Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

e non esiste bomba pacifista..

12.05.18, Joana Marques

A Il Cairo non lo sanno che ore sono adesso,

il sole sulla Rambla oggi non è lo stesso.

In Francia c’è un concerto, la gente si diverte,

qualcuno canta forte, qualcuno grida “a morte”.

 

A Londra piove sempre, ma oggi non fa male.

Il cielo non fa sconti, neanche a un funerale.

A Nizza il mare è rosso di fuochi e di vergogna,

di gente sull’asfalto e sangue nella fogna.

 

E questo corpo enorme che noi chiamiamo “Terra”,

ferito nei suoi organi dall’Asia all’Inghilterra.

Galassie di persone disperse nello spazio

ma quello più importante è lo spazio di un abbraccio.

 

Di madri senza figli, di figli senza padri,

di volti illuminati, come muri senza quadri.

Minuti di silenzio, spezzati da una voce:

“Non mi avete fatto niente.”

 

Non mi avete fatto niente.

Non mi avete tolto niente.

Questa è la mia vita che va avanti

oltre tutto, oltre la gente.

 

Non mi avete fatto niente.

Non avete avuto niente.

Perché tutto va oltre

le vostre inutili guerre.

 

C’è chi si fa la croce, chi prega sui tappeti,

le chiese e le moschee, gli imam e tutti i preti,

ingressi separati della stessa casa,

miliardi di persone che sperano in qualcosa.

 

Braccia senza mani, facce senza nomi,

scambiamoci la pelle, in fondo siamo umani.

Perché la nostra vita non è un punto di vista

e non esiste bomba pacifista.

 

Non mi avete fatto niente.

Non mi avete tolto niente.

Questa è la mia vita che va avanti

oltre tutto, oltre la gente.

 

Non mi avete fatto niente.

Non avete avuto niente.

Perché tutto va oltre

le vostre inutili guerre,

le vostre inutili guerre.

 

Cadranno i grattacieli, le metropolitane,

i muri di contrasto, alzati per il pane.

Ma contro ogni terrore che ostacola il cammino

il mondo si rialza col sorriso di un bambino,

col sorriso di un bambino,

col sorriso di un bambino.

 

Non mi avete fatto niente.

Non avete avuto niente.

Perché tutto va oltre

le vostre inutili guerre.

 

Non mi avete fatto niente.

Le vostre inutili guerre.

Non mi avete tolto niente.

Le vostre inutili guerre

Non mi avete fatto niente.

Le vostre inutili guerre.

Non avete avuto niente.

Le vostre inutili guerre.

 Ermal Meta,

Fabrizio Moro,

Andrea Febo

Esta canção tem uma mensagem que me toca particularmente.

É esta a canção que eu gostava que ganhasse a Eurovisão.

 

 

o devorador de notícias...

11.05.18, Joana Marques

Ontem à noite, depois de jantar, o Pedro recebeu um email.

Melhor dizendo. Tinha vários email's novos. Mas abriu só um.

Recebe os resultados das análises dos doentes de forma digital e estava à espera destas em particular.

De um doente operado na quarta-feira.

Percebeu que os valores não estavam como deviam estar. E decidiu ir ao hospital.

Chegou hoje. Pelas 6h da manhã.

Eu já estava acordada. O cão já me tinha acordado. E já se tinha deitado outra vez.

Tomei o pequeno almoço. O Pedro, completamente exausto também comeu qualquer coisa.

E foi descansar.

A Alice acordou.

Tratei dela.

E achei por bem. Tirar toda a gente de casa para o homem poder descansar como deve ser.

O cão. E a Alice.

A Alice. E o cão.

Podemos defini-los de muitas maneiras. Silenciosos. Não é uma delas.

Passeámos. À beira mar.

Brincámos.

Chegou a hora do lanche da manhã. A Alice comeu.

E adormeceu no carrinho.

 

Ainda pensei em ir para casa dos meus pais. E deitar a Alice na caminha dela.

Ou voltar para minha casa. A Alice a dormir não faz barulho. E o Vasco também não.

Mas...

....o dia estava mesmo agradável.

Tinha um livro comigo. E o meu tricot.

Sentei-me num banco de jardim. Com o carrinho da Alice ao lado. E o Vasco ao lado do carrinho.

Tirei o tricot.

E com uma vista absolutamente maravilhosa. Tricotei...como se não houvesse amanhã.

 

Um senhor. Mais ou menos da idade dos meus pais.

Perguntou-me:

- Posso-me sentar?

Disse que sim. O banco era grande e eu só ocupava uma parte pequena dele.

Sentou-se na outra ponta.

O Vasco levantou-se num segundo. E no outro esta em cima do banco sentado ao meu lado.

 

A Alice mexeu-se. Afastei a fralda que estava a tapar o carrinho. Para ver se estava tudo bem.

E o senhor.

Inclinou-se para ver a Alice.

Ouvi o Vasco.

Olhei para trás.

O Vasco estava a rosnar. Ao ouvido do senhor.

- Ele não faz mal. É só garganta...

Disse eu para o senhor. O senhor riu-se. Fez-lhe uma festa.

Abriu o jornal e começou a lê-lo.

Eu a tricotar.

E de repente. Ouço um barulho. Que não encaixava bem na situação....

.......

 

Olhei.

O Vasco estava feliz da vida a mastigar.

O Vasco estava entretido a comer o jornal.

Juro. 4 anos de Vasco. E nunca tinha percebido que este cão...era ávido por notícias.

O verdadeiro devorador de notícias.

 

A minha alma. Aparvalhada. Mais do que o costume....

Disse ao senhor que lhe pagava o jornal.

- Não se preocupe. O jornal é de ontem. Tirei-o do café perto da minha casa. Costumo ir lá devolve-lo. Parece-me que hoje não vai acontecer.

 

 

O doente do Pedro está estabilizado.

E fora de perigo.

 

Elias. Continua a assustar....

10.05.18, Joana Marques

O Pedro saiu às 16h do hospital.

Tínhamos combinado.

Passar por Carcavelos.

A cozinha está a avançar a olhos vistos e queria que ele visse.

 

Almocei.

Passei por casa dos meus pais.

Para resgatar a Alice.

Estava a dormir a sesta.

Fiquei à conversa com os meus pais à espera que bela adormecida acordasse.

 

Rumámos até Carcavelos.

Fomos dar um passeio à praia.

Cuidado com o sol!

A Alice adora praia.

Areia.

E tudo o que tenha a ver com ficar suja dos pés à cabeça.

 

Recebi uma mensagem do Pedro a dizer que estava à porta do prédio e fomos andando para casa.

Não foi fácil.

Pequena Alice.

Virou fera.

- Não quero ir. Não quero ir. Não quero ir.

