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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

fim

06.02.18, Joana Marques

Hoje encerrei uma página.

Ou melhor. Terminei a folha.

Um capítulo? Não.

O livro.

O livro acabou.

E não vou voltar a abri-lo.

 

No sábado recuei. Andei para trás.

No domingo. Pensei. Muito.

Nem me reconhecia. Não era nada disto que queria para mim.

Nada como uma segunda feira, dia de recomeços, para resolver o caso.

Perder 10 minutos. Para poder ganhar muitos mais daqui para a frente.

Voltar ao locais onde fui infeliz. E perceber porque é que não deu.

Descobrir novos locais. Outros. E mais outros.

E outras...

10 minutos. Só. E foi tão fácil...

 

 

Hoje de manhã. Voltei ao local que de alguma forma o representa. E despedi-me dele.

Para sempre.

Chorei o caminho todo para lá.

E chorei, enquanto lá estava.

Já não choro nunca mais. Por ele, já não choro nunca mais.

 

As 3 fotos que coloquei no instagram. Ficarão lá.

Para me lembrar.

Que às vezes a vida é assim...

....mas podemos sempre escolher...

...deixar para trás o que não nos faz bem...

 

Para esta pessoa, a porta, está fechada para sempre.

querido. Cortei, o miúdo!

06.02.18, Joana Marques

Há muito tempo. 20 anos. Talvez mais.

No tempo das máquinas fotográficas com rolo.

Nasceu um primito meu. Primo em segundo grau. Filho de um primo meu. Neto da minha tia Augusta. O Tiago.

De todos os milhares de primos que eu tenho. Em primeiro grau, segundo...a tender para infinito.

Tiago, foi considerado o mais bonito dos bebés.

Era mesmo, mesmo bonito.

Gordinho e farfalhudo. Querido e sorridente.

 

Estava, eu, a passar um fim de semana prolongado, no Alentejo, com a minha família, quando tivemos a notícia que os pais do Tiago e ele próprio nos iriam visitar.

- Alguém trouxe a máquina fotográfica?

Perguntou a minha mãe.

- Para quê?

- A Augusta está quase a fazer anos e podia-lhe oferecer uma moldura com a foto do neto. Informou a minha mãe.

- Eu tenho.

Eu, Joana. Tinha uma máquina fotográfica, um rolo de 24 fotografias novinho em folha.

Já nesse tempo, eu achava que podia fotografar alguma coisa.

- Tira as fotos que puderes. Pediu a minha mãe.

Ficou combinado.

Assim que o bebé mais bonito da família pôs os pés naquela casa. Nunca mais o deixei.

- Cucu! Clique....

- Tiago,...olá! Clique.

- Cutchi cutchi! Clique...

Uma tarde de cliques. Só para o Tiago.

Esgotei o rolo.

 

Chegámos a Lisboa. A minha mãe deixou o rolo no fotógrafo.

No dia seguinte, fui buscar as fotografias já feitas.

Nem olhei para elas.

Fui a correr para casa.

Ansiava, dar as fotos à minha mãe.

 

Entreguei o envelope com as fotos.

Mas a reação da minha mãe foi um bocado diferente daquela que eu estava a prever.....

- Oh!

-

-

-

-

Entre desagrado. Tristeza. Desilusão. E de...

...ó caneco como é que foste capaz...foram várias as expressões que passaram pela cara da minha mãe.

Tudo menos..

- Grande foto, Joana.

Nada disso.

A minha mãe finalizou com um...

- Ai, louvado seja Deus....

Isto porque. Em 24 fotografias, o puto não estava inteiro em nenhuma.

Ou faltava um braço. Ou os dois. Ou as pernas.

TODAS!

Na última. Superei-me.

Modéstia à parte...acho que a fotografia deveria ser exposta. E tudo.

A foto era mais ou menos isto...

tiago.jpg

Uma longa parede branca. Com uma cabeça CENTRADA! Cá em baixo....

- Não posso dar nenhuma à tia Augusta...

- Achas que ela repara? Que o puto não está inteiro?

-

 

Ontem, quando publiquei uma foto no instagram. E o Pedro comentou...

- "Alguém cortou as pontas do edifício"

Chorei a rir....

Passou-me todo um filme pela cabeça...um filme em que corto os membros às pessoas...

......e decapito cabeças...

 

 

para a minha filha

05.02.18, Joana Marques

Gosto quando te ris.

Muito.

E os olhos fecham de tanto rir.

 

Gosto do remoinho do teu cabelo.

E do desalinhado, à frente.

Uma desculpa para te pôr um laço. Cor de rosa!

E saliente.

 

Gosto dos teus olhos grandes.

Muito abertos e atentos.

Curiosos e malandros.

Azuis e cheios de argumentos.

 

Gosto tanto, tanto de dançar contigo.

