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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Quem é?

somos nós...

30.10.19, Joana Marques

Os meus avós paternos viviam entre Lisboa e o Alentejo.

Com o passar dos anos adoptaram o Alentejo como casa. E era raro saírem de lá.

 

Viviam no monte. 

À entrada do monte estava um portão grande. Do lado direito do portão estava o Santo António.

A minha avó não era muito dada à religião mas tinha o Santo António em muito boa conta.

Não era um Santo António comum. Tinha um segredo.

Atrás dele. Havia um buraco. E dentro desse buraco estavam as chaves do monte. E da casa.

Nunca ninguém ficava na rua.

Bons tempos.

Aqueles. 

Em que deixávamos as chaves ao Deus dará.

Só mesmo a protecção de Santo António para explicar o nunca termos sido assaltados.

- Joana! Onde é que estão as chaves do monte?

Perguntava-me o meu pai. Naquele tempo nada era escondido das criancinhas.

- Estão no rabo do Santo António.

Esta descrição. Pegou. E ainda hoje gozam com a minha pessoa....

 

Um dia ligaram aos meus pais e disseram com grande entusiasmo:

- Já temos campainha.

E quando voltámos ao monte. O meu pai já não teve de pôr as mãos nas entranhas do Santo António para tirar as chaves. Tocámos à campainha.

Ouvi a voz da minha avó.

- Quem é?!

Sabia que éramos nós. Estava à nossa espera. 

Um "quem é". 

Carinhoso.

Melódico. Ternurento.

Meio falado. Meio cantado.

Um "quem é" como quem quer dizer:

- Que bom que já chegaram...

Respondi alto e feliz da vida. 

- Somos nós.

O meu irmão fartou-se de gozar comigo.

- Somos nós? Tens de dizer o teu nome...a avó sabe lá quem é o somos nós!

- A avó conhece a voz..

O meu irmão revirou os olhos como quem diz...

- És tão parva...não tenho paciência nenhuma.

Eu teimosa que nem uma mula teimosa não descansei até que a minha avó confirmasse que não precisava nada de nomes. O somos nós era mais do que suficiente...

 

Hoje.

O Pedro está de folga.

Fomos almoçar a casa dos meus pais.

Tocámos à campainha. Ouvi a voz do meu pai.

- Quem é?

Um "quem é". 

Carinhoso.

Melódico. Ternurento.

Meio falado. Meio cantado.

Um "quem é" como quem quer dizer:

- Que bom que já chegaram...

 

O Pedro respondeu:

- Somos nós!

E a Alice disse, aos saltinhos.

- O avôoooo....parece que está a cantar...

 

São estes pequenos sinais.

Que a vida me dá.

Que me faz ter a certeza que fiz as escolhas certas.

 

O Santo António ainda lá está.

No mesmo lugar. Do lado direito do portão.

Dentro das entranhas. Está uma foto da minha familia.

São eles a chave da minha vida.

Do meu coração.

 

Este Quiosque tem tido as portas fechadas.

Falta de tempo. Sobretudo falta de tempo.

Histórias e historietas não faltam.

Novidades também não.

Falta tempo. E mais tempo.

Para não fechar totalmente, publico um texto nos dias 30.

Hoje é dia 30!

Agradeço a quem tem passado por aqui.

A quem me enviou mensagens a perguntar se estamos bem.

Agradeço. Agradeço. E volto a agradecer.

Também vocês. Estão no meu coração.