Até me doeu o coração. Mas.....

....tinha de ser.

 

O Pedro já tinha subido.

Diz que esteve cá em baixo à minha espera e desistiu.

Isto de convencer pequena Alice a abandonar o bem bom demora....muito tempo.

 

As portas de casa estavam abertas.

É normal quando há obras.

Um entra e sai de gente.

É mais fácil estar a porta aberta do que estar a abrir e a fechar a porta todos os minutos.

Não são eles que ouvem as queixas do Senhor Ludovino.

Sobre o barulho.

E sobre o prédio imundo.

Barulho, ainda percebo.

Imundice...é exagero. Os senhores limpam as escadas todos os dias.

 

Entro com a Alice.

Ainda chorosa.

E encontro o Pedro a assistir um dos senhores das obras.

O senhor estava muito pálido.

Parecia desmaiado.

Ao que parece já tinha estado pior. Quando eu entrei já estava a recuperar.

- O que é que se passa, senhor Artur?

- Lembra-se de terça feira me ter entregue aquela caixa para pôr na arrecadação?

- Lembro, claro!

- Lembra-se do que me disse?

- Acho que sim. Disse: "Por favor pode levar esta caixa lá para cima para a arrecadação, é a primeira porta à direita.

- Pois e acrescentou mais alguma coisa....

- Sim, disse que eram os ossos do meu namorado.

- Pois, foi. Já viu, está um homem na sua vida a trabalhar. Entra aqui este senhor e diz:

- Olá, boa tarde...sou o namorado da Joana.

 

Eu disse-lhe que eram ossos. Disse.

Tive medo que o senhor abrisse a caixa e quando se deparasse com fémures e cenas, caísse das escadas abaixo.

E disse que eram do meu namorado.

Tive medo que o senhor abrisse a caixa e achasse que eu coleciono ossos.

Atirei as culpas para o Pedro, claro!

 

Ele achou que eram, ossos. De um namorado.

Ou seja. Eu. Não queria passar por alguém que guarda ossos.

E afinal passei pela louca que guarda o que sobrou do falecido......dentro de uma caixa......

 

Credo, até me arrepiei. Ao mesmo tempo que chorava a rir.

Acompanhada pelo Pedro e pelo senhor Artur.

Completamente recuperado. Do susto.

 

Juro....

......pela minha saúde...

..ainda me doi a barriga de tanto rir...

nas bocas do mundo...#29

10.05.18, Joana Marques

Ser a terceira filha. Pode ser frustrante.

Tendo eu menos 5 anos que o meu irmão e menos 10 que a minha irmã. Pior.

Já percebia tudo. Ou achava que sim. Mas ainda não sabia ler.

Os meus irmão, sabiam. Claro.

Tinham montes de livros. Recebiam dinheiro para comprar livros. E eu invejava-os muito.

Invejava-os porque já sabiam ler.

Invejava-os porque recebiam dinheiro. Eu só pensava...

...quando for a minha vez. Pego no dinheiro e compro tudo em pastilhas.

Arriscava-me a ser descoberta e a ter uma pena de prisão domiciliária durante esta encarnação....mas iria arriscar.

Nunca o fiz. Porque a partir do momento em que aprendi a ler. Tudo mudou.

 

No início foi uma canseira.

Tinha de juntar as letras. E era muito stressante.

Lia tudo o que aparecia à frente.

Ainda me lembro das viagens para o Alentejo.

Só não me atiraram nunca, pela janela fora, porque eu...ia no meio.

Os meus irmãos à janela. Os meus pais à frente. E eu no meio.

Lia todas as placas de trânsito.

Lia os nomes das lojas.

Lia as matriculas dos carros. E tentava formar palavras.

E assim chegávamos ao Alentejo. Uma família com os nervos feitos em frangalhos.

 

A minha escola primária tinha uma biblioteca pequenina.

Aproveitava os intervalos para ler.

Ia à biblioteca. Tirava um livro. E começava a ler.

Depois. Fazia uma marquinha pequenina na página onde estava. Arrumava o livro. E voltava à sala de aula.

No dia seguinte voltava à biblioteca e retomava a leitura.

Um dos primeiros livros que li, na biblioteca da minha escola, foi: "Rosa, minha irmã Rosa da Alice Vieira".

Demorei um tempito para o ler todo.

Foi muito bom o investimento de tempo que fiz no livro. Gostei, tanto. Tanto!

 

Contei a história à minha professora. Que me disse para eu a apresentar aos meus colegas.

Adorei. Porque tinha um palco. E podia brilhar...

Cheguei a casa. Contei a história à dona Aurora.

À minha irmã.

Ao meu irmão...que me atirou um chinelo.

Tive de sair do quarto. Mas fiquei cá fora a debitar o que tinha lido.

À minha mãe.

E ao jantar. Ao meu pai. Com os meus irmãos a atirarem-me olhares de fuzilamento.

A minha mãe disse-me.

- Se te portares bem. Compramos-te o livro. E podes lê-lo outra vez. Vais ver que encontras novos pormenores que te escaparam da primeira vez....

Atendendo que li o livro aos 7 anos.

Só recebi o livro quando tinha 11 anos. Devem perceber. Tive um comportamento irrepreensível...

 

Ontem a desconhecida, relatou a volta que teve de dar, na apresentação de um trabalho.

E como foi parar ao livro da Alice Vieira. Diz que se lembrou da minha Alice por causa do nome.

Ainda não tinha feito a associação. Mas parece-me tão bem!

 

Desta autora li "Chocolate à Chuva".

Também na biblioteca da escola. E pelo mesmo processo.

 

Neste momento estou a ler à Alice, este:

alicev.jpg

Vi-o no Continente. Achei piada à capa. E quando vi que era da Alice Vieira não resisti.

A Alice adora. Estes momentos. De leitura.

E eu também.

 

3 segundos....

09.05.18, Joana Marques

Em 1980. A minha mãe. Ficou grávida pela terceira vez.

Pensava ela que já sabia o que era estar grávida.

Pensava ela que dominava o assunto parto. Sem anestesia. A sangue frio...

Pensava ela que criar filhos dava trabalho mas era maravilhoso.

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

 

Ainda sem a confirmação de estar grávida. A minha mãe quase não saía de casa.

Tal era o mau estar.

Achava que podia estar grávida mas tal era o nível de enjoanço que um dia ponderou mesmo, estar doente. À séria.

Tumor. Ou algo da família. Nos momentos mais otimistas.

Tumor com metástases. Nos momentos piores.

Confirmou-se. Estava grávida.

Esta situação devia ser um sinal do que estava para chegar. Mas a minha pobre mãe só dizia...

- Espero que passe depressa. Não vejo a hora que nasça....