De te cantar ao ouvido.

Rodopiar.

E ser o teu avião preferido.

 
 

 Gosto de ser o teu cobertor quentinho.

De te abraçar.

 Até dormires.

 E embalar.

No meu colinho.

 
 

Gosto de ser o teu curativo.

Quando vais a gatinhar.

E bates com a cabeça.

E ficas a reclamar.

 

Gosto de te ler um livro.

E contar uma história.

Cheia de heróis. De capa e espada.

Príncipes e princesas.

Raposinhas e glórias.

 

Gosto de te dar beijinhos.

E mais beijinhos.

De te fazer uma graça.

Carinhos.

Cócegas.

E outras malandrices.

Arrisco este mundo e o outro,

quando a fome é uma ameaça.

 

 

Gosto quando te aperto o nariz.

E a tua boca desfaz-se num sorriso.

A tua mãe ainda é uma aprendiz.

E tudo o que faz é de improviso.

 

 

Gosto que gostes do Vasco.

Companheiro de brincadeiras.

E de outras trapaceiras.

Não lhe confies, o damasco.

A papa. Ou o pão.

Os olhos bem abertos...

Cuidado com este cão!

 

 

Calma,

vou já acabar com esta babosice...

 

o que eu queria mesmo dizer é que:

gosto muito de ti.

Alice.

 

a sobremesa de hoje...

04.02.18, Joana Marques

O que mais gosto na minha vida é a minha família.

Grande. Enorme.

Para além, dos dois irmãos e seis sobrinhos. Tenho muitos tios e tias. Primos já perdi a conta....

Estão espalhados por todo o país e também pelo mundo.

É bom saber que para onde for é provável ter uma casa à minha espera.

 

Domingo. É dia de almoço familiar.

Em casa da minha irmã ou dos meus pais. Estou ansiosa para ter a minha casa pronta. Para poder fazer o almoço de domingo em minha casa.

Estou ainda mais ansiosa pela volta do meu irmão e da família.

Para a mesa ser ainda mais composta.

Dá trabalho? Dá.

Mas estarmos juntos compensa tudo.

 

Hoje foi em casa da minha irmã.

Encomendaram-me o pão.

E a sobremesa.

Por aqui cada vez mais se diz não ao açúcar. Mesmo de coco.

Açúcar só para dias especiais.

Até nos aniversários estou a cortar. Porque somos muitos. E quase todas as semanas temos um aniversário.....

 

Hoje resolvi levar mousse de ananás.

Para uma lata de leite de coco biológico.

Meio ananás. Ou abacaxi.

Três colheres de sopa de farinha de amêndoa.

Liquidificador.

Para dar um brilho especial à mousse, derreti meio chocolate 92% cacau em óleo de coco.

(uma colher de chá para cada quadradinho de chocolate)

Eu não o fiz mas podem acrescentar açúcar ao chocolate.

Derreter bem.

E depois da mousse distribuída nas tacinhas. Colocar o chocolate em cima.

Colocar no frigorífico.

O chocolate vai solidificar.

E quando estamos a comer a mousse, o chocolate derrete-se na boca.

O contraste entre o sabor do chocolate e do ananás é tão boa!

Por aqui, gostaram....é para repetir muitas vezes.

2 (10) (1).JPG

 

 

 

 

mãe natureza 2.0

04.02.18, Joana Marques

Quando fui para Nova Iorque deixei a Alice e o Vasco aos cuidados dos meus pais.

E deixei #Rumário ao cuidado da minha sobrinha Inês.

Achei que os meus pais já ficavam com bastante trabalho. Ainda mais o peixe.

Ele não dá trabalho nenhum. Mas é mais uma coisa.

A minha sobrinha encarou #Rumário como uma missão que não podia falhar.

- Vai ficar na minha secretária. Vai-me fazer companhia sempre que estudar.

 

Cheguei de Nova Iorque. Passei por casa da minha irmã, cumprimentei o meu cunhado, o meu sobrinho e a Inês.

Eu e a minha irmã, entusiasmadas por contar as novidades. Aquelas que achamos mesmo que não podem esperar.

 

Fui para casa dos meus pais.

Andei com o cão ao colo. Forçada, mas andei.

Fui espreitar a Alice.

Estava lá quando acordou de manhã.

Voltámos todos para casa.

A minha família reunida de novo.

 

Hoje, tocou o meu telemóvel de manhã.

Era a Inês.

Até me assustei....

- O peixe. Queres o peixe de volta? É que já me afeiçoei a ele, adoro tê-lo aqui mesmo ao meu lado...

Caiu-me tudo.

O peixe, caneco. O peixe.

Ainda, há uns dias matei um peixe. O que é que eu aprendi com isso?

Pelos vistos nada....

