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Quiosque da Joana

21.03.18

caderneta de cromos #3

Joana Marques

A minha avó Adélia. Nascida e criada no Porto.

Era uma mulher grande.

Para os tempos em questão, era alta. E não era magra.

Era robusta.

Muito feminina. Numa altura em que gordura era formosura. Esmerava-se na sua aparência.

Um dos seus maiores desgostos era não poder usar saltos.

Porque ficava mais alta que o meu avô. E ela achava que não podia ser.

 

 

Na casa da minha avó. Todos os dias havia sobremesa doce.

- O que é doce nunca amargou.

Dizia-nos ela.

A maioria das vezes era feito pela empregada, a dona Conceição. Algumas vezes por ela.

Nada de fruta. Não!

Era mesmo sobremesa.

Daquelas cheias de açúcar, manteigas e ovos.
Daquelas que nos sobem o colesterol só de partilharmos a mesma divisão.

 

Com o tempo, a minha avó que sempre foi robusta, foi ficando mais gordinha.

Teve 8 filhos. E isso também não deve ter ajudado à figura.

Nunca foi obesa, nada disso. Mas era uma mulher consistente.

Lembro-me de ser pequena. E andar a cirandar pelo quarto dela. E de a ver a preparar-se para ir à missa.

Não usava espartilho. Mas quase.

Uma cinta enorme. Um soutien gigante. Eu era miúda...tudo parecia ainda maior.

Um vestido por cima. Um cabelo impecável.

Maquilhagem.

 

E depois no fim de tudo. No fim do ritual. Chamava a Conceição e perguntava:

- Conceição, estou gorda?

Apetecia-me responder e dizer que sim. A avó, está gorda...

.....não o fazia. Nunca o fiz.

Conceição, respondia sempre.

- Não. Está muito bem.

Durante anos a fio. Sempre que visitei a minha avó. Ouvia sempre a mesma pergunta.

- Conceição, estou gorda?

E sempre a mesma resposta. E assim ia a vida.

 

Tinha 13 anos.

E na escola organizou-se, na disciplina de Física/Química, uma visita de estudo à Central Termoelétrica do Carregado.

Só havia 5 vagas.

Os professores escolheram 5 alunos para representar a escola.

Não sei bem porquê. Eu fui uma das contempladas. E o Zé Luís da minha turma.

Os outros, só os conhecia de vista.

O Zé Luís. Era...

....um cromo. Daqueles à moda antiga. Sempre que tinha de falar comigo. Ficava corado até à medula.

Não sei como é que ele aguentava. Parecia sempre à beira de implodir. E explodir ao mesmo tempo.

 

Tínhamos os dois 5.

Mas o 5 dele era verdadeiro. Interessava-se mesmo. Gostava mesmo.

O meu 5, era um 5 de quem percebe nas aulas.

Tinha e tenho uma memória que é uma maldição.

Fazia o teste e tinha boa nota.

Interesse: zero.

 

No dia da visita.

Percebi que éramos 4+1.

4 cromos e um elemento decorativo. Eu.

Fomos de autocarro. Juntos com alunos de outras escolas.

É claro que eu não percebi patavina de nada.

O meu interesse era zero. E só tinha ido porque tinha sido escolhida e os meus pais me tinham obrigado a aceitar.

No fim do dia.

Pensei que o meu pesadelo tinha ficado por ali.

Que o calvário tinha terminado.

Que podia seguir a minha vida alegremente noutro registo.

Não!

A professora falou connosco e disse-nos.

- Na próxima aula vão fazer uma apresentação à turma sobre tudo o que viram.

Caneco.

O que é que eu poderia dizer.

- Ah! e tal fomos de autocarro. Chegámos. E depois andámos a percorrer umas ruas com um capacete muita fixe na cabeça. Ah! E deram-nos batatas fritas ao lanche. Ah! E também havia água.

 

Mas...

....estava um "homem" metido ao barulho.

Em muitos momentos da minha vida, tenho percebido, que as mulheres querem que eu me espatife na próxima curva mas os homens ajudam-me sempre.

Zé Luís. Socorreu-me.

Escreveu numa folha tudo o que eu tinha que dizer.

E ficou combinado que ele responderia às questões dos nossos colegas.

No dia da aula. Nem respirava. Estava com uma crise de asma. De todo o tamanho.

E em frente à turma.

Mesmo ao lado do Zé Luís.

Ainda com a professora a falar.

Com um camadão de nervos épico.

Perguntei, baixinho ao Zé Luís...

- Estou gorda?

O pobre do rapaz ficou a olhar para mim. Com ar...

...mas que raio é que esta alma disse.

E respondeu-me, com surpresa na voz. Testa franzida. E nariz encolhido...

- Nãaaaaaaao......

 

A apresentação foi um sucesso.

Disse tudo o que o Zé Luís me tinha dito para dizer.

Toda a gente percebeu. Que eu percebia bué de Centrais Termoelétricas.

Era pró em Centrais Termoelétricas.

A minha vida girava em torno. Das Centrais Termoelétricas.

Eu própria era, possivelmente, uma Central Termoelétrica...

Os meu colegas quiseram  fazer perguntas. Eu. Virei-me para a professora.

- Vou deixar o Zé Luís responder para também poder participar.

- Muito bem, Joana.

Correu tudo melhor do que tínhamos previsto.

No fim da aula dei um abraço ao Zé Luís.

Ficou vermelho. Vermelho.

E só voltou a falar comigo no nono ano. Mais um que ficou traumatizado...

 

Achei que o..

...estou gorda?

..me tinha dado sorte.

E a partir daí. Em qualquer apresentação que faça. Pergunto sempre a alguém que está por perto.

- Estou gorda?

Atendendo que sempre fui magricela.

Deve correr o rumor, em Portugal, que tenho uma desordem alimentar qualquer.

 

Fora de Portugal é fácil.

- Estou gorda? (digo sempre em Português)

- O que disseste?

- Nada, estou só a praguejar na minha língua materna...

 

Ontem, antes da minha apresentação. Lá escolhi a vitima. Um angolano que estava mesmo ao meu lado.

- Estou gorda?

Olhou para mim com um ar espantado. Mais do que espantado. Quase assustado.

E respondeu num dialecto desconhecido. Num tom que não enganou ninguém...

...garantidamente não me chamou de gorda.

........maluca. Louca. Doida varrida.

Aceitam-se apostas...

 

 

Este é o meu terceiro cromo.

Podem ver o primeiro. Aqui.

E o segundo. Aqui.

 

 

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