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Quiosque da Joana

29.06.18

mentir é humano. Não é?

Joana Marques

Ontem recebemos a visita da minha tia Luz e do meu tio José.

Almoçaram cá.

Aproveitei para usar frescos da minha horta. 

A explodir de orgulho dei-lhes a comer um creme de cenoura. Maravilhoso.

Um prato com porco preto alentejano com legumes assados. Todos da minha horta.

Para sobremesa fiz um pão de ló da avó Adélia. E um grão Vasco.

 

O cão esteve sossegado.

Antes deles chegarem e para não criar roubos desnecessários dei-lhe o dobro da ração diária.

Esteve dormitando o tempo todo. E lá se levantou para ver as vistas e pouco mais.

Este cão com a barriga cheia é um amor.

 

A Alice esteve muito bem.

Sorridente.

Comeu connosco. Na sua cadeirinha.

Foi comendo sozinha. Demoradamente.

Ia falando, falando connosco. 

Muitos olás. Muitos mamãs. E tudo o resto...

Vou ver se não me esqueço de pedir ao tradutor do Google que acrescente "Alicês" à lista de idiomas.

Dava-me jeito.

Como é que eu argumento com quem não percebo???

 

Toda a minha família está avisada:

- Nada de dar presentes à Alice, por dar.

Se eu vos contar que os meus amigos mal anunciei a chegada da Alice nos presentearam com tudo o que tinham dos filhos com a garantia:

- Fica com tudo. Não devolvas. Não vou ter mais filhos.

Tenho sacos por abrir em casa.

Brinquedos para uma vida inteira.

E roupa...

...praticamente ainda não comprei roupa à Alice.

Uma sorte, eu sei!

Com este panorama. É preciso alguma coisa?? Não!

E os avós, os tios, os tios avós, os primos e os sobrinhos? O que fazem?

Presentes. Atrás de presentes.

 

- Isto não é nada, Joana. É só uma gracinha para a menina.

Quando olhei tive logo um mau pressentimento.

Era uma espécie de corneta.

Ainda pensei:

- Pode ser que a miúda não perceba que se tem de soprar lá para dentro.

- Ou que o cão lhe roube a corneta.

- Logo hoje que lhe enchi a barriga e está demasiado pesado para roubar brinquedos... 

 

Mas...

.....o meu tio José. Ensinou-lhe.

- Obrigada, tio Zé! De coração....

 

Logo a seguir ao almoço, Alice experimentou.

Alice soprou.

Alice gostou.

Consta que pelas redondezas, os pássaros emigraram para Marrocos.

Os ratos suicidaram-se nas caves.

Os porcos ficaram azuis.

As vacas pariram antes do tempo.

E Vasco guinchava baixinho. Com uma digestão daquele tamanho custa emitir sons. Quanto mais alto.

 

Eu olhava para o Pedro. O Pedro olhava para mim. E sorria.

Os meus tios estavam embevecidos com a miúda.

- Tão novinha e já tão decidida!

 

A Alice não quis dormir a sesta. Acontece muitas vezes quando sai um pouco da rotina.

Basta ter gente em casa diferente do habitual e fica com os horários todos baralhados.

Os meus tios lancharam.

A Alice lanchou mas já dava sinais de sono. E por isso já não comeu como devia.

Por ter sono. E pela corneta. Com a boca cheia não dá para soprar.

E antes a corneta. Que a comida.

 

Os meus tios saíram.

E a corneta. Sempre a corneta.

Dei-lhe banho. Com a corneta. 

Jantou. Com a corneta.

Deitei-a. Abraçada à corneta.

- Alice, não podes dormir com a corneta, vou pôr aqui, está bem.

Ela chorosa, levantou-se da cama e viu a corneta em cima da mesa. E lá se conformou.

Adormeceu.

 

 

Os meus tímpanos estavam de mala feitas.

Abriram a porta. E quando tinham um pé cá fora. Já na rua. O meu cérebro teve uma ideia.

A minha boca. Disse ao Pedro.

- Pedro, temos de nos livrar da corneta.

- Como?

- Não sei bem. Quando eu era miúda e os meus pais me quiseram tirar a chucha disseram-me que um cão a tinha comido. E eu acreditei.

- O Vasco? Comeu a corneta?

- Não. Não posso fazer isso ao Vasco. Estou a pensar no Onofre!

- O Onofre?

- Sim, o Onofre comeu a corneta.

- Quem é o Onofre?

- Ó homem, o Onofre é o burro do Sr. Alberto. Aquele que ela quer ir ver todos os dias.

O Sr. Alberto mora aqui perto. Tem porcos. Vacas. Galinhas. Patos. E um burrinho, o Onofre.

Quando subimos à varanda aqui de casa conseguimos ver o Onofre ao longe. E todos os dias a Alice me convida a ir à varanda ver o Onofre.

- Não sei se tenho coragem de lhe dizer.

- Eu dou-lhe a má notícia e tu tens "a" conversa com ela. Aquela sobre os bebé...daqui a uns anos. Fica combinado. Não me vou esquecer!

 

A Alice acordou hoje de manhã.

Olhou para cima da mesa. Nada de corneta.

Olhou para todo o lado. Nada de corneta.

- Alice. O burrinho Onofre comeu a tua corneta.

Não sei se percebeu ou não. Acho que percebeu que a corneta tinha desaparecido.

Peguei-lhe ao colo. E subi até à varanda. E apontei para o dito cujo. Inocente.

- O burrinho veio cá de noite e comeu a corneta.

O Pedro saiu da varanda. Deve ter percebido que há menos de 15 dias casou com uma aldrabona. Incriminadora de burros.

A Alice estava meia aparvalhada. E só dizia:

- Mamã, mamã...

- A mamã estava a dormir e só o vi ao longe a fugir com a corneta.

Não sei se ela estava a seguir a história ou não. Provavelmente só percebeu que a corneta desapareceu e ir ver o burro foi uma manobra de diversão da minha parte.

Descemos.

O Pedro já tinha feito o pequeno almoço dela.

Comeu bem.

E a seguir foi brincar com os brinquedos aprovados pelo lápis azul aqui de casa.

 

A corneta está guardada no sótão.

Quando ela tiver o primeiro filho vou-lha oferecer. Contar-lhe a verdade.

E ela logo vê se lha dá.....ou incrimina o Onofre do momento.

Se ela fosse mais velha tinha tentado resolver o assunto pela via diplomática.

Explicar-lhe porque raio é que não devia usar a corneta.

Se não fosse eficaz. Tentava a via do:

- Eu é que mando. E não se fala mais nisso. Vai ter com o teu pai que ele conta-te como são feitos os bebés.

Desta idade não me lembrei de nada melhor. E que funcionasse...

...mentir é humano. Não é?

....mentir é aceitável? Tenho dúvidas...

 

.....não me orgulho nada, nada do que fiz.

Mesmo nada.

Digam lá quiosquianos, que tudo sabem.....

Como é que costumam resolver este tipo de questões?

 

 

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Joana Marques

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