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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Julieta

23.02.18, Joana Marques

Tudo começou com a minha vinda para Portugal.

Estava eu com a perna partida. Em casa. E com dores.

Recebo um telefonema do Sr. Ludovino.

- Joana, um gato, anda a rondar o nosso prédio.

- ?

Percebi um gato. Mas pelo tom de voz. E pela gravidade desse tom de voz deveria ter percebido.

- Joana, um tigre, anda a rondar o nosso prédio.

Ou

- Joana, um leão, anda a rondar o nosso prédio.

Ou ainda.

- Joana, um crocodilo, anda a rondar o nosso prédio.

Mas não. Era um gato!

Ficámos por aqui. Andava um gato a rondar. O que podia eu fazer. No estado em que eu estava.

 

No dia em que tirei o gesso passei por Carcavelos.

Mal o meu pai estacionou o carro. Na garagem. Salta-nos em cima o Sr. Ludovino.

- Cuidado, cuidado com o rubi.

- Cuidado com o quê??

Mal digo isto, olho e vejo num canto, uma caixinha de comida para gato. Um cobertor. E uma caixinha com água.

E veio-me à cabeça o gato que andava a rondar o prédio.

 

Volto a Carcavelos uns dias mais tarde.

No dia em que fiz a escritura da casa. Para fazer uma visita aos meus novos aposentos.

E...

- Joana, não queres ir ver a Pérola??

- Pérola?? Quem é a Pérola???

- Ó rapariga! E eu é que estou velho??? Ainda outro dia estiveste com ela e já não te lembras..

- Eu? Não conheço Pérola nenhuma..

- A gata!

- Não me diga que é uma ninhada de gatos??? Uma gata??

- É a mesma.

- Não era Rubi?

- Mudei-lhe o nome. Virei-a ao contrário e percebi que era uma gata.

 

Lá fomos ver a gata.

Já não estava na garagem. Tinha os seus aposentos, qual princesa do agreste, à entrada do prédio.

Chamei-a. Andou a vaguear pelas minhas pernas. Fiz-lhe festas. Ela acatou bem.

Muito ternurenta a Pérola...

 

Estava um dia de manhã cedo. Com o cão a infernizar-me a vida. E a Alice a não colaborar.

Toca o telemóvel.

Senhor Ludovino.

Do outro lado. Uma voz desanimada.

- A Esmeralda fugiu.

Com a Alice num braço. O telemóvel no outro. O Vasco a querer abocanhar os bifes congelados que estavam dentro de uma caixa na bancada da cozinha.

- Quem é a Esmeralda?

Do outro lado. A pessoa passou-se.

- Joana, tens uma pedra no lugar do coração. A gata!

- A Pérola?

- Que diferença faz? Aqueles homens das obras...não sabem fechar a porta. E deu nisto. A Esmeralda fugiu.

O Vasco quase a chegar aos bifes. A Alice a puxar-me o cabelo. E eu a gerir a crise do Sr. Ludovino.

Que bela artista de circo! Joana, sim senhor!

- Vai ver que ela aparece. Já tem aí a sua casa. Foi só dar uma volta!

Ficámos por aqui.

As vezes seguintes que fui a Carcavelos não vi a gata mas também não perguntei. Sobretudo porque me esqueci de perguntar.

 

No fim de semana passado. Estava em Angola.

Domingo. 30º.

Não se trabalha ao Domingo.

E por isso eu estava concentradíssima. Ora na piscina. Ora a ler um livro. Ou a tricotar.

Estava a ser tão feliz naquela piscina.

Toca o meu telemóvel.

Sr. Ludovino.

- Joana, a Preciosa está ferida.

- Está tudo bem?

- Não! A Preciosa está ferida. Ó rapariga mas não ouves o que te dizem??

Respirei fundo. Sinceramente, nem me lembrava da gata já.

- A Preciosa...não estou a acompanhar...

- Ai! Mas voltamos ao mesmo, rapariga. A gata! Quem é que havia de ser...