 

Pois!

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

 

Um dia foi ao médico. E estava com a tensão arterial nos píncaros.

- Pré-eclampsia. Tem de nascer o mais depressa possível...

Esta situação devia ser um sinal do que estava para chegar. Mas a minha pobre mãe só dizia...

-Provoque o parto. Não vejo a hora de voltar para casa e estarmos os cinco.

 

Pois!

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

E eu nasci.

Antes do tempo. Minúscula.

Só não estive na incubadora porque o médico achou que eu era viva demais para precisar.

Olhos grandes sempre abertos. E sempre acordada.

 

Saímos do hospital 5 dias depois.

E, eu sempre vivinha da Silva. Com pouca vontade de dormir. E muito ativa.

A minha mãe com uma filha de 10 anos e um filho de 5. Nunca tal tinha visto.

Mas...

....o universo é sábio.

Quando percebeu que tinha feito asneira da grossa comigo. Atirou cá para baixo uma asma que me atingiu como um raio. E logo em bebé. Começou a manifestar-se.

Os médicos nunca souberam explicar muito bem.

Tinha asma. E pronto.

Várias vezes em miúda fui parar ao hospital. Por causa das crises.

Foi a forma que o universo teve de me parar.

E dos meus pais sossegarem...5 minutos.

Depois de uma crise passada. O corpo pedia algum descanso. E dormia como um anjo.

Com o passar dos anos, a asma não acalmou. Pelo contrário.

Se em miúda tinha crises esporádicas.

A partir dos 20, a coisa ficou feia. Agora percebo porquê.

Trabalhava desde os 17. Tinha saído de casa aos 17. E comecei a comer muito mais fora de casa.

Acalmou a partir do momento em que mudei os hábitos alimentares. Aqui.

No entanto, ainda tinha alguma rinite. E às vezes sentia algum cansaço.

Tudo isto mudou, quando no ano passado decidi mudar outra vez a minha alimentação.

O que é que eu como hoje em dia?

Neste momento tenho muito menos restrições do que tinha há um ano.

Vou responder pela negativa. Não como nada processado. E é só.

Este é o ponto de partida para a minha alimentação.

De resto tento variar muito. Tendo em conta os produtos da época.

 

A verdade é que ter asma atualmente. É um unicórnio.

É tão raro. Que me esqueço que sou asmática. Dizem os médicos que é uma condição para a vida toda.

Dizem...

....eu acho. Que tenho uma palavra a dizer...ou uma frase.

Digo, eu. Não à asma!

O que é que me faz ter asma?

 

- Se me constipar. Pode aparecer.

Só que é raro constipar-me. Desde a última mudança que fiz na alimentação nunca mais me constipei. Nem vestígios de constipação. Nem um pingo.

- Um cheiro muito forte.

Aqueles perfumes muito fortes que entram nariz dentro. Fazem os meus brônquios contorcerem-se e inflamarem. E gritarem....por ajuda. Da bombinha.

- Um susto. Daqueles à Elias.

Um susto bem apanhado. C'um caneco. Nem sabem o efeito que isso tem em mim.

Posso correr quilómetros. Andar ainda mais. Trabalhar o dia inteiro. Dançar. Assistir a um jogo do Sporting e gritar que nem uma tresloucada...nada. Nada acontece. Eu vejo a ponta do dedo mindinho do Elias e quase me sai o pulmão direito pela narina...

 

Ontem. Foi o que aconteceu.

Vi o Elias.

Quase me juntei na caixa com ele. O meu coração parou por segundos.

Afinal, não.

Foi só asma....

Bombinha. A vida é bela....

...siga.....

 

Quando troquei mensagens com o Pedro não lhe disse nada.

Nem tinha intenção de contar. Mas...

...trouxe a bombinha para Cascais. E ele viu...

Já lhe tinha dito que era asmática. Controlada, disse eu.

Pois, segundo ele não estou.

Toca de auscultar aqui e ali. Um ar sério...

..quase me passou, naquele momento a certidão de óbito.

Olhava para mim com um ar abismado.

E..

- Amanhã de manhã vais comigo ao hospital.

- ?

- Não tenho nenhum espirómetro aqui. Tenho de medir a tua capacidade respiratória. Pelo que auscultei não deve estar grande coisa.

- Eu sinto-me lindamente.

- Não podes. Esses brônquios estão mais do que inflamados.

- Peço desculpa por discordar mas .....não estão nada. E não preciso de ir ao hospital porque tenho um espirómetro.

Os olhos do homem brilharam. Parece que lhe disse.

- Queres ir à feira popular comer algodão doce e andar no carrossel? O Elias pode vir connosco....

Porque é que tenho um espirómetro?

Porque nos meus tempos mais negros tinha de medir a minha capacidade respiratória 3 vezes ao dia. E se estivesse abaixo do esperado tinha de me medicar mais do que o normal.

- Não fiques assim tão sorridente. Tenho o espirómetro em Carcavelos. Amanhã passo por lá...e logo te digo.

O homem pegou nas chaves do carro e disse:

- Fica com a Alice eu vou lá buscar. Onde é que está?

E é assim, este homem...

 

Bem me esforcei. A soprar como gente grande. Mas os resultados foram muito pouco abonatórios para a minha pessoa...uma vergonha diria eu...

O que é que o homem fez..

Começou a implicar com a minha medicação SOS.

A minha bombinha cinzentinha que me acompanha desde que sou pequena. Está desatualizado. Diz ele...

....para mim, é maravilhosa.

Pegou nas chaves do carro.

- Fica com a Alice. Vou à farmácia...

Chegou com um saquinho de papel com uma bombinha branca. E uns comprimidos...

Obrigou-me a tomar um comprimido.

- Não posso comer gengibre ou curcuma...que são anti-inflamatórios??

- Não.

- Canela??

- Comprimido.

- Olha lá! Não há o perigo de acordar de manhã a fazer xixi pelo nariz?

- Comprimido...

 

O homem é pouco dado a mezinhas caseiras.

Comprimido.

Bombinha.

Passadas 3 horas, outra vez bombinha.

Quando me deitei. Respirava tanto oxigénio. E estava com tanta energia...podia ter ido escalar o Evereste.

O Pedro não deixou.

 

Implicou com a maneira como eu durmo.

Diz que comprimo os pulmões de tal maneira que um dia chateiam-se e vão pedir para sair do meu corpo.

Tive uma noite. Linda. E maravilhosa.

Sempre que eu tentava deitar-me da maneira que gosto. O homem pegava em mim e deitava-me como ele acha correto.

De manhã o homem lá foi com Deus.

Antes disso.

Obrigou-me a tomar o comprimido.

A usar a bombinha.

Auscultou tudo o que mexia. E o que ainda estava a acordar...

