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Kiosk da Joana

Kiosk da Joana

não preciso de 5$00 na algibeira...

20.04.19, Joana Marques

 

- Quem é a miúda mais gira de Portugal Continental, Madeira e Açores incluídos, Europa, Ásia, passando como não quer a coisa pelas ilhas Togo com paragem obrigatória na Lua???

- É a iiiiiiice.

Responde-me a Alice com um sorriso do tamanho do mundo.

 

Lembro-me de mim.

Um pouco mais velha do que a Alice.

Da Páscoa. No Alentejo.

Da minha avó. Do meu avô. Dos folares e do cheirinho que davam à cozinha.

Das histórias. Muitas vezes à lareira que a Páscoa às vezes era fria.

- Vó conta-me a história do dia em que conheceste o avô!

- Conto! Mas vai lá primeiro vestir o pijama. Vai, se queres que te conte a história, voa até ao quarto e veste o pijama.

E eu voava. Vestia o pijama. Descia as escadas à pressa e aterrava no colo do meu avô.

Aninhava-me. E esperava pela história. 

 

Ao meu colo. A Alice.

Atira-se para trás a rir às gargalhadas.

Os caracolitos louros tapam-lhe a cara, com o impulso que dá ao corpo. 

- Quem é a bebé mais gira de África, Europa, passando pela Tailândia e dando a volta pelas Américas???

- É a Maiiiiiaaaaana!

Grita o nome da irmã, para o logo de seguida tapar a boca. A irmã está a dormir e não a quer acordar. Durante a tarde correu atrás da Gabi pelo quintal. Entrou em casa. Saiu outra vez. E a irmã sempre a dormir. 

Põe o dedo na boca e avisa-me para não fazermos barulho.

 

A minha avó começava.

Mais uma vez.

Vezes sem conta.

Nunca se cansava. De repetir. O dia em que a sua vida mudou.

- Foi o meu dia de sorte. Parecia um dia igual ao outros mas não. Vê lá tu que passei muito cedo por Portalegre ainda toda a gente dormia. Fui buscar uns queijos a casa da minha prima Natividade. E à porta da taberna encontrei 5$00. 

- E foi aí que viste o avô pela primeira vez??

- Não. Guardei o dinheiro. Fui buscar os queijos e fui para casa dos senhores.

- Quando é que o viste pela primeira vez??

- Calma! Deixa-me contar como deve ser.

E eu aninhava-me cada vez mais nos braços do meu avô. Quase não se via a Joana. Pequenina e magricela ao colo daquele homem enorme.

 

Abraçada a mim. 

Põe as mãozitas na minha cara.

Foi assim que um dia me chamou mãe pela primeira vez.

Diz qualquer coisa e eu não percebo.

E continuamos a brincadeira.

- Quem é o pai mais espectacular e giro à face do planeta Terra, visitando Marte, dando uma voltinha em Mercúrio e aterrando em Plutão?? Quem é???

Ela sabe todas as respostas certas!

- É o Peeeeeewooooo!

E aponta para ele e riem-se um para o outro.

 

A história continuava.

- Chegaste a casa e depois?

- Fui trabalhar. Fui para o campo até que fui chamada lá a casa para lavar a loiça do pequeno almoço, ajudar a fazer o almoço e limpar a cozinha. Foi quando eu estava a limpar a cozinha que vi o teu avô pela primeira vez. Tinha chegado de Lisboa e ainda não tinha almoçado e vinha à procura de comida. 

- E depois?

- Depois a tua bisavó apareceu e disse-lhe que ali não era lugar para ele, que esperasse na sala!

- Ele não podia ir à cozinha?

- Não! E eu não podia ir à sala! Era empregada da cozinha não tinha autorização para sair de lá. Mas nesse dia fui porque não havia mais ninguém para lhe servir o almoço. 

 

Está agora mais quieta.

Deixou de baloiçar no meu colo.

Passa os bracitos pelos meus.

Fica calada e olha para mim. À espera.

- Quem é o dono disto tudo? O cão mais maravilhástico do mundo. O cão mais incrível de Portugal e dos Algarves! De todas as selvas. Pradarias. Planícies. E montanhas! Quem é ele??? O fantástico, inigualável cão??? Quem é..

A Alice ri-se à gargalhada e diz:

- É o Asssssco.

E aponta para o cão que abana a cauda e vem até nós devagarinho mostrar que também gosta de nós.

 

 

- E depois?

- Depois eu servi-lhe o almoço. Quase não falámos. No dia seguinte estava à minha espera de manhã. A partir daí, todas as manhã nos víamos, às vezes mal falávamos. Sempre às escondidas, ninguém nos podia ver. Até que um dia foi falar com o meu pai. E passados dois meses casámos. 

- A tua avó sempre disse que ia ter 5 filhos pelos 5$00 que encontrou nesse dia.

Respondia o meu avô a rir.

- Em que é que gastaste o dinheiro? Perguntava eu cheia de planos...

- Nunca gastei os 5$00. Não preciso de 5$00 na algibeira. Os meus 5 são a minha riqueza. Sinto que tenho uma mão cheia de tudo. De tudo! E quem tem tudo não precisa de nada.

- Hummmm. Então se o pai e os tios são os escudos. O que é que eu sou???

- Tu e os teus primos são os nossos centavos!!

Dizia o meu avô a rir.

- Não! Não! Não quero ser centavo! Quero antes os 5$00 para comprar uma pastilha gorila!!

 

- Quem é a cadelinha mais querida deste mundo!

Mais gira. Mais louca e barulhenta que existe à face da Terra???? Quem é...

Sorri. Sorri muito. E responde com uma voz de mel...

- É a Babiiiiiiiiiiiii.

 

Ouvia a história até ao fim sossegada.

Tinha o nariz no pescