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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

um dia destes. Quem sabe....

12.07.17, Joana Marques

Tinha 4 anos.

O meu tio perguntou-me o que queria ser quando fosse grande. 

Respondi com um ar de "tenho a certeza absoluta" que vou ser:

- Padeira.

- Padeira?

- Sim, padeira.

O meu tio riu-se, o meu pai riu-se, a minha mãe não achou graça.

Sei esta história pela minha família, não me lembro deste episódio.

 

É claro que fui crescendo e à medida que o tempo passou fui querendo ser muitas outras coisas.

 

Estava no nono ano e fiz, juntamente com a minha turma, testes vocacionais.

O mais extraordinário é que o resultado do meu teste foi diferente do de toda a gente.

Os meus colegas tinham uma área ou vocação muito forte. E tudo o resto a meio da tabela.

O meu não. Tinha muitas áreas onde "supostamente" era muito forte.

E depois lá muito, muito, muito para baixo.

Na terra de ninguém.

"Joana, por amor da Santa está quieta ou o mundo corre perigo". Mecânica.

 

A Diretora de Turma notificou os pais e deu a conhecer os resultados.

A minha mãe comparou os meus resultados com os de alguns colegas e achou que estavam errados.

Economia, Direito, Área de Saúde, Artes....enfim tudo. Excepto, mecânica...

-João, isto deve estar mal. Como é possível? A Joana não tem jeito para nada???

- Para alguma coisa deve ter.

- Para tantas áreas?? Ou foi engano ou não levou a sério os testes. Joana, fizeste os testes com cabeça?? Ou foi ao calhas??

- Claro que fiz!

- Não é possível...há aqui qualquer coisa errada...

 

Acabei num consultório de um psicólogo chatíssimo, primo de uma amiga da minha mãe.

Lá para os lados da Avenida de Roma.

As vezes que eu corri para lá.

Quase me fez enveredar pela carreira de homicida....

 

E para quê?

Os resultados foram exatamente iguais.

Mecânica, não. Não toques em mecânica.... E o mundo é um lugar belíssimo...

 

Acabei a escolher economia no secundário.

E porquê?

Para não me separar do meu melhor amigo. Se não fosse ele, provavelmente teria ido para artes.

 

Quando o secundário terminou.

Acabei por escolher gestão.

Muito por influência do meu pai que também é gestor.

Pensando bem, acho que só por influência dele, mesmo.

 

A verdade é que a licenciatura me fez bem.

Não gostei, é certo. Demasiados assuntos terrenos para mim.

Mas precisava disso na minha vida.

Tenho uma capacidade incrível para voar. Deixar o pensamento ir.....

...em dias maus, posso não voar mas mesmo assim passo dia a planar....baixinho que seja..

A minha profissão faz-me aterrar. E se estiver em terra 8 horas por dia já não é nada mau...

 

Quem me conhece fica de pé atrás quando percebe que sou gestora.

- Gestora? E o que geres tu?? Nem o guarda roupa da barbie te confiava...

Deve ser pelo meu aspeto. Ou pela idade... Digo eu...

....depois habituam-se.

 

Profissionalismo.

Costuma falar por si.

Pelo menos na maioria dos casos resolve as desconfianças...

Nunca deixo nada ao acaso.

Controlo tudo o que posso e tento controlar o que não posso.

A minha profissão pode não ser daquelas que salvam vidas.

Mas tem influência na vida de muita gente. Uma má decisão e.....

Às vezes é muito angustiante...mesmo, mesmo angustiante.

 

Escolhi.

Arrependi-me, alguma vez?

Não, propriamente.

Muitas vezes penso que me tenho de reinventar.

Que já não quero mais.

Que posso fazer melhor.

Posso fazer outra coisa qualquer. Se calhar não....mas às vezes acho que sim.

A vantagem é que é uma profissão tão abrangente.

Que se adapta a tudo.

 

Se um dia quiser mudar.

Mesmo, mudar.

Sei que o vou fazer....

...mas jamais deixarei de ser gestora...

...porque tudo é melhor bem gerido. E bem planeado.

Incluindo a vida!

 

E o que que esperamos nós da vida...

.....é o mesmo que ela espera de nós?

Um dia destes quem sabe....

...se as vontades se juntam....um dia destes....

quiosque35.jpg

a importância de bloquear. Bem!

11.07.17, Joana Marques

Quando decidi aprender a tricotar comecei por assistir a um número infinito de vídeos no youtube.

