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Quiosque da Joana

09.05.18

3 segundos....

Joana Marques

Em 1980. A minha mãe. Ficou grávida pela terceira vez.

Pensava ela que já sabia o que era estar grávida.

Pensava ela que dominava o assunto parto. Sem anestesia. A sangue frio...

Pensava ela que criar filhos dava trabalho mas era maravilhoso.

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

 

Ainda sem a confirmação de estar grávida. A minha mãe quase não saía de casa.

Tal era o mau estar.

Achava que podia estar grávida mas tal era o nível de enjoanço que um dia ponderou mesmo, estar doente. À séria.

Tumor. Ou algo da família. Nos momentos mais otimistas.

Tumor com metástases. Nos momentos piores.

Confirmou-se. Estava grávida.

Esta situação devia ser um sinal do que estava para chegar. Mas a minha pobre mãe só dizia...

- Espero que passe depressa. Não vejo a hora que nasça....

 

Pois!

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

 

Um dia foi ao médico. E estava com a tensão arterial nos píncaros.

- Pré-eclampsia. Tem de nascer o mais depressa possível...

Esta situação devia ser um sinal do que estava para chegar. Mas a minha pobre mãe só dizia...

-Provoque o parto. Não vejo a hora de voltar para casa e estarmos os cinco.

 

Pois!

Certezas. Levam frequentemente a enganos.

E a arrependimentos.

E eu nasci.

Antes do tempo. Minúscula.

Só não estive na incubadora porque o médico achou que eu era viva demais para precisar.

Olhos grandes sempre abertos. E sempre acordada.

 

Saímos do hospital 5 dias depois.

E, eu sempre vivinha da Silva. Com pouca vontade de dormir. E muito ativa.

A minha mãe com uma filha de 10 anos e um filho de 5. Nunca tal tinha visto.

Mas...

....o universo é sábio.

Quando percebeu que tinha feito asneira da grossa comigo. Atirou cá para baixo uma asma que me atingiu como um raio. E logo em bebé. Começou a manifestar-se.

Os médicos nunca souberam explicar muito bem.

Tinha asma. E pronto.

Várias vezes em miúda fui parar ao hospital. Por causa das crises.

Foi a forma que o universo teve de me parar.

E dos meus pais sossegarem...5 minutos.

Depois de uma crise passada. O corpo pedia algum descanso. E dormia como um anjo.

Com o passar dos anos, a asma não acalmou. Pelo contrário.

Se em miúda tinha crises esporádicas.

A partir dos 20, a coisa ficou feia. Agora percebo porquê.

Trabalhava desde os 17. Tinha saído de casa aos 17. E comecei a comer muito mais fora de casa.

Acalmou a partir do momento em que mudei os hábitos alimentares. Aqui.

No entanto, ainda tinha alguma rinite. E às vezes sentia algum cansaço.

Tudo isto mudou, quando no ano passado decidi mudar outra vez a minha alimentação.

O que é que eu como hoje em dia?

Neste momento tenho muito menos restrições do que tinha há um ano.

Vou responder pela negativa. Não como nada processado. E é só.

Este é o ponto de partida para a minha alimentação.

De resto tento variar muito. Tendo em conta os produtos da época.

 

A verdade é que ter asma atualmente. É um unicórnio.

É tão raro. Que me esqueço que sou asmática. Dizem os médicos que é uma condição para a vida toda.

Dizem...

....eu acho. Que tenho uma palavra a dizer...ou uma frase.

Digo, eu. Não à asma!

O que é que me faz ter asma?

 

- Se me constipar. Pode aparecer.

Só que é raro constipar-me. Desde a última mudança que fiz na alimentação nunca mais me constipei. Nem vestígios de constipação. Nem um pingo.

- Um cheiro muito forte.

Aqueles perfumes muito fortes que entram nariz dentro. Fazem os meus brônquios contorcerem-se e inflamarem. E gritarem....por ajuda. Da bombinha.

- Um susto. Daqueles à Elias.

Um susto bem apanhado. C'um caneco. Nem sabem o efeito que isso tem em mim.

Posso correr quilómetros. Andar ainda mais. Trabalhar o dia inteiro. Dançar. Assistir a um jogo do Sporting e gritar que nem uma tresloucada...nada. Nada acontece. Eu vejo a ponta do dedo mindinho do Elias e quase me sai o pulmão direito pela narina...

 

Ontem. Foi o que aconteceu.

Vi o Elias.

Quase me juntei na caixa com ele. O meu coração parou por segundos.

Afinal, não.

Foi só asma....

Bombinha. A vida é bela....

...siga.....

 

Quando troquei mensagens com o Pedro não lhe disse nada.

Nem tinha intenção de contar. Mas...

...trouxe a bombinha para Cascais. E ele viu...

Já lhe tinha dito que era asmática. Controlada, disse eu.

Pois, segundo ele não estou.

Toca de auscultar aqui e ali. Um ar sério...

..quase me passou, naquele momento a certidão de óbito.

Olhava para mim com um ar abismado.

E..

- Amanhã de manhã vais comigo ao hospital.

- ?