E tive de usar outra vez o espirómetro.

Melhor do que ontem. Mas aquém....segundo ele.

E quando eu pensava. Que ia ver-me livre.....de toda esta parafernália asmática.

Eis que...

...aparece em casa dos meus pais, à hora do almoço. Sabia que eu ia lá estar.

Acompanhado de um aparelho azul.

- Não tinhas em verde?

- Não. Isto serve para fazeres ginástica respiratória...e reeducares os brônquios.

 

É tão glamouroso!

O aparelho tem um tubo.

Uma pessoa sopra. Com toda a força que tem. E...

....tem de manter uma bolinha (que está dentro do aparelho) no ar o maior tempo possível.

Ó céus! Experimentei....

- Onde é que está a bolinha? Onde é que está a bolinha??

- Já caiu. Se falares comigo ela cai. Mas antes de começares a falar, já tinha caído...

- Quanto tempo fiz?

- Três segundos...

- Não é bom...parece-me.

- A meta é um minuto. Vais experimentar uma vez a cada hora. Sem sofrimento. E vais ver que vais conseguir aos poucos. Melhorar...

 

O Pedro voltou para o hospital.

E...

...toda a gente que estava lá em casa a almoçar quis experimentar. As crianças divertem-se.

(O bocal tem substitutos e pode-se ir lavando)

 

O meu pai. A minha mãe. Os meus tios. E o meu sobrinho Pedro.

Todos a tentar equilibrar a bolinha no ar...o maior tempo possível. Eu a olhar e achar que somos uns tristes....

Os meus tios e os meus pais comentaram que gostavam de adquirir um aparelho destes para treinar. Eu a ouvir e achar que somos uns tristes....

Com mil Slimani´s se eu não fosse a cara da minha avó Maria. Diria que tinha sido trocada na maternidade....

 

O meu sobrinho Pedro. Tem fôlego para dar e vender.

Eu sou uma triste....3 segundos foi a minha melhor marca...

...e sinto-me fresquinha que nem uma alface...zero cansaço. Zero falta de ar.

 

Vou fazer o tratamento durante uma semana.

E para a semana vou ser avaliada...pelo Pedro.

Estou mesmo a ver que vou chumbar outra vez....

E o homem nem sabe onde se meteu...

....se eu sou insuportavelmente hiperactiva com uma capacidade respiratória de uma múmia...

....imaginem o que posso fazer com uma capacidade respiratória normal.

O cão está de malas feitas. Não vai aguentar!

Ninguém! Vai aguentar...nem vocês, quiosquianos.

Nem vocês....

 

little by little. Pouco a pouco...

08.05.18, Joana Marques

7 (1).jpg

A Liliana tem dois filhos.

Um rapaz com 5 anos. E uma menina com 2 anos.

É professora de Matemática.

Tem uma grande paixão por origami. Por essa razão criou na sua escola um clube ligado ao origami.

Mais recentemente descobriu o crochet.

E nunca mais o largou.

Como eu a entendo.Também estou viciada!

 

Ainda grávida da filha começou a crochetar uma coelhinha em crochet.

Para o filho mais velho oferecer à irmã. Achei muito gira esta ideia!

Para ele, Liliana crochetou uma carrinha pão de forma.

8.jpg

Demorou muito tempo a concluir os dois trabalhos mas valeu a pena.

E a partir daí. Estavam lançados os dados.

Entusiasmou-se.

Crochetou sapatinhos para a filha. A condizer com os vestidos.

1 (25).jpg

Crochetou mais bonecos.

A partir daqui os seus tempos livres eram passados a desenvolver a técnica. A aprender.

5 (5).jpg

Seguiu-se a criação da sua página de facebook.

Little by little. Foi o nome que escolheu...

Pouco a pouco...porque o caminho faz-se caminhando...e devagar se vai ao longe.

No primeiro dia de facebook choveram gostos e teve logo duas encomendas.

Achou que podia investir um pouco mais.....

Seguiu-se o instagram.

6 (3).jpg

Para além de mãe. Casada. Ter uma profissão exigente. E ser artesã.

Teve conhecimento através de uma amiga do projeto: "polvo de amor".

Este projeto nasceu na Dinamarca e propagou-se pelo mundo todo.

São polvinhos feitos em crochet que fazem companhia a bebés prematuros.

Liliana achou que podia criar na escola dela um clube para ensinar os alunos a fazer crochet e poderem participar neste projeto.

Parece-me que ninguém diz que não a esta mulher. E o clube foi criado.

Neste momento têm alunos de ambos os sexos a participar.

2 (17).jpg

Para o próximo ano.

Sonha ainda mais alto.

Quer alargar este projeto a toda comunidade escolar e participar num outro projeto de cariz humanitário, chamado: "Knot Forgotten".

 

Como uma vez professora. É sempre professora.

Em dezembro promoveu um workshop de crochet.

As participantes aprenderam a fazer um bonequinho em crochet para colocarem na árvore de Natal.

Quando me dizem que faço muita coisa. Aqui está a Liliana. Que ganha por goleada!
Fiquei fã do seu trabalho.

Foi muito difícil escolher as fotos para o post. Porque gosto de tudo.

Digam lá de vossa justiça...não acham tudo maravilhoso??

4 (8).jpg

Quanto ao projeto "Knot Forgotten".

Não conhecia.

Fiquei cheia de vontade de participar também.

Tem como objetivo colocar nas mãos de crianças refugiadas ou crianças vitimas da guerra, brinquedos feitos em crochet.

Que ideia tão bonita!

Só tenho de aperfeiçoar mais a minha técnica....

...porque as crianças merecem o melhor de nós.

 

 Têm ou conhecem algum projeto. Querem vê-lo divulgado? enviem um email

para: joanatmarqueshr@sapo.pt

 

Esta divulgação é totalmente gratuita!!

Gosto de boas ideias e quero divulga-las!!

 

Não se esqueçam de acompanhar o nosso grupo  handmade life  no facebook!

E, já agora sigam, o instagram Quiosque handmade life.

Partilhem os vossos trabalhos: #quiosquehandmadelife

 

 Nesta rubrica do Quiosque:

conheçam. A Cutchi

conheçam. A Feltros Linhas e Cia

conheçam. A Marta e o seu projeto.

conheçam. Beijos de Algodão.

conheçam. A claudycostura.

Jasmim.

Arte D'Alma

B.Log

Conheçam a Conceição. E o seu espaço...

 

o dia em que conheci. O Elias..

08.05.18, Joana Marques

A luz ao fundo do túnel já é visível.

Em Carcavelos.

A minha casa já começa a parecer uma casa.

E eu já pus mãos à obra para transformar a casa num lar.

 

Tenho o meu quarto pronto. Prontinho.