 

Mãe natureza. Sábia. E desatualizada.

Seria possível. Formatares o disco. Instalares um software. Daqueles modernos.

Mãe natureza 2.0.

A partir de agora os peixes começavam a nascer com guizo incorporado.

Eu disse guizo. Não vuvuzela ou buzina. Guizo.

Pensa lá. Nisso. Com carinho.

Atualiza-te mulher....põe lá um guizo nos peixes.

Verde escuro para os peixes. Verde claro para as peixas....

o momento. E os momentos seguintes..

03.02.18, Joana Marques

Momento.

Intervalo de tempo.

Tempo breve.

Instante.

 

O momento em que percebi que acabei de perder um passe de 3 dias para o Nos Alive.

A única explicação possível, para tal acontecer....

Perdi os meus super poderes. Quando me escangalhei em Amesterdão.

E agora sou só uma pessoa.

 

 O momento seguinte.

Fui injusta para uma pessoa.

E isso deixa-me .....

Desculpa...

Se alguma vez leres isto, desculpa, pessoa....

 

Momento de constatar o óbvio

Leram o que escrevi??

Leram...

Voltei à fase um...

 

 

Momento de paga a aposta e cala-te.

Em frente...

Deixa-lá, Joana.

Arrebita, mulher!

E faz-te à vida...

Vai tratar da roupa. E da loiça.

Vai fazer a sopa.

E lavar a casa de banho.

 

Momento em que caio em mim.

Não sei bem como e quando aconteceu...

...tornei-me na gata borralheira.

 

 

rituais..

03.02.18, Joana Marques

Quinta feira.

Numa tigela junto uma saqueta de fermento, 200 g de farinha de trigo biológico integral e água morna.

Deixo fermentar durante 24 horas.

 

Sexta feira.

Junto 250 g de farinha de trigo biológico e integral, 50 g de farinha de coco, o fermentado da quinta feira.

Vou acrescentando água morna.

Amasso como nunca amassei nada na vida.

Sovo a massa como se me quisesse vingar de alguém.

Ponho a massa a descansar durante uma hora.

Depois dessa hora.

Volto a amassar. E a sovar. E a amassar.

O processo é um bocado violento. Mas vale a pena.

Deixo a massa a repousar mais uma hora.

Dez minutos antes de colocar a massa no forno, pré aqueço-o a 180º/200º.

Ponho a massa dentro da forma. Desta vez, usei uma forma redonda de silicone mas já tenho usado uma forma de bolo inglês.

Meia hora depois temos pão.

Deixo-o descansar até ao outro dia de manhã.

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Sábado.

Acordo.

Faço um chá de gengibre.

Corto o canto do pão.

Ponho manteiga de amêndoa por cima.

E como devagarinho. Devagarinho.

Sem pressas e sem stress.

É sábado! O melhor dia da semana...

 

 

tough little girl...

02.02.18, Joana Marques

Vasco.

Está histérico. E louco de felicidade.

Não trabalhei hoje. Estive o dia todo com ele e com a Alice.

Passeámos sem pressas.

Fomos à praia. Fomos ao jardim.

Almoçámos.

Dormiram os dois a sesta de manhã e de tarde.

E como se proporcionou. O Vasco aprendeu uma habilidade nova.

 

Sentei a Alice no chão.

Fiz-lhe origamis de várias figuras e com papel colorido.

E ela diverte-se a olhar para eles.

E a pôr e a tirar os origamis de dentro de uma caixa.

É uma brincadeira tão simples e que ela adora.

O Vasco, apareceu de repente. E tirou-lhe a chucha.

Fugiu.

Ficou entre a porta do quarto com a chucha.

- Nha nha nha...eu tenho a chucha e tu não.

A Alice.

Primeiro ficou meia atarantada.

- O que é que aconteceu? O que é que aconteceu?

Depois percebe.

Olha para o Vasco.

E ri-se que nem uma perdida.

E faz-se à estrada. A gatinhar tenta recuperar o que lhe pertence.

O cão com a alegria e a loucura deixa cair a chucha no chão.

Eu apanho e dou uma limpinha à Alice.

 

Continuamos nas nossas brincadeiras.

E o Vasco ronda. Rouba uma meia à Alice.

A Alice ri-se às gargalhadas.

 

O Vasco olha para as minhas meias.

Não teve coragem.....

stop! Ninguém pára o Vasco...

02.02.18, Joana Marques

Perto da casa dos meus pais há um sinal de stop.

Segundo os meus pais, sempre que o Vasco está em casa deles e eu paro no sinal de stop o Vasco sabe que estou a chegar.

E vai para o pé da porta.

Esta situação tem-me deixado muito apreensiva. Devo confessar.

Ou ando a pôr perfume a mais. Ou o meu odor corporal, já teve melhores dias.

 

Ontem também parei no stop.

