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Quiosque da Joana

18.02.18

723

Joana Marques

Tinha 3 anos.

E em minha casa passou-se o inacreditável.

A minha família acordou de madrugada para ver televisão.

Eu também acordei. Não percebia nada. Mas desde os primórdios da minha existência que gostava de participar em tudo.

Não tenho memórias reais desse dia. Fui ao longo do tempo construindo uma memória do que se passou naquela noite.

Tinha sido uma coisa nunca vista.

Na televisão. Em nossa casa.

Foi tão importante. O meu pai a altas horas da madrugada desceu à cave e foi buscar champanhe para comemorar.

Foi tão grande que os vizinhos estavam acordados também.

Foi mesmo, mesmo grande. Porque o presidente da Junta de Freguesia morava no prédio ao lado e em menos de nada pressentiu o champanhe e apareceu em nossa casa a essa hora surreal. Ele, e mais dois ou três amigos do meu pai. Toda a gente se abraçava.

Devia ser o Apocalipse ou qualquer coisa do género.

Eu andava de colo em colo. Tipo tocha olímpica.

O telefone não parava de tocar. Os meus tios ligaram uns a seguir aos outros.

O meu avô do Alentejo chorava do outro lado da linha. De alegria. E ao longe podíamos ouvir a minha avó eufórica.

 

 

Tinha 8 anos.

Tínhamos passado a noite de Natal no Porto.

De manhã recebemos as prendas.

Recebemos o dinheiro que nunca cheirávamos. E que ia para o Espírito Santo.

A minha avó deu-nos a cada um, uma caixa de veludo com bombons. 

A da minha irmã era cor de rosa. Porque era a menina da casa.

A do meu irmão era verde. Porque era o sportinguista da casa.

E a minha era azul. Porque era o resto da casa.

- Tão bonita Joana, é da cor do céu.

- Vó Dé, tenho 8 anos mas não sou estúpida....

 

Em casa tive o cuidado de a esconder dentro da minha cama. Porque o meu irmão andava a rondar os meus bombons.

Esqueci-me que era quarta feira. E às quartas feiras a dona Aurora mudava a roupa das camas.

E deixou a caixinha em cima da minha secretária.

Foi a morte do artista. Quando cheguei da escola. Não tinha um único bombom dentro da caixa.

- Ó mãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaae o Tiago é um roubador.

Foi a partir desse dia que o meu irmão ficou a ser conhecido como o roubador de Campo de Ourique.

 

A caixa teve uma grande utilidade para mim.

Aproveitava os jornais que o meu pai já não queria e recortava aquilo que me interessava.

Dentro da caixa estavam fotos recortadas de todos os jogadores do Sporting.

Também guardava cromos. E bilhetes. Recordações.

 

Tinha 10 anos.

Estava no quinto ano.

Na disciplina de português tinha de escrever um texto e fazer a apresentação para a turma.

Numa época em que não havia power point.

A escrita. E o poder de comunicação. Em todo o seu esplendor.

Não sei muito bem porquê mas o meu trabalho foi um dos selecionados para ser apresentado na festa de final do ano.

 

Tinha 11 anos.

Junho. Final do ano letivo.

Festa final.

Todos os alunos da escola. Todos os pais.

Os meus pais. A minha irmã. E o roubador de Campo de Ourique.

O ginásio cheio.

Começaram as apresentações.

Eu e o meu trabalho. Encaixados dentro do espetáculo.

Não estava nervosa. Sempre fui a mais inconsciente das pessoas.

142 cm de Joana.

Comecei a falar. Sobre o Sporting.

Gerou-se um burburinho. Isto quanto toca a clubes. É uma desgraceira.

Se me intimidei. Claro, que não!

Joana, com nervos de aço desde 1981.

Continuei a minha apresentação. Com um assobio ou outro à mistura. Faz parte. E eu sabia.

Tinha guardado o melhor para o fim.

A minha caixinha azul. (Sim, azul! Não há histórias perfeitas).

Abri-a.

E tirei de lá uma fotografia.

Mostrei a fotografia.

E toda a gente se calou. E aplaudiu.

Era nem mais nem menos que Carlos Lopes.

 

Contei. Relatei. O que se tinha passado em nossa casa.  Quando tinha 3 anos.

Nunca ninguém tinha conseguido tirar a minha família da cama. Durante a madrugada. Só, Carlos Lopes.

 

Logo a seguir, a diretora da escola também contou como viveu esse momento.

E depois um professor e outro. E alguns pais.

E quando reparámos estávamos ali. Naquele ginásio. Um grande grupo de conhecidos. E desconhecidos.

Unidos pelo feito de um homem. Que por acaso ou não. É do Sporting.

 

Isto é ser grande. Enorme.

Carlos Lopes nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1947.

Faz hoje anos.

Parabéns. Campeão.

723. O número do seu dorsal. Quando foi campeão olímpico.

 

cl.jpg

(imagem)

 

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