Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

aconteceu mesmo.....

18.05.17, Joana Marques

O meu tio João, irmão da minha mãe morou muitos anos nos EUA.

Foi para lá estudar gestão. E ficou.

Apaixonou-se. Casou-se. E teve dois filhos.

 

Em 1986, o meu avô materno decidiu que já era tempo de se retirar das empresas.

Falou com os filhos todos e ninguém manifestou interesse em ficar no lugar dele.

Eram empresas da família que ninguém queria ver geridas por estranhos.

Vender? Também não era solução. Ninguém via com muito bons olhos a venda das empresas.

Estávamos num impasse. O que fazer?

Fomos salvos pelo meu tio João.

Voltou para Portugal com a mulher, a minha tia Ingrid e com os meus primos.

 

Chegaram em Abril de 86.

Primeiramente, ficaram em casa dos meus avós mas pouco depois arranjaram casa própria no Porto.

A minha avó Adélia, conservadora e 100% devota descobriu que o filho tinha casado apenas pelo civil.

E não, os meus avós não tinham ido ao casamento. Primeiro porque as viagens eram um pouco diferentes do que são hoje mas principalmente porque a minha avó não entrava num avião nem que estivesse em coma.

 

A descoberta de que o filho e a nora, já com dois filhos, não estavam casados pela igreja foi como se lhe tivessem arrancado um rim, a sangue frio. E tratou logo disso.

Nem se preocupou em perguntar ao casal, se por acaso estariam interessados em casar pela igreja. Não!

Arranjou tudo por ela e comunicou-lhes: dia 17 de Maio têm casamento marcado na Igreja de Santa Luzia em Viana do Castelo.

A minha avó já tinha organizado tudo. A parte religiosa, o copo de água e os convites.

O meu tio João e a minha tia Ingrid estavam-se nas tintas se casavam ou não. E não quiseram entrar em confronto. Aceitaram.

 

 

No dia 17 de Maio de 1986 tinha 5 anos.

Estava numa fase muito glamourosa da minha vida.

O meu pai tinha-me levado ao aeroporto, uns meses antes, para ver os aviões levantar voo.

A partir daquele dia comecei a dizer que queria ser um avião.

 

Três dias antes do casamento, Joaninha experimentou voar.

Em plena rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique, atirei-me do cimo de uma árvore.

Foi a primeira experiência que fiz do género.

Mal sucedida.

Joaninha não voou.

Por acaso até voei mas não da forma como estava a imaginar.

O meu irmão que assistiu a todo este espetáculo levou-me para casa.

A minha mãe quase teve um ataque cardíaco.

Nas vésperas do casamento do irmão, a menina das alianças, eu, estava assim. Sem ponta por onde pegar.

Um galo na cabeça. Os joelhos esfolados. Os cotovelos todos raspados.

- O que raio é que te aconteceu?

- A Joana caiu. Respondeu o meu irmão. Sem referir que tinha caído de uma árvore.

Eu chorava. Tudo me doía...

Ou melhor. Eu não chorava. Eu berrava....

- Ai Deus mas como é que a Joana vai entrar na igreja neste estado. Atirava a minha irmã.

Tudo tem solução, menos a morte e eu ainda estava viva.

Aliás, até estava muito viva, pelo menos sentia muito bem as dores.

A minha mãe passou a noite a baixar a baínha do meu vestido. Branco. De princesa.

Eu a experimentá-lo para ver se se via os joelhos esfolados.

E a minha irmã passou a noite a aplicar-me gelo na cabeça.

Pomada às toneladas.

E mais gelo.

E pomada.

O galo acabou por ceder.

Sexta-feira quando rumámos até ao norte, mal se notava. E o vestido tapava os joelhos.

Mau, mesmo, é que a minha mãe não tirava os olhos de mim.

Medo que eu fosse contra uma árvore ou um poste de eletricidade.

 

O casamento era às 10h.

Chegámos um pouco antes.

A noiva atrasou-se imenso.

Não por ser noiva mas porque a minha tia Ingrid era mãe.

E uma mãe é uma mãe, mesmo no dia do casamento.

A minha avó Adélia espumava.

E a minha mãe sempre a controlar-me.

Quase morri de tédio.

Eu era a mais nova dos meu primos.

Eram todos rapazes excepto a minha irmã que já tinha 15 anos.

Ninguém me ligava.

Estava vestida de branco para levar as alianças.

