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Quiosque da Joana

11.04.18

a rotina é boa. Quando é amor...

Joana Marques

Nunca tive rotina na minha vida.

Se calhar até tive, quando andava na escola, mas aí também não tive, andava em mil e uma atividades.

Criava mil e uma brincadeiras.

 

Com 17 anos comecei a trabalhar como hospedeira, e a rotina era não ter rotinas.

Fui hospedeira durante quase 20 anos e nunca tive uma semana igual à outra.

Nunca senti falta da rotina, a minha vida era assim e eu era feliz.

 

A meio dos trinta decidi que talvez tivesse encontrado uma relação estável e que talvez me sentisse bem com a rotina e deixei o meu trabalho, não deixei o aeroporto mas o trabalho era em terra, também não era rotineiro mas permitia-me o poder ter uma vida rotineira.

Enganei-me, não gostei.

Gostei do trabalho e da mudança, mas o resto tornou-se chato e monótono e afinal ele não era “o tal”.

Foi letal. A rotina.

 

Desde que tenho a Alice. A minha vida tornou-se mais rotineira.

Rituais. Que se repetem todos os dias.

Desde que conheci o Pedro. Há um par de dias.

E decidimos viver juntos. A vida. Deu uma volta.

A rotina que já tinha. Desfez-se numa grande parte.

Mas como tudo na vida. Tudo entra nos eixos e novas rotinas foram criadas.

 

Os dias não são todos iguais.

Até porque o Pedro tem horários de trabalho diferentes.

Eu, consigo gerir a maior parte dos dias, os meus horários, tendo em conta a Alice.

E de forma a estar o mais tempo possível com ela e com o Pedro.

 

 

Os dias não são todos iguais.

Os afetos, os abraços, os beijos, os risos e sorrisos são os mesmos todos os dias.

Todas as madrugadas sem exceção, pelas 3h da manhã, me levanto para ver se a Alice está a dormir.

Se não se destapou.

Se está bem. Quando volto a deitar-me, o Pedro completamente inconsciente agarra-me e dá-me um beijo, na orelha, no pescoço, onde calha.

Abraça-me de tal forma que é impossível eu sair dali.

Às vezes temos companhia na cama. A maior parte das madrugadas.

 

Acordo cedo.

Gosto de ficar uns minutos a olhar para o Pedro, passo-lhe as mãos pelo cabelo, dou-lhe um beijo e ele resmunga qualquer coisa.

Só mais 5 minutos, diz ele.

Levanto-me, passo pela Alice, olho para a Alice, emociono-me e deixo-a dormir.

Ainda vai ficar a dormir mais uma hora. Ou uma hora e meia.

 

Visto-me e vou correr. Meia hora a 45 minutos. O cão às vezes diz que sim ao meu convite.

Chego a casa e acordo o Pedro que diz incrédulo: já passaram 5 minutos?? 

O Pedro toma banho, eu preparo o pequeno almoço. De todos. Incluindo, o do Vasco e o da Julieta.

A Alice acorda. Dou-lhe o pequeno almoço.

Tomamos o pequeno almoço, a Alice fica na cadeirinha. 

O Pedro vai trabalhar. E deixa a Alice em casa dos meus pais.

Envia-me, sempre, uma mensagem quando chega ao trabalho.

 

Começo a trabalhar às 8h. Antes disso, despacho todas as tarefas que consigo.

Almoço. Às vezes em casa, outras na casa dos meus pais.

Quando vou buscar a Alice, paro muitas vezes num jardim. Passeamos o cão.

E damos uma volta. Se o tempo ajuda...a maior parte das vezes não.

Dorme. Quando acorda dou-lhe o lanche. Brinca.

 

É suposto, o Pedro sair às 16h. Mas quase nunca acontece.

Chega a casa por volta das 18h. 19h.

A Alice tomou banho.

E já tem o jantar na barriga. Está pronta para dormir.

Jantamos. Vou passear o cão. O Vasco ainda não aceita passeios com o Pedro.

O Pedro arruma a cozinha.

Vemos um filme. Conversamos. Namoramos.

Adormecemos.

Daí a pouco, ás 3h da manhã vou levantar-me. E vou espreitar a Alice. Vou achar que é a bebé mais bonita do mundo. Vou voltar para a cama e sei que o dia vai ser muito parecido com o anterior.

 

O que tem de mal a rotina?

Porque se queixam tanto da rotina?

A rotina. É tão boa. Quando é amor...

 

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Joana Marques

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