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Quiosque da Joana

30.01.18

em Portugal...

Joana Marques

A Alice já nem se lembra que tem uma mãe.

Está feliz da vida com os meus pais.

Rotinas iguais.

Continua a comer bem.

A gostar de brincar com o boneco preferido. O elefante que mexe as orelhas.

Gosta que lhe leiam um livro. Gosta muito de estar ao colo.

Gatinha a alta velocidade.

Continua a mesma estouvada. A mergulhar de cabeça onde não deve. É de borracha.

 

Por outro lado.

Temos o outro filho. O que se lembra de mim.

Não come. Ou mal come.

Só se lhe derem biscoitos à boca. Se for obrigado...

A água também tem de ser dada quase à força.

Está esteirado no sofá do escritório.

E embrulhado porque treme frequentemente.

Chora.

vasco1s.jpg

Saí exausta de Portugal. Por causa dele.

Estava capaz de o deserdar....mas acho que lhe vou perdoar outra vez...

...é a última vez...a partir de agora vou ser muito mais rígida com ele...

ou não me chamo Vasquina....

 

27.01.18

O sonho. E a realidade.

Joana Marques

Estou de partida para Nova Iorque.

A semana que passou foi de loucos.

Aquelas coisas que costumo deixar para sexta à tarde e para o fim de semana foram feitas ao longo da semana.

Lavar a roupa. Passar a ferro. Trocar as camas. Limpezas.

Hoje tinha planos.

 

o sonho

Aproveitar a manhã para fazer a mala.

A Alice ia acordar por volta das 7.

 Pequeno almoço.

Sair com ela e com o cão. Dar uma volta aqui pelas redondezas.

Voltar a casa.

Brincar um bocadinho com ela.

Adormece-la.

Almoçar antes dela acordar.

Quando ela acordasse dava-lhe o almoço.

Pegava nela e no Vasco e ia até casa dos meus pais.

Ia enviar uma mensagem ao meu pai para ele vir cá fora ajudar-me com a tralha.

Ia ler um livro à Alice. Até ela adormecer.

Ficava lá por casa. Ou ia passear o cão.

A Alice ia acordar. Ia dar-lhe o lanche.

E íamos brincar. O cão devia juntar-se à brincadeira. E o meu pai também.

Banho. E logo a seguir o jantar.

Ultima história do dia. Ia adormece-la.

Deita-la.

Ia ficar a vê-la dormir.

Ia passear com o Vasco.

E de seguida, jantar com os meus pais.

Sporting.

E ia para casa.

Amanhã. Nova Iorque.

Seria uma transição suave para a Alice. Para não ser traumático para ela.

Já teve tantas mudanças na vida.

 

a realidade

 

Fui acordada pelo cão. Como de costume.

Cedo. Como eu gosto.

Fui espreitar a Alice.

O cão viu qualquer coisa que o inquietou e desatou a ladrar que nem um tarado.

A Alice acordou, com a barulheira.

5h30 da manhã. Já não dormiu mais.

Bonito! Não tomei banho. Não tomei o pequeno almoço. E a mala feita....só na minha imaginação.

A Alice chorava que nem uma Madalena. E o cão ladrava. E eu só pensava nos vizinhos...

Tratei da Alice. Dei-lhe o pequeno almoço.

O cão precisava mesmo de ir à rua.

Estava frio.

Enchouricei a miúda dentro da roupa. Enchouricei-me a mim também.

Alice no carrinho. A reclamar.

Não estava nos dias dela.

O cão feliz da vida. Formoso e seguro. Pelas ruas.

Xixi aqui. Xixi ali. A vida é uma festa.

Cocó. A vida é uma festa mas às vezes cheira mal.

 

Voltei a casa. A Alice sempre meio chorosa.

Embalei-a.

Ainda não tinha tomado banho. Ainda não tinha tomado o pequeno almoço.

A Alice adormeceu. Mas quando a deixei na cama. Começou a chorar outra vez.

Dei-lhe sopa. Quentinha. Embalei-a.

Dormiu.

 

Fui tomar banho.

Tomei, finalmente o pequeno almoço. Às 11h da manhã.

 

Quando olhei. Vejo o cão. Rabo a abanicar. Feliz da vida. Com qualquer coisa dentro da boca.

Nem quero acreditar. Quando olho e vejo que é uma cápsula de detergente da loiça.

Tinha a máquina pronta. E já tinha posto a cápsula. Ele conseguiu tirá-la de lá.

Ainda esta semana falei disto.