Aprendi ao mesmo tempo que uma amiga. E íamos trocando ideias e aprendendo uma com a outra.

Quando achei que já não fazia muito má figura. Comecei a frequentar Workshops.

O primeiro workshop que fiz foi a aprender a tricotar um casaco.

Como um workshop tem tempo muito limitado era um casaco de bebé.

Mesmo estando lá uma tarde inteira, nem cheguei a metade do casaquinho.

Trouxe trabalho para casa.

E só me deitei nessa noite quando o terminei.

A deceção foi mais que muita.

Olhei para o meu trabalho. Não detetei nenhum erro.

Mas....

Não gostei nada do resultado...

Era domingo.

Segunda feira. Fui trabalhar.

À tarde, passei pela loja onde tinha feito o workshop e mostro o meu trabalho.

Pesarosa e desanimada.

Olham para mim e dizem-me que tinha de bloquear a peça.

- Bloquear?? Como assim bloquear??

20 (5).JPG

 

Quando terminamos um trabalho. Sai das agulhas todo amarfanhado e amarrotado.

A forma que queremos não é a forma que ele tem.

Idealizamos uma coisa e temos outra...para pior.

Depois de terminar de tricotar. Temos de bloquear.

 

Costumo fazer assim:

1. Coloco a peça em água com um pouco de amaciador da roupa.

2. Espero 20 a 30 minutos.

3. Passo a peça por água limpa.

4. Não torço a peça, nunca! Coloco dentro de uma toalha para o excesso de água sair.

5. No chão coloco este tapete que se usa para as crianças, quando começam a gatinhar ou a andar...não sei bem!

(também se pode usar esferovite)

20 (1).JPG

6. Estendo uma toalha.

7. Em cima da toalha estendo a peça, usando alfinetes. Muitos alfinetes!

8. Dou-lhe a forma que quero.

20 (9).JPG

 

20 (10).JPG

 9. Deixo secar.

10. Deixo estar pelo menos 12 horas.

11. Tiro os alfinetes todos.

 

E quando finalmente olhamos para a peça, conseguimos ver todos os pormenores.

Fica com um acabamento muito diferente do que tinha inicialmente.

20 (15).JPG

Penso que é fácil ver a diferença abismal que separa a primeira e a última foto.

 

Este exemplo não é o melhor.

Este xaile que fiz foi uma experiência.

Usei um fio que tinha há muito tempo.

Não gosto dele particularmente.

E usei-o para experimentar um esquema que não conhecia. Nem sequer é o fio apropriado....

Gostei do esquema.

Acho o efeito bonito.

Como o fio tem tonalidades esquisitas....fica assim...

Este xaile vai ser desmanchado...e o fio usado numa outra peça...

 

 

a moda do pisca-pisca....

10.07.17, Joana Marques

Vi-o a primeira vez no parque aqui perto da minha casa.

É muito raro acontecer mas o Vasco não simpatizou com ele.

Olhei e achei que o conhecia de algum lado.

Deve ter uns 60 anos.

Não sei porque raio é que o cão embirrou com ele.

Será porque estava a comer e não lhe deu nada.

Ou isso. Ou era o tique. O senhor, sempre que falava, piscava o olho esquerdo.

Tive de sair mais depressa do parque e tudo.

Não que lhe fosse morder. Nada do género. Este cão não morde.

Mas o senhor falava com o Vasco e nada. O cão parecia possuído. Rosnava baixinho. Gania.

 

 

Depois é que percebi de onde conhecia o senhor.

Era o meu vizinho do rés do chão.

Quando morava na casa antiga devo tê-lo visto aqui pela rua.

Desde que estou aqui não me recordo se já o tinha visto antes ou depois do episódio do parque.

 

Um dia ia eu a sair do prédio e vi o senhor.

- Bom dia.

- Bom dia.

C'um caneco. Não é só o esquerdo. Parece-me que pisca também o olho direito.

 

Os dias foram passando. Entre passeios com o cão. Nunca achei nada de estranho.

Até um dia que deixei o Vasco em casa. Tornei a descer as escadas e cheirou-me a qualquer coisa.

E vi o que não queria ver.

À porta do senhor. Estava um xixi.

Não era um xixi qualquer. Não! Era o xixi do Vasco.

 

Sabem aquelas mães que dizem que até no escuro reconhecem os filhos.

Eu tenho este dom.

Sou assim com o Vasco. Pelo cheiro, pelo xixi, pelo pêlo....e sim...também por isso que estão a pensar...

