqui pelas redondezas.

Voltar a casa.

Brincar um bocadinho com ela.

Adormece-la.

Almoçar antes dela acordar.

Quando ela acordasse dava-lhe o almoço.

Pegava nela e no Vasco e ia até casa dos meus pais.

Ia enviar uma mensagem ao meu pai para ele vir cá fora ajudar-me com a tralha.

Ia ler um livro à Alice. Até ela adormecer.

Ficava lá por casa. Ou ia passear o cão.

A Alice ia acordar. Ia dar-lhe o lanche.

E íamos brincar. O cão devia juntar-se à brincadeira. E o meu pai também.

Banho. E logo a seguir o jantar.

Ultima história do dia. Ia adormece-la.

Deita-la.

Ia ficar a vê-la dormir.

Ia passear com o Vasco.

E de seguida, jantar com os meus pais.

Sporting.

E ia para casa.

Amanhã. Nova Iorque.

Seria uma transição suave para a Alice. Para não ser traumático para ela.

Já teve tantas mudanças na vida.

 

a realidade

 

Fui acordada pelo cão. Como de costume.

Cedo. Como eu gosto.

Fui espreitar a Alice.

O cão viu qualquer coisa que o inquietou e desatou a ladrar que nem um tarado.

A Alice acordou, com a barulheira.

5h30 da manhã. Já não dormiu mais.

Bonito! Não tomei banho. Não tomei o pequeno almoço. E a mala feita....só na minha imaginação.

A Alice chorava que nem uma Madalena. E o cão ladrava. E eu só pensava nos vizinhos...

Tratei da Alice. Dei-lhe o pequeno almoço.

O cão precisava mesmo de ir à rua.

Estava frio.

Enchouricei a miúda dentro da roupa. Enchouricei-me a mim também.

Alice no carrinho. A reclamar.

Não estava nos dias dela.

O cão feliz da vida. Formoso e seguro. Pelas ruas.

Xixi aqui. Xixi ali. A vida é uma festa.

Cocó. A vida é uma festa mas às vezes cheira mal.

 

Voltei a casa. A Alice sempre meio chorosa.

Embalei-a.

Ainda não tinha tomado banho. Ainda não tinha tomado o pequeno almoço.

A Alice adormeceu. Mas quando a deixei na cama. Começou a chorar outra vez.

Dei-lhe sopa. Quentinha. Embalei-a.

Dormiu.

 

Fui tomar banho.

Tomei, finalmente o pequeno almoço. Às 11h da manhã.

 

Quando olhei. Vejo o cão. Rabo a abanicar. Feliz da vida. Com qualquer coisa dentro da boca.

Nem quero acreditar. Quando olho e vejo que é uma cápsula de detergente da loiça.

Tinha a máquina pronta. E já tinha posto a cápsula. Ele conseguiu tirá-la de lá.

Ainda esta semana falei disto.

As minha preocupações estavam certas. Um dos meus filhos andava a dar forte e feio no detergente.

Fui com muito cuidado. Em câmara lenta ter com ele. Para o agarrar.

Movimentos bruscos, assustam-no.

Quando estava quase, quase, quase....ele fugiu. Ó céus....

Quando fugiu. Bruscamente. E com a humidade da boca. E o calor.

Com mil Slimanis. A cápsula rompeu.

Saltei para cima dele. E com as minhas pernas a fazer de alicate.

Segurei o cão com as pernas...até porque estou cheia de força nas pernas.

Abri-lhe a boca.

Tirei-lhe a cápsula.

Obriguei-o a ir até à casa de banho. Arrastei-o...

Escancarei-lhe a boca.

Lavei-lhe a boca. Língua. Dentes.

Para lhe tirar o detergente.

A fuga. Tinha sido pequena.

O dano foi enorme.

Devo ter tocado num ponto sensível da garganta do cão. Logo a seguir fui apanhada numa avalanche de vómito.

A vida é uma festa, às vezes é mal cheirosa e é sempre imprevisível.

Vasco no seu melhor. Estava aterrorizado. E a tremer.

 

A Alice acordou.

Lá me limpei como consegui. Troquei de camisola. E fui ter com ela.

