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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

quase, quase a respirar de alívio...

15.03.18, Joana Marques

Ontem. Estava eu nos preparativos para a festa do meu sobrinho. Recebi uma chamada.

Era do consultório, do médico especialista, que me tinha sido indicado por várias pessoas.

Quando apareceu sangue na fralda da Alice. O pediatra disse-me:

- Não deve ser nada, mas aconselho-te a consultares o Dr. Pedro.

Em conversa com o meu tio, a mesma coisa.

- Não deve ser nada, mas aconselho-te a consultares o Dr. Pedro.

E o José. Que aparece por aqui de vez em quando. Também.

Também me avisaram.

- É de poucas conversas. Mas nada lhe escapa.

- Não é muito simpático mas é o melhor.

 

Foram três conversas. Distintas. E sem conhecimento umas das outras.

E todos me indicaram o homem.

O médico.

O especialista.

Craque dos rins.

E de outras miudezas urinárias.

 

Tinha ligado. Naquela semana negra.

Pronta a suplicar.

A implorar.

A descabelar-me.

Por uma consulta urgente.

 

Quando do outro lado.

Uma voz.

Me disse que o doutor estava em Boston.

Marquei à mesma.

Para dia 23 de Março.

Depois de fazer um choradinho.

Digno de um óscar.

 

Ao longo dessa semana.

Fui acalmando.

O pediatra foi descartando as piores hipóteses.

Sempre com cautela.

O meu tio também.

 

Acabei por ligar para o consultório outra vez.

A dizer que em príncipio não seria nada.

Se precisassem da minha consulta para alguém urgente, não me importaria de esperar mais um pouco.

Do outro lado riram-se e disseram-me que não.

Já estava marcada. E que ia ficar como estava.

Pediram-me para enviar todos os exames que tivesse, para ser tudo mais rápido.

Falei com o pediatra. Enviou tudo.

E recebi um sms por parte do consultório a dizer que tinham tudo o que precisavam e que a consulta estava confirmada para dia 23.

 

Ontem ligaram-me.

- Temos vaga para uma consulta, amanhã, às 8h. Está interessada?

Disse logo que sim.

Hoje lá estava. Eu. E a Alice.

E às 8h estavamos a ser atendidas.

 

Entrámos. E o médico começou por me fazer mil e uma perguntas, sobre a Alice.

Uma delas sobre amamentação.

Tive de lhe dizer que era adoptada.

E que não fazia a mínima ideia se tinha sido amamentada ou não. Mas tinha ideia que não.

Estava comigo desde dia 27 de Dezembro.

Acabei por lhe contar a história.

A minha.

A da Alice.

Como é que fiquei com a Alice.

E também o pouco que sei, sobre a vida dela antes de a ter.

 

A Alice estava ao meu colo.

Sempre a tagarelar.

Aprendeu a atirar beijinhos.

E agora passa a vida nisto...é mesmo uma fofa, a minha filha!

 

Pediu-me uma quantidade de informação pessoal.

Achei estranho.

Porque tinha acabado de preencher uma ficha com toda a informação.

Disse-me que tinha dúvidas num dos exames (aquele que a Alice fez em Sintra) e que o queria fazer ele.

Para requisitar o exame tinha de ter a ficha dela preenchida.

 

A Alice fez o exame. Portou-se bem.

À partida não tem nada. Mas....

...há sempre um mas......daqui a uns dias terei a resposta definitiva.

 

Voltámos ao consultório.

A Alice foi ao colo dele. Sempre a dizer:

- Mamã. Mamã...

Ainda sinto um arrepio quando ouço a palavra dita por ela...

 

Sala de espera cheia. Já eram quase 10 horas da manhã.

Voltámos a entrar.

Dei o lanche da manhã à Alice.

Bolachas que eu faço para ela.

As conversas são como as cerejas...

Começámos a falar sobre comida. E comida é um dos meus temas preferidos.

A Alice adormeceu ao meu colo.

Saí do consultório. Quase às 12h.

 

Gostei bastante do médico. Foi muito simpático.

Tratou-nos bem. Ouviu-me. Deu-lhe atenção.

Pareceu-me muito competente...

....quase, quase a respirar de alívio...falta o quase.

 

caderneta de cromos #2

15.03.18, Joana Marques

O Sporting.

 

Antes de ser cidadã portuguesa. Fui sócia do Sporting.

Passadas umas horas de ter nascido o meu pai inscreveu-me como sócia.

Tal como tinha feito com os meus irmãos.

Tal como o pai dele o tinha feito com ele e com os meus tios.

Ser do Sporting na minha família não é uma opção. Porque o Sporting está inscrito nos nossos  genes.

No nosso ADN.

No nosso sangue.

O meu bisavô paterno foi um dos fundadores do clube.

Não vou dizer quem foi, mas os nomes de todos estão neste post. O dele também lá está.

É uma tradição da minha família. Que espero passar à minha filha.

Não sei se me estou a sair bem. Para ela aceitar o Jubas....tive de o vestir de cor de rosa...

