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Quiosque da Joana

31.03.18

team. Coelhinho da Páscoa!

Joana Marques

Estar apaixonada tem-me tirado o sono.

Dúvidas. Dúvidas. E mais dúvidas.

Querer fazer tudo bem. Não errar.

Quando existe uma amizade prévia entre as pessoas é mais fácil, parece-me.

Neste caso. Não o conheço. Ele não me conhece.

Não sei como vai reagir.

E como me sinto em coma apaixonómico. Não me dava muito jeito que o homem se fizesse à estrada. E me deixasse a falecer de amor....

 

De quinta para sexta. Não dormi.

O que é que me atormentava. O blog!

Não lhe tinha contado que tinha um blog.

Nem que a determinada altura lhe tinha chamado craque de miudezas urinárias.

Sei lá se tem fair play. E não acha uma afronta....

Toda a gente sabe que a melhor maneira de esconder um cadáver é na segunda página do google. O problema é que se googlar: Joana, Vasco e blog. Aparece, bem aparecido....este blog.

Um grandessíssimo caneco. Um grandessíssimo pepino...

 

Volta para a direita na cama.

Volta para a esquerda na cama.

Ah! E tinha saudades dele. Muitas. Nunca senti nada assim na vida.

Saudades. Que fazem doer o físico e a alma.

 

Volta para a direita na cama.

Volta para a esquerda na cama.

E pensar que só o voltaria a ver lá para quinta feira.

Porque chego segunda a Cascais. Mas ele está a trabalhar.

E terça vou para Dublin. E não dá tempo.

E se se esquece de mim?

É óbvio que se vai esquecer de mim. Não me conhece. Viveu toda a vida sem mim. O que é que eu acrescento na vida dele?

Nada. Nada.

 

Volta para a direita na cama.

Volta para a esquerda na cama.

E o blog? Tenho de lhe contar do blog.

Tinha trocado um mail com uma pessoa que confio muito que me tinha aconselhado a contar o quanto antes.

Tinha de lhe contar.

 

Levantei-me. Comecei a tratar de tudo.

Ia ter a casa cheia de amigos.

Que vinham à procura de novidades. E de passar um dia no Alentejo.

Comecei a fazer as lasanhas para o almoço.

Tratei da Alice.

Costumo brincar com ela um bocadinho. Mas tive de a colocar na cadeirinha. Porque eu tinha muitas coisas para tratar.

Pus música. E ia falando com ela.

Quando se chateou. Coloquei-a no parque. Com alguns brinquedos. E lá esteve até adormecer.

O Vasco não estava. No Alentejo. Precisa de espaço. Tem muitos afazeres.

Deitei a Alice.

Fui ver o meu mail.

E o meu conselheiro. Lá me dizia. Para não esperar. Para lhe contar o quanto antes.

E eu. Achei mesmo que sim. Tinha de lhe dizer.

Só que...

...eu no Alentejo. Ele a trabalhar. E não lhe queria dizer pelo telefone.

 

 

Dei o almoço à Alice.

O Vasco continuava desaparecido.

Mais tarde percebi que dormia à sombra de um chaparro. Ao som dos passarinhos. Um cão da cidade e com uma vida stressante precisa destas folgas...

Chegaram os meus amigos.

A Alice a ser feliz no colo de muitas tias e tios.

Recebeu uma boneca que adorou e quis dormir com ela.

Ela ao meu colo carregada de sono. E a atirar beijinhos a todos.

Esta minha filha....

 

Quando voltei. Fui atacada. Pelos meus amigos.

E eu. Que não tenho uma noite de sono decente desde que aceitei almoçar com o homem.

Comecei a descarregar tudo e mais alguma coisa.

Um desempenho tão bom digno de um óscar. Com a diferença de não estar a fingir. A personagem era de carne e osso. E era eu.

É claro que por cima do meu choro. Lamurias. Negatividade. E tentativa de suicídio...

Apareceram...gargalhadas. Mas também palmadinhas nas costas. Aquelas coisas de amigos.

- Tu és tão parva.

- Claro que não te vai deixar.

- Como é que podes pensar isso.

E a Ana. Perguntou-me.

- A que horas é que ele sai do trabalho?

- Acho que às 16h.

- Liga-lhe e diz que queres falar com ele. Faz-te à estrada. E vai ter com ele. Contas do blog. Ele vai aceitar na boa. Vês o homem. Vais ficar mais descansada. Eu fico cá até chegares...com a Alice, aquela coisa que chamas cão e a gata.

 

Não sabia o que fazer.

Liguei-lhe.

Disse-lhe que precisava de falar com ele.

E ele. Disse-me o mesmo. Que também precisava falar comigo.

Que saia às 16h mas tinha trocado uns turnos com um colega e que voltaria a entrar às 00h, ia fazer noite. Provavelmente nem ia a casa. E que sábado ia fazer também dois turnos e que domingo também trabalhava até às 16h.

Desliguei. Sem ter combinado nada.

 

Voltei para junto dos meus amigos.

A chorar desalmadamente. A dizer.

- Ele vai-me deixar. Diz que precisa de falar comigo. É para comunicar, claro. Que vamos seguir caminhos separados.

E contou-me esta coisa toda dos turnos para eu não o chatear....e para ter desculpa de não atender o telefone.

 

Os meus amigos olharam para mim com um ar de:

Que rica atrasada mental temos aqui...

E a Ana...

- Vai. Tenho a certeza que não é isso mas se for tens de enfrentar e que seja o mais rápido possível. É pior quando já há família envolvida e cenas dessas...faz-te à estrada. E fica descansada. Fico cá até chegares.

 

Fui ao frigorífico. Enchi duas caixas individuais de sopa. Peguei numas fatias de bolo de iogurte e coloquei dentro de uma caixa.