Dei-lhe o almoço.

Vasco. Inconsolável no sofá da sala..

Bonito. Um cão sujo...no sofá da sala.

Vasco. A tremer no sofá da sala.

 

Liguei ao veterinário a contar. Sossegou-me. Se vomitou e tudo. Não tinha nada de detergente. Era fita.

- Fita?? O Vasco....estranho!

Os meus pais ligaram.

Tinha-me esquecido de avisar. Que os planos tinham mudado.

O meu pai disse para não me preocupar. Que passava por aqui e levava a Alice. Antes da sesta da tarde.

 

Apareceu o meu pai.

A Alice saiu a chorar.

Eu fiquei de coração partido.

Não era nada disto que tinha idealizado.

Dediquei-me ao cão. Tinha de conseguir consertar o cão estragado.

Fiz festinhas.

Dei beijinhos.

Ficou ao meu colo.

Dei comida.

E fiz festinhas.

Limpei-o.

Falei-lhe ao ouvido.

Disse-lhe que gostava muito dele.

Disse-lhe que era o melhor cão do mundo.

E que a minha vida sem ele não tinha graça.

Dei biscoitos dos dentes.

Fiz festinhas.

Convidei-o a ir dar um passeio.

Ele foi. Muito devagarinho. Parecia um cão velhinho. E chorava. Muito.

Fiz festinhas.

Fez xixi. E cocó.

Voltámos para casa. A uma velocidade. 1 m por minuto.

Dei-lhe banho. Sequei-o.

Voltou a deitar-se no sofá da sala. Mais calmo. E já sem tremer. Mas ainda combalido.

Descongelei. No micro-ondas. O meu principal trunfo.

O frango assado.

Chamei-o. Comeu alarvemente. E com satisfação.

Fiz festinhas.

Dei-lhe beijinhos.

Eram 20h quando o deixei em casa dos meus pais.

A Alice já estava a dormir.

E lembrei-me agora que ainda não almocei....

 

 

24.01.18

desrespeito à autoridade..

Joana Marques

Hoje de manhã o cão armou-se em fino. E pela primeira vez desde que a Alice cá está quis ficar em casa.

Antecipei-me e pus #rumário em cima do móvel. Onde o primo morreu...

Não se assustem que #rumário não vai morrer. Coloquei um lembrete no telemóvel a dizer...

- Não te esqueças do peixe, palerma.

Tem resultado. #rumário, não se manifesta muito, mas parece feliz.

 

Saí eu com a Alice, o Vasco ficou.

Regressei a casa. Comecei a trabalhar...

E o Vasco mudou-se da sala para o escritório e ali esteve. Eu a trabalhar. Ele a dormir.

Sim, senhor. Vida de cão. A escrava que trabalhe.

 

A escrava almoçou em casa.

A escrava foi passear o cão.

A escrava voltou a trabalhar.

 

Às 16h decidi ir buscar a Alice.

Peguei nas chaves do carro. E tive companhia. Estava doido de alegria. Passear de carro. Olé!

Entrou para o carro. Depois entrei eu.

E aí vamos nós.

Quase a chegar a casa dos meus pais, estava uma rua cortada num dos sentidos. Pareceu-me estarem a arranjar um candeeiro.

Ainda estive parada, em fila.

Um polícia coordenava o trânsito.

Fez um sinal para os carros que estavam na minha faixa avançarem.

E nós, devagar, devagarinho lá fomos.

O Vasco, doido de alegria.

 

Passei pelo polícia. Estava virado de costas para falar com um dos senhores das obras.

Carro parado. Janela aberta. Vasco com a cabeça de fora.

O cão enche os pulmões de ar.

Encosta o focinho à cabeça do polícia.

E ladra mais alto que os metallica em concerto.

O polícia com o susto atirou um salto e foi contra uma barreira.

 

Ainda pensei fechar as janelas. Não abrir as portas. E fugir, fugir, fugir...

Podia ser que ninguém me encontrasse....no Canadá.

Mas, não. Saí do carro. À espera de um raspanete e de uma multa por excesso de barulho. É que aquele ladrar, de certeza, ultrapassou os níveis legais de decibéis.

Tive sorte.

O polícia não levou a mal.

E o Vasco ainda foi contemplado com uma quantidade de festas...

...há pessoas simpáticas

 

 

20.01.18

o juramento...

Joana Marques

Quando tinha 8 anos.

Na escola. Tinha dois grandes amigos.

A Cátia e o Miguel.

Andávamos sempre juntos. Éramos unha com carne.

O pai do Miguel trabalhava numa empresa espanhola e passava cada vez mais tempo em Espanha.

Um sábado de manhã fui às compras com a minha mãe e encontrámos a mãe do Miguel.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe que era provável daí a uns tempos irem todos viver para Espanha porque o marido passava a maior parte do tempo lá.

Não disse nada ao Miguel. Mas ele sabia.

 

Dividíamos os trabalhos de casa. E antes da escola começar encontrava-me com eles e trocávamos os tpc's.

Se tínhamos 3 contas para fazer, cada um fazia uma e depois era só copiar.

Uma tática infalível. Só usada pelos melhores amigos, os que podemos confiar.

Sabemos que no quinto aperto não contam nada a ninguém quanto mais no primeiro.

E nós sabíamos que em caso de desconfiança, os adultos não tinham tempo de nos apertar até à morte...

 

Entre a cópia, a conta de multiplicar e a de dividir o Miguel disse-nos que ia morar para Espanha.

Chorámos os três.

E nesse dia chorámos outra vez. Porque não fizemos os trabalhos de casa como deve ser e a professora contou aos nossos pais.

Foi um dia dos diabos.

 

No dia seguinte o Miguel disse-nos que tínhamos de jurar que íamos ficar sempre amigos.

-Sim, juramos. Respondi eu e a Cátia.

- Não é assim que se jura. Disse o Miguel.

- Como é que se jura?

 

O Miguel explicou-nos. Tínhamos de cuspir na mão. E com um aperto de mão, como faziam os homens, selar o juramento.

Numa fase em que tudo me dava volta ao estômago, incluindo os beijos na boca.

Tive de me abstrair bastante para fazer tal coisa.

- Tens a certeza que é assim?

- Tenho. Vi num filme com o meu irmão.

O Miguel tinha um irmão fixe. O meu só servia para me roubar o tulicreme do pão.

 

O juramento funcionou. Somos amigos até hoje.

A Cátia nunca saiu da minha beira.

O Miguel foi para Espanha. E depois para Inglaterra. Mas acabava sempre por vê-lo nas férias de Natal. Vivíamos próximo.

Perdi contacto com o Miguel quando comecei a trabalhar e saí de casa. E os meus pais saíram de Campo de Ourique e mudaram de telefone fixo.

Só que a vida dá voltas e voltas. E quando eu pensava que nunca mais o ia ver.

No Natal de 2012 em pleno Colombo. E com milhares de pessoas lá dentro. Alguém me bate no ombro. Era o Miguel.

Jantámos, nesse dia. E ele contou-me que estava a viver na Nova Zelândia. E que ia ficar por um mês em Portugal, depois voltaria.

Convidei-o para jantar em minha casa. Convidei a Cátia, claro! E uma outra amiga minha, a Raquel.

Nesse dia o Miguel apaixonou-se pela Raquel e a Raquel pelo Miguel.

Nunca mais se largaram.

Ele voltou para a Nova Zelândia. Mas regressou três meses depois. Casaram. E são felizes.

Actualmente, vivem na Nova Zelândia, e têm dois filhos...Sportinguistas.

 

 

Hoje de manhã. Acordei.

E fiz o que tenho feito neste último mês.

Vou espreitar o berço da Alice.

Gosto de olhar para ela.

 

Olho para ela.

Sinto-me uma sortuda.

E agradecida.

Alguém que eu não conheço.  Achou que merecia ser abençoada desta maneira.

Não mudava nada nela.

Porque é perfeita.

 

Desperto.

Os meus pensamentos são interrompidos por um bafo quente e húmido.

Enquanto eu olhava para ela por cima do berço.

O Vasco olhava para ela pelas grades da cama.

Os dois em silêncio a zelar pelo sono dela.