As minha preocupações estavam certas. Um dos meus filhos andava a dar forte e feio no detergente.

Fui com muito cuidado. Em câmara lenta ter com ele. Para o agarrar.

Movimentos bruscos, assustam-no.

Quando estava quase, quase, quase....ele fugiu. Ó céus....

Quando fugiu. Bruscamente. E com a humidade da boca. E o calor.

Com mil Slimanis. A cápsula rompeu.

Saltei para cima dele. E com as minhas pernas a fazer de alicate.

Segurei o cão com as pernas...até porque estou cheia de força nas pernas.

Abri-lhe a boca.

Tirei-lhe a cápsula.

Obriguei-o a ir até à casa de banho. Arrastei-o...

Escancarei-lhe a boca.

Lavei-lhe a boca. Língua. Dentes.

Para lhe tirar o detergente.

A fuga. Tinha sido pequena.

O dano foi enorme.

Devo ter tocado num ponto sensível da garganta do cão. Logo a seguir fui apanhada numa avalanche de vómito.

A vida é uma festa, às vezes é mal cheirosa e é sempre imprevisível.

Vasco no seu melhor. Estava aterrorizado. E a tremer.

 

A Alice acordou.

Lá me limpei como consegui. Troquei de camisola. E fui ter com ela.

Dei-lhe o almoço.

Vasco. Inconsolável no sofá da sala..

Bonito. Um cão sujo...no sofá da sala.

Vasco. A tremer no sofá da sala.

 

Liguei ao veterinário a contar. Sossegou-me. Se vomitou e tudo. Não tinha nada de detergente. Era fita.

- Fita?? O Vasco....estranho!

Os meus pais ligaram.

Tinha-me esquecido de avisar. Que os planos tinham mudado.

O meu pai disse para não me preocupar. Que passava por aqui e levava a Alice. Antes da sesta da tarde.

 

Apareceu o meu pai.

A Alice saiu a chorar.

Eu fiquei de coração partido.

Não era nada disto que tinha idealizado.

Dediquei-me ao cão. Tinha de conseguir consertar o cão estragado.

Fiz festinhas.

Dei beijinhos.

Ficou ao meu colo.

Dei comida.

E fiz festinhas.

Limpei-o.

Falei-lhe ao ouvido.

Disse-lhe que gostava muito dele.

Disse-lhe que era o melhor cão do mundo.

E que a minha vida sem ele não tinha graça.

Dei biscoitos dos dentes.

Fiz festinhas.

Convidei-o a ir dar um passeio.

Ele foi. Muito devagarinho. Parecia um cão velhinho. E chorava. Muito.

Fiz festinhas.

Fez xixi. E cocó.

Voltámos para casa. A uma velocidade. 1 m por minuto.

Dei-lhe banho. Sequei-o.

Voltou a deitar-se no sofá da sala. Mais calmo. E já sem tremer. Mas ainda combalido.

Descongelei. No micro-ondas. O meu principal trunfo.

O frango assado.

Chamei-o. Comeu alarvemente. E com satisfação.

Fiz festinhas.

Dei-lhe beijinhos.

Eram 20h quando o deixei em casa dos meus pais.

A Alice já estava a dormir.

E lembrei-me agora que ainda não almocei....

 

 

24.01.18

desrespeito à autoridade..

Joana Marques

Hoje de manhã o cão armou-se em fino. E pela primeira vez desde que a Alice cá está quis ficar em casa.

Antecipei-me e pus #rumário em cima do móvel. Onde o primo morreu...

Não se assustem que #rumário não vai morrer. Coloquei um lembrete no telemóvel a dizer...

- Não te esqueças do peixe, palerma.

Tem resultado. #rumário, não se manifesta muito, mas parece feliz.

 

Saí eu com a Alice, o Vasco ficou.

Regressei a casa. Comecei a trabalhar...

E o Vasco mudou-se da sala para o escritório e ali esteve. Eu a trabalhar. Ele a dormir.

Sim, senhor. Vida de cão. A escrava que trabalhe.

 

A escrava almoçou em casa.

A escrava foi passear o cão.

A escrava voltou a trabalhar.

 

Às 16h decidi ir buscar a Alice.

Peguei nas chaves do carro. E tive companhia. Estava doido de alegria. Passear de carro. Olé!

Entrou para o carro. Depois entrei eu.

E aí vamos nós.

Quase a chegar a casa dos meus pais, estava uma rua cortada num dos sentidos. Pareceu-me estarem a arranjar um candeeiro.

Ainda estive parada, em fila.

Um polícia coordenava o trânsito.

Fez um sinal para os carros que estavam na minha faixa avançarem.

E nós, devagar, devagarinho lá fomos.

O Vasco, doido de alegria.

 

Passei pelo polícia. Estava virado de costas para falar com um dos senhores das obras.

Carro parado. Janela aberta. Vasco com a cabeça de fora.

O cão enche os pulmões de ar.

Encosta o focinho à cabeça do polícia.

E ladra mais alto que os metallica em concerto.

O polícia com o susto atirou um salto e foi contra uma barreira.

 

Ainda pensei fechar as janelas. Não abrir as portas. E fugir, fugir, fugir...

Podia ser que ninguém me encontrasse....no Canadá.

Mas, não. Saí do carro. À espera de um raspanete e de uma multa por excesso de barulho. É que aquele ladrar, de certeza, ultrapassou os níveis legais de decibéis.

Tive sorte.

O polícia não levou a mal.

E o Vasco ainda foi contemplado com uma quantidade de festas...

...há pessoas simpáticas

 

 

20.01.18

o juramento...

Joana Marques

Quando tinha 8 anos.

Na escola. Tinha dois grandes amigos.

A Cátia e o Miguel.

Andávamos sempre juntos. Éramos unha com carne.

O pai do Miguel trabalhava numa empresa espanhola e passava cada vez mais tempo em Espanha.

Um sábado de manhã fui às compras com a minha mãe e encontrámos a mãe do Miguel.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe que era provável daí a uns tempos irem todos viver para Espanha porque o marido passava a maior parte do tempo lá.

Não disse nada ao Miguel. Mas ele sabia.

 

Dividíamos os trabalhos de casa. E antes da escola começar encontrava-me com eles e trocávamos os tpc's.

Se tínhamos 3 contas para fazer, cada um fazia uma e depois era só copiar.

Uma tática infalível. Só usada pelos melhores amigos, os que podemos confiar.

Sabemos que no quinto aperto não contam nada a ninguém quanto mais no primeiro.

E nós sabíamos que em caso de desconfiança, os adultos não tinham tempo de nos apertar até à morte...

 

Entre a cópia, a conta de multiplicar e a de dividir o Miguel disse-nos que ia morar para Espanha.

Chorámos os três.

E nesse dia chorámos outra vez. Porque não fizemos os trabalhos de casa como deve ser e a professora contou aos nossos pais.

Foi um dia dos diabos.

 

No dia seguinte o Miguel disse-nos que tínhamos de jurar que íamos ficar sempre amigos.

-Sim, juramos. Respondi eu e a Cátia.

- Não é assim que se jura. Disse o Miguel.

- Como é que se jura?

 

O Miguel explicou-nos. Tínhamos de cuspir na mão. E com um aperto de mão, como faziam os homens, selar o juramento.

Numa fase em que tudo me dava volta ao estômago, incluindo os beijos na boca.

Tive de me abstrair bastante para fazer tal coisa.

- Tens a certeza que é assim?

- Tenho. Vi num filme com o meu irmão.

O Miguel tinha um irmão fixe. O meu só servia para me roubar o tulicreme do pão.

 

O juramento funcionou. Somos amigos até hoje.

A Cátia nunca saiu da minha beira.

O Miguel foi para Espanha. E depois para Inglaterra. Mas acabava sempre por vê-lo nas férias de Natal. Vivíamos próximo.

Perdi contacto com o Miguel quando comecei a trabalhar e saí de casa. E os meus pais saíram de Campo de Ourique e mudaram de telefone fixo.

Só que a vida dá voltas e voltas. E quando eu pensava que nunca mais o ia ver.

No Natal de 2012 em pleno Colombo. E com milhares de pessoas lá dentro. Alguém me bate no ombro. Era o Miguel.

Jantámos, nesse dia. E ele contou-me que estava a viver na Nova Zelândia. E que ia ficar por um mês em Portugal, depois voltaria.

Convidei-o para jantar em minha casa. Convidei a Cátia, claro! E uma outra amiga minha, a Raquel.

Nesse dia o Miguel apaixonou-se pela Raquel e a Raquel pelo Miguel.

Nunca mais se largaram.

Ele voltou para a Nova Zelândia. Mas regressou três meses depois. Casaram. E são felizes.

Actualmente, vivem na Nova Zelândia, e têm dois filhos...Sportinguistas.

 

 

Hoje de manhã. Acordei.

E fiz o que tenho feito neste último mês.