Toda a gente achou que tinha sido ali.

Naquele minuto. Que o pouco de lucidez que me restava.

Me tinha abandonado para sempre.

- Ele deve ter fome. Pode comer uma sopa quando sair e guardar a outra para a noite. E ir comendo bolo de iogurte nos intervalos.

 

Ninguém percebeu. Porque raio é que eu queria alimentar um homem que me ia deixar.

Ele ia-me deixar. Tinha a certeza. Mas eu gostava dele na mesma.

 

Estacionei o carro perto do hospital. Um pouco antes das 16h.

Enviei-lhe uma mensagem a dizer:

"Estou perto do hospital, quando puderes sair diz qualquer coisa. Não tenhas pressa...eu espero."

 

Como ele fica lá sempre mais tempo do que o horário de trabalho, tinha ido prevenida com o meu tricot.

Tricotei 10 minutos.

Tricotei 20 minutos.

Tricotei 30 minutos.

Tricotei 40 minutos.

Faltavam 5 minutos para as 17h. Tocou o meu telemóvel. O Pedro.

- Estava a conduzir. Só vi a tua mensagem agora. Onde é que estás?

- Estou naquele estacionamento do lado esquerdo do hospital.

- Do meu hospital?

- Sim.

- Era o que eu temia. Eu estou perto de Monforte. O meu colega chegou mais cedo e como queria falar contigo vim cá ter. Estava a ligar para perguntar onde é que nos podíamos encontrar. Fazemos o seguinte. Volta para cá. E já nos vemos.

Nem queria acreditar.

Nem argumentei. Combinámos em Estremoz.

 

Lá nos encontrámos finalmente. Nem sei a que horas. Perdi completamente a noção do tempo.

Quando o vi percebi que não queria nada acabar.

Porque me abraçou. E deu-me um beijo...para aí de uns 5 minutos.

Credo!

Sou idosa...

....asmática.

Não estou habituada.

Por isso é que não durmo...desde que o conheci.

 

- Tenho um blog.

- Tens? Ok.

- Não é nada de especial. Partilho receitas. Esquemas de tricot. Mas quem faz sucesso no blog é o cão. Chama-se Quiosque da Joana.

- Olha, se calhar é melhor começar a lê-lo para perceber o que é que comes...comes, certo?

Lembrei-me de repente que tinha toda uma coleção de caixinhas com comida para ele.

Adiante.

 

Depois avançou ele.

- É muito usual trocarmos turnos no hospital. Faço-o muitas vezes para ajudar colegas. A primeira vez que o fiz, por mim, foi quando o meu pai foi operado. A segunda foi agora.

 

Eu sem perceber batatinhas do que me estava a contar.

 

- Não querendo fazer parecer que estou a diminuir o teu trabalho. Pensei que pudesse ir contigo para Dublin. Terça é a minha folga. Consigo a quarta com o turno de hoje à noite. E a quinta com o turno de domingo. Eu sei que vais estar a trabalhar, enquanto trabalhas aproveito também para ler alguns artigos, protocolos, relatórios. Não vou estar parado. Só acho importante estarmos juntos sem este stress e este ruído todo à volta. Começarmos a trilhar um caminho juntos. Passar tempo de qualidade. Respirar um pouco. O que dizes?

-

 

Eu disse que sim. Aparvalhadamente disse que sim.

- Então e tu? O que é que me querias contar que não podia esperar?

- Tenho um blog.

- Ah! Era só isso...

- Não é só isso. Em determinada altura sou capaz de ter chamado craque de miudezas urinárias...e também tenho partilhado a nossa história. Estou quase a falecer de ansiedade e toda a gente que passa por lá me tem ajudado...

- Vou ler. Fiquei curioso, agora...

 

Liguei à Ana a perguntar pela Alice.

- Está ótima! Deixa-te estar.

- Achas que posso jantar com o Pedro?

- Joaninha, estou de férias até dia 3 de Abril. Até lá...conta comigo.

Fomos jantar a um restaurante. Que nos serviu um bacalhau incrivelmente mau.

Acabámos no carro a comer bolo de iogurte.

 

Atendendo que o Pai Natal me ofereceu este ano uma varicela. Embrulhada numa perna partida.

Mudei de equipa.

De hoje em diante. Faço parte.

 

Do team.

Coelhinho da Páscoa! E tenho reforços de peso!

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30.03.18

feita num oito. Ou num oitenta...

Joana Marques

Esta pausa. Começou mal.

Tinha planeado seguir para o Alentejo depois do jantar da Alice. Com esperança que dormisse durante a viagem.

Chegava. Pegava nela. E deitava-a na cama. E no dia seguinte.

Sorri, Alice: estás no Alentejo.

 

Toda eu estava um tumulto. O Pedro. O Pedro. E o Pedro.

E as saudades. E o Pedro. E mais o Pedro.

Só o vou ver daqui a uma eternidade e meia. E tenho saudades. E o Pedro.

Só que...

....eu tenho um cão. Que é protagonista na minha vida.

E sempre que eu ando a pensar demais. Sobre alguma coisa. Ele faz questão de me dizer.

- Eu é que sou o presidente da junta. Olha, para mim....aqui...a fazer birra.

O Vasco firme. Ao lado do vaso das flores. Sem se mexer. Num local quase inacessível.

Eu à espera, a tentar dissuadi-lo.

 

Ligou-me uma amiga a perguntar se tinha chegado bem ao Alentejo.

- Ainda não cheguei.

Contei-lhe a birra do cão.

- Não vás hoje. Os cães têm um sexto sentido e o Vasco deve estar a pressentir alguma coisa.

- Está! A pressentir que algo se passa na minha cabeça.

Desliguei o telefone. E mostrei-lhe quem é que manda.

Abri o carro.