Só com ele. Este dom não se manifesta em mais nenhum xixi do mundo....

Por isso não. Não estou disponível para identificar outros....xixi's...

Uma carreira brilhante a passar-me ao lado. É o que é.

 

Não sei se era o primeiro xixi que ele deixava ali ao Deus dará....

....mas definitivamente era um xixi.

Corri até casa.

Água dentro de um balde.

Esfregona.

Desci.

Passei com a esfregona.

E pronto! Nada aconteceu. Limpinho como anteriormente. Assunto encerrado.

 

Novo dia. Novas oportunidades. Já nem me lembrava do assunto.

Vou passeá-lo de manhã.

Quando passamos à porta do senhor do pisca-pisca...olho para o cão. E ele sobe à minha frente.

Deixo-o em casa.

Volto à hora de almoço.

Mais uma voltinha ao bairro.

- À minha frente. Isso ou começas a usar fraldas.....

Sem stress.

Um menino do coro. Subiu as escadas.

Almocei.

Voltei para o trabalho.

Cheguei tarde nesse dia.

Jantei primeiro e depois já tarde levei o cão a passear.

Uma volta, duas voltas, três voltas ao bairro. O cão teve o dia inteiro de boa vida e estava cheio de energia.

Ainda tinha tanta coisa para fazer.

Ia com alguma pressa.

 

ALERTA LARANJA

Quando estava a abrir a minha porta de casa, lembrei-me.

Deixei o cão em casa. E Desci.

 

ALERTA AMARELO

Lá estava ele.

Luzidio e reluzente. Um xixi.

Subo as escadas a correr.

Entrei em casa. A correr.

Balde.

Água.

Detergente.

Esfregona.

Desço as escadas.

Tiro o tapete.

 

ALERTA VERMELHO

Com mil Slimani's....

O tapete estava ensopado.

 

O tapete? E agora o que é que eu faço ao tapete?

Deixo o tapete sujo??

Não posso deixar o tapete sujo?

E se tocasse à campaínha e lhe dissesse o que aconteceu...

Achas boa ideia???

Toco à campainha e digo......

- ah! e tal o meu cão não gosta muito de si. Não sei se já reparou mas essa sua mania de piscar os olhos...está a deixar o meu cão com os nervos esfrangalhados...e vai daí fez xixi no tapete. Não fique chateado...por favor....pare de piscar os olhos.....a sério...pare, por favor!

BOA IDEIA, JOANA! Espectacular ideia.

Foge com o tapete. Mas é.....

Fujo com o tapete???

Foge...

Fujo! Para onde????

 

 

Limpei o xixi. À pressa...

Subi as escadas a correr. Balde com água e detergente. E a esfregona. E o tapete.

Limpei o tapete. Com um detergente para as nódoas. Passei com água. Coloquei-o um pouco no secador.

Desci as escadas.

Com o tapete.

Coloquei o tapete.

Subi as escadas.

Entrei em casa. E pensei....

...com este nível de stress...chego aos 40 anos acabada....

 

E agora?

Agora entro no prédio com 30 kg ao meu colo.

À entrada do prédio. Pego no cão. E vou com ele até ao cimo das escadas.

 

Um destes dias estava a sair de sua casa o meu vizinho. Eu com o cão ao colo.

- Parece que leva aí um santo para o altar.

E nisto lá reparo.

Primeiro o esquerdo.

Depois o direito.

A moda do pisca-pisca.

 

...até desviei o olhar.

Senti-me meia zonza...e agoniada.

 

Simultaneamente, feliz....podia ser pior. E ter ficado incontinente....

 

Joana. Porque não te calas?

07.07.17, Joana Marques

Ligou-me uma conhecida minha.

Não lhe posso chamar amiga...

Liga-me às vezes para falar.

Eu nunca me lembro de lhe ter ligado na vida...

É uma pessoa simpática....mas tanto faz na minha vida. E eu na vida dela....

Talvez um dia. Eu ou ela. Ela ou eu. Faça a diferença.

Não sei. O futuro o dirá.

 

- blá, blá, blá....

Começo a bocejar...

 

- a vida....blá, blá, blá...

Não estou com grande atenção....

...Joaninha, em serviços mínimos....

 

 

- o namorado...blá, blá, blá....

Olho pela janela e vejo o puto que mora no 2º andar, a andar de bicicleta.

 

 

- o trabalho...blá, blá, blá....

Continuo a olhar para o puto.

4 anos e parece o Lance Armstrong.

