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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

um chá com uma rodela de limão....

02.12.17, Joana Marques

Os meus pais sempre fizeram uma a duas viagens ao estrangeiro a cada ano.

A primeira era feita na primavera e a segunda mais para o verão, outono.

Quando a minha irmã fez dez anos, o meu irmão tinha 5 e eu tinha nascido nesse ano, teve o privilégio de acompanhar os meus pais numa dessas viagens.

Aconteceu o mesmo com meu irmão quando atingiu os 10 anos. E mais tarde comigo.

Eu comecei a ir aos 8 anos. Porque, já se sabe, eu era chata. E tanto insisti que os meus pais lá me levaram.

Tive de sobreviver aos olhares mortíferos dos meus irmãos mas ainda assim..fui.

 

Gostei de tudo.

Eu queria ser um avião e por isso andar de avião foi o melhor que me aconteceu.

Fomos a Madrid.

Mais tarde, seguiu-se Paris. Londres. Roma. Amesterdão. Enfim, Europa. Voltámos a França, a Inglaterra e Itália para explorar mais cidades e recantos.

Também demos um salto a Cuba, porque estava na moda. E com os meus pais e irmãos fomos várias vezes esquiar a Andorra.

Eu e os meus irmãos fomos uns privilegiados.

 

O bichinho ficou cá.

Tantas vezes que passei pela Bertrand do Chiado para comprar guias de viagem.

O mal destas viagens em família é que não podia escolher o itinerário.

Pois, uma pessoa é pobre e mal agradecida.

 

Quando eu fiz 17 anos. Exatamente na minha festa de anos. O meu tio Nuno disse-me que uma companhia aérea estava à procura de hospedeiras. Deu-me o contacto.

Eu fiquei com o número de telefone no bolso durante uns dias. Passaram do bolso das calças, para o bolso do casaco. E depois para o estojo.

E depois liguei.

Deram uma morada na Avenida da República, a hora e o dia.

Fui. Sem um pingo de nervos.

Estavam lá umas 40 pessoas. Mais mulheres do que homens.

Carregadas de maquilhagem e com saltos de 10 cm.

Eu. Ao natural. Calças de ganga. E ténis.

Caiu-me a ficha. E percebi para o que ia.

Fizeram-me uma entrevista em francês.

E outra em Inglês.

Era fluente em ambas as línguas.

Porque a minha mãe fez questão de me pôr a aprender francês e inglês desde miúda.

 

Fizeram-me uma entrevista em português. Onde me colocaram várias situações que poderiam acontecer num avião e como resolveria.

A única experiência que tinha era de viajar. Lá fui respondendo.

Perguntaram-me também sobre a vida. E sobre tudo e sobre nada.

Com esta brincadeira faltei às aulas nesse dia.

E tive de contar em casa.

Se a minha mãe descobrisse através do diretor de turma nem queria pensar...

Quando souberam em casa. O meu pai achou graça. A minha mãe comeu-me o fígado.

 

Passados uns dias ligaram-me.

- Joana, é para lhe dizer que a formação começa segunda feira.

- Formação?

- Sim, para assistentes de bordo.

Quase tive um avc. Caneco. Como era possível.

Foi difícil esse período. Conciliar um 12º ano e uma formação. Foi tudo menos fácil.

Mais tarde percebi que só entrei porque tinha bom aspeto. E porque sabia falar francês e inglês.

Tinha uns centímetros a menos. E quase não entrei por isso.

A formação terminou. E eu comecei a aprender alemão. Isto porque de repente achei que tinha encontrado uma profissão de futuro.

Era menor. E em casa só autorizaram porque prometi que iria para a faculdade e só podia sair de lá com o diploma. Cumpri.

 

Foram anos espetaculares.

Por tudo. Pelas viagens. Pelos aviões. Pelas viagens gratuitas a que tinha direito. Pelo mundo todo que percorri.

Por perceber que sou uma gotinha minúscula sem importância. Viajar põe-nos no devido lugar em 3 tempos.

E sobretudo pelas pessoas que conheci.

Famosos, ou anónimos. Aprendi muito com eles. A querer ser como eles ou a não querer.

Aprendi a gostar de pessoas que achava que detestava. E também o contrário.

Saí porque me apareceu uma boa oportunidade na minha área de formação. Gestão.