Arrastei-o.

Peguei-lhe ao colo. Atirei-o lá para dentro.

Coloquei-lhe a trela que o agarra ao banco. E rosnei-lhe ao ouvido..

- Caladinho, ó rafeiro...

 

Peguei na Alice. Coloquei-a na cadeirinha.

E...

Entrei eu.

Mal iniciámos a viagem. O Vasco ia em pranto.

Chorava. Uivava. Ladrava em sofrimento.

A Alice que até se porta bem em viagem. Começou a chorar.

A gata, dentro da caixa miava. Muito alto.

Tanto uma como outra, devem ter pensado que ia deixa-los, aos três, num canil.

Pior. Num matadouro.

Não entrei na marginal.

Parei o carro onde consegui. Para socorrer as vitimas.

Tirei a  Alice do carro. Dei colo. Parou de chorar. Ficou mais tranquila.

O cão continuava em pranto.

Pedi a uma entidade qualquer que me desse força. Me permitisse engolir o sapo. E dar a outra face.

Fui acarinhar o cão.

Pior...a emenda que o soneto.

- Ai que eu sou um desgraçado. Ai que ninguém me liga. Tive o azar de nascer rafeiro e toda a gente me trata mal...

Desisti.

A Alice recomeçou a chorar passado pouco tempo. A gata miava. O cão encomendava a alma ao criador.

Parei na Parede.

Parei em Caxias.

E desisti de parar.

- Chorem. Façam favor....chorem....

 

Ia na ponte. O meu telemóvel tocou. Estava dentro da mala.

Quando consegui encostar. Vi que tinha sido o Pedro. Liguei-lhe.

Uma grande chinfrineira no carro.

O homem deve ter pensado que estava a ligar-lhe do inferno...

- Liguei só para saber se tinhas chegado bem.

- Vou a caminho.

- Hummmmmm. Onde é que estás. Não te estou a ouvir bem...

- Bem vindo à minha vida...

Despedi-me e segui caminho.

Perto de Vendas Novas. O cão deu-me uma lambidela na cara. Riu-se para mim.

A Alice adormeceu.

A gata continuou a miar. O cão ficou estarrecido com tal audácia. E respondeu-lhe.

E ela a ele.

E ele a ela.

E ela a ele.

E ele a ela.

 

Cheguei feita num oito. Ou num oitenta...nem sei bem.

 

 

29.03.18

daqui não saio. Daqui ninguém me tira

Joana Marques

Cheguei a casa. E como de costume tinha alguém na minha cama.

O Vasco.

Ainda lá fui perguntar se queria ir à rua. Nem me respondeu.

Nitidamente de mau humor por ter sido importunado. Virou-se para o outro lado. E tapou-se com a orelha.

 

Despachei isto e aquilo.

Fui buscar a minha Alice. Esperei até ela acordar.

Quando chegámos, o cão continuava a dormir.

Dei o lanche à Alice.

Arrumei as ultimas coisas. E comecei a pôr tudo dentro do carro.

Bem chamei.

- Vasco. Vasco.

Nada.

Continuei a minha vida. Ultimas coisas a fazer.

A Julieta dentro da caixa. Vai connosco.

 

E o Vasco?

Fui ao quarto acorda-lo. Não gostou da minha iniciativa.

Mexeu o corpo meio centímetro e continuou a dormir.

Puxei-o. Chamei-o. Barafustei com ele. Nada.

 

Comecei a achar que podia estar doente.

Frango assado. Toca de descongelar frango assado.

Em meio segundo tinha o Vasco na cozinha. Não estava doente, coisa nenhuma.

Aos pinotes. Cara a cara com o micro-ondas.

Antes de lhe dar o frango. Vi se estava muito quente. E depois lá lhe dei o frango.

Abri a porta de casa e chamei-o. Para o arrumar dentro do carro.

Nada.

Ora, atrás de um vaso. Ora ao lado do vaso.

Assim está o Vasco.

 

A gata, na caixa, dentro do carro. À espera.

A Alice na cadeirinha da cozinha, à espera, de sua excelência.

Eu à espera.

E o Vasco.

- Não quero ir. Não me apetece. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira!!

vascop.jpg

 

 

29.03.18

Vasco, dá cabo dele...

Joana Marques

Ontem não foi um dia bom.

Pelo acontecimento. Que mudou o rumo do dia. Mas sobretudo por ter sequer considerado que não gostava de ser eu.

Como é que é possível?

Ter tal pensamento.

Tenho uma autoestima que ultrapassa o Everest...

Dou-me bem comigo. Gosto muito de mim.

E sou feliz comigo. Tenho sorte. De ser Joana.

 

Ontem pensei no assunto.

Olhei para o telemóvel vezes sem conta. Sempre a ver se dona Cinderela me tinha enviado uma mensagem.

Achei que o telemóvel estava estragado.

Enviei uma mensagem à Ana.

- Envia-me um sms, estou desconfiada que o meu telemóvel não recebe mensagens.

Claro que o meu telemóvel recebia mensagens. Detetei, apenas e só um pequenino problema.

Não recebia mensagens...de quem não as tinha enviado.

Uma pessoa hipoteca um rim para poder comprar um telemóvel de jeito e ele, nem imaginação tem, para nos sossegar.

 

Ainda ponderei enviar-lhe eu, uma mensagem.

Mas, troquei mensagens com o meu consultor para assuntos relacionados com homens, que me disse para esperar pelo dia seguinte. E enviar a mensagem a horas decentes. 9 horas da manhã. Segundo ele.

 

Estive a trabalhar até tarde. Tem sido uma terapia.

Deitei-me.

Não dormi muito bem.

A ideia de lhe enviar uma mensagem. Não me agradava muito.

Porque não sabia o que escrever. Tudo soava ridículo. Ou desesperado. Ou pateta.