 E lá aconteceu.

Os meus pais estavam na sala a ver televisão.

E de repente saiu do escritório um cão a alta velocidade.

Derrapou no chão de madeira.

Bateu na porta da cozinha.

- A Joana chegou.

 

Ainda fui deixar a minha irmã a casa dela.

Mora perto dos meus pais.

Entrei para cumprimentar o meu cunhado, o meu sobrinho Pedro e a minha sobrinha Inês.

Numa casa bem perto, um cão dava saltos, ladrava e dizia:

- A Joana vem aí, a Joana vem aí. O que fazem aí parados...a Joana vem aí!

Uma pessoa até acha que é importante.

Nem o presidente da junta tem este tipo de recepção.

 

Cheguei por volta das 22h.

Estacionei o carro.

Ainda não tinha saído do carro já o ouvia.

Mais. Já o via.

Se espreitasse pelo muro. Via, pela janela, um vulto de qualquer coisa aos saltos.

Era o Vasco.

Os meus pais abriram a porta.

E ninguém pára o Vasco....

Num momento estava a abrir o portão. No outro tinha um cão de 30 kg ao colo. A lamber-me a cara.

 E já não houve Joana para ninguém. Ele não deixou.

Não consegui cumprimentar o meu pai nem a minha mãe convenientemente....é por estas e por outras que eu vou acabar solteirona...

 

A Alice já estava a dormir. E não acordou com o alarido. O que parece mentira.

Acabei por ficar a dormir em casa dos meus pais. Com companhia...claro!

Hoje de manhã tinha 30 kg em cima das minhas costas. E um focinho colocado no meu pescoço...

 

Mal acordei fui logo ao quarto da pequena.

Queria ver a Alice acordar.

E vi.

Lá estava eu. E o cão. De sentinela.

A olhar para ela.

Quando me viu. Fez o sorriso mais bonito que eu já vi.

E eu....

....eu chorei como uma Madalena...

 

 

 

dia D

01.02.18, Joana Marques

Sempre fui uma aluna mediana. As minhas notas, numa escala de 0 a 20 andaram sempre à volta do 14/15

Consoante as disciplinas.

Numa ou noutra consegui chegar ao 18 mas também tive os meus ódios de estimação. 10, 11 e 12 apareceram algumas vezes.

Fiz a primária numa escola em Campo de Ourique.

A minha professora, Maria Emília, puxou por nós até ao tutano.

Em 4 anos, trabalhámos feitos escravos.

Ai! Se algum de nós se queixasse.

Uma vez tentei, em casa. Fiquei de castigo durante duas semanas.

 

Quando entrei no quinto ano. Senti-me de férias.

Sem aquele controlo diário da professora. A vida era uma festa!

No primeiro período tirei nível 5 a tudo.

Não tanto por mérito meu mas sobretudo pela excelente professora primária que tinha tido a sorte de ter.

 

Um dia, primaveril. Maio, talvez. Depois do jantar, sentei-me no sofá a ver televisão.

O meu pai estranhou e perguntou-me se já tinha estudado para o teste de história.

- Não preciso, já sei tudo.

O meu pai olhou para mim com olhos de lobo mau.

E eu desculpei-me.

- Tive muito bom a Português, a Matemática e a Ciências. História já não é assim tão importante. Pois não?

O meu pai sentou-se ao pé de mim e disse-me:

- Não há disciplinas de primeira nem de segunda.

E continuou.

- Nunca subestimes nada nem ninguém. Não há disciplinas fáceis nem difíceis, há é mais ou menos envolvimento da tua parte.

E acrescentou.

- Se investires pouco não contes com muito. E se investires muito nem sempre vais conseguir o que esperas. Mas verás que às vezes te vais superar. E se investires cada vez mais, os bons resultados aparecerão...

 

Percebi o que o meu pai queria dizer.

Não me apetecia nada mas lá fui para o meu quarto fazer a ultima revisão para o teste.

O meu pai ajudou-me. Tive o melhor teste da turma.

 

Foi mais ou menos este principio que segui o resto da minha vida profissional.

Dou sempre o meu melhor. Às vezes estou bem, outras nem por isso.

Em Nova Iorque, correu tudo bem.

Tinha preparado a minha apresentação de forma minuciosa. Para que nada falhasse.

E não falhou.

Estava nervosa. Pela responsabilidade. E porque não queria deitar a perder um mês inteiro de trabalho....

Valeu a pena. Tudo.

 

 

Como recompensa já tenho projeto.

Melhor que um projeto, são dois.

Bélgica. E Angola.

Lá para o final de Fevereiro. Se tudo correr bem vou a Angola. E depois à Bélgica.

Lá vou eu começar do zero.

Dar o meu melhor.

Para que no dia D, a história se repita...

 

 

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