Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Kiosk da Joana

Kiosk da Joana

10$00 de tremoços

11.02.19, Joana Marques

O meu avô era um homem grande. Robusto.

Não falava alto mas fazia-se ouvir. Tinha uma voz grave que ecoava pela casa inteira.

Tinha um certo medo dele. Não tinha o à vontade que tinha com a minha avó.

Não tinha coragem de abrir a boca e dizer quase a chorar:

- Ó vó se não tiver o pijama da Abelha Maia, morro.

Um drama à escala do meu mundinho pequeno não podia ser partilhado com aquele homem sério e importante.

Era a mais nova dos netos. Muitos já eram adultos, interessantes e com opiniões.

E a minha vida andava à volta da Abelha Maia, tulicreme e pouco mais.

Muitas vezes achava que ele não dava conta da minha existência. Muitas vezes passava em bicos de pés à porta do escritório dele para não ser vista.

Respirava baixinho.

E quando o perigo passava largava a correr até aos braços da minha avó.

 

Enganei-me...

...acordei muitas vezes de noite com o meu avô a zelar pelo meu sono. Eu, asmática desde que nasci, tinha noites más, verdadeiramente más. Andar a rebolar no feno do palheiro não ajudava muito. Ou melhor, não ajudava nada.

Muitas noites quando a falta de ar era mais do que muita, o meu avô pegava em mim ao colo e levava-me para  a rua para que o ar entrasse nos meus pulmões.

Em dias mesmo, mesmo bons.

O meu avô pegava na minha mão.

Descíamos até à cidade.

Dava-me 20$00 e dizia-me:

- Vai lá à ti Alzira comprar 10$00 de tremoços. Diz para ela ficar com o troco.

Eu lá ia. Tão feliz por tamanha responsabilidade. Voltava com um cartuchinho de tremoços que dava ao meu avô. 

- Fica com eles. Eu vou tirando.

Eu com o cartuchinho na mão.

Feliz por ser a "dona" dos tremoços.

Muito alerta para não deixar cair os tremoços para o chão.

Com as minhas mãozinhas magritas e pequenas segurava com todas as forças que tinha, o maior tesouro do mundo. 10$00 de tremoços.

Agora tiro eu um tremoço. Agora tiras tu. E assim fazíamos o caminho de regresso para casa.

 

Outras vezes, o meu avô levava-me à cidade. Entrávamos no café.

O meu avô bebia uma cerveja. E comprava-me um gelado. Um chupa-chupa. Ou um chapéu de chuva de chocolate. Nada era tão saboroso como os tremoços.

Demorei muito tempo a perceber porquê.

Percebo hoje que eram mais saborosos porque eram partilhados.

A partilha não é para ser apregoada. A partilha é para ser praticada. 

 

Ainda hoje percebi isso. Aqui em casa.

A Alice a partilhar uma laranja com o Pedro.

Agora tiro eu um gomo. Agora tiras tu.

Nenhum deles é apreciador de laranjas....

mas acredito que tenha sido para os dois o mais saboroso manjar....

.......

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.