Sem a parte das drogas...

 

 

- e mais o namorado.....blá, blá, blá...

Tão fofo o puto.

É mesmo querido....

 

 

- e as férias.............blá, blá, blá....

Onde é que está o meu vizinho do 2º andar?

Perdi o meu vizinho do 2º andar.

Alguém viu o meu vizinho do 2º andar?

 

- e o namorado e.....blá, blá, blá...

O Vasco está a dormir.

Tenho de comprar ovos.

E brócolos.

Tenho de arrumar a loiça que está dentro da máquina.

Fazer uma máquina de roupa.

Pára tudo!

Olha, olha, lá está o meu vizinho do 2º andar.

Sem bicicleta?

E com a mãe.

Devem ir às compras.

Ou ao parque infantil.

 

- Joana? Estás aí????

- Estou claro....estou a ouvir-te...

 

- Dás-me um segundo?

- Claro. Todos os que quiseres...

 

 

- Caetana, não faça isso!

-Ah! Uau! Tens uma cadela??

- Não.

-

- Estava a falar com a minha sobrinha...

-

 

Ás vezes.

Muitas vezes.

A maioria das vezes.

99% das vezes.

Pronto. 99,99999% das vezes.

Ficava tão bem caladinha..........

 

o tempo. Passa a correr...

06.07.17, Joana Marques

5h30 da manhã. Toca o despertador. O meu. Especial.

Já estava acordada desde a 5h. Mas não quis fazer-lhe essa desfeita.

Não sei se o engano. Acho que não o engano. Ele já sabia que eu estava acordada.

Saio de casa e vou correr.

Regresso às 6h30. Entro no duche. Canto uma música que não me sai da cabeça.

Visto a roupa de trazer por casa. Se vestir a roupa a sério. Vou-me sujar..

Cheia de fome.

 

Bato um ovo.

Junto-lhe 2 colheres de sopa de kefir.

E duas colheres de sopa farinha de trigo sarraceno.

Mexo tudo. Micro-ondas, 3 minutos.

Numa frigideira ponho uma colher de sopa de óleo de coco.

Quando os 3 minutos terminam tiro o pãozinho que acabei de fazer.

Parto-o em dois.

Ponho-o a torrar na frigideira.

Preparo uns mirtilos.

E uns morangos.

Barro a tosta com manteiga de amêndoa.

E como calmamente.

pequenoalmoço.jpg

Visto a roupa que tenho separada desde Domingo.

Fico pronta em 10 minutos.

Sapatos. 8 cm.

Pego no cão.

- Não quero ir.

- Tens de ir.

- Não vou.

- Vai já à minha frente...ó rafeiro.

- Pronto! Eu vou. Contrariado....mas vou.

 

Lentamente avança. Um passeio curto. Do tamanho da vontade dele.

Deixo o cão em casa.

Vou para o trabalho

10 minutos a andar depressa.

Chego ao trabalho são 7h30.

Despacho trabalho. Muito trabalho.

Subo escadas. Desço escadas. Subo outra vez.

Preciso de dados. Se pedir por mail nem daqui a uma semana.

Desço.

Subo.

E mais uma vez.

Duas.

Três.

Reunião.

Hora de almoço

Vou a casa.

Passeio o cão. De bom humor.

 

Descongelo um lombo de salmão.

Grelho.

E desfio.

À parte ponho alface.

Rúcula.

Espinafre.

Espargos.

Frutos secos.

Acrescento tomate.

Azeite. Não esquecer o azeite.

 Saboreio calmamente.

salada.jpgRetemperada. Volto ao trabalho.

Mais calmo que de manhã. Mas mesmo assim....

A tarde passa num fósforo.

Chego a casa.

Quase às 21h.

Pego no cão. Vou dar uma volta com ele.

O estômago. Reclama.

 

Duas batatas doce.

Um inhame.

3 cenouras.

Uma cebola.

Um peito de frango.

Água.

Vai a cozer.

Trituradora. Puré.

Cogumelos salteados em azeite.

Por cima os cogumelos, um fio de azeite, pinhões, canónigos e mais uns vegetais que tinha por casa.

Sai uma sopa.

Retemperadora.

Janto com calma.

sopa1.jpg

Arrumo a cozinha.

Vou passear o cão.

Aproveito a última meia hora do dia para escrever este post.

 

E assim se passou mais um dia.

Os dias vão. E não voltam...

O tempo. Passa a correr...

 

as férias grandes...