Vou espreitar o berço da Alice.

Gosto de olhar para ela.

 

Olho para ela.

Sinto-me uma sortuda.

E agradecida.

Alguém que eu não conheço.  Achou que merecia ser abençoada desta maneira.

Não mudava nada nela.

Porque é perfeita.

 

Desperto.

Os meus pensamentos são interrompidos por um bafo quente e húmido.

Enquanto eu olhava para ela por cima do berço.

O Vasco olhava para ela pelas grades da cama.

Os dois em silêncio a zelar pelo sono dela.

 

Acordou.

Viu-nos.

Riu-se tanto que até os olhos se fecharam outra vez.

Deu-me os braços para a tirar da cama.

 

Peguei nela.

E sentei-me num cadeirão.

Com ela ao colo.

O Vasco pôs a cabeça no meu colo em cima dos pés da Alice.

Com o braço esquerdo segurei a Alice.

Com o direito fiz festas ao cão.

 

Os 3.

Geneticamente diferentes.

Unidos pelo amor. Para sempre.

Um juramento selado....

 .....por aquele ribeiro de cuspo...saido diretamente da boca do cão.

 

 

19.01.18

o trolley...

Joana Marques

Uma vida passada a viajar e a trabalhar em aviões percebi que tanto mulheres como homens viajam cheios de tralha.

Não todos. Claro! Mas a maioria.

 

Quando viajo gosto de ir leve.

Só o indispensável tem lugar. E mesmo assim, muitas vezes fica de fora...

Por exemplo, não levo maquilhagem nenhuma. Até porque não uso muito no dia a dia.

Quando viajo é absolutamente desnecessária.

Levo roupa escolhida a dedo. Que ocupe pouco espaço. E que se lave facilmente.

Nunca levo 3 ou 4 biquínis, por exemplo. Escolho um e já está.

Já viajei com amigas que levavam um look diferente para todos os dias.

Secador de cabelo e cheguei a viajar com pessoas que levavam o ferro de engomar.

E sapatos. Muito sapatos. O champô e o amaciador que usam. E o creme hidratante. E mais uma quantidade de coisas completamente desnecessárias.

Fazer uma mala destas deve ser um pesadelo. E desfazê-la ainda pior.

Detesto desfazer malas...para mim é o pior da viagem.

 

 

Estou para ir passar o fim de semana ao Alentejo.

E rapidamente percebi que vou cheia de tralha.

A Alice é em parte responsável pelo acréscimo. É uma bebé e eu tenho de prever algumas situações.

Mas com a tralha da Alice posso eu bem. O pior é a tralha da diva aqui de casa. O cão.

É o ursinho. E o coelhinho.

Um boneco em forma de frango que os meus tios lhe ofereceram, faz muito barulho mas não passa sem ele.

A cama.

A comida normal.

Os biscoitos preferidos. Porque pode ver uma aranha e descompensar.

Os biscoitos dos dentes. Porque pode ver uma osga e descompensar.

Uma caixinha com frango assado. Porque pode ver uma osga e uma aranha e enfartar.

A trela/coleira azul que é a preferida e às vezes recusa-se a sair sem ela.

Umas gotas que está pôr nos olhos.

E umas gotas para os ouvidos em caso de se queixar.

Medicação para o ouvido porque pode precisar de medicação mais forte em caso das gotas não funcionarem.

Champô porque é mais do que certo que se vai embodegar.

E a escova porque quando se embodegar vai dar jeito tê-la por perto.

 

Para mim, vai um saquinho de mão.

Para Alice, uma mochila.

Para o cão vai um trolley.

Bom fim de semana.

 

17.01.18

à beira de um ataque de nervos. O cão!

Joana Marques

Desde que o Vasco é gente passei a ter cuidado com o telemóvel.

Depois de vários comidos, desmembrados e atirados pela janela passei a ter cuidados extremos.

Mas...

...às vezes escapa...

Com a Alice ainda escapa mais vezes. Se precisa da minha atenção, deixo tudo incluindo, o telemóvel

Deixo assim o bichinho à mercê do BICHO!

 

Na segunda feira o meu telemóvel desapareceu repentinamente.

A Alice acordou da sua sesta da tarde. E eu fui ter com ela.

Num segundo estava em cima de uma mesa de apoio e no segundo seguinte já não estava.

Tinha a certeza absoluta que o tinha deixado em cima da mesa.

O culpado. O Vasco.

Chamei-o. E perguntei-lhe...

- Vasco, onde é que está o meu telemóvel??