 

Para mim o Sporting é um assunto muito sério.

Visceral. Até.

E por ser tão sério. Consigo compreender. O que vai na cabeça de um adepto. Verdadeiro.

Nunca. Em tempo algum brinco com a clubite de ninguém.

Não há uma única pessoa neste mundo que tenha recebido uma mensagem minha porque o seu clube perdeu.

Porque quando alguém me faz isso a mim. Sofro horrores.

Já terminei amizades pelo Sporting.

Pessoas que confiava mas que à primeira derrota do meu clube acharam fixe desatar a dizer piadas.

Não me interpretem mal.

As pessoas podem dizer, escrever o que quiserem. Eu só não tenho de ser confrontada com isso.

Porque me faz sofrer mais do que a conta.

 

Ser do Sporting é ser diferente.

Todos os adeptos. De todos os clubes dizem isto. E é verdade.

Com a diferença, que nós somos mesmo diferentes.

Porque é fácil. Muito fácil. Ser adepto. De um clube que ganha.

Perder e continuar cá. Só para os mais duros. Só para nós.

É um amor que existe sem estimulo. É amor. Mesmo. Verdadeiro. Puro.

 

O Sporting. É um dos assuntos mais sérios da minha vida.

Se um dia destes, me encontrarem na rua. E o Sporting não tiver ganho.

Não falem do assunto.

Nesse dia, estarei destroçada. De coração partido. Fico sempre...

 

Mas se por outro lado...tiver ganho.

....provavelmente estarei sem voz.....e vestida de verde....

 

Este é o meu segundo cromo.

Podem ver o primeiro. Aqui.

a liberdade

15.03.18, Joana Marques

Durante muito tempo a minha vida profissional foi muito mais importante que a pessoal.

Porque simplesmente queria que fosse assim. A minha felicidade estava colada ao meu trabalho.

 

Quando comecei a trabalhar, aos 17, a minha vida pessoal era o meu grupo de amigos. 

A minha família, claro. Mas aos 17 anos, a família é um dado adquirido. E nem sempre lhe damos o valor que merece.

Aliás, mal consegui, saí de casa. Aluguei o meu espaço. Paredes-meias com o Estádio José de Alvalade.

Tinha um namorado que nunca me encheu as medidas.

Um pouco mais velho do que eu. Tinha pressa em casar e ter filhos.

Uma relação que durou quase 7 anos. E que não sobreviveu a um ultimato:

- Ou casamos e vamos para Inglaterra. Ou acaba tudo.

Acabou. Para grande alívio meu.

Queria era viajar. Correr mundo. Trabalhar. Porque gostava muito do meu trabalho.

Tinha o curso para terminar. Sem nunca me entusiasmar, tinha prometido aos meus pais. E cumpri.

 

Os anos foram passando.

E a minha vida. Era a profissional.

Porque queria que fosse. Porque adorava o meu trabalho.

Já com a licenciatura. Diziam-me para deixar de ser hospedeira. Tentar a sorte no curso que tinha tirado.

Ser da minha família, é ter negócios. E a probabilidade de termos um, é grande.

Foi assim que para além de ser hospedeira, aprendi a ser gestora. Num negócio de família.

Pela mão do meu tio José e do meu primo António.

Só no terreno é que aprendemos. E eu agarrei a oportunidade e aprendi muito.

Estava preparada para dar o salto.

A minha vida pessoal estava mais ou menos igual. Muitas viagens. Os meus amigos. A minha família.

Por esta altura, apaixonei-me.

E ele por mim.

Eu era do Sporting. Ele era do Sporting. Perfeito. Simplesmente, perfeito.

 

A vida pessoal começou a ganhar muito mais sentido.

Dei o salto. A nível profissional. Por algo mais estável. Mais consistente. E com horários mais civilizados.

Continuei a viajar. 

Foi uma fase boa.

Finalmente, tinha uma vida equilibrada.

50/50.

Começou-se a falar em filhos. Era o passo mais lógico. Mas...

Por alguma razão adiei. Não me apeteceu. Não quis.

A relação terminou.

 

Cheguei aos dias de hoje.

Sozinha. Amorosamente, falando.

Mas com a minha vida, claramente a pender cada vez menos para o profissional.

É óbvio que tenho de trabalhar. Porque não me saiu o euromilhões.

Mas o que me faz feliz mesmo...é o resto.

Não é que a minha profissão não me desafie diariamente.

Desafia, como antigamente. Neste momento, até mais. Mas encontrei algo melhor. No tempo certo. No presente.

 

Não sei se é da idade. Maturidade. Ou disponibilidade.

Tem graça. Alguma graça. Muita graça.

Muita ironia. Também...

A Joana. A super profissional, Joana. 

Se esteja a transformar na mulher. Joana. Não super, mas esforçada.

Todos os dias valorizo mais o tempo que passo com os meus.

O tempo livre.

Os passatempos. Os hobbies.

A liberdade.

 

Quando fecho a porta do escritório.

Abrem-se as portas. Da liberdade.

E deixo o meu coração. Viver. Como nunca viveu.