Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

cuidado com aquilo que desejas....

25.11.17, Joana Marques

Amesterdão é completamente diferente de Oslo.

Estou a referir-me essencialmente ao meu local de trabalho.

Se em Oslo tinha de enviar um email ao colega do gabinete ao lado, para comunicar com ele.

Em Amesterdão tudo é uma festa. As pessoas são super simpáticas e acessíveis.

 

Em Oslo os meus vizinhos não me cumprimentavam. Nem bom dia, nem boa tarde.

Aqui, a minha vizinha do lado quando soube que tinha chegado tocou-me à campainha para me dar as boas vindas. E ofereceu-me bombons. O outro vizinho do lado, apresentou-me o gato. E ofereceu-me um bolo.

O prédio inteiro adora o Vasco. E alguns vizinhos dão-lhe biscoitos.

E acabei de chegar.

Se ficasse por cá. Ainda corria o risco de ser adotada, por alguém.

 

No meu trabalho todos os dias há jantares. E aos fins de semana festas. E as pessoas convivem todas.

E dão-se bem.

Se estas pessoas fossem estagiar a Oslo morriam de tédio. De véspera.

Por aqui. Há música por todos os lados. E as pessoas são felizes. Pelo menos parecem.

 

Uma colega minha.

Filha de pais japoneses.

Australiana de nascimento.

Holandesa no papel porque chegou com um ano de idade.

Descobriu que eu corria. E fez-se convidada.

 

Eu detesto correr acompanhada.

Em primeiro lugar porque tenho o meu ritmo próprio e enerva-me ter de correr mais devagar ou mais depressa.

A australiana japonesa iria correr devagar e cansar-se nos primeiros 5 minutos. Porque nunca correu na vida.

Em segundo lugar porque as pessoas falam. E eu gosto de correr a ouvir música selecionada por mim. E que me dê alento.

E, senhores. A japonesa australiana é palradora. Se é!

 

Tanto insistiu. Que eu, coração de manteiga de coco, aceitei.

Para a dissuadir marquei para as 7h da manhã de sábado.

Sim, foi hoje.

Pontual, a japonesa, australiana tocou-me à campainha às 7h da manhã.

Vasco resmungou. Estava a dormir. E era uma hora imprópria para se tocar campaínhas!

 

Começámos a correr.

E a trôpega da japonesa, australiana tropeçou. E agarrou-se a mim.

Não sei bem o que aconteceu, depois.

Só sei que foi épico.

Ficará para a história, como um dos mais espetaculares esbardalhanços que este planeta já viu.

Duplo mortal. Com dupla pirueta.

Tinha-me esquecido das asas em casa.

E pumba.

Não sei bem como. Aterrei de barriga para cima.

Senti um estalo na perna. E em seguida a dor mais forte que já tive na vida.

Foi horrível.

E claro fiquei ali. Estendidinha. Uma perna com o dobro do volume da outra. É óbvio que estava partida.

 

Vieram pessoas. Ajudaram.

A japonesa, australiana estava em pranto. Ligou para a mãe a pedir ajuda.

Chamaram uma ambulância e fui para o hospital.

Pouco depois apareceu a família toda da japonesa, australiana. Pai, mãe e dois irmãos. E ela própria.

Percebi que eram todos da mesma família. Para além, de terem feições japonesas. Eram faladores como o caneco.

Não percebi se falavam japonês ou holandês. Sei que falavam. Muito. E depressa.

 

Tinha dores. Mesmo, mesmo dores. De cortar a respiração.

Fui imediatamente atendida. Sempre com a família japonesa atrás de mim.

No hospital devem ter pensado que era filha do casal mas que teria sido trocada na maternidade.

Nunca me largaram. E aos meus gemidos correspondiam com festinhas na cabeça.

 

Fui tratada maravilhosamente bem. Pelos enfermeiros, médicos. Mas também pela minha nova família. 

Depois do raio x.

A maravilhosa notícia.

Perónio e tíbia.

Se é para partir. Que seja em condições. Dois ossos partidos. Apenas um gesso. Bem pensado, Joana!

Deus guarde o plantel do Sporting de tal coisa.

 

Não é possível continuar aqui desta forma. Eu e o cão.

Os meus pais chegam amanhã para me ajudarem no regresso.

Vou continuar o meu trabalho, em Portugal.

Seria preferível estar aqui, mas paciência.

Em Janeiro devo de voltar cá. Por uns dias.

 

Sempre ouvi dizer. Cuidado com aquilo que desejas.

Pois. A partir de agora tem outro significado.

Tanto desejei voltar a Portugal.

Voltarei sim, mas escangalhada.

O universo é mais ou menos como eu, às vezes tem um sentido de humor estrambólico. 

63 comentários

Comentar post

Pág. 1/3