- Não sei de nada. Não vi nada. E tenho raiva de quem sabe.

 

Suspirei. E comecei à procura do telemóvel.

Desisti logo. A Alice precisava de mim e um telemóvel é só um telemóvel.

Pensei que o iria encontrar, um dia destes.  Provavelmente partes dele. Se olhasse com muita atenção talvez detetasse algum vestígio no cocó do bicho papão. Foi isso que aconteceu ao meu ipad....uma parte dele acabou numa rua de Carcavelos embrulhado em caca de cão...

 

Tratei da Alice.

Fralda.

Lanche.

Fui passear o cão à rua. Com a Alice.

Voltei a casa. E insisti.

- Vasco, mostra lá à dona, onde está o telemóvel??

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

- Vasquinho, querido...por favor.

- Tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.

Alimentei o cão.

Dei banho à Alice. O cão já ressonava.

Brinquei com a Alice. O cão sonâmbulo juntou-se a nós no quarto. E dormiu.

Deixei a Alice na cadeirinha e comecei a preparar o jantar dela. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na cozinha. E dormiu.

Sim, o cão tem camas em praticamente todas as divisões...ou sofás!

A Alice jantou.

Fomos para a sala. E li-lhe uma história. O cão sonâmbulo juntou-se a nós na sala. E dormiu.

A Alice começou a fechar os olhos. Deitei-a...

 

- Agora sou só tu e eu...mafarrico! Onde é que está o TELEMÓVEL!

- Outraaaaaaaa vez a mesma conversaaaaaa. Teeeeeeenho taaaaaaaantooooooo sooooooooooonooooo.

É assim que ele me trata...com desprezo, mesmo desprezo....

 

Desisti. Liguei aos meus pais pelo telefone fixo a dizer que não tinha telemóvel.

 

Recebi uma mensagem via messenger de um amigo meu e lá lhe conto o meu karma....

- Já experimentaste ligar para o telemóvel???

- Não...não me ocorreu...CLARO que já liguei. Está no silencio por causa da Alice.

- Ah...pois...olha lá, não tens antivírus no computador?

- Tenho...

- E tens o telemóvel na mesma conta?

- Sim, tenho o telemóvel, o portátil e o mini portátil...

- Vê na página deles como localizar o telemóvel, pode ser que te safes!

 

Fui até à página da mcafee e entrei na minha conta.

Selecionei o meu telemóvel. Nem sei muito bem o que raio fiz. Andei por lá meio perdida.

Cheguei a uma página que dava a localização do meu telemóvel. Não me ajudou nada porque eu sabia onde ele estava. Sabia que estava em casa. Dentro ou fora da barriga do cão, essa era a questão.

Apareceu-me um botão azul, no site. Cliquei.

E de repente. Um alarme tocou em minha casa. Um alarme como deve ser.

E percebi que o telemóvel estava dentro da cama do Vasco. O Vasco estava a dormir por cima dele.

O Vasco apanhou o susto maior da vida. A dormir deliciado da vida. Só vi o cão dar um salto. Parecia um atleta do salto à vara.

 

 

A Alice acordou assustada com o alarme.

O Vasco ficou assustado com o alarme.

Eu recuperei o telemóvel. 

 

 

A Alice voltou a dormir passados 10 minutos. Em paz...

O Vasco ficou a tremelicar.

E a chorar.

Não saiu do pé de mim.

Enquanto estive na sala aconchegou-se a mim. Sempre a tremer numa grande lamuria...

Dei-lhe mais comida. Os biscoitos preferidos. Nada...

Dei-lhe os biscoitos dos dentes que ele adora. Nada...

Dei-lhe frango assado que ele idolatra. Nada...

Ou melhor. Tudo. Comeu tudo. Continuava a tremer e a chorar.

Dei beijinhos. Fiz festinhas. Tremideira. E choro.

 

Ficou com medo da cama que estava no escritório. E quando teve de passar pela porta do escritório. Quase enfartou.

 

Quando me deitei. Ele deitou-se comigo.

Tive uma noite maravilhosa. Com um cão agarrado a mim. E a chorar no meu ouvido.

 

 

Só adormeceu na manhã seguinte.

Quando eu peguei na cama e a fechei no porta bagagem.

Não voltou a dormir no escritório. Não vá o malandro do escritório passar-se e começar aos guinchos....

 

 

10.01.18

só queria uma festa...

Joana Marques

Este post começou por não ter título.

Porque o que se passou foi tão surreal que nem conseguia dar nome ao post.