05.07.17, Joana Marques

Era mais ou menos por esta altura que ia de férias.

Tinha pouco mais de meia dúzia de anos.

A escola tinha acabado. A minha, a do meu irmão e a da minha irmã.

Já estávamos de férias há quase um mês.

Em nossa casa, o stress aumentava de dia para dia.

 

A dona Aurora que trabalhava lá em casa dizia para a minha mãe:

- Dona Mariana, assim não consigo dar conta do trabalho. É muita coisa.

Tendo em conta que a minha irmã andava pelos 17 anos.

Passava o dia com amigas e quando estava em casa estava no quarto dela ou na sala.

O meu irmão com uns 12 anos passava o tempo a brincar com os amigos na rua.

O que a dona Aurora queria dizer era:

-Dona Mariana, com o traste da Joana aqui sempre a rondar não consigo dar conta do recado..

 

Era mais ou menos assim:

- Dona Aurora, posso cortar as batatas?

- Dona Aurora, posso passar a carne?

- Dona Aurora, podes fazer caldo verde para o almoço?

- Dona Aurora, e farófias! Faz farófias!! Se faz favor, faz farófias. (olhos de Vasco quando quer um biscoito!)

- Dona Aurora, que horas são?

- Dona Aurora, em que ano está o seu filho?

- Dona Aurora, sempre vai fazer farófias?

- Dona Aurora, conta-me uma história?

- Dona Aurora, quando é que vai aspirar?? Posso aspirar??? Posso? Posso? (olhos de Vasco quando quer um biscoito)

 

É óbvio que estas perguntas não eram feitas num dia. 24 horas.

Estas perguntas eram feitas em 5 minutos.

Ou menos....depois de comer farófias, a disposição aumentava.

Escusado será dizer que a pobre da dona Aurora tinha uma paciência infinita para mim.

E só se queixava mesmo quando não aguentava mais.

 

Princípio de Julho, era a altura ideal para irmos para o Alentejo.

Quase três meses em casa da avó Maria.

Não podia ser melhor.

No primeiro fim de semana de Julho rumávamos até ao Sul.

Ficava eu e o meu irmão.

A minha irmã fazia a viagem connosco, para visitar os meus avós.

Voltava para Lisboa.

17 anos. E toda uma vida social em Lisboa. Não queria perder tempo no Alentejo com pirralhos.

Tal como o meu pai que nos conduzia e a minha mãe. Iam, deixavam-nos e voltavam alguns fins-de semana.

Aproveitavam para ir uma semana para fora. Normalmente para o estrangeiro.

 

Antes de ir, havia coisas a tratar.

Cada um individualmente, preparava a sua mala.

Eu, Joana ia carregadinha de livros. Tinha 7 anos. Tinha aprendido a ler.

 

A minha mala não passou na inspeção.

Se a nossa casa fosse um aeroporto tinham disparado todos os alarmes.

- E roupa? Achas que não precisas de roupa?

- Levo num saco à parte.

- Tira metade dos livros. E já há espaço para a roupa.

- Levo num saco à parte.

- Joana, tira metade dos livros.

- Posso levar num saco à parte?

- Joana, estou te a dizer para tirar metade dos livros.

- TIAGO!! Tens espaço na tua mala? Posso pôr aí a minha roupa???

- Não.

Homens...uns imprestáveis quando precisamos realmente deles....

- Onde é que vais?

- Vou pedir o saco que a Sofia costuma usar, quando vai passar o fim-de-semana, a casa da Ana Maria.

- JOANA, TIRA METADE DOS LIVROS....

- Ó Sofia, podes-me emprestar o saco que costumas usar, quando vais passar o fim-de-semana, a casa da Ana Maria??

- Não.

- Não?

- Claro que não. Vais estragá-lo. E eu posso precisar dele nos próximos meses.

- Empresta-me até chegarmos ao Alentejo. Quando chegar lá, tiro tudo e arrumo no armário do quarto. Juro!!

- Empresto-te o saco, devolves-me o saco logo, mal chegues a casa da avó e deixas-me ir à janela durante a viagem.

- Pode ser. Passa para cá o saco.

-Toma lá o saco. Não te esqueças da promessa!

- Pronto. Problema resolvido. Posso levar os livros e a minha roupa.

- João. Eu não sei o que fazer à Joana.

- Deixa lá. Quer levar livros. Faz-lhe bem ler.

 

Saímos, sábado 7h, da manhã.

O meu pai gostava de ir muito cedo.

Eu já estava acordada há um bom par de horas.

