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Quiosque da Joana

20.02.18

esta é a minha aldeia

Joana Marques

Quando era pequena.

Fui vezes sem conta ao Jardim Zoológico.

Adorava.

Vá se lá saber porquê, sentia-me em casa.

 

Um dia de manhã, ao pequeno almoço, percebi que se estava a acabar o Tulicreme.

Todo o dia. O dia todo. Na creche. Tinha 5 anos.

Pensei em chegar a casa o mais rápido possível para poder lanchar o Tulicreme. Com pão. Que a minha mãe era pouco dada a extravagâncias.

A minha irmã foi-me buscar. Depois das aulas dela.

E eu. Larguei a correr. Rua Ferreira Borges fora. Até atingir a porta do meu prédio.

Quando cheguei a casa. E entrei na cozinha.

Olhei. E lá estava o meu irmão. Lambuzado até à alma. Com Tulicreme até à medula.

Pedi à minha mãe. Para me dar dinheiro e ir à mercearia comprar Tulicreme.

- Não.

Pedi à minha mãe para ela ir à mercearia comprar Tulicreme.

- Não.

Apresentou-me as alternativas.

- Tens fiambre. Manteiga. Queijo. É só escolher. Tulicreme só amanhã.

 

Não comi. Fechei-me no quarto com uma birra do tamanho do jogo Tondela - Sporting. E chorei até não conseguir mais.

O Tulicreme tinha um papel muito importante na minha felicidade.

Limpei as lágrimas. E tomei uma decisão.

Peguei numa cesta que tinha no quarto. E enchi-a com tudo o que gostava.

Abri a porta do quarto.

Saí do quarto acompanhada com a cesta.

E....

- Mãe. Vou-me embora desta casa. Não gosto desta família.

A minha mãe apanhou  o choque da vida dela.

E quando se recompôs.

- E vais morar para onde?

- Vou morar para a aldeia dos macacos, no Jardim Zoológico.

A minha mãe respirou fundo. Estas minhas saídas tinham um grande impacto na minha mãe.

- Joana, espera pelo pai. Não te queres despedir dele?

 

Esperei. Sentada no sofá. Com a trouxa feita.

O meu pai chegou.

- Vê lá que a Joana quer sair de casa.

- Como assim?

- Diz que não gosta mais de nós. Diz que vai morar para a aldeia dos macacos.

O meu pai escangalhou-se a rir.

O meu pai chorou a rir.

O meu pai perdeu as forças a rir.

 

E o riso dele era contagioso e eu tive de me rir também.

Desde esse dia. Sempre que me chateio com qualquer coisa. Alguém diz:

- Olha lá, quando é que vais para a aldeia dos macacos??

- Sai daqui. Vai para a aldeia dos macacos!

- És tão chata. Porque raio ainda não foste para a aldeia dos macacos?

É uma piada nossa. Aqui de casa.

 

Hoje. Cheguei muito cedo a Portugal.

Fui a casa dos meus pais.

O Vasco recebeu-me daquela forma estouvada que só ele recebe.

E a Alice recebeu-me com um sorriso aberto.

Peguei neles e fui para casa. Iniciar, novamente as rotinas.

No carro. Percebi que estavam os dois eufóricos.

Em casa tive a certeza.

Parecia que tinham levado uma injeção de caramelo. Eufóricos mas doces.

 

Quando estava a mudar a fralda à Alice. E a deitei na minha cama.

Passou o Vasco e roubou um toalhete.

A Alice riu que nem uma perdida.

 

Voltei à tarefa.

Não sei como. Nem porquê. Passou outra vez o Vasco e roubou outro toalhete.

Deitei-lhe um olhar assassino.

A Alice ria que nem uma desvairada.

 

Mudei os toalhetes de sitio.

Não sei como. Nem porquê. O cão subiu para cima da cama. E saltou para o chão.

A Alice ria...sem parar.

Eu em desespero.

 

De repente. mais rápido que a própria sombra. O Vasco roubou os toalhetes.

Pedi os toalhetes.

- Vem cá buscar.

- Dá-me os toalhetes.

- Nhanhanha nha...eu tenho os toalhetes.

Fui a correr atrás dele. E ele largou os toalhetes.

A Alice...ria tanto. Que a levantei. Tive medo que sufocasse.

 

Rápido como uma flecha saltou para cima da cama.

Abocanhou uma bisnaga de creme.

Que rompeu. E sujou o cão. A colcha. O tapete.

A Alice deslumbrada. E a rir-se...

 

Eu. Passei a noite toda a viajar.

Com mil e uma coisas para fazer.

Só queria mudar a fralda à Alice.

Brincar com ela. Até ela dormir a sesta da manhã. Para eu poder despachar trabalho.

- Ai que dia bom para fazer a mala e ir para a aldeia dos macacos.

Pensei eu. Alto.

 

O Vasco ouviu. Mas deve ter interpretado de outra forma.

Rápido.

Muito rápido.

Extremamente rápido.

Saltou para cima da cama.

Abocanhou uma almofada. Que rompeu.

E penas. Muitas penas. Por todo o quarto.

A Alice devia achar que estava num filme. Olhava deslumbrada para as penas. E delirava.

 

 

"Se não os podes vencer junta-te a eles"

Penas. Divertido e libertador.

Resolvi brincar também. Rir-me com eles. E divertir-me.

 

 

Porque....

....esta é a minha aldeia.

Estes dois. São a minha aldeia.

Nesta aldeia há dias bons e dias menos bons.

Bons e maus momentos.

Mas é o amor que nos une.

E a vontade de estarmos juntos.💚

 

A minha aldeia tem um Quiosque.

Na rua principal.

Por lá passam muitos amigos todos os dias.

Também vocês, são a minha aldeia.

Obrigada!

💚

 

 

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