 

Fez-se dia.

Acordou a Alice.

Depois daquelas rotinas todas matinais. Deixei-a em casa dos meus pais.

Comecei a tratar de tudo. Logo à noite vamos para o Alentejo. E só regressamos segunda.

Fui às compras.

Fui beber um café ao Guincho.

Sempre com o Pedro. Na minha cabeça.

Deixei de olhar para o telemóvel de 5 em 5 minutos. Passei a olhar de 6 em 6. Uma evolução...de 60 segundos.

E resolvi ser Joana. Resolvi dar cabo dele.

Às quintas é dia de consultas.

Almoça entre as 12h e as 14h.

Hoje ia ter uma surpresa.

Quando sair para almoçar. Estou lá eu.

 

Cheguei a casa.

Tratei das compras. E comecei a tratar de mim.

Se das outras vezes tinha visto a Joana recatada. Excepto, ontem que me viu um bocado despida.

Hoje ia conhecer. A outra.

Experimentei uns sapatos de salto.

Nunca mais tinha usado saltos desde que parti a perna.

É como andar de bicicleta. Nunca se perde o jeito.

Um vestido. Um pouco abaixo do joelho. Que me fica mesmo bem!

Fiz umas ondas no cabelo.

Usei uma maquilhagem ligeira. Tive sorte. Dormi pouco mas acordei com boa cara.

Entrei no carro.

Só saí em Lisboa. Perto do hospital.

Fiquei de plantão. Nas imediações do sitio onde dá consulta.

12h20.

Sai o homem. Em passo apressado.

Bata branca.

- Pedro. Pedro.

Nada.

- Pedro. Pedro.

Nada.

 

É, Pedro, não é?

É Pedro, é. Pensei eu para os meus botões.

- Pedrooooooooo.

E o homem virou-se.

Ainda pensei.

O homem vai fugir com as pernas que Deus lhe deu.

E eu estou de saltos.

Mas não faz mal mal. Ele foge e eu vou atrás dele...

 

Ficou muito surpreendido.

Riu-se.

- O que é que estás a fazer aqui?

Perguntei-lhe se tinha uns minutos, precisava de falar com ele e não era conversa para se ter ao telefone.

Respondeu-me.

- Estás diferente, hoje.

- Sim, Pedro. Estou vestida.

Riu-se.

E disse-me.

- Vou almoçar agora. Já almoçaste? Tem é de ser rápido. Amanhã é feriado, isto hoje está uma loucura.

- Almoças e eu despacho o que tenho para dizer em menos de nada.

De repente muda de direção.

180º.

Pega-me na mão e diz.

- Estava para ir ao bar mas acho que tenho uma ideia melhor.

Deixou-me num banco de jardim e disse-me que já vinha.

Vi-o sair.

Esperei.

1º minuto.

- Onde é que o homem terá ido.

 

 

2º minuto.

- Vou enviar-lhe uma mensagem a perguntar onde é que foi.

Nem penses! Vai ao facebook e deixa-te de ideias tristes.

 

3º minuto.

- Este homem....não acho normal.

Não te mexas! Vai ao instagram. E deixa-te de coisas.

 

4º minuto.

- E se eu lhe enviasse uma mensagem.

NÃO! Dá uma vista de olhos no mail.

 

5º minuto.

-

Responde aos mail's. Sem lamúrias...

 

7º minuto.

- Oh! Não. O homem fugiu outra vez. Não acredito nisto! O homem fugiu outra vez.

Vai dar uma olhadela no blog. É a vida...

 

8º minuto.

- Ele fugiu. Eu sou tão inofensiva e tão querida. E no espaço de 24 horas. Foge duas vezes.

 

9º minuto.

- Com mil slimanis. Isto é castigo. Por ter humilhado o Pintas publicamente.

 

10º minuto.

- Cá se fazem, cá se pagam. É mesmo verdade. A lei do retorno...tantos anos a desejar impotência aos árbitros que roubam o Sporting deu nisto. O homem fugiu.

 

11º minuto.

O homem não fugiu.

 

Lá vinha ele. Sorridente. Bata branca. Deu-me uma caixa para a mão.

- Prova. São os melhores cachorros quentes de Lisboa.

Não me contive. Comecei-me a rir às gargalhadas.

- Não fujas outra vez. Dá-me só um momento....

- A sério prova. Já percebi que comes de forma saudável. O teu é de soja.

Quanto mais o homem falava mais eu me ria.

 

Respirei fundo. E comecei. O meu discurso.

- Mal nos conhecemos mas acho que as situações devem ser esclarecidas desde o momento zero. Tens de saber algumas coisas sobre mim. Detesto perder tempo e fazer perder o tempo dos outros.

Não te conheço bem. Nem sei que tipo de homem és. Tens alguém?

- Não.

O homem riu-se.

- Não te rias. Isto é muito sério. Então, és do tipo Capitão Iglo?

- ?

- É um homem que tem várias amigas congeladas. E conforme lhe dá jeito vai tirando, usando e volta a congelar para uso futuro.

- Não sou o Capitão Iglo. Mas como douradinhos várias vezes por semana.

- Blhec! Não te querendo encostar à parede, tens duas hipóteses. Ou entras na minha vida. Ou sais. Só não podes ficar assim. Terça-feira maravilhoso. Quarta foges e desapareces do mapa.

- Eu não sei o que me aconteceu ontem...

- Só um bocadinho. Deixa-me concluir. Não percas tempo, vai comendo.

 

E a Margaret Thatcher que há em mim, disse: olá!

- Percebo perfeitamente que optes por não entrar.

- Eu quero..mas...

- Shiuuuuu! Deixa-me acabar.

Eu de dedo espetado. No nariz dele. Iniciei um longo discurso.

