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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

7 de Março

07.03.18, Joana Marques

Fiquei com a Alice só para mim. Hoje.

Às vezes fica com os meus pais. A maior parte dos dias.

Quando não podem. Fica comigo.

Hoje podiam. Mas fiquei com ela. Apeteceu-me tanto ficar com ela.

Não tinha nenhum Skype marcado. Fui gerindo o trabalho consoante os horários dela.

Quando cheguei de manhã, o cão convidou-nos para ir à rua.

Saímos os três. Não chovia. Nem fazia frio.

Vagueámos pelo Guincho.

Voltámos.

A Alice comeu. E adormeceu.

E eu dediquei-me ao trabalho.

Quando acordou. Estive com ela de corpo e alma.

Almoçou. Brincámos. Voltou a dormir.

E eu. Trabalho. Que remédio...

Quando acordou. Convidei o cão a sair.

Dormia refastelado na minha cama. Às vezes acho que a bexiga do cão consegue armazenar um camião tir de xixi.

Lá foi. O tempo não estava muito convidativo. Mas teve de ser.

O passeio foi só aqui à frente do prédio.

Sujou-se todo. Claro.

A lama é algo que o seduz...estranhamente. Já lhe dei banho...

 

Voltei a casa. Sentei a Alice em cima da mesa de apoio da sala.

Queria tirar-lhe os sapatos. E calçar-lhe umas meias...para andar aqui por casa mais confortável...

Tirei um sapato. Sempre a falar com ela.

Deixei de falar porque senti a mão dela na minha cara.

Olhei para ela.

Riu-se.

E disse.

- Mamã.

(ainda estou a assimilar....e em choque, sobretudo em choque..)

 

quanto baste...

07.03.18, Joana Marques

Naquela semana horrível. A pior semana da minha vida. A semana passada.

A Alice teve de fazer uma quantidade de exames e análises.

Quando o pediatra prescreveu os exames, liguei para os locais que conheço. Perguntei quando é que podiam ser feitos.

Ao fim de uma hora acho que tinha ligado para meio mundo.

E escolhi os que podiam ser feitos logo ou quase.

Um desses exames foi feito numa pequena clínica perto de Sintra.

Fui busca-lo hoje.

Já li o relatório. Enviei o relatório para o pediatra.

- Está tudo bem.

Enviei para o meu tio.

- Está tudo bem.

Enviei para o José.

- Está tudo bem.

Acho que está tudo bem.

 

A clínica abria às 8. Cheguei pouco depois.

Já estava composta. Algumas pessoas à espera.

A rececionista disse-me que a ficha da Alice não estava completa. E pediu-me o cartão do cidadão.

- Nome do pai?

- Não tem.

Muito alto. E a rir-se...

- Não tem? Toda a gente tem pai...

Nisto, umas quantas pessoas sussurraram....

- Verdade. Toda a gente tem pai. E a minha filha não é exceção...mas eu não sei quem é.

- Como assim? Já ouviu falar em teste de paternidade.

Eu, muito calma....

- No século XXI toda a gente já ouviu falar mas não se aplica neste caso....

Muito alto.

- Mas eu preciso de um nome do pai. Não tem uma ideia sequer??

Por esta altura já as pessoas se riam com a situação.

- Não tem nada a ver com isso mas a minha filha é adoptada e eu não sou casada. Foi adoptada só por mim. Logo não lhe posso dar um nome...

- Adoptada? E não tem medo? Não sabe nada sobre ela...

- Sei. Sei que é minha filha. E isso é quanto baste...

 

A Alice estava ao meu colo. Sorriu-lhe. E disse-lhe adeus.