O quarto da Alice. Pronto!

 

Todos os quartos.

E o escritório.

Tudo pronto.

Falta a cozinha. E as casas de banho de cima.

 

Comprei o andar. Planeei as obras. A casa. Sem saber que o Pedro iria fazer parte da equação.

E por isso tive de repensar um pouco os espaços.

Por exemplo: escritório.

Partilhamos? Ou nem por isso?

Conversámos e resolvemos partilhar. O escritório é grande. E por isso pode ter perfeitamente duas secretárias.

O Pedro quase não precisa dele. E eu tento não trabalhar quando ele está em casa.
Por isso, parece uma boa opção.

Se percebermos que afinal não resulta. Facilmente se transforma um quarto num escritório.

 

Todos os dias que vai a Lisboa. O Pedro, passa por casa dele. Enche uma caixa.

E trás a caixa.

Muitas vezes deixa-a em Carcavelos. Outras, vezes, quando já é tarde não.

Quando vamos a Carcavelos.

Levamos sempre. Uma caixa minha. E uma caixa dele.

Achamos, nós que em pequenas prestações a dor será menor....

 

Diz-me o Pedro.

- Não comeces a arrumar sozinha. Aproveitamos as minhas folgas e tiramos uma parte do dia para fazer isso os dois.

Só que.

Eu sou.

Joana, todo o terreno.

Acho um desperdício, passar as folgas do Pedro a arrumar e a limpar coisas.

E vai daí...

...decidi. Pôr mãos à obra.

Todos os dias, passo três horas a arrumar coisas.

O Pedro sai de casa com a Alice às 7h da manhã.

Começo a trabalhar a essa hora.

Pelo 12h30. Como uma sopa.

Vou para Carcavelos.

Arrumo. Organizo. Ponho de parte algumas coisas do Pedro.

Não sei muito bem o que fazer com elas. E ficam para ele depois, decidir...

 

Hoje. Estava eu. Empenhada na minha tarefa.

A caixa que veio da casa do Pedro dizia: Escritório.

Abri.

Olhei.

Comecei a tirar as coisas cá para fora.

Pastas. Dossiês. Arrumei na estante.

Livros. Arrumei numa outra parte da estante.

E depois. De dentro da caixa. Uma outra caixa. Esverdeada. E comprida.

Abri a caixa.

Com mil Slimani's.

Minha gente. Ó senhores, do Quiosque.

Eu sou asmática.

Sem asma desde....já nem sei.

Pois, apanhei um tal susto. Que a minha asma voltou.

Tive de ir para a janela. Respirar devagarinho.

Depois. Devagarinho. Porque não conseguia andar depressa. Procurei a minha bomba salva vidas.

Várias fora da validade. Lá encontrei uma que me salvou.

E aqui estou a contar a história.

 

 

Enviei ao Pedro uma mensagem.

- O que é que está na caixa verde?

- Qual caixa verde?

É incrível como os homens nunca percebem nada num momento de aflição...

 

- Dentro da caixa que diz escritório, está uma caixa verde...

- Não estou a ver, Joana. Juro que não estou a ver. Deixa isso. Sexta-feira já devo conseguir passar por aí e começar a arrumar...

 

-Visualiza o teu escritório de Lisboa. Pensa nas prateleiras. Nas gavetas. Nos armários. Pensa o que tinhas em cada um deles. Tinhas uma caixa verde...comprida. Certo?

- Ah! Já sei....

 

Lembrou-se.

O homem lembrou-se....atirem foguetes, se faz favor....

 

- O que é que tem, Joana?

-Diz me tu. O que é que tem a caixa??

 

- Ah! Ah! Ah! Boa! Já conheceste o Elias?

- Boa?? Pedro, tens mais algum esqueleto no armário...ou este é o teu pior segredo??

 

- É o único esqueleto que tenho. Juro! Faz-te confusão, é?

-É.

 

- A sério? Não tem mal nenhum, Joana. São só ossos.

- E uma caveira...Não sei se consigo estar na mesma divisão que ele ou ela. Ai que horror...tenho um esqueleto no escritório...socorro!

 

- Não tem mal nenhum, Joana, a sério.... Leva a caixa para Cascais. Quando chegar abrimos a caixa juntos, vais ver que esse medo passa logo..

- Ah! Ah! Ah! Que programa tão romântico....

 

Pedi ao senhor que está a arranjar a cozinha se fazia o favor de levar a caixa para a arrecadação da casa nova.

É a única coisa que lá está.

Ali, no chão. Jaz. Elias.

 

Ao que parece.

O Pedro.

Às vezes, na preparação de certas cirurgias.

Pega no Elias e como se fosse um puzzle une os ossos uns aos outros.

E estuda as diferentes possibilidades.

E assim. Nasceu. A necessidade....do Pedro ter.

Um escritório só para ele.

Onde eu nunca vou entrar.

Nunca. Nunca. Nunca.

 

 

pequeno almoço. Fácil. Rápido. E bom...

07.05.18, Joana Marques

O pequeno almoço não deve ser uma refeição complicada.

Por pensar assim, passei uma grande parte da minha vida.

Mais de 20 anos a comer muito mal.

Não só ao pequeno almoço mas sobretudo ao pequeno almoço.

 

Neste momento já sou mais criteriosa. E cereais de compra, por exemplo estão completamente fora de questão.

Até a granola que eu adorava. E que só comprava quando o rei fazia anos porque achava cara, deixei de comprar porque...lendo bem o rótulo. Está cheia de açúcar. Fiquei em choque quando percebi.

 

Um dos pequenos almoços que faço muita vez é este pão.

Podem preparar na hora, fica mais saboroso. Mas se for feito no dia antes, ninguém morre.

 

Pão. Fácil. Rápido. E bom.

- Um ovo.

- 4 colheres de farinha (o da foto foi feito com uma colher de cada: Amêndoa, Sarraceno, Polvilho Doce, Aveia)

Podem trocar as farinhas!

- Um fio de azeite.

- Uma colher de café de fermento.

Sal. (Não usei.)

Misturam tudo.

Untam uma frigideira.

Quando estiver bem quente colocam a massa.

Tapam a frigideira e colocam em lume brando. Para não queimar.

Quando estiver cozido. Voltam o pãozinho. E deixam cozinhar.

Em menos de nada têm um pão muito, muito bom.

 

O da foto está barrado com manteiga de caju.

Comecei a fazer há pouco tempo. E tenho adorado o resultado.

É tão bom! Tão bom! Dá vontade de comer à colher.

E também é fácil de fazer.

 

Manteiga de caju

Num tabuleiro de forno ponham a quantidade que quiserem de caju.

Tostar, cerca de 6 minutos.

