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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Catarina...

23.11.16, Joana Marques

Conheci a Catarina quando tinha 6 anos.

Na escola primária.

Ao contrário da maioria a Catarina era nova na turma.

Era uma menina.

Uma verdadeira princesa.

Daquelas que todos os pais e mães sonham ter.

Se não desse muito nas vistas, tenho ideia que a minha mãe me tinha trocado por ela.

E eu percebo.

A Catarina nunca deu qualquer dor de cabeça aos pais.

Sempre equilibrada, sempre fez tudo certo.

 

Não era a minha melhor amiga...o Gui era o meu melhor amigo mas dava-me bem com ela.

É claro que ela sendo uma princesinha dava-se bem com as outras iguais a ela.

Ficava horrorizada sempre que me via subir a uma árvore ou quando percebia que antes queria jogar à apanhada do que brincar com barbies.

 

Fomos colegas até ao 12º ano.

A Catarina continuou sempre como a tinha conhecido equilibrada e sem partir um prato.

Era hipocondríaca!

O que eu e o Gui gozavamos com ela.

 

Morava na minha rua e quando chegávamos da escola ia logo para casa.

Eu e o Gui ficávamos a conversar...já nós tinhamos uns 15, 16 anos eram 21h e nós ainda à porta da minha casa a falar...e ela aparecia à varanda e dizia..

- Ainda aí estão. Vão para casa, amanhã há teste de história. Já estudaram?

A Catarina tinha começado a estudar 15 dias antes, passado o caderno, feito apontamentos, esquemas e resumos...e nós...logo se vê!

- Saiam daí...ainda se constipam...

Era mesmo castradora...a tipa..

 

Quando fui para a faculdade, fui para o Iscte (Gestão) e ela para a FCUL tirar Matemática, queria ser professora.

Nessa altura, tinha o meu primeiro namorado, o Marc e trabalhava como assistente de bordo...

- Ganha juízo, Joana, encontraste um bom rapaz...aproveita..que raio de profissão é essa?

A verdade é que não a levava muito a sério..parecia minha mãe, parecia ter o triplo da minha idade.

 

Entretanto quando comecei a namorar com o Frederico, muitos anos depois...contei-lhe. No gozo chamava ao Frederico o homem lindo...

Passado um mês envia-me uma mensagem:

- Também já tenho um homem lindo, chama-se Luís!

 

Ao contrário da minha relação, a dela deu certo e casaram.

O Luís era e é o homem certo para a Catarina.

Pela primeira vez vi a Catarina mais leve com a vida. Mais descontraída.

 

Há uns meses atrás liga-me:

- Estou grávida. Vais ser tia. É a Leonor.

Fiquei muito feliz por ela.

Será a melhor mãe do mundo! Pensei..

 

Ligou-me a semana passada.

Tinha-me esquecido do telemóvel no trabalho, como tantas vezes acontece.

Quando cheguei no outro dia de manhã vi a chamada dela mas não fiz caso.

Liguei-lhe no sábado.

- Com a gravidez está tudo bem. A Leonor está a ficar grande. Mas eu tenho andado com umas dores de cabeça..

 

Desvalorizei. Lá está ela outra vez...a hipocondríaca da Catarina.

As palavras dela não me saíram da cabeça e passadas mais ou menos duas horas, liguei ao Luís.

- Não te preocupes, já sabes como ela é..segunda tem consulta e depois digo-te alguma coisa. Não deve ser nada.

 

Segunda de manhã a Catarina já não conseguia ver bem.

O médico encaminhou-a para a urgência do hospital.

Passou o dia em exames.

 

Hoje, depois de almoço, liga-me o Luís.

- A Leonor nasceu.

- Como nasceu?

- A Catarina está muito doente e decidiram que seria menos arriscado para a bebé.

 

A Leonor nasceu de 32 semanas e está numa incubadora. É uma princesa como a mãe. E está a lutar...

A Catarina tem um tumor daqueles mesmo, mesmo maus..no cérebro.

 

Não é hábito meu escrever sobre assuntos tristes.

Pelo contrário.

Este Quiosque está aberto à felicidade.

Só escrevi este texto, porque o blog pode sofrer algumas alterações nos próximos tempos...e quero que saibam a razão...

 

 

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