- Ah!

- Ah??? Não fazes nada.

- Sr. Ludovino, estou em Angola.

- Em Angola, em Angola.

E desligou o telefone.

Fiquei preocupada.

Liguei para o Rui, o veterinário do Vasco. Uma joia de moço. Um coração do tamanho do mundo.

Perguntei-lhe se não se importava de passar por Carcavelos. Como veterinário, saberia resolver a crise. Com a gata.

Com o Sr. Ludovino seria outra conversa.

O Rui disse-me que sim. Que passava por lá.

 

Fiquei descansada. E continuei a minha vida difícil.

A trabalhar por turnos.

Piscina.

Livro.

Tricot.

30º.

 

Toca o telemóvel.

Senhor Ludovino.

- Joana, está aqui um homem.

- É o Rui??

- Onde é que estás?

- Estou em Angola...

- Ainda estás em Angola?? Que raio de administradora és tu...que vais para Angola e deixas o prédio à mercê de um homem qualquer???

- Não é um homem qualquer, é o veterinário do Vasco. Deixe-o trabalhar.

- Ele quer levar a Preciosa.

- É porque ela precisa. Não se preocupe. Depois acerto contas com ele.

 

Resumindo.

Cheguei a Lisboa na terça feira de manhã.

Pela tarde fui buscar a gata. Estava ferida. Tratada, já. Os ferimentos eram ligeiros. Nada de preocupante.

E dei-lhe o nome de Julieta.

Nunca tive um gato na vida. Porque durante muito tempo fui alérgica.

Como muitas das minhas alergias se foram embora com o tempo, tenho esperança que a minha alergia aos gatos tenho ido também.

Por enquanto, nem um espirro. Nem olhos vermelhos. Nem lágrimas de crocodilo.

Está tudo bem.

A Julieta é muito querida. Tem porte real.

O trágico mesmo é que agora tenho dois companheiros de cama.

A Julieta de um lado.

E o Vasco do outro.

Estou me a transformar naquelas solteironas. Que cheiram a bolas de naftalina. Usam collants durante o ano todo.

E estão mais encalhadas que o tolan.

 

A foto da Julieta está no facebook do quiosque.

 

sou da tribo. Dos excessivos.

23.02.18, Joana Marques

Estava no quinto ano. Pelo Natal. Na escola.

Fizemos o amigo secreto. Com a nossa diretora de turma.

Tínhamos de levar um presente . Simbólico. Ou quase.

A minha mãe ajudou-me e fiz um marcador de livro.

Foi feito em papel de aguarela. Pintado por mim.

A minha mãe cortou o papel. Os extremos do marcador ficaram em formato triangular.

Colocou-se uma fitinha num dos extremos.

A minha mãe costumava guardar folhas e pétalas de flores dentro de um dicionário grande.

Colocou-se o marcador dentro do dicionário durante dois dias. E o marcador ficou a cheirar bem.

Embrulhámos, o marcador, dentro de um envelope de papel que a minha mãe me ensinou a fazer. Verde. E o laço era branco. Fui eu que escolhi as cores.

Estava tão orgulhosa do meu presente. 

Era simples. Mas muito bonito. 

Estava ansiosa para que o dia chegasse. Para dar o presente.

E não só. Era criança.

Ansiava também por receber de volta. Um presente qualquer.

O dia da troca de presentes chegou.

E o meu amigo Gui passou lá por casa. Íamos os dois para a escola.

Mostrei-lhe o presente. 

O Gui encolheu os ombros. E disse:

- Nunca mais me lembrei disso.

- Não tens presente??

- Não.

- Como é que não tens presente? Assim não recebes presente. Vais ser o único da aula a não receber nada.

O Gui encolheu os ombros. Não parecia muito preocupado. Eu assumi a preocupação toda.

 

Assim de improviso.

Naquele tempo mínimo que restava, olhei em redor.

Tirei uma moldura. Fui à gaveta dos papeis de embrulho.

Embrulhei a moldura à pressa. E entreguei ao Gui.

O mais irónico. É que na troca de presentes. Eu acabei por ficar com a moldura do Gui. E a moldura retornou a minha casa.

Fiquei desolada. Tinha ajudado um amigo e o universo em vez de retribuir o meu gesto. Não!

Afinal, será que valia a pena ajudar os outros. Preocupar-me com os outros?

Ao longo da vida questionei-me várias vezes.

E a resposta é sim. Sim, vale a pena.

Mas eu não faço só isso.

Valerá a pena fazer o que faço?

Por mais que ache que não. A maioria das vezes sou excessiva. Meto-me onde não sou chamada.

Porque eu não me preocupo só. Eu revoluciono a vida do pobre incauto se for preciso. É só darem-me espaço.

 

 

Um amigo meu é de Viana do Castelo. Mora na Parede. Quando vai ver os pais é um desassossego para mim.

Envio-lhe mensagens de 10 em 10 minutos para saber se está vivo.

O desgraçado tem de parar em TODAS as estações de serviço. Para me enviar uma mensagem.

- Está tudo bem. És uma chata.

Chama-se chata em Aveiras. Em Antuã, não posso  escrever aqui.

Já chegámos a um acordo. Eu não mando mensagens. Ele pára duas vezes para me enviar mensagem e sossegar.

 

Aqui há uns tempos, ainda trabalhava em Lisboa, reuni-me com uma pessoa do Algarve.

Não conhecia o senhor de lado nenhum. 

Falámos o que tínhamos a falar.

Ele voltou para o Algarve. Eu fiz contas de cabeça. E passadas uma horas. Enviei-lhe uma mensagem.

A perguntar se tinha chegado bem.

O senhor ligou-me espantado. Deve ter achado que me tinha enganado.

- Não ligue. Eu sou mesmo assim..

- Agradeço a sua preocupação, já cheguei há mais de uma hora, tive de dar um salto à empresa. Nem a minha mulher nem os meus filhos se dignaram a perguntar se já tinha chegado.

Até fiquei de coração apertado.

Espero não ter provocado uma crise conjugal no casamento do senhor. A intenção nunca foi essa.

No dia seguinte. Recebi flores. Em nome do senhor, a agradecer. A intenção, também não era esta.

 

 

Sempre fui assim. Desde que me lembro de ser gente.

Sou assim para os outros. Comigo sou diferente.

Acho sempre que controlo a minha vida. E por isso nada de mal me vai acontecer.

O que não é verdade. Se fosse, não tinha partido a perna.

 

Quem me conhece já sabe. E não estranha.

Quem não me conhece deve achar que eu sou maluca. Não andará muito longe da verdade.

As mulheres. Reagem simpaticamente. E de forma mais "normal".

Os homens? Bem nos homens temos várias reações possíveis...

Uns quantos, ligam esta preocupação ao coração.

- Deve achar que sou o homem da vida dela.

Ficam para ver no que dá.

 

Outros. Fogem a 7 pés.

- Mal falo com esta e já quer mandar em mim?? 

- Mal falo com esta e já me quer controlar...

Outros. Uma minoria. Percebe. E passa-me a mão pela cabeça....

 

Se alguma vez me disserem.

- Vou ao cinema.

E do outro lado eu responder.

- Quando chegares a casa podes-me enviar uma mensagem?

- Tem cuidado na estrada.

- Leva o casaco que faz frio à noite.

Entre outras pérolas. Dignas das mães mais extremosas.

É normal. Na minha pessoa.

Sou excessiva. Muito excessiva.

Um instinto maternal qualquer. Que nasceu comigo. E que eu não consigo, nunca, desligar.

Eu bem tento moderar. A maior parte das vezes é tarde demais.

Já está. Já disse. Já perguntei. Já enviei mensagem.

Eu sei que tenho mesmo de mudar. Já tentei...mas..

...em 37 anos de vida ainda não consegui limar esta aresta.

Confesso....

...sou da tribo. Dos excessivos.