Pensei. E lá me surgiu este.

Aconteceu o que aconteceu por falta de uma festa...

...de um carinho. De uma atenção.

 

O meu pai tem um hobbie. Gosta muito de carros e de aviões. Miniaturas.

Compra-os em peças. E depois passa longas horas a montar peça por peça

A minha mãe dá tanta importância aquilo como a um escaravelho decapitado.

Quando saíram de Campo de Ourique e se mudaram para o Estoril, a minha mãe propôs logo ao meu pai fazer uma oficina no fundo mais profundo do quintal para ele se dedicar, sem chatear as pessoas normais. Ela, própria, a minha mãe.

E assim foi. Ao lado da garagem nasceu uma oficina que o meu pai usa para as suas miniaturas e ao lado da oficina nasceu o atelier da minha mãe.

Mas isto ainda não tem propriamente a ver com o que aconteceu ontem.

Avancemos.

 

A casa dos meus pais só tem uma televisão. Na sala.

Em tempos tiveram uma televisão no quarto mas o meu pai começou a queixar-se que andava a dormir mal.

Deitava-se a ver televisão. Adormecia a ver televisão. Acordava. Despertava. E demorava uma eternidade para adormecer.

Acabaram por tirar a televisão do quarto. E o meu pai resgatou-a para a sua oficina.

O meu pai segue os campeonatos todos de futebol e isso são muitos jogos por semana.

Quando a minha mãe quer ver alguma coisa diz para o meu pai ir para a oficina. E lá vai o meu pai ver o jogo entre as ilhas mémé e as ilhas múmú....Homens!

Enfim. Avancemos!

 

A televisão da oficina desde Dezembro andava com interferências esquisitas.

O suspeito número um, quem foi? O Vasco.

Acha super giro andar a comer os fios que apanha.

Com as festas, a minha perna partida, a Alice adiou-se a chamada da TV Cabo.

O meu pai ligou um dia destes e agendaram para ontem às 14h.

O meu pai concordou. A minha mãe quase lhe bateu.

- DIA 9??? É quando vamos almoçar a casa do Joaquim...

O meu pai ia enfartando. Que falha.

Todos os meses almoçam com estes amigos, este mês é em casa deles, para o próximo será em casa dos meus pais.

Disse-lhes que não havia problema. Trabalhava até às 13h e fazia as honras da casa ao senhor da TV Cabo.

O meu pai suspirou de alívio. A minha mãe...

- És sempre o mesmo. Uma pessoa fala contigo e nunca ouves.

Enfim. Mulheres!

Avancemos.

 

Cheguei a casa dos meus pais. Ainda a tempo de dar o almoço à Alice. Eu, já tinha almoçado.

Ainda brinquei com ela.

Entretanto adormeceu. A sesta é algo que a moçoila aprecia.

Para o senhor não tocar à campaínha fiquei cá fora à espera dele. Não queria arriscar o acordar prematuro da pequena.

Estava a chover mas paciência.

 

O senhor chegou eram umas 14h40. Abri-lhe o portão.

E mal o Vasco põe os olhos no senhor não o largou mais.

O Vasco é mesmo assim. Ou adora as pessoas ou então não lhes liga nenhuma.

Este senhor da TV Cabo tinha mel! Ou cheirava a biscoitos...

O senhor perante tamanho entusiasmo não lhe ligou grande coisa.

Não me pareceu que fosse antipatia, pareceu-me quase medroso em relação ao cão.

O Vasco sentiu-se ignorado e vá de ladrar e correr atrás, ao lado, à frente do senhor. Ora aparecia do lado esquerdo. Ora do direito.

Com tanto espalhafato, tive medo que a Alice acordasse.

 

Expliquei a situação ao senhor. A televisão. As interferências.

O senhor posou uma maleta. E o Vasco começou a focinhar para ver se a conseguia abrir. Isto com um alarido doido.

E aconteceu o que eu temia.

A Alice acordou.

Disse ao senhor que tinha de ir a casa porque a minha filha tinha acordado.

Ele disse que tudo bem...que ia fazendo a avaliação.

Fui a casa.

A Alice tinha uma fralda suja do tamanho da Austrália. Pronto. Maior que a Austrália.

Tirei a Alice do berço e levei-a para o meu quarto.

Deitei-a na cama. Iniciei todo o processo. E ouço um alarido. O alarido vinha da oficina.

Olho pela janela. E vejo umas movimentações estranhas.

Pego na Alice e saio do meu quarto e volto a deixar a Alice no berço.