- Como te estava a dizer, se não quiseres eu percebo perfeitamente e até acho que fazes bem. Porque sei que não vai ser fácil. Por várias razões. A principal, tenho uma filha. E a minha filha vai estar sempre em primeiro lugar. Não a fui buscar para lhe dar uma vida igual ou pior do que tinha. Não controlo tudo, mas da minha parte vou fazer tudo por ela. Só deixo entrar em minha casa e na vida dela quem eu achar que está à altura dela. Uma coisa é certa não lhe vou apresentar um namorado novo por mês. Nem por ano, sequer. A educação passa muito pelo exemplo. E não é essa a mensagem que lhe quero passar.

 

Eu a falar e a fingir que comia o cachorro quente. Com os dedos a tirar bocadinhos de pão e a deitar migalhas ao chão, discretamente. A certa altura estava rodeada de pombos.

- Presumo que a fila, para entrar na tua vida, seja grande. E a concorrência seja feroz. Até os pássaros gostam de ti...

 

- Grande ou pequena. Não interessa. É contigo que estou a falar. Não é com mais ninguém...

Aliás, deves saber que pouco me interessa isso. Deves ter ideia de quantas vezes o José me convidou para sair. E também deves ter ideia de quantas vezes aceitei. Zero. Sou muito pouco influenciável. Sei muito bem o que quero. Sei muito bem o que não quero. Até posso gostar muito da pessoa mas se a minha intuição me disser para não avançar não avanço e pronto. Só tive dois namorados. O primeiro foi uma relação de adolescente mas o segundo achei mesmo que ia durar. E quase morri quando percebi que não. Não me interpretes mal, Pedro. Se ficares, não quer dizer que te vá pedir em casamento ao fim do primeiro ano, ou qualquer coisa do género. Podemos perceber ao fim de um tempo que nos enganámos...acontece muitas vezes. Estou a referir-me apenas à disponibilidade para....não sei se me estou a fazer entender. Só não quero que isto entre naquela celebre frase: "não és tu sou eu"....e uma das partes anda a enganar a outra.... É tão frequente...hoje em dia.

- Mas não era nada....

- Shiuuu! Vou terminar já. Vais pensar no que queres. E se achares que a tua vida é melhor sem mim, acredita que te desejo toda a felicidade do mundo. Vais pensar. Bem pensado. Tens tempo. De arrumar ideias. E todas as pontas soltas. Hoje à noite vou para o Alentejo. Para a semana vou para Dublin. Não nos vamos ver. Quando eu chegar de Dublin. Se ainda estiveres pela minha vida...convida-me para almoçar. Se não, não digas nada. Estás a perceber? Não me faças perder tempo. Só isso....E já que falaste disso, também tenho a certeza que terás uma lista de fanzocas que aceitam qualquer migalha...nada contra. Eu não aceito. Não é disso que ando à procura...

Percebeste tudo?

 

Fez que sim com a cabeça.

- Não são horas de voltares? Para as consultas?

- Mais uns 5 minutos. Vou te levar ao carro.

Despediu-se de mim. Com um abraço. E um beijo. E outro abraço.

O coração dele a bater muito depressa.

 

Pára tudo.

A Joana voltou outra vez....

- Pedro, vou te deixar à porta do consultório. Vais entrar, arregaçar as mangas...e começar a dar consultas...

Suspirou.

- Tenho uma longa tarde pela frente. Devia sair às 16h mas devo ter trabalho até às 20h.

- Pois, então convém começares o quanto antes. Resmas de pessoas com rins presos por um fio....à tua espera.

E lá voltei a fazer o caminho todo com ele. De mão dada.

- Então e a pessoa que operaste ontem, está viva?

- Claro que está. Já o visitei hoje.

- Fiquei muito apreensiva. Naquele estado achei que tinhas deixado o pobre coitado com um rim pendurado na orelha...

- Segunda-feira já deve ter alta.

Parámos à porta do consultório.

- Para onde é que vais, agora?

- Vou para casa. Organizar tudo. Depois vou buscar a Alice. E mais para o fim do dia vamos para o Alentejo.

- Tens mesmo de ir? Tens a certeza que não queres ficar aqui...comigo?

- A dar consultas? Muito tentador, esse convite. Diria irrecusável....mas vou ter de dizer que não. Para bem da população em geral, rins e outras miudezas... em particular..

Outro abraço.

 

Passou por nós, um colega.

- Olá, Pedro. Quem é?

- Olá, Rui. É a Joana. A minha namorada.

 

Será possível que não reteve nada do que eu disse?

Será que andei a pregar aos passarinhos?

Será possível que tenha o poder de concentração de um rim?

 

Apeteceu-me bater-lhe. Deserda-lo. Atira-lo aos pombos. E aos peixinhos do mar e apresentar-lhe o cão.

- Vasco, dá cabo dele!

 

28.03.18

porque é que eu tenho de ser Joana?

Joana Marques

Para os meus conhecidos.

Familiares. E amigos.

Desde 1981. O ano em que nasci.

O nome Joana passou a ter uma conotação pouco positiva.

De desastre. Mesmo.

 

Cresci a ouvir dizer o meu nome. Quase nunca por boas razões.

- A chávena está partida? A Joana está cá?

- Apareceu comida dentro do vaso das flores. Foi a Joana.

- O palheiro da avó Maria ardeu. Onde é que estava a Joana?

- Que horror este sumo de laranja cheira tão mal. A Joana já chega ao armário do vinagre?

 

E não, não fui eu que parti a chávena.

Sim, fui eu que escondi o bife nos vasos das flores porque estava com pressa para ir para a escola e o bife nunca mais acabava.

Não, não fui eu.

E sim, ainda não chegava ao armário mas se colocasse um banquinho em cima da cadeira chegava lá que era uma beleza.