Achei que devia crescer. E tentar alcançar outros objetivos.

 

Hoje entrei, num café. Perto da casa dos meus pais. No Estoril.

Com gesso. E muletas.

E ouvi.

- Joana! É a Joana, não é?

Virei-me. Mobilidade reduzida é assim. Olhei.

E dou de caras com um senhor. E uma senhora. As caras não me eram estranhas.

E veio-me à memória.

Lisboa-Rio de Janeiro.

Nem sei quando.

Ele tinha medo de voar. Muito medo.

A viagem foi calma. E estava um banco vago junto a eles.

E eu juntei-me. Aos dois.

Servi-lhe um chá com uma rodela de limão por cima.

Uma viagem longa que passou num segundo porque estava em boa companhia.

 

 

Hoje, parece que o tempo não tinha passado e conversámos como há 20 anos atrás.

Falaram-me das viagens todas que já fizeram.

Das vezes que falaram de mim.

Falaram-me dos filhos. E dos netos.

E da vida.

- Joana, foi por sua causa que eu perdi o medo de voar.

 

Pedi no café. Sem eles darem conta.

E voltei a servi-los....um chá com uma rodela de limão por cima...

...é um privilégio tremendo servir pessoas especiais....

 

 

uma história de Natal...

01.12.17, Joana Marques

Tinha 8 anos.

E o meu pai tinha tirado a semana do Natal para irmos todos ao Alentejo.

Mal chegámos a casa da minha avó pus os olhos num gato.

A minha avó lá explicou que tinha aparecido um gato lá em casa.

Os meus avós tinham um cão. Que o meu avô adorava. E o gato chateava demasiado o cão.

O meu avô já tinha dito à minha avó para não alimentar o gato.

Mas a minha avó lá ia dando às escondidas comida ao gato.

O gato era pouco simpático. Medroso. E arisco.

O aspeto também não ajudava. Era o gato mais feio que alguma vez já tinha visto.

Esqueçam os gatos amorosos. Este parecia o anti-cristo.

- Joana não toques no gato que te arranha. E doenças. E pulgas.

Avisou-me a minha mãe.

 

É claro que não dei ouvidos à minha mãe.

E passadas duas horas de lá ter chegado, estava irreconhecível.

Tal era o nível de arranhanço.

 

Não me dei por vencida.

Claro, que não.

Comecei a roubar leite aos poucos. Via quando estava livre a cozinha e cá vai disto...

Depois, meus amigos. Os horizontes abriram-se para mim...quando percebi que a minha avó guardava na despensa, leite para alimentar todos os gatos de Portugal continental...

Entrar pela cozinha e seguir para a despensa era perigoso. Podia ser apanhada.

E convenhamos...era pouco elaborado para mim....

Um dia entrei na despensa e deixei a janela aberta. Uma fresta. Não se via. Não se notava.

Foi fácil. Comecei a entrar na despensa pela janela.

Ao fim de dois dias, eu Joana, não andava pelo quintal da minha avó.

Desfilava com uns 5 ou 6 súbditos atrás de mim.

Para além do gato da minha avó, tinham aparecido mais, não sei bem de onde...

 

Nunca fui apanhada. Embora a minha avó começasse a achar que nós os 5, bebíamos demasiado leite.

Também estranharam lá por casa o facto dos gatos de um momento para o outro me adorarem...

 

Algo não batia certo. Nem em casa da minha avó. Nem nas redondezas.

Um dia, fui à mercearia com a minha avó, e uma vizinha queixava-se:

- O meu tareco desapareceu, há 5 dias que não o vejo....

- Também o meu. Já o tenho há 10 anos e é a primeira vez que desaparece...

 

Lembro-me de ver a minha avó. De repente com os olhos postos em mim. E a juntar as peças.

E percebeu.

Claro que percebeu.

A minha avó chegou a casa e arranjou um canto na cozinha para o gato.

O gato aos poucos foi-se adaptando.

Quando voltei lá pelo Carnaval o gato já passava os serões na sala com os meus avós.

A minha avó morreu 5 anos depois. O meu avô morreu logo a seguir. E o gato foi adotado pela minha tia Luz.

Jacaré, o gato. Morreu 5 semanas depois da minha avó ter morrido.

 

A minha avó nunca me denunciou pelo roubo.

Ficou um segredo só nosso. Até hoje..

 

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