Vou a correr e entro na oficina e vejo o que não queria ver.

O senhor da TV Cabo estava com umas calças impermeáveis e com elástico e o Vasco tinha acabado de lhe puxar as calças.

Atiro um grito.

E depois chamo o Vasco.

Peço muita desculpa ao senhor. Ele diz que não faz mal. Enquanto puxa as calças para cima.

A Alice chora desalmadamente.

Pego no Vasco e arrasto-o até casa. Eu e a minha perna aleijada.

Abandono o Vasco e vou a correr ao quarto da Alice. Pego na Alice. E vou novamente até ao meu quarto.

Deito a Alice na cama. E inicio o processo. Tiro a fralda.

E credo! Um cocó que ía ida e volta até à Lua.

Saco dos toalhetes. Tinha UM toalhete!

Pego na Alice e numa toalha. Estendo a toalha no berço.

Ponho a Alice no berço.

Vou à despensa buscar toalhetes.

À pressa vou contra uma porta entreaberta...se a perna não partiu outra vez é porque já não parte mais.

A contorcer-me com dores. Ouço um rebuliço lá para os lados da oficina.

Com uma filha meia nua no berço e suja...decidi que tinha de ir à oficina.

O Vasco tinha saído pela porta da cozinha que ele consegue abrir na perfeição.

O Vasco tinha na boca a pistola de cola quente do senhor.

O senhor andava atrás dele contornando a piscina. E nisto o Vasco encesta.

Pistola de cola quente na piscina. Ah! E continuava a chover.

Até me esqueci das dores na perna.

Disse ao senhor que lhe pagava a pistola porque estava demasiado frio par entrar na piscina.

O senhor meio atarantado disse-me que tinha outra e que não era preciso.

A Alice chorava que nem uma louca.

O senhor disse-me que já sabia qual era o problema e que precisava de ir ao carro buscar um cabo para substituir o que estava danificado.

Estava confirmado. Era do cabo. Ai Vasquinho....

 

O senhor sai e eu vou socorrer a Alice.

Estava molhada até aos ossos. Mas a pequena tinha prioridade.

Tiro a Alice do berço.

Ponho a Alice na minha cama.

Vou para a limpar.

Mais uma vez, ouço sons. E olho pela janela.

Não queria acreditar.

O Vasco tinha roubado o cabo ao senhor e desfilava todo contente com o cabo na boca.

O cabo já tinha desenrolado e o Vasco parecia um novelo branco em andamento.

Pego na Alice.

Ponho Alice no berço.

E vou tirar o cabo da boca do cão.

Pego no cão. Fecho-o na garagem. À chave.

Vou buscar a Alice.

Deito-a na minha cama e mudo-lhe a fralda.

O senhor substitui o cabo.

O Vasco ladra na garagem.

O senhor termina o serviço.

Peço-lhe muitas desculpas. Tento pagar-lhe a pistola de cola quente. Não aceita.

- Não. Não. Tenho outro serviço....tenho de ir.

E fugiu dali a 7 pés.

 

O Vasco só queria uma festa.

Com uma única festa tinha ficado mais calmo e provavelmente tinha ido para casa dormir..

 

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08.01.18

antes da Alice. Depois da Alice!

Joana Marques

Antes da Alice, o Vasco comia o seu pequeno almoço e ia dormir outra vez.

Depois da Alice, o Vasco toma o seu pequeno almoço e fica à espera.

À espera da comida que cai das mãos da Alice.

Costumo dar-lhe  a comida mas gosto que ela também coma por ela. E deixo sempre fruta numa tigela.

A Alice agarra no bocadinho de banana e às vezes cai.

Às vezes nem chega ao chão! Entra logo para a boca do cão.

A Alice não gosta de perder comida e reclama. Nada a fazer.

 

Hoje, quando deixei a Alice em casa dos meus pais, o Vasco foi connosco.

Ia cheio de pressa.

Quase me atropelou à saída de casa.

E só não entrou no carro, primeiro do que eu, porque não tinha as chaves.

Antes da Alice, o Vasco costumava ir no banco da frente ao meu lado.

Depois da Alice, vai no banco de trás ao lado da cadeira.

Com a boca aberta e a língua de fora faz a Alice rir que nem uma perdida.

 

Antes da Alice, o Vasco gostava sempre de ir à janela.

E se apanhava alguém desprevenido, ladrava que nem um perdido.

Depois da Alice, só tem olhos para ela!

 

Antes da Alice, o Vasco nunca queria ficar.

Hoje, quis ficar em casa dos meus pais.