Dormia pouco. E com a excitação ainda dormi menos.

- O Filipe vai lá estar?

- E o António vai lá estar?

- Vão ficar por quanto tempo?

- Achas que a avó nos faz um pãozinho com chouriço?

- Quantas galinhas é que a avó terá?

- Acham que posso pedir à avó para me contar a história da gata borralheira?

- Será que a avó me fez uma coroa com aquelas flores amarelinhas que cheiram bem?

- Acham que posso pedir para dormir no quarto que tem a janela que dá para o tanque?

 

- ACHAS QUE TE PODES CALAR POR 5 MINUTOS, JOANA??? Faz um esforço, filha. 5 minutos??

- Papáaaaaaaaaa, já passaram 5 minutos??

 

A minha irmã ainda dormitava mas já tinha assumido o seu lugar à janela.

O meu irmão segredou-me ao ouvido.

- Vai no meio. Se teimares em ir à janela digo aos pais que foste tu que partiste a janela da arrecadação da Dona Arminda.

- Mas não fui eu....foste tu..

- Achas que vão acreditar em quem??

A minha reputação por aqueles dias andava pelas ruas da amargura....cedi.

 

O carro ia tão cheio.

Tão cheio.

Tão cheio.

Não cabia nem mais uma noz.

A minha mãe levava um melão para o almoço que foi durante toda a viagem debaixo dos pés dela.

Um calor insuportável. Era cedo, mas o calor sufocava.

 

O meu pai ligou o rádio.

Numa daquelas rádios entediantes.

Só gente a falar.

Sobre qualquer coisa sem jeito. Os meus pais pareciam gostar.

A minha irmã dormitava.

O meu irmão tinha um walkman. Ouvia a música dele e não estava para ninguém.

Os meus pais falavam entre eles.

E ali estava eu.

Sem janela.

Sem ninguém para conversar.

Sem nada para fazer.

 

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

 

Um choro.

Acordou todos os passageiros do carro.

- Por amor de Deus, Joana o que é que se passa?

- Esqueci-me de uma coisa em casa.

E mais choro.

Lágrimas aos litros.

Ranho.

Muito choro.

E gritos de sofrimento.

- Ó filha mas já estamos do outro lado do rio. Não podemos voltar para casa.

Choro.

Uma aflição tamanha.

Berros por todo o lado.

Um olhar fulminante da minha irmã.

Um olhar de:

- É mesmo um bebé esta miúda. Por parte do meu irmão.

 

- Joaninha, o que te esqueceste? Diz-nos. Se for importante compramos lá.

- Não se pode comprar lá. Se não voltarmos, vai morrer.

Muito choro.

Lágrimas.

Nem eram lágrimas. Eram cataratas. De verdade.

Fariam corar de vergonha as do Niágara.

Uma chinfrineira insuportável no carro.

- Morrer?? Como assim?

- Não liguem. Pai, segue viagem...ninguém aguenta muito mais tempo neste carro. oh! caloooooooor...

Dizia a minha irmã.

- Joana, uma mala cheia e um saco, de certeza que está dentro de um deles e achas que ficou em casa.

A minha mãe com toda a paciência. Porque mãe é mãe, até quando é chato ser mãe.

- Por todos os santinhos, avancem. Se te esqueceste não há nada a fazer. Percebeste, Joana???

Acrescentou a minha irmã. Com ódio no olhar....

 

Todas as quartas-feiras.

A minha mãe encontrava-se com as amigas na pastelaria Versailles.

Desde que a escola acabou. Eu ia a reboque.

 

Foi lá que conheci Pedro Simão.

Pedro Simão era filho de uma amiga da minha mãe.

Pedro Simão era o amor da minha vida.

Pedro Simão gostava de mim também.

 

E tinha tido a prova de que era amor. Verdadeiro amor.

Pedro Simão ofereceu-me um grilo. Dentro de uma casota de grilo. E a casota do grilo era verde e branca.

Também ele tinha um grilo. Numa casota vermelha.

Sendo ele do Sporting. Deu-me a verde. E ficou com a vermelha.

Uma prova de amor irrefutável.

Escondi o grilo dentro de uma malinha que levava.

E em casa estava escondido no meu quarto.

Dava-lhe alface às escondidas de toda a gente.

E agora ia a caminho do Alentejo sem o grilo.

 

- BUÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

- Joana, pare com isso se faz favor. Quer-nos dizer o que é que deixou em casa.