 

Acordou.

Viu-nos.

Riu-se tanto que até os olhos se fecharam outra vez.

Deu-me os braços para a tirar da cama.

 

Peguei nela.

E sentei-me num cadeirão.

Com ela ao colo.

O Vasco pôs a cabeça no meu colo em cima dos pés da Alice.

Com o braço esquerdo segurei a Alice.

Com o direito fiz festas ao cão.

 

Os 3.

Geneticamente diferentes.

Unidos pelo amor. Para sempre.

Um juramento selado....

 .....por aquele ribeiro de cuspo...saido diretamente da boca do cão.

 

 

19.01.18

o trolley...

Joana Marques

Uma vida passada a viajar e a trabalhar em aviões percebi que tanto mulheres como homens viajam cheios de tralha.

Não todos. Claro! Mas a maioria.

 

Quando viajo gosto de ir leve.

Só o indispensável tem lugar. E mesmo assim, muitas vezes fica de fora...

Por exemplo, não levo maquilhagem nenhuma. Até porque não uso muito no dia a dia.

Quando viajo é absolutamente desnecessária.

Levo roupa escolhida a dedo. Que ocupe pouco espaço. E que se lave facilmente.

Nunca levo 3 ou 4 biquínis, por exemplo. Escolho um e já está.

Já viajei com amigas que levavam um look diferente para todos os dias.

Secador de cabelo e cheguei a viajar com pessoas que levavam o ferro de engomar.

E sapatos. Muito sapatos. O champô e o amaciador que usam. E o creme hidratante. E mais uma quantidade de coisas completamente desnecessárias.

Fazer uma mala destas deve ser um pesadelo. E desfazê-la ainda pior.

Detesto desfazer malas...para mim é o pior da viagem.

 

 

Estou para ir passar o fim de semana ao Alentejo.

E rapidamente percebi que vou cheia de tralha.

A Alice é em parte responsável pelo acréscimo. É uma bebé e eu tenho de prever algumas situações.

Mas com a tralha da Alice posso eu bem. O pior é a tralha da diva aqui de casa. O cão.

É o ursinho. E o coelhinho.

Um boneco em forma de frango que os meus tios lhe ofereceram, faz muito barulho mas não passa sem ele.

A cama.

A comida normal.

Os biscoitos preferidos. Porque pode ver uma aranha e descompensar.

Os biscoitos dos dentes. Porque pode ver uma osga e descompensar.

Uma caixinha com frango assado. Porque pode ver uma osga e uma aranha e enfartar.

A trela/coleira azul que é a preferida e às vezes recusa-se a sair sem ela.

Umas gotas que está pôr nos olhos.

E umas gotas para os ouvidos em caso de se queixar.

Medicação para o ouvido porque pode precisar de medicação mais forte em caso das gotas não funcionarem.

Champô porque é mais do que certo que se vai embodegar.

E a escova porque quando se embodegar vai dar jeito tê-la por perto.

 

Para mim, vai um saquinho de mão.

Para Alice, uma mochila.

Para o cão vai um trolley.

Bom fim de semana.

 

17.01.18

à beira de um ataque de nervos. O cão!

Joana Marques

Desde que o Vasco é gente passei a ter cuidado com o telemóvel.

Depois de vários comidos, desmembrados e atirados pela janela passei a ter cuidados extremos.

Mas...

...às vezes escapa...

Com a Alice ainda escapa mais vezes. Se precisa da minha atenção, deixo tudo incluindo, o telemóvel

Deixo assim o bichinho à mercê do BICHO!

 

Na segunda feira o meu telemóvel desapareceu repentinamente.

A Alice acordou da sua sesta da tarde. E eu fui ter com ela.

Num segundo estava em cima de uma mesa de apoio e no segundo seguinte já não estava.

Tinha a certeza absoluta que o tinha deixado em cima da mesa.

O culpado. O Vasco.

Chamei-o. E perguntei-lhe...

- Vasco, onde é que está o meu telemóvel??

- Não sei de nada. Não vi nada. E tenho raiva de quem sabe.

 

Suspirei. E comecei à procura do telemóvel.