 

Não, não sou uma inocente.

Uma incompreendida.

Uma vitima, injustiçada.

Cada um tem a reputação para a qual trabalhou a vida toda. E a minha saúde mental já foi muitas vezes questionada.

Tenho consciência disso.

E por ter consciência disso. É que tenho tentado ser pouco Joana quando estou com o Pedro.

Lá dou um ar da minha graça. É mais forte do que eu mas...tento não passar muito das marcas.

 

Esta noite quase não dormi.

Como não tinha sono estive a trabalhar até tarde.

Deitei-me tarde.

Acordei à hora de sempre.

Cozinhei. Tomei o pequeno almoço.

A Alice acordou. A mesma rotina de sempre.

Deixei-a nos meus pais.

Voltei para casa. Para continuar a trabalhar.

Pelas 11h. Fui a Carcavelos.

 

O senhor Ludovino tem-me ligado todos os dias.

- Se não vens cá não fazem nada.

- Tens de vir cá porque estão a partir o prédio todo e vamos todos ficar sem casa.

- Tens de cá vir porque estou cheio de alergias. A culpa é dos russos e das suas centrais nucleares.

- Quando é que cá vens?? Não ligas nenhuma ao prédio e aos moradores.

Fui. Visitei as obras. Estive com o senhor Ludovino. Sem alergias.

Uma sorte. Às vezes os russos fecham as portas das centrais nucleares e nem um pólen. Hoje foi o dia.

 

Fui correr.

Estacionei o carro perto do passeio marítimo.

Ligou-me o Pedro.

- Onde é que estás?

- Estou aqui próximo do passeio marítimo. Vou correr. E tu?

- Estou no hospital. Acabei agora a cirurgia. E tens por aí sitio para deixar o carro?

- Sim. Nesta altura é fácil. Normalmente deixo aqui no parque do Inatel.

- Não sei onde é.

O homem tem um ar morenaço. Quem olha para ele pensa que é só vida ao ar livre. Mas deve arranjar o bronze na sala de cirurgia do hospital. A impressão que tenho é que não conhece nada. Só o hospital. E o hospital.

 

Despedi-me dele. E.

Fui até Paço de Arcos. A correr.

Voltei.Também a correr.

 

E quando estava a passar pela praia de Santo Amaro. Pensei.

- É hoje.

Já tinha pensado nisso em casa e por isso estava preparada.

O meu biquíni verde. Já vestido.

Foi um banho rápido.

É tão bom. O calor da corrida. O frio da água. Que se torna confortável.

Não estava um dia quente. Mas havia sol. E o ventinho não era frio.

Saí da água.

Sequei-me com a t-shirt.

Vesti as calças. Peguei nos ténis, meias e t-shirt.

Encharcada. Desnudada do umbigo para cima. E descalça. Dirigi-me ao parque de estacionamento.

Não tinha frio nenhum. Dentro do carro tinha um polar para vestir.

 

Estava a atravessar o portão do estacionamento. Parece que vi o Pedro.

- Ó mulher. Recompõe-te. Agora vês o homem em todo o lado. Onde é que está o carro? Onde é que está o carro? Será que trouxe carro?

 

Ouço.

- Joana! Joana!

Era o Pedro. Mesmo ao lado do meu carro.

A prova de que o meu coração está saudável. Ou tinha morrido logo ali.

Teria sido melhor.

A cena que se segue não foi bonita.

 

O Pedro a olhar para mim com ar de...

....porque raio é que ela não está vestida, está encharcada e descalça...de biquíni, em Março?

E eu. Mostrei-lhe o melhor de mim.

Tive um ataque de riso.

Bem queria explicar-lhe. Mas não consegui.

 

O homem muito atrapalhado.

Tirou o casaco. Tentou vestir-me o casaco.

- Veste-te ou acabas com uma constipação.

- Não é preciso, não é preciso.

 

E como só tinha lama até ao pescoço. Achei por bem enterrar-me mais.

- Faço isto muitas vezes.

- Fazes muitas vezes? Mas o que raio aconteceu? Parece que caíste de um barco...

 

Ataque de riso. Choro. E ranho...

- Veste o casaco. Ainda estás bem a tempo de apanhar uma gripe.

Eu a tentar explicar-lhe o que tinha acontecido. No meio do ataque de riso.

- Eu. hahaha. Fui correr. hahaha.......

 

O homem não tirava os olhos da minha figurinha. Triste.

Sempre a  tentar embrulhar-me no casaco.

 

E como só tinha lama até à boca. Achei por bem enterrar-me mais. Ainda.

- Não te preocupes. A sério. Faço isto muitas vezes. Às vezes, às 7h da manhã e nunca fiquei doente.

- 7h da manhã? A que horas é que acordas?

- Então e a cirurgia correu bem?

 

Mas o homem estava muito focado. Na sua tarefa. De me conseguir vestir o casaco.

Com um ar atarantado. E desajustado...

Não parecia o mesmo de ontem. Muito calmo. E controlado...

 

Abri o carro. Tirei o polar e vesti-o para sossego do homem.

-Vim cá...nem sei bem...mas tenho de ir...

O homem estava tão alienado. Que fiquei com medo que tivesse de operar alguém à tarde.

Capaz de lhe vazar um rim...

- Vais operar alguém?

- Não. Não. As cirurgias programadas são de manhã. Só tenho relatórios para ler. Tenho de ir preparar as consultas de amanhã....

 

Entrou no carro. Pôs mal a marcha atrás. Que fez um barulho um bocado arrepiante.

Evaporou-se.

 

Se ele fosse psiquiatra.

Possivelmente tinha-lhe interessado. A minha pessoa.

Nem que fosse para estudar todos os desequilíbrios.

E depois apresentar tudo, tudinho numa revista da especialidade.

