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Quiosque da Joana

30.08.18

cinco miúdos no banco de trás...

Joana Marques

Cinco miúdos no banco de trás.

A caminho de um lugar encantado.

 

No dia antes tinha ouvido da boca da minha avó a história. Do lugar encantado. Como a minha avó lhe chamava.

Tinha-lhe feito repetir a história vezes sem conta.

Porque gostava da história.

Tinha 6 anos. E em Outubro ia para a escola. Ia aprender a ler e a escrever. E ia escrever esta história.

Estava de férias no Alentejo, em casa dos meus avós.

Comigo estava o meu irmão e os meus 3 primos mais novos.

 

 

Cinco miúdos no banco de trás.

Doidos de alegria por terem um dia diferente.

A cantar no banco de trás. A música que tínhamos andado a cantarolar o verão inteiro.

- Não é assim!

- É, é! Eu sei que é...

Dizia eu no alto dos meus 6 anos, sem uma única aula de inglês e a achar que EU é que sabia cantar.

Pontapés no Inglês de bradar aos céus. O meu avô lá me corrigia.

 

Cinco miúdos no banco de trás.

E de repente um grito.

- VOOOOOOOOOOOÓ o Tiago bateu-me!

- Não bati nada. Mentirosa....

- Vó o Tiago não lhe bateu só lhe tocou no cabelo. 

Disse o meu primo António e exemplificou.

- VOOOOOOOOOOOOOOOÓ o António puxou-me o cabelo. O António puxou-me o cabelo...

- Não puxei nada! Só toquei. 

- Ó VOOOOOOOOOOOOOOÓ. O Tiago ameaçou-me de morte. 

Risos no banco da frente.

- Ó Joana! 

- É verdade! Acabou de me atirar um olhar mortal. 

Mais risos no banco da frente.

- Diz-me lá o que é um olhar mortal?

Perguntou o meu avô.

- É aquele olhar que diz que nos faz morrer num segundo.

-Está descansada, o olhar do Tiago ainda não funciona dessa forma, lá para os 40 talvez...

- Funciona sim! Ainda ontem matei um carreiro de formigas só de olhar para elas...

Muitos risos no carro. O meu irmão amuou por ninguém acreditar nele.

 

 

Cinco miúdos no banco de trás.

Naquela altura a segurança rodoviária deixava muito a desejar.

O avô a conduzir.

A avó ao lado do avô. Aos pés uma cesta com tacinhas de arroz doce.

- Ó Joaquim olha as curvas! O arroz doce entorna....

- Não sou eu que faço a estrada.

- Vai devagar! Olha o arroz doce...

 

Cinco miúdos no banco de trás.

4 rapazes e uma miúda.

Os rapazes calados que nem ratos. A miúda continuava a cantar por todos os poros.

Os rapazes enjoados até ao tutano. A miúda continuava, com toda as suas forças a pôr à prova a resistência dos vidros do carro.

- Vó estou mal disposto.

- Parem o carro! Parem o carro. O Tiago vai vomitar verde!

- Ó Joana não digas disparates! Disse o meu avô.

- É verdade! Quando fomos a casa do tio Luís o Tiago vomitou verde. E quando fomos a casa da avó Adélia o Tiago vomitou verde...

- Aiiiii! Eu não quero que me vomitem para cima.

Disse o meu primo Filipe.

- Mais depressa vomitas tu para cima dos outros como fizeste quando fomos almoçar à Ericeira.

Respondeu-lhe o meu primo António.

- Joaquim, tens de parar o carro.

O meu avô parou o carro.

 

Cinco miúdos no banco de trás.

Em cinco minutos chegámos ao Cabo.

Cabo Espichel. O lugar encantado da minha avó.

Um lugar avassalador.

 

 

Cinco miúdos no banco de trás.

Saíram do carro sobre o olhar atento do meu avô.

Numa voz firme nos disse:

- Nada de correrias aqui. Se algum de vocês se porta mal nunca mais vem.

Respeitinho é muito bonito. Nem respirámos.

 

A minha avó contou-nos a sua história mais uma vez.

Visitámos a igreja.

Olhámos para o mar.

Sentados no chão. Com a vista mais bonita de todas comemos o arroz doce.

Despachei o arroz doce em 3 minutos. E posicionei-me à frente dos meus avós, do meu irmão e dos meus primos.

Arranjei um pauzinho que serviu de microfone.

A minha avó fazia anos e precisava de uma festa à altura.

Cantei. Cantarolei. Com uma afinação irrepreensível.

A sorte é que estava pouca gente. Ou azar....perderam uma exibição do caraças!

 

 

 

Faz hoje 99 anos que a minha avó nasceu.

Faz hoje 24 anos que a minha avó morreu.

 

Faz hoje 31 anos que fui pela primeira vez ao Cabo Espichel.

O lugar onde casaram os meus avós.

O lugar encantado da minha avó. A partir desse dia, passou a ser o meu lugar encantado.

Desde esse dia estive muito poucas vezes no Cabo Espichel.

Só lá vou em altura especiais. 

Não sendo crente. Há ali qualquer coisa que me faz sentir lado a lado com a minha avó.

A minha avó teve uma vida feliz porque sempre quis ser feliz.

A minha avó criou 5 filhos felizes.

O meu pai e os meus tios têm uma característica que muito poucas pessoas tem.

São felizes desde a mais minúscula célula até chegar ao coração.

É claro que já os vi tristes. Muitas vezes. A vida é assim...

Infelizes...não conseguem ser.

São assim porque tiveram uma mãe especial. A minha avó Maria.

 

Passei por lá hoje. Ao lugar encantado da minha avó....

Levei-os comigo. Alice. Mariana. Pedro. Vasco.

Para sentirem aquele lugar, como eu o sinto.

O meu lugar encantado passou a ser o deles.

 

 

102.jpg

 

 

 Há dois anos no Quiosque!

Frango guisado com esparguete da Avó Maria.

 

Há um ano no Quiosque!

Não podemos tudo. Mas podemos muito...

Dizia-me a minha avó.

 

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  • Ana Silva

    Quando na altura li este post pensei. " Epá isto é...

  • Paula Rocha

    Boa Joana, pena eu ser do Benfica e viver no Porto

  • Joana Marques

    ...e o Sporting é o nosso grande amor....

  • Joana Marques

    Obrigada! Viva o Sporting!

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    Reconheço te esse mérito Joana haja mais como tu

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