E com a minha mãe sempre a olhar para mim.

Só que Deus é grande. E é meu amigo.

A minha avó Adélia chamou a minha mãe.

- João toma conta da Joana. Disse a minha mãe ao meu pai.

Ah! Estava entregue aos cuidados do meu pai. E queria ser um avião.

Não me dava por vencida.

Falhei à primeira mas não ia falhar à segunda.

Já tinha debaixo de olho um muro, capaz de testemunhar tamanha façanha. Aquele muro ia ver-me voar!

E sem o meu pai dar conta. Afastei-me. Subi ao muro. E atirei-me.

Voei??? Podemos falar sobre isso noutra altura?

 

Em menos de nada tinha ao meu lado a minha família toda.

A minha mãe desvairada.

- JOOOOOOOÃO foi só por um minuto! O que raio é que estavas a fazer??? Esta miúda precisa de 20 olhos nela..

Tentaram levantar-me mas tinha dores horríveis.

Estava paralisada do lado direito. Não me conseguia mexer.

Chamaram uma ambulância. Não havia telemóveis e foi também todo um filme.

Fui para o hospital.

Tinha a clavícula partida.

Escusado será dizer que a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos não foram ao casamento do meu tio João.

Fiquei em observação mais um tempo. Como tinha ficado meia paralisada queriam ter a certeza que não era nada.

 

À tarde. À tardinha.

Apareceu o meu tio João e a minha tia Ingrid. Já casados.

Trouxeram-me uma fatia de bolo. Partiram o bolo de noiva mais cedo para eu poder comer.

E o meu tio João para me reconfortar disse-me assim:

- Joaninha, não estejas triste. Fica aqui combinado. No dia 17 de Maio de 2017 vamos todos comer bolo.

-?

- Em 2016 fazemos 30 anos de casados é uma data redondinha. Em 2017 fazemos 31. Comemoramos contigo...

- Ainda falta tanto!

Ao longo da nossa vida fomos falando sobre isso. Sempre a rir.

- Não se esqueça, tio, 17 de Maio de 2017!! Disse-lhe eu quando tinha 10, 15, 20 ...30 anos.

- Então Joaninha, não te esqueças dia 17 de Maio de 2017!! Dizia-me o meu tio pelos Natais, anos e sempre que falávamos ao telefone ou estávamos juntos.

Parecia algo inatingível.

Parecia impossível de alcançar. Tal e qual como eu querer ser um avião.

 

Ontem já passava das 16h e estava num parque aqui de Oslo. Para quem conhece Oslo estava no parque das esculturas. Recebo uma mensagem do meu tio João.

- Então Joana, como estás? Por onde andas?

- Estou bem.

- E onde estás?

- Estou em Oslo.

- Eu sei que estás em Oslo! Estás em casa?

- Não. Estou num parque.

- Como se chama o parque?

- Vigeland.

Estranhei...mas...

 

Qual não é o meu espanto quando passado uns 20 minutos recebo um telefonema.

- Ainda estás no parque?

- Estou.

- Nós estamos aqui junto a umas escadas que estão rodeadas de estátuas. Sabes onde é?

- Na Noruega?? Têm a certeza? Vocês estão em Oslo?

Respondi eu. Mesmo não acreditando já ia a caminho.

Com passo apressado a puxar o Vasco. Lento. Lentinho. O meu caracolinho....

- Joaninha. Hoje é dia 17 de Maio de 2017. Esqueceste-te?

 

E pronto.

Era uma vez, uma Joana que nunca conseguiu ser um avião. Mas que por ter tentado ser um, estava prestes a viver um momento tantas vezes falado mas assim mesmo...muito inesperado!

E ao longe avistei o meu tio João e a minha tia Ingrid.

E só tive tempo de me atirar para cima deles. Ninguém partiu a clavícula desta vez...

Comemorámos juntos os 31 anos de casados.

Comemos uma iguaria norueguesa que tem todo o aspeto de ser uma porcaria feita de batata mas era um dia especial!

oslo2 (2).jpg

E depois jantámos em minha casa.

 

Ontem foi a prova de que os milagres podem acontecer.

Mas para acontecerem temos de lhes dar uma mão?

Uma clavícula?

Não. Não!

Temos de querer ser um avião!

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Joana Marques

    19.05.17

    exactamente...é por isto que vale a pena viver!
    beijinhos
  • Comentar:

    CorretorMais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.