Entre esses 6 minutos, convém virar os cajús.

Deixar arrefecer.

Colocar no liquidificador.

Parem para mexer o preparado.

Triturar.

Mexer.

Triturar.

Mexer.

Já está.

É surrealmente bom!

Podem dividir em dois.

E numa das partes acrescentarem uma ou duas colheres de cacau. Maravilhoso!

 

Barrei o pãozinho com a manteiga de caju. Já o tenho barrado com manteiga de amêndoa. Ou comido com queijo.

Podem usar este pão (fazem dois) para servir com um hambúrguer...por exemplo.

Ou fazer uma sandes de atum. E dá para um almoço fora ou dentro de casa.

Coloquei por cima sementes de papoila. Sésamo. E girassol. É à escolha...

Normalmente sirvo com frutos vermelhos.

7 (3).jpg

Sim.

Ando a fazer pequenos almoços em forma de coração.

É a vida!

 

Mais receitas fáceis para os pequenos almoços:

Granola caseira

Bolo da caneca de chocolate

Creme Budwig

Overnight

Chocolate Quente

Pão no microondas

Pão sem Glúten

Smoothie

Manteiga de Amêndoa

Panquecas de banana

Leite de coco

 

Tanta alternativa!

Não há desculpas para não comer saudável e bom....

 

 

Da Alice para a Joana

06.05.18, Joana Marques

diadamãe (1).png

 

Esta publicação foi escrita com ajuda do meu pai.

O meu pai teve de pedir ajuda ao meu padrinho porque não percebe nada de computadores muito menos de blogs.

A minha mãe não sabe de nada e quando descobrir é natural que queira matar o meu pai.

Mamã, respira e conta até 100!

Mamã, não o faças! Não mates o pai!

Ele não tem culpa que não encerres o computador e o deixes ao Deus dará aqui por casa.

 

Alice

 

 

 

 

Aos leitores do Quiosque, as minhas desculpas.

Pedro

nas bocas do mundo...#27

04.05.18, Joana Marques

É um "nas bocas do mundo especial".

Para além de ter saído do seu espaço.

O Quiosque escreveu num outro espaço.

Começa assim....

 

A vida não é como os computadores.

Devia ser. Não, tal e qual. Mas um bocadinho.

Devia permitir um ensaio. Um regresso, ao minuto anterior.

Dava jeito. Às vezes, dava jeito. Poder retirar aquela palavra. Daquela conversa.

Voltar atrás. E poder não enviar aquela mensagem.

Ou simplesmente. Poder voltar atrás. Numa ou noutra atitude.

Tive consciência disto. Quando tinha 13 anos.

 

Só têm de lá ir espreitar.

Para ler o resto.

Voltem. Para dizer se gostaram...

Espreitem. Espreitem. O blog da Chic'Ana.

os meus feijões mágicos

03.05.18, Joana Marques

A minha avó Maria contava-me histórias.

Desde que me lembro.

À noite. Na cozinha.

Depois do jantar.

Não havia televisão. Para ninguém.

Ficávamos a conversar todos.

Nunca me cansava de as ouvir.

E pedia todas as noites. Para ela me contar. Uma e outra vez.

A minha avó. Nunca contava as histórias como elas eram.

Quem conta um conto acrescenta um ponto.

E a minha avó acrescentava. Mudava. E recontava a história.

Provavelmente por não saber mesmo a história como deve ser.

E por isso recriava-a como se lembrava...

 

Era uma vez um menino chamado João. 

Vivia no campo com a mãe.

Tinham como único sustento o que tiravam da terra e uma vaca.

Um dia a mãe ficou doente.

E não conseguia trabalhar.

Não tinham dinheiro para comprar medicamentos.

A mãe pediu ao João para ir à feira e vender a vaca.

E o João assim fez.

No caminho encontrou um velhote. Que lhe propôs o negócio seguinte.

Dás-me a vaca. E em troca dou-te estes feijões mágicos.

O João aceitou. Melhor que dinheiro são feijões mágicos.

Toda a gente sabe disso!

Quando o João chegou a casa. Contou à mãe.

Mostrou orgulhoso os feijões. Mágicos.

A mãe. Não queria acreditar.

Não tinham vaca. Não tinham dinheiro para comprar os medicamentos.

Tinham perdido tudo.

Em desespero e zangada. Atirou com os feijões janela fora.

No dia seguinte. João acordou. E os feijões tinham germinado.

O feijoeiro chegava ao infinito.

João subiu feijoeiro acima e só parou no céu.

E o céu. É o céu.

Só tem coisas boas.

 

- Ah! A mãe diz que o tio Luís está no céu..ele também tinha feijões mágicos?

- Não, Joana. O tio Luís estava muito velhinho e morreu.

- Mas morrer é mau...temos de morrer para ter feijões mágicos.

- Não. Claro que não. Só tens de os encontrar. E tomar conta deles...

- A avó já os encontrou??

- Já.

- Já!? Onde é que eles estavam?

- Alguns com a minha mãe, outros com o meu pai. Com o teu avô. Com o teu pai e com os teus tios. Com vocês.

- Eu nunca te dei nenhum feijão mágico.

- Deste, Joana, deste. Tu é que não percebeste. Os feijões mágicos andam disfarçados. Nós temos de estar atentos. Não os perder. E para isso temos de cuidar muito bem deles.

- E não me podes devolver os feijões mágicos que te dei?

- A seu tempo vais encontrar mais. Não te preocupes com isso.

 

Fiquei destroçada. Eu já tinha tido feijões mágicos. E sem querer dei-os.

Nesse dia. A conversa sobre os feijões mágicos ficou por ali.

Mas no dia seguinte acordei....

...e virei a casa do avesso.

Gaveta por gaveta.

Armário por armário.

Quarto por quarto.

Cozinha.

Casas de banho.

Palheiro.

Capoeira das galinhas.

Barracão das ferramentas.

Forno.

Casinha do gás.

E sabem que mais. Nada. De nada.

Onde é que raio andavam os feijões mágicos.

Ali não estavam. Fiquei com a certeza que ali não estavam.

Deviam estar no banco. Pensei eu.

 

E a vida seguiu o seu rumo.....

 

30 anos depois.

Ontem.

O Pedro deixou a Alice em casa dos meus pais pelas 7h.

Eu. Aproveitei e comecei a trabalhar logo que saíram de casa.

Almocei pelas 13h.

E depois de almoço achei que podia ficar durante a tarde com a Alice.

Tinha de responder a uns emails de trabalho mas podia aproveitar a hora da sesta.

Trouxe a miúda para casa.

A Alice reencontrou o Vasco. O Vasco reencontrou a Alice.

Caos instalado.

Mais. A Alice reencontrou os brinquedos que recebeu pelos anos. E que adora.