 

Assim....

....temo. Que nunca mais o veja....

...foi bom enquanto durou. Foi tão bom....

 

Porque é que eu tenho de ser Joana?? Porquê!!

 

27.03.18

happy together. The Turtles

Joana Marques

A praia da Adraga é das praias mais bonitas do país.

Em Sintra.

As grutas, o tom da água, a envolvência.

O areal. Tudo é especial.

 

Diz-se que os guerreiros muçulmanos que por cá andavam na Península Ibérica usavam um escudo protetor.

Feito de couro. Chamado Ad dàrga.

Esta proteção passou a ser usado pelos habitantes locais.

E mais tarde espalhou-se pela Península Ibérica em geral.

O nome foi adaptado para Adaraga. Com o tempo evoluiu para Adraga.

 

Naquele tempo. Antes de Afonso Henriques.

Esta praia era ponto de passagem de muitas tartarugas.

Algumas encalhavam e eram apanhadas.

A carne era muito apreciada. Sobretudo pelos Muçulmanos.

E a carapaça aproveitada para fazer Adragas.

Esta praia deve o nome. Às tartarugas.

 

Para muitas civilizações. A tartaruga.

Simboliza o universo. A estabilidade.

O feminino e o masculino ao mesmo tempo.

A harmonia. E o equilíbrio.

Ter confiança no caminho.

Simboliza a solidez. E a paz.

Ser suficiente.

 

 

Depois do nosso almoço. De sexta.

Enviou-me uma mensagem à noite. A dizer que tínhamos de repetir.

Ficou para hoje.

- Posso ir aí para os teus lados. Escolhe o local. Disse ele.

 

A Alice acordou cedo.

A sorrir como de costume.

Tive a certeza que ia ser um dia bom.

Fui ver o nascer do sol com ela. Ao Magoito.

O dia acordou lindo. E prometia.

Deixei-a em casa dos meus pais.

 

Pensei no nosso almoço.

Não me apetecia. Almoçar. Como todos os dias.

Fiz pão.

Salteei. Em azeite. Brócolos. Tomate. Frango. Rebentos.  Juntei tomilho e manjericão.

Ananás.

E ovos mexidos.

Fiz sandes.

Um bolo de chocolate. Que parece um bombom. Cortei às fatias.

Juntei fruta.

Uma garrafa de vinho.

E água.

Coloquei tudo dentro de uma cesta. E arrumei dentro do carro.

 

12h. Hora combinada. No local combinado. Estacionei.

O Pedro já tinha chegado.

Disse-lhe para entrar no carro.

Sabia o caminho e era mais prático.

No caminho falámos de tudo e de nada.

Na verdade. Nem sei muito bem do que é que falámos.

Chegámos ao local.

Estacionei o carro todo torto.

A ocupar dois lugares. Ele ofereceu-se para compor o carro. Eu agradeci.

Ele olhou em volta.

- Não conheço nada aqui. Onde é que é o restaurante?

Tirei a cesta do carro.

- Esqueci-me de te dizer. Vamos comer na praia...

- Onde é que nós estamos?

- Praia da Adraga. A praia das tartarugas...

27 (2).jpg

O almoço foi demorado.

Mas, passou depressa. Muito depressa.

A conversa foi fácil. E o riso também.

Muita cumplicidade. Parece que o conheço desde sempre.

 

Apanhámos conchas. Molhámos os pés.

 

E a realidade chamou-nos...

Entrámos no carro.

E descobrimos esta música no Spotify.

Happy Together. The Turtles.

 

Despedimo-nos. Onde nos tínhamos encontrado.

Um abraço de despedida. Sentido.

E a promessa. De repetir.

 

Um dia destes.

Sobre o signo da tartaruga. Ou não.

Vamos voltar a ser felizes. Juntos.

 

 

26.03.18

nós. A conversar...

Joana Marques

A minha Carlota faz anos.

É um dia especial para nós.

Não só pelo aniversário. Mas sobretudo por estarmos todos juntos de novo.

O meu irmão está a morar na Noruega. E vieram cá passar a Páscoa.

O dia foi passado em casa dos meus pais.

De manhã fiz o bolo de aniversário da Carlota. Chocolate. Por cima pasta de açúcar e gomas.

Um dia não são dias. E só come quem quer.

Eu, por exemplo vou abdicar da pasta de açúcar e das gomas. Só como o bolo. Bolo.

 

Depois do bolo feito.

A Alice acordou da sesta da manhã. Ainda brincámos.

Conheceu os primos que nunca tinha visto. Tanto beijinho que ela atirou.

Andaram com ela ao colo. Deram-lhe o almoço.

Acabou por adormecer mais cedo e tudo. Tanta brincadeira deixou-a exausta.

Aproveitei que estava a dormir e fui às compras.

Apeteceu-me fazer uma tarte de maçã. Para a festa de logo à noite.

E uma mousse de chocolate. Com abacate.

Shiuuuu! Ninguém sabe que tem abacate. E toda a gente vai gostar da mousse.

 

O Vasco quis acompanhar-me. Muita criançada em casa.

Muito tempo a sorrir e a ser simpático.

Um cão precisa de descanso!

Como ele foi. Peguei no carro. Se fosse sozinha tinha ido a pé. Não é muito longe o supermercado.

Deixei-o no carro.

No supermercado encontrei uma vizinha dos meus pais.

E ofereci-lhe boleia.

Deve ter a idade dos meus pais. Mais ou menos.

- Se me dás boleia vou aproveitar e levo mais umas coisas.

Assim foi.

Eu tinha menos compras. Despachei-me. E fiquei à espera.

 

O Vasco. Nunca cedeu o lugar da frente!

Eu a conduzir. O Vasco ao meu lado. E a senhora atrás.