- O grilo. Deixei em casa o grilo que o Pedro Simão me deu. Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

- Um grilo? Que nojo...

- Joana, não pode ser. Não podemos voltar agora, para trás...por causa de um grilo.

 

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

- Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

 

 

Já estávamos perto de Montemor.

O meu pai fez inversão de marcha.

 

Cheguei a casa da minha avó Maria, com uma mala cheia de livros.

O saco da minha irmã com os meus pertences.

E um grilo numa casota verde e branca.

 

carro.jpg

 

palavra de fada do lar...

03.07.17, Joana Marques

Modéstia à parte sou uma fada do lar.

Nem sempre foi assim.

Enquanto vivi em casa dos meus pais. Sempre tivemos empregada. Estava lá por casa, das 9h às 17h.

É claro que todos nós, eu e os meus irmãos tínhamos tarefas atribuídas.

Fazíamos a cama todos os dias.

Separávamos a nossa roupa suja.

Todos os dias um de nós punha a loiça do jantar na máquina, o outro tirava e normalmente a minha irmã arrumava.

A minha mãe, não sei porquê, não confiava a loiça nas minhas mãos. Nem nas do meu irmão.

É óbvio que termos empregada facilitava muito a nossa vida. Hoje dou valor a isso.

 

Podia ter ficado a usufruir destas mordomias mas saí de casa aos 17 anos.

E nos primeiros tempos senti na pele. E senti a falta.

A minha mãe preocupada comigo ainda me disse que podia chamar a dona Aurora uma vez por semana.

Com a condição de ser eu a pagar. Para dar mais valor ainda.

Disse que não. Não pelo dinheiro. Ou por desvalorizar a oferta.

Simplesmente por orgulho.

 

Uma pessoa ou se deixa levar e é infeliz o resto da vida ou enfrenta a situação.

Não me deixei vencer por um frigorífico vazio ou cheio de porcarias. Não me deixei vencer por uma casa suja.

Em menos de nada comecei a esmerar-me no serviço doméstico.

 

Um dos maiores prazeres que comecei a ter foi chegar a casa e ter comida boa feita.

E ter uma casa a cheirar bem. E uma casa em ordem.

 

Ao longo dos anos comecei a gostar de fazer a maioria das tarefas domésticas.

Passar a ferro. Não custa nada porque enquanto passo a ferro acompanho o meu filme, ou série preferida.

Limpar a casa. Não custa nada porque enquanto ando com o aspirador ou com a esfregona ouço música, canto e tudo.

Cozinhar. Divertidíssimo. Parece que estou a superar uma prova de obstáculos. Porque passo a vida a fugir do cão.

 

Quando morava em Portugal escolhia a semana antes da Páscoa para fazer limpezas gerais.

Se tivesse bom tempo. A minha casa era virada pelo avesso.

No ano passado, demorei uma eternidade a tirar aqueles pequenos bolores que se instalam entre os azulejos, na casa de banho.

Não sei se estão a ver o que é?

Passei os azulejos todos, com ênfase nos da banheira, com uma escova de dentes e um detergente.

Também usei lixívia.

O resultado?

Muito cansaço. E no final, não ficou bem como queria.

 

 

Mudei de país.

Não mudei de hábitos.

E quando mudei de casa, há pouco, reparei que os azulejos sofriam do mesmo mal.

Vi na televisão um anúncio a este detergente.

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Não estava disposta a gastar o meu tempo a raspar os azulejos. Resolvi experimentar.

Comprei-o. Ontem.

Espalhei-o nos azulejos que estão por cima da banheira. Eram os que pediam socorro em voz alta...

Saí da casa de banho. O cheiro não é bom. Podemos até dizer que é mau...

 

Mal comecei a borrifar os azulejos. Pernas para que te quero. Vasco a apanhar ar na varanda.

5 minutos depois voltei à casa de banho.

Vasco continuava na varanda.

E as manchas escuras foram passear. Para longe. E acho que não voltam.

Passei o chuveiro por cima dos azulejos e ficou como novo.

Funciona mesmo. Palavra de fada do lar...

 

Estou a pensar seriamente, aplicar este detergente a outras coisas cá em casa.

Aos cocos por exemplo!

Para afastar a bicheza mais intrometida....e metediça...

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a primeira palavra que escrevi na vida. Não foi Joana.

01.07.17, Joana Marques

A primeira palavra que escrevi na vida foi Sporting.

Foi o meu pai que me ensinou.

 

Nasci numa família sportinguista.