Um carrinho de bonecas. E uma cozinha.

E com tamanha diversão. A passar-lhe pelos olhos. A Alice dormiu tanto como eu.....

Estava a cair de sono.

Estava completamente imprópria. Mas debatia-se contra o sono.

Não conseguia brincar de tão cansada. Mas não queria dormir.

Estava resmungona. Chorosa. Ranhosa. E intragável.

- Não durmo. Não durmo. E não durmo.

Como não dormiu. Não comeu.

É o chamado círculo vicioso.

Ou efeito dominó.

Basta falhar aqui qualquer coisa. Tudo se desmorona.

Quando o Pedro chegou.

Não tinha respondido aos emails

Não tinha passeado o Vasco.

Não tinha feito nada de nada.

É a vida. Muitos dias estão para vir assim...e já se sabe. É um erro tremendo, morrer de véspera.

 

O Pedro foi passear o Vasco.

Eu fiquei com a Alice.

E quando voltou. Disse-me para tratar dos emails que ele ficava com os dois.

 

Custa-me tanto trabalhar quando estamos todos em casa.

Tão triste. Não poder estar com eles.

Lá fui. A arrastar-me até ao escritório.

Tinha 33 emails de trabalho para responder.

Decidi responder a 17 e depois dar um prémio a mim própria.

E o prémio era:

- poder sair do escritório. Ir espreitar os 3. E depois voltar e responder aos restantes.

Fiquei mais animada. Depois deste negócio que fiz comigo própria.

Respondi a um. Dois. Três. ......Dezassete.

 

E lá fui. Devagarinho.

Sem fazer barulho.

Lá fui eu espreitar.

E vi o Pedro. Com a Alice ao colo.

Segurava-a com o braço direito.

Estava com um livro. A ler-lhe uma história.

A Alice estava atenta.

Mas ia acrescentando sempre alguma coisa à história.

Provavelmente com razão, nunca o saberemos.

Tinha um bocado de banana na mão. Que ia comendo devagar. As mãos cheias de banana.

Toda ela era banana.

Cabelo.

Pernas.

Cara.

O próprio Pedro. Tinha banana no cabelo. E no queixo. Porque a Alice tem o hábito de nos querer fazer festinhas.

Do lado esquerdo do Pedro.

Estava o Vasco.

Ora olhava para o Pedro. Ora olhava para a Alice.

Depois percebi. Que olhava era para a banana. Segui-a com os olhos. Um cão não é de ferro.

E quando não há frango assado. Banana pode ser uma alternativa.

 

Os três na sala.

E eu. Escondida.

A olhar. Para eles.

 

 

Ali estavam eles.

Finalmente....

.......os meus feijões mágicos.

 

 

Pedro. Para onde é que vamos?

02.05.18, Joana Marques

Desde o início dos tempos que não me consigo encaixar no dito "normal".

Eu sei que a palavra "normal" pode ser muito vaga. Mas existem padrões.

Normas.

Comportamentos que consideramos mais habituais do que outros.

Por muito que se evolua. Existem comportamentos que atribuímos mais às mulheres.

E outros, mais aos homens.

Papeis diferentes. Também. Até porque somos diferentes. Alguns mais do que outros.

Ao longo do tempo já evoluímos. Mas eu ainda não me encaixo....

 

Uma colega dizia-me uma vez:

- Eu não sou loura mas o meu namorado gosta que eu seja. E por isso sou.

Fazia-me uma confusão dos diabos.

Alguma vez, na vida, ia pintar o cabelo porque o meu namorado gostava? Não.

Nessa altura, estava com o meu primeiro namorado. E olhava para ele, com uma certa pena...

- Pobre de ti. Namorado da Joana. Se fosses namorado da Vera...eras um sortudo.

 

Uma amiga minha dizia-me, uma vez que fui a casa dela.

- Não temos luz na cozinha. O Afonso ainda não mudou a lâmpada.

- Queres que mude a lâmpada?

- Não! Eu também sei mudar mas é bom que ele pense que é útil aqui por casa.

- ?

- Os homens têm um certo instinto protetor, quando percebem que não precisas deles para nada, deixam-te e vão procurar outra que precise deles e lhes dê valor.

Caneco. Com mil Slimanis. Nunca tinha percebido tal coisa.

Foi como uma facada nas costas.

Ainda de manhã tinha estado, com a ajuda da minha pistola de cola quente, a colar ao rodapé, o fio que o homem da TV cabo deixou solto. Onde? Na casa do meu namorado!

Lindo, Joana!

Vais acabar sozinha que é uma beleza.

 

Uma outra amiga.

Casou com um empresário. Rico.

E um dia saiu-se com uma que me deixou de boca aberta:

- Já lhe disse. Daqui a um ano quero estar a morar numa casa com piscina.

Eu fiquei estupefacta e pensei.

Se eu quiser uma casa com piscina.

Não preciso casar. Que disparate, casar.

Poupo dinheiro e compro uma casa com piscina.

Ao longo dos anos, percebi que a disparatada era eu.

Poupo dinheiro? E um dia vou ter uma casa com piscina?

Sim! Daqui a 4 reencarnações....isso e um unicórnio...

Pronto! Mas não me via a casar com alguém e exigir uma casa com piscina. Nem a brincar. Quanto mais a sério.

 

Outra. De alguém.

- O meu namorado deu-me uma pulseira linda! Custou $$$$.

Oh! Não! Nunca em tempo algum. Não era capaz. Ir ver quanto custa a prenda. Do género, ele gosta tanto de mim que me deu uma prenda que custa $$$$. Também não dá para mim.

 

Estas situações passaram-se com pessoas que conheço.

Nenhuma delas é má pessoa.

Mas eu não sou assim.

Eu. Joana. Não consigo ser assim.

Não consigo fazer-me passar por mocinha indefesa. Porque não sou.

Não consigo fazer algo que não goste só para agradar.

Não consigo fingir que sou lerda para aumentar o ego da cara metade.

Não cedo. Se achar que tenho razão.

Não ligo nenhuma a presentes caros. Nem quero.

 

A primeira vez que o Pedro esteve cá em casa.

Disse-lhe. O que digo a toda a gente que vem cá.

- Cuidado com o cão. O cão gosta muito de telemóveis. E de todos os aparelhos similares.

E contei-lhe a história do meu Ipad. Falecido. Paz à sua alma.

 

Era uma vez um Ipad lindo e maravilhoso.

Que eu comprei.

Um bocado por curiosidade.

Custou-me os olhos da cara.

Mas eu dei de barato porque estava enamorada pelo bichinho.

Ainda não tinham passado dois dias, quando tocaram à campainha e eu levantei-me do sofá.

Deixei o bichinho.