- Não tenho nenhum espirómetro aqui. Tenho de medir a tua capacidade respiratória. Pelo que auscultei não deve estar grande coisa.

- Eu sinto-me lindamente.

- Não podes. Esses brônquios estão mais do que inflamados.

- Peço desculpa por discordar mas .....não estão nada. E não preciso de ir ao hospital porque tenho um espirómetro.

Os olhos do homem brilharam. Parece que lhe disse.

- Queres ir à feira popular comer algodão doce e andar no carrossel? O Elias pode vir connosco....

Porque é que tenho um espirómetro?

Porque nos meus tempos mais negros tinha de medir a minha capacidade respiratória 3 vezes ao dia. E se estivesse abaixo do esperado tinha de me medicar mais do que o normal.

- Não fiques assim tão sorridente. Tenho o espirómetro em Carcavelos. Amanhã passo por lá...e logo te digo.

O homem pegou nas chaves do carro e disse:

- Fica com a Alice eu vou lá buscar. Onde é que está?

E é assim, este homem...

 

Bem me esforcei. A soprar como gente grande. Mas os resultados foram muito pouco abonatórios para a minha pessoa...uma vergonha diria eu...

O que é que o homem fez..

Começou a implicar com a minha medicação SOS.

A minha bombinha cinzentinha que me acompanha desde que sou pequena. Está desatualizado. Diz ele...

....para mim, é maravilhosa.

Pegou nas chaves do carro.

- Fica com a Alice. Vou à farmácia...

Chegou com um saquinho de papel com uma bombinha branca. E uns comprimidos...

Obrigou-me a tomar um comprimido.

- Não posso comer gengibre ou curcuma...que são anti-inflamatórios??

- Não.

- Canela??

- Comprimido.

- Olha lá! Não há o perigo de acordar de manhã a fazer xixi pelo nariz?

- Comprimido...

 

O homem é pouco dado a mezinhas caseiras.

Comprimido.

Bombinha.

Passadas 3 horas, outra vez bombinha.

Quando me deitei. Respirava tanto oxigénio. E estava com tanta energia...podia ter ido escalar o Evereste.

O Pedro não deixou.

 

Implicou com a maneira como eu durmo.

Diz que comprimo os pulmões de tal maneira que um dia chateiam-se e vão pedir para sair do meu corpo.

Tive uma noite. Linda. E maravilhosa.

Sempre que eu tentava deitar-me da maneira que gosto. O homem pegava em mim e deitava-me como ele acha correto.

De manhã o homem lá foi com Deus.

Antes disso.

Obrigou-me a tomar o comprimido.

A usar a bombinha.

Auscultou tudo o que mexia. E o que ainda estava a acordar...

E tive de usar outra vez o espirómetro.

Melhor do que ontem. Mas aquém....segundo ele.

E quando eu pensava. Que ia ver-me livre.....de toda esta parafernália asmática.

Eis que...

...aparece em casa dos meus pais, à hora do almoço. Sabia que eu ia lá estar.

Acompanhado de um aparelho azul.

- Não tinhas em verde?

- Não. Isto serve para fazeres ginástica respiratória...e reeducares os brônquios.

 

É tão glamouroso!

O aparelho tem um tubo.

Uma pessoa sopra. Com toda a força que tem. E...

....tem de manter uma bolinha (que está dentro do aparelho) no ar o maior tempo possível.

Ó céus! Experimentei....

- Onde é que está a bolinha? Onde é que está a bolinha??

- Já caiu. Se falares comigo ela cai. Mas antes de começares a falar, já tinha caído...

- Quanto tempo fiz?

- Três segundos...

- Não é bom...parece-me.

- A meta é um minuto. Vais experimentar uma vez a cada hora. Sem sofrimento. E vais ver que vais conseguir aos poucos. Melhorar...

 

O Pedro voltou para o hospital.

E...

...toda a gente que estava lá em casa a almoçar quis experimentar. As crianças divertem-se.

(O bocal tem substitutos e pode-se ir lavando)

 

O meu pai. A minha mãe. Os meus tios. E o meu sobrinho Pedro.

Todos a tentar equilibrar a bolinha no ar...o maior tempo possível. Eu a olhar e achar que somos uns tristes....

Os meus tios e os meus pais comentaram que gostavam de adquirir um aparelho destes para treinar. Eu a ouvir e achar que somos uns tristes....

Com mil Slimani´s se eu não fosse a cara da minha avó Maria. Diria que tinha sido trocada na maternidade....

 

O meu sobrinho Pedro. Tem fôlego para dar e vender.

Eu sou uma triste....3 segundos foi a minha melhor marca...

...e sinto-me fresquinha que nem uma alface...zero cansaço. Zero falta de ar.

 

Vou fazer o tratamento durante uma semana.

E para a semana vou ser avaliada...pelo Pedro.

Estou mesmo a ver que vou chumbar outra vez....

E o homem nem sabe onde se meteu...

....se eu sou insuportavelmente hiperactiva com uma capacidade respiratória de uma múmia...

....imaginem o que posso fazer com uma capacidade respiratória normal.

O cão está de malas feitas. Não vai aguentar!

Ninguém! Vai aguentar...nem vocês, quiosquianos.

Nem vocês....

 

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