Deixei, porque os meus pais concordaram.

Ainda que coma as plantas da minha mãe, escave túneis no quintal e corra que nem um perdido entre os canteiros.

Achámos que podia ser um conforto para a Alice. E lá ficou.

 

Antes da Alice, sempre que chegávamos a casa, o Vasco ia descansar.

A vida de cão é dura. E aquela beleza toda vem das longas sestas que faz por dia.

Depois da Alice, chegamos a casa e Vasco está onde está a Alice.

A Alice gosta muito de uns cubos que eram do seu padrinho Pedro.

Costumamos construir torres.

A Alice gosta de deitar tudo abaixo. O Vasco também. E também gosta de roubar cubos...

...e acha que a Alice tem de os ir buscar.

Por causa disso, a Alice já quase gatinha. Ainda falta o quase.

 

Antes da Alice, gostava deste cão. Mais do que consigo escrever.

Depois da Alice, gosto deste cão. Muito mais do que antes.

Este cão é assim como um recheio que se põe numa sanduiche.

É a marmelada saudável. O queijinho fresco, fresquinho. A manteiga de amêndoa acabada de fazer.

Ele que não saiba que escrevi isto.

Ou ainda come este post!

vasco1 (2).jpg

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05.01.18

é assim que me recebem??

Joana Marques

Saí de casa cedo. Precisava ir a Lisboa tratar de algumas questões, na loja do cidadão.

Fui ao meu antigo trabalho. Devia uma visita desde nem sei quando.

Aproveitei para almoçar com duas amigas.

Palavra puxa palavra. E as conversas são como as cerejas. Quando olhei para o relógio já eram 15 horas.

Demorei uma eternidade para chegar a casa. Isto com chuva é outra coisa......

São Pedro entusiasmado. Toca de atirar água cá para baixo...ou foi a Carmen??? Isto agora tem nome de gente...

 

Deixei a Alice com os meus pais. E o Vasco também....

Ainda lhe dei o pequeno almoço. À Alice. E ao Vasco enchi a tigela da comida e da água...

Chovia. Chovia. Chovia.

Ganhei coragem e fiz-me à estrada.

 

Cheguei.

Vasco amuado. Porque me ausentei o dia todo. É normal no bicho.

Ainda por cima passei o mês de Dezembro com a perna partida, sempre em casa e com ele. Deve pensar que me aposentei....

 

Alice.

Quando me viu fez as maiores trombas da história. Nem os elefantes...meus amigos, nem os elefantes!

Demorei um bocado a conseguir conquistá-la de novo. E a fazê-la rir.

Parece que não gostou muito do abandono materno.

 

Quando a entreguei à minha mãe para poder ir à casa de banho.

Começou num berreiro que se ouviu...na margem sul.

Demorei muito tempo a acalmá-la. E agora adormeceu.

O Vasco já se juntou a mim.

Faz-se de ofendido mas dura pouco tempo.

 

 

vasco (6).jpg

O dia todo fora. Chuva. E frio. Ah! E a loja do cidadão...

Ansiosa por voltar para casa.

E é assim que me recebem....

 

01.01.18

let's dance...

Joana Marques

Engraçada a vida.

Tive sempre muita pressa de viver.

E de viver tudo de uma vez.

Deve ter sido por isso que saí de casa aos 17.

De ter comprado a minha primeira casa com pouco mais de 20.

A noite de ontem nunca era passada em casa.

De preferência fora do país.

Paris. Nova Iorque. Rio de Janeiro, maravilhoso! Tailândia. No ano passado Barcelona.

E muitos outros.

Foram tantos que perdi a conta.

Se pensar um pouco chego lá. Mas a minha natureza hiperactiva quer que avance.

 

Ontem à noite passei a noite com a minha família. Não é a primeira vez.

Mas foi diferente. E especial.

Passei a meia noite a dançar. Com a Alice. Something Stupid.

E a cantar. Porque é mais forte do que eu.

E percebi que é isto o futuro.

O futuro é uma dança.

E uma dança só vale a pena ser partilhada com quem mais gostamos.

Até ao mínimo detalhe. Até ao final da música.

 

Ainda bem que a música continua hoje.

Que continue para todos nós em 2018.

Enquanto tivermos música, dancemos. Bem ou menos bem. Dancemos.

 

O Vasco escolheu um slow.

Uma música quase parada. Mas ritmada.

Ao ritmo da sua respiração. E do seu ressonar.

Lá chegou a 2018!

 

Joana Marques

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