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Quiosque da Joana

handmade life

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29
Mar17

uma conversa. Em português de Portugal!

Joana Marques

Estou em Atenas.

Depois de três semanas na ilha de Lesbos. Rumei até à capital. Porque estou de saída. E a última paragem é aqui.

As condições são precárias. E dolorosas.

A paciência e o discernimento já se foram. Há muito tempo.

Febril há duas semanas.

Passo os tempos mortos num parque. Porque tem wi-fi. E não me sinto tão longe do mundo.

 

Na segunda-feira estava eu no parque com o Vasco. Sozinhos.

Alguns voluntários que vieram comigo ainda estão em Lesbos. Porque ficam dois e alguns três meses.

Outros, que permanecem um mês como eu, ficaram a trabalhar.

Eu e o Vasco. Mais uma vez...

 

 

Ouço falar português. Português de Portugal...

Até me saltaram as lágrimas.

Viro-me. Estava um casal e um rapaz.

Meto conversa. Porque são portugueses. E me fazem sentir em casa.

Porque já estava há um par de horas a vagabundear pelo parque. E precisava de conversar com alguém.

E a razão principal. Eu tinha fome. E eles tinham bananas.

 

Alberto, 50 anos. Luísa, 48 anos. Paulo, 18 anos.

Uma família portuguesa. Na Grécia.

Alberto já tinha estado na Grécia quando era novo. Voltou a Portugal. Com a crise ficou sem emprego. Regressou à Grécia.

Deixou Luísa e o filho.

Entretanto, o filho acabou o 12º ano em Portugal. Não arranjou emprego e juntou-se ao pai na Grécia.

Vai começar a trabalhar no início de Abril.

 

Palavra puxa palavra. E as conversas são como as cerejas e convidaram-me para jantar em casa deles.

Lá fui.

Deparo-me com um jantar com tudo aquilo que não posso comer.

Se não estivesse doente. Tudo bem.

Febril há duas semanas. Não é boa ideia.

 

Queijo por todos os lados. Não!

Bifes com natas e cogumelos. Oh! Não! Não!

 

Lá tento comer qualquer coisa.

- Então Joana, não gosta?

- Gosto, sim. Mas.....

Lá lhe expliquei todo o meu historial de alergias e intolerâncias. E de como estava praticamente a desfazer-me desde que tinha chegado à Grécia...

 

- Ah! Pois, diz que isso tem a ver com a genérica! Diz a Luísa.

Achei que tinha ouvido mal....

- Genética???

- Não, não! Genérica, com o género da pessoa.

- Género? Feminino..

-

- Bem, a última vez que verifiquei eu era mulher...

- Não, não. A Joana não está a perceber. Tem a ver com a genérica familiar...

- Do tipo hereditário?

- Não, não é quem é otário...tem a ver com a propagação de uma pessoa para pessoa.

(tive de interromper a conversa e sacar da bombinha da asma....) 

E prossegui...

- Propensão? Tendência para ter uma determinada doença.

-Não. É assim....

Interrompo..

- Ok! Já percebi, já percebi...

 

Perdido por 100 perdido por mil....

...agarro-me aos bifinhos, às natas e aos cogumelos e mudo de assunto...

- E o tempo??

- Ai, estava tão bom...teve logo de aparecer uma neve fria...

- Névoa??

-Não, já viu o frio que está? Neve fria..

-

 

 .......desisti....

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