Antes do meu pai nascer, já toda a família era sportinguista.

O meu pai e todos os irmãos são sportinguistas. O meu avô nem se teve de esforçar muito porque para todos era óbvio que eram do Sporting. Ponto Final!

 

Tal como aconteceu na minha família.

Quando nasci, toda a gente era do Sporting.

O meu irmão, a minha irmã, a minha mãe e obviamente o meu pai.

Antes de ser registada como cidadã portuguesa, fui registada como sócia do Sporting.

Tenho 36 anos de sócia e uns mesinhos.

 

Do lado da minha mãe existiam todas as cores. A minha mãe é nascida e criada no Porto.

Do lado do meu pai, não! Todos os meus tios e tias. E primos. Todos do Sporting.

Desde pequena que adormecia com a voz do meu pai a contar-me histórias do Sporting.

Aquele jogo épico.

Aquele sportinguista que ele admirava.

Aquela modalidade onde éramos imparáveis.

O meu pai sabia tudo sobre o Sporting.

E quando me juntava com os meus tios, tias e primos só se falava de Sporting.

 

O meu pai, para grande desgosto da minha mãe, tinha lá em casa uma estante só com Sporting. Livros, folhetos, bilhetes antigos ou bugigangas que foi colecionando ao longo dos tempos.

 

O meu irmão, mais velho que eu 5 anos e tal como o meu pai, colecionava tudo. Recortes de jornais. Cromos. Posters. Camisolas. Cachecóis. A cada campeonato, comprava sempre uma nova caderneta de cromos. Mas só colava os cromos dos jogadores do Sporting. Deitava fora o resto.

 

 

Eu nasci e cresci neste ambiente.

E durante um tempo tive um problema grave.

Muito grave.

Não sabia ler.

Bem olhava para a estante do meu pai. Mas não sabia ler.

Até que entrei para a primária. E comecei a juntar as letras. E aos poucos a aprender a ler.

E quando comecei a ler mais ninguém me parou.

Lia tudo. Desde as paragens de autocarro, passando pelos jornais que apanhava e todos os livros que deitava a mão.

E queria ler os livros da estante do meu pai. Os livros do Sporting. A minha mãe não me deixava.

 

Tive a sorte de ter herdado dos meus irmãos uma quantidade de livros.

Do meu irmão a coleção dos cinco. E montes de livros de banda desenhada.

Da minha irmã a coleção das gémeas de Santa Clara, do Colégio das 4 Torres, da Carlota, da Patrícia, etc.

 

Foi exatamente por ler a coleção das gémeas de Santa Clara que tive a melhor ideia de sempre.

Comprar uma lanterna.

Para quê?

Para ler à noite sem os meus pais darem conta.

 

Entrei na loja do Sr. Jorge, em Campo de Ourique e perguntei o preço das lanternas.

300$.

Uma fortuna.

Ainda não tinha semanada. Com 7 anos não tinha direito. Em minha casa só a partir dos 10, quando fosse para o 5º ano.

Recebia dinheiro dos meus tios nos anos e no Natal mas ia para uma conta. Foi com esse dinheiro que comprei o meu primeiro carro. Verdinho! Lindo...

 

Comecei a juntar todo o dinheiro que ia conseguindo com esforço.

Ás vezes recebia um dinheirito para comprar rebuçados, pastilhas e às vezes um bolo.

O meu irmão e a minha irmã de vez em quando lá me davam uma esmola também.

Os meus pais também me iam dando porque pensavam que eu estava a fazer a coleção de cromos: "dias felizes".

Quais dias felizes, quais quê?

Queria era uma lanterna.

Ao fim de longos meses de poupança consegui ter 300$. E lá comprei a lanterna.

- Sr. Jorge não diga nada à minha mãe...

O Sr. Jorge sorriu. E cumpriu. E nunca disse nada.

 

Era fácil.

De noite. Quando toda a gente lá de casa dormia. Levantava-me.

Subia a uma cadeira.

Tirava um livro.

Levava-o para a cama.

E debaixo dos cobertores com a minha lanterna.

Li a história e as histórias todas do Sporting.

Li e vivi episódios. Bons e maus.

7 anos. E era feita de Sporting.

 

Para mim ser do Sporting é mais ou menos como me chamar Joana.

Ou ser filha de Mariana e de João. Irmã de Sofia e de Tiago.

Ser do Sporting. Eu sou do Sporting.

 

Parabéns!

111 anos. 111 anos de história. Que é também a minha história. E a dos meus.

 

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