a primeira palavra que escrevi na vida. Não foi Joana.
A primeira palavra que escrevi na vida foi Sporting.
Foi o meu pai que me ensinou.
Nasci numa família sportinguista.
Antes do meu pai nascer, já toda a família era sportinguista.
O meu pai e todos os irmãos são sportinguistas. O meu avô nem se teve de esforçar muito porque para todos era óbvio que eram do Sporting. Ponto Final!
Tal como aconteceu na minha família.
Quando nasci, toda a gente era do Sporting.
O meu irmão, a minha irmã, a minha mãe e obviamente o meu pai.
Antes de ser registada como cidadã portuguesa, fui registada como sócia do Sporting.
Tenho 36 anos de sócia e uns mesinhos.
Do lado da minha mãe existiam todas as cores. A minha mãe é nascida e criada no Porto.
Do lado do meu pai, não! Todos os meus tios e tias. E primos. Todos do Sporting.
Desde pequena que adormecia com a voz do meu pai a contar-me histórias do Sporting.
Aquele jogo épico.
Aquele sportinguista que ele admirava.
Aquela modalidade onde éramos imparáveis.
O meu pai sabia tudo sobre o Sporting.
E quando me juntava com os meus tios, tias e primos só se falava de Sporting.
O meu pai, para grande desgosto da minha mãe, tinha lá em casa uma estante só com Sporting. Livros, folhetos, bilhetes antigos ou bugigangas que foi colecionando ao longo dos tempos.
O meu irmão, mais velho que eu 5 anos e tal como o meu pai, colecionava tudo. Recortes de jornais. Cromos. Posters. Camisolas. Cachecóis. A cada campeonato, comprava sempre uma nova caderneta de cromos. Mas só colava os cromos dos jogadores do Sporting. Deitava fora o resto.
Eu nasci e cresci neste ambiente.
E durante um tempo tive um problema grave.
Muito grave.
Não sabia ler.
Bem olhava para a estante do meu pai. Mas não sabia ler.
Até que entrei para a primária. E comecei a juntar as letras. E aos poucos a aprender a ler.
E quando comecei a ler mais ninguém me parou.
Lia tudo. Desde as paragens de autocarro, passando pelos jornais que apanhava e todos os livros que deitava a mão.
E queria ler os livros da estante do meu pai. Os livros do Sporting. A minha mãe não me deixava.
Tive a sorte de ter herdado dos meus irmãos uma quantidade de livros.
Do meu irmão a coleção dos cinco. E montes de livros de banda desenhada.
Da minha irmã a coleção das gémeas de Santa Clara, do Colégio das 4 Torres, da Carlota, da Patrícia, etc.
Foi exatamente por ler a coleção das gémeas de Santa Clara que tive a melhor ideia de sempre.
Comprar uma lanterna.
Para quê?
Para ler à noite sem os meus pais darem conta.
Entrei na loja do Sr. Jorge, em Campo de Ourique e perguntei o preço das lanternas.
300$.
Uma fortuna.
Ainda não tinha semanada. Com 7 anos não tinha direito. Em minha casa só a partir dos 10, quando fosse para o 5º ano.
Recebia dinheiro dos meus tios nos anos e no Natal mas ia para uma conta. Foi com esse dinheiro que comprei o meu primeiro carro. Verdinho! Lindo...
Comecei a juntar todo o dinheiro que ia conseguindo com esforço.
Ás vezes recebia um dinheirito para comprar rebuçados, pastilhas e às vezes um bolo.
O meu irmão e a minha irmã de vez em quando lá me davam uma esmola também.
Os meus pais também me iam dando porque pensavam que eu estava a fazer a coleção de cromos: "dias felizes".
Quais dias felizes, quais quê?
Queria era uma lanterna.
Ao fim de longos meses de poupança consegui ter 300$. E lá comprei a lanterna.
- Sr. Jorge não diga nada à minha mãe...
O Sr. Jorge sorriu. E cumpriu. E nunca disse nada.
Era fácil.
De noite. Quando toda a gente lá de casa dormia. Levantava-me.
Subia a uma cadeira.
Tirava um livro.
Levava-o para a cama.
E debaixo dos cobertores com a minha lanterna.
Li a história e as histórias todas do Sporting.
Li e vivi episódios. Bons e maus.
7 anos. E era feita de Sporting.
Para mim ser do Sporting é mais ou menos como me chamar Joana.
Ou ser filha de Mariana e de João. Irmã de Sofia e de Tiago.
Ser do Sporting. Eu sou do Sporting.
Parabéns!
111 anos. 111 anos de história. Que é também a minha história. E a dos meus.
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