Desisti logo. A Alice precisava de mim e um telemóvel é só um telemóvel.

Pensei que o iria encontrar, um dia destes.  Provavelmente partes dele. Se olhasse com muita atenção talvez detetasse algum vestígio no cocó do bicho papão. Foi isso que aconteceu ao meu ipad....uma parte dele acabou numa rua de Carcavelos embrulhado em caca de cão...

 

Tratei da Alice.

Fralda.

Lanche.

Fui passear o cão à rua. Com a Alice.

Voltei a casa. E insisti.

- Vasco, mostra lá à dona, onde está o telemóvel??

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

- Vasquinho, querido...por favor.

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

Alimentei o cão.

Dei banho à Alice. O cão já ressonava.

Brinquei com a Alice. O cão sonâmbulo juntou-se a nós no quarto. E dormiu.

Deixei a Alice na cadeirinha e comecei a preparar o jantar dela. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na cozinha. E dormiu.

Sim, o cão tem camas em praticamente todas as divisões...ou sofás!

A Alice jantou.

Fomos para a sala. E li-lhe uma história. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na sala. E dormiu.

A Alice começou a fechar os olhos. Deitei-a...

 

- Agora sou só tu e eu...mafarrico! Onde é que está o TELEMÓVEL!

- Outraaaaaaaa vez a mesma conversaaaaaa. Teeeeeeenho taaaaaaaantooooooo sooooooooooonooooo.

É assim que ele me trata...com desprezo, mesmo desprezo....

 

Desisti. Liguei aos meus pais pelo telefone fixo a dizer que não tinha telemóvel.

 

Recebi uma mensagem via messenger de um amigo meu e lá lhe conto o meu karma....

- Já experimentaste ligar para o telemóvel???

- Não...não me ocorreu...CLARO que já liguei. Está no silencio por causa da Alice.

- Ah...pois...olha lá, não tens antivírus no computador?

- Tenho...

- E tens o telemóvel na mesma conta?

- Sim, tenho o telemóvel, o portátil e o mini portátil...

- Vê na página deles como localizar o telemóvel, pode ser que te safes!

 

Fui até à página da mcafee e entrei na minha conta.

Selecionei o meu telemóvel. Nem sei muito bem o que raio fiz. Andei por lá meio perdida.

Cheguei a uma página que dava a localização do meu telemóvel. Não me ajudou nada porque eu sabia onde ele estava. Sabia que estava em casa. Dentro ou fora da barriga do cão, essa era a questão.

Apareceu-me um botão azul, no site. Cliquei.

E de repente. Um alarme tocou em minha casa. Um alarme como deve ser.

E percebi que o telemóvel estava dentro da cama do Vasco. O Vasco estava a dormir por cima dele.

O Vasco apanhou o susto maior da vida. A dormir deliciado da vida. Só vi o cão dar um salto. Parecia um atleta do salto à vara.

 

 

A Alice acordou assustada com o alarme.

O Vasco ficou assustado com o alarme.

Eu recuperei o telemóvel. 

 

 

A Alice voltou a dormir passados 10 minutos. Em paz...

O Vasco ficou a tremelicar.

E a chorar.

Não saiu do pé de mim.

Enquanto estive na sala aconchegou-se a mim. Sempre a tremer numa grande lamuria...

Dei-lhe mais comida. Os biscoitos preferidos. Nada...

Dei-lhe os biscoitos dos dentes que ele adora. Nada...

Dei-lhe frango assado que ele idolatra. Nada...

Ou melhor. Tudo. Comeu tudo. Continuava a tremer e a chorar.

Dei beijinhos. Fiz festinhas. Tremideira. E choro.

 

Ficou com medo da cama que estava no escritório. E quando teve de passar pela porta do escritório. Quase enfartou.

 

Quando me deitei. Ele deitou-se comigo.

Tive uma noite maravilhosa. Com um cão agarrado a mim. E a chorar no meu ouvido.

 

 

Só adormeceu na manhã seguinte.

Quando eu peguei na cama e a fechei no porta bagagem.

Não voltou a dormir no escritório. Não vá o malandro do escritório passar-se e começar aos guinchos....

 

 

Joana Marques

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