E fui abrir a porta.

E o lobo mau. Abriu a boca.

E comeu o Ipad.

Não foi o lobo mau. Foi o Vasco.

Quando retornei à sala. O meu Ipad tinha morrido de morte matada. Mordida. E mastigada.

 

O Pedro achou graça à história.

E disse-me que não tinha nenhum Ipad. Tinha um telemóvel. E que ia ter cuidado.

Até agora ainda não aconteceu nada.

Uma questão de dias, digo eu.

O lobo mau. Anda a rondar. Meus amigos!

Anda a rondar.

Um dia destes.....

 

Ontem.

O Pedro chegou. Do hospital.

A Alice fez uma festa.

O Vasco fez uma festa.

E eu fiz uma festa.

O Pedro trazia na mão um saquinho.

E disse-me que era para mim.

Quando abri. Era um Ipad.

- Parece-me que o tens em falta.

 

Quase morri.

E ele também. Provavelmente, porque não estava à espera da minha reação.

Tive de o sentar. E dizer-lhe.

- Por favor. Não me dês presentes caros.

O homem. Fez uma expressão. Do mais aterrado que há.

Lembram-se deste dia?

Foi pior.

 

Disse-lhe que para mim.

O mais importante é ele. Ele é o melhor presente. Por isso se chama estar presente.

A atenção que ele dá à Alice. E o esforço que fez até ela o aceitar.

A forma como trata o Vasco.

E tudo o que ele fez para nós darmos certo.

Convenhamos, não é qualquer homem que de um dia para o outro ganha uma família completa com cão e tudo.

Sem tentar fugir a 7 pés.

 

Perguntei-lhe se não podia devolver o Ipad.

Disse-me que sim. Mas sempre com um olhar de:

-Não estou a perceber o que se passa aqui. Mas afinal que pessoa és tu, Joana??

Ainda lhe perguntei.

- E tu, não precisas do Ipad?

- Não. Ainda não me habituei a ler relatórios por aí. Prefiro em papel. Sou à moda antiga. Para mim não tem qualquer utilidade, já para ti, achei que sim.

 

Até que eu tive uma ideia.

- Devolve o Ipad. Guardamos o dinheiro até às próximas férias e dá para uma viagem ou parte dela. O que achas? Assim, usufruímos todos. E eu não me sinto tão mal por andares a gastar tanto dinheiro comigo. Escolhe o destino. Fazemos as malas e vamos...

 

Concordou.

Combinámos. 

Presentes mais caros. Só se for para nós enquanto família.

De resto.

Só lembranças. Que tenham significado.

E lembranças não quero dizer que lhe vou dar nos anos um coelho feito de peúgas velhas. Nada disso.

Um rim, talvez....

 

Pedi-lhe desculpa. Por ser assim. Mas não consigo deixar de ser sincera...

Disse-lhe que...

....podia ter fingido.

Ficado com o Ipad. Mas era melhor ele ter noção. Do que tem à frente.

E, se quiser desistir ainda não estamos casados.

- Pedro foge, enquanto conseguires....

 

Por muitos anos que tenham passado.

Desde aquele primeiro namorado.

De quem tive pena. Não deixo de pensar?

- Merece tanto ser feliz. Será que serei eu a pessoa certa? Ou alguém, mais "normal" seria melhor, para ele?

 

Ele fez o que faz muitas vezes.

Riu-se.

Abraçou-me.

E disse-me.

- Por onde é que tens andado? Porque é que só te encontrei agora?

Sempre querido. Sempre gentil.

 

 Quando a esmola é grande....

.....estou desconfiada. Que este homem pertence a uma rede de tráfico. E......

............só está comigo pelos meus espetaculares rins.

 

Já agora, Pedro......

......para onde é que vamos??

quem parte e reparte. Fica com a melhor parte!

01.05.18, Joana Marques

Parte: 1

O Pedro foi trabalhar hoje.

Começava às 8 da manhã mas saiu de casa às 6h30 porque queria adiantar trabalho no hospital.

Fiquei com a Alice e com o Vasco.

Aproveitei que a Alice ainda dormia e o Vasco não me convidou para passear. Para começar a adiantar trabalho.

Antes de começar. 20 minutos de Yoga. Começar assim o dia, é sempre melhor.

Mudei a roupa da cama.

Fiz uma máquina de roupa. E logo a seguir mais duas. Estendi a roupa.

Limpei a casa. De forma silenciosa. Nesta fase não usei aspirador. Deixei para depois.

Comecei a cozinhar.

A Alice acordou. Tudo o que estava a fazer ficou de parte.

Pediu para ir para o chão. E andou à procura do Pedro na casa inteira.

Mudei-lhe a fralda.

Dei-lhe o pequeno almoço.

O meu pai chegou. Tinha combinado com ele. E levou-a lá para casa.

O Vasco também quis ir.

Mudei a roupa da cama dela. E limpei-lhe o quarto.

Aspirei a casa. E retornei à cozinha.

Fiz canja.

Fiz sopa para mim e para o Pedro. Deve dar até sábado.

Fiz sopas para a Alice.

Fiz pão. Para toda a semana.

E deixei prontas. 5 refeições para duas pessoas.

O Pedro almoça no hospital a maioria das vezes. Por isso, fiz sobretudo jantares.

Fiz uma tarte de maçã. Para termos alguma coisa diferente.

Fui às compras. E arrumei tudo.

 

Parte: 2

Comecei a limpar e a arrumar a casa de Carcavelos.

Uma parte da roupa de inverno já está lavada. E pronta a ser arrumada. Em Carcavelos.

A segunda parte do meu dia foi exatamente ir a Carcavelos começar a organizar tudo.

O Pedro também já começou a fazer a mudança.

Vai dar uma trabalheira descomunal. Mas vai valer a pena.

Hoje o dia foi dedicado a limpar como deve ser o meu quarto.

Comecei a fazer a mudança do meu quarto antigo que é no andar de cima, cá para baixo.

Dei por encerrado o meu dia em Carcavelos.

Passei pelo Estoril para ir buscar a Alice.

A Alice adormeceu. E eu aproveitei para passar a ferro e arrumar a roupa que lavei de manhã.

 

Parte:3

 

A melhor parte do dia. Ainda está para acontecer.

Nas duas primeiras partes do dia. Fiz muita coisa. E adiantei uma boa parte da semana.

O Pedro está quase a chegar.

E por isso. Posso dar-me ao luxo de ficar só a contemplar. Os 3.

E a saborear a tarte de maçã.

4 (6) - Cópia - Cópia.JPG

Quem parte e reparte.

Fica com a melhor parte!

Daqui a pouco vamos estar todos juntos.

É essa a melhor parte!

 

 

Pág. 2/2