Lindo.

 

A rua dos meus pais é longa. E tem muitos portões.

Quase toda a gente tem garagem mas durante o dia deixam os carros estacionados cá fora. É mais prático.

Encontrar estacionamento na rua. É como encontrar uma agulha num palheiro.

Olhei para ver se via algum lugar.

Estacionei. Logo que encontrei um lugar.

- Vou deixar o carro aqui. Se quiser ajudo-a com as compras.

Disse que não. Que conseguia levar tudo.

Mesmo assim, agarrei num saco da senhora e fui com ela até casa dela.

 

Lado esquerdo: às costas levava as minhas compras (naqueles sacos grandes do hipermercado), na mão o saco de plástico com as compras da senhora.

Lado direito: trela do Vasco.

 

O Vasco ia entre nós as duas.

Nós, a conversar.

 

O Vasco a andar como um cão civilizado.

Nós, a conversar.

 

O Vasco extremamente bem comportado.

Nós, a conversar.

 

O Vasco a comer o presunto. O bacon. E o fiambre. Do saco da senhora.

Nós, a conversar.

 

 

26.03.18

é sempre primavera

Joana Marques

Nunca tinha dado conta. Até nascer a primeira sobrinha.

O mundo não somos nós. Nem tão pouco a nossa geração.

Por alguma razão, o planeta é redondo.

Hoje, parece-me uma metáfora. Uma boa metáfora. Para o que é a vida.

A vida ensina-nos que não somos insusbstituíveis.

O mundo não gira à nossa volta. A mais pura das verdades.

Quando somos novos. É dificil perceber. Nem acreditamos.

Eu só percebi. Quando nasceu a Madalena. A primeira.

Até esse dia. Eu era a mais nova do meu núcleo.

A partir desse momento dei lugar a outra pessoa.

Que passou a ter a atenção necessária e merecida.

Se por um lado. Gostei do foco passar a estar virado para outro lado.

Por outro. Não estava preparada para isso acontecer.

Passou-me. Rapidamente.

Quando o Pedro nasceu. Há 18 anos. Aí sim. Já estava preparada para o receber. Como deve ser.

Seguiu-se a Inês.

 

É boa esta renovação. O reciclar da vida.

É muito bom. Pertencer a uma família cheia de crianças.

Continuar a ver o mundo pelos olhos delas.

A alegria é contagiante. E constante.

Quando somos crianças o mundo é nosso.

É sempre primavera!

 

Há onze anos. Tinha eu uns miseráveis 26 anos.

Nasceu a Carlota. A primeira filha do meu irmão.

Uma boneca. Linda. Morena como o pai, meu irmão. Como o avô, meu pai. Como o bisavô Joaquim, meu avô.

Muito calma.

Ponderada. Carinhosa.

Muito musical. Canta deliciosamente. E quando canta. O mundo pára. E é mesmo dela.

O sorriso mais bonito do mundo.

 

Hoje é dia de festa aqui em casa.

O dia é teu Carlota. Querida.

E o mundo também!

 

25.03.18

pink. Is the new green...

Joana Marques

A minha filha está muito crescida. Faz hoje 11 meses.

Parece uma senhora.

Já não consigo convence-la a estar muito tempo, ao colo.

Aprendeu a andar. E há muito mundo para descobrir na vertical.

Agarrada a tudo o que apanha. A uma velocidade considerável.

Já se solta mas sempre a medo. Tenta muitas vezes o primeiro passo. Sem a muleta.

Já consegue. Ainda não atinge a velocidade que quer.

Não é de desistir. Mas quando está em jogo a boneca preferida. Vai a gatinhar. Chega mais rápido. E em melhores condições.

 

Dançamos. Todos os dias.

Desde que a Alice esteja acordada, há sempre música por aqui.

E é a Alice que me convida.

É incrível. Como eu a compreendo.

Só diz mamã. Mas eu percebo a maioria das coisas que ela me quer dizer.

Não são precisas palavras.

Só o olhar. E as expressões.

Gesticula. Muito.

 

Vasco. E Alice.

Alice. E Vasco.

São os melhores amigos.

Têm um acordo qualquer entre eles.

O Vasco serve de andarilho. E a Alice alimenta-o quando tenta comer sozinha.

O Vasco está sempre disponível para ela. Nunca tem sono. Nunca está rezingão.

Trocam mimos entre eles.

Falam os dois.

Foram feitos um para o outro. É o que é....

 

A minha mãe costuma dizer-lhe, com as mãos na cabeça.

- "Ai, Jesus!"

A Alice quando a vê de manhã. Não diz "Ai, Jesus", ainda não consegue.

Mas põe as duas mãos na cabeça a imitar a avó.

E quando nos rimos. Ri-se também.

Quando se ri, torce o nariz de uma maneira muito característica. Que só ela tem.

 

É uma teimosa. Com bom feitio.

Teima até à última. Mas tem fair play.

Quando sabe que perdeu. Ri-se e atira beijinhos.

 

É simpática. Mas não gosta de andar de colo em colo.

Tirando o meu. E os de casa. Avó. Avô. Padrinho. Tios. Não gosta muito.

Chama. Mamã. E às vezes chora.

 

 

Só aceita bonecas e bonecos que estejam vestidos de rosa.

Deram-lhe um urso, muito giro.

Recusou. O pobre do boneco.

Coloquei-o na cama dela. Não queria.

Vesti-o com uma t-shirt rosa. E fiz-lhe uma saia rosa.

Agora dorme com ele.

Tive de fazer o mesmo ao Jubas.

Em casa dos meus pais dorme com um Jubas. Mascarado de princesa.

 

Uma onda rosa invadiu a minha vida.

Não há retorno. Não há volta a dar.

Estou rendida.

Pink is the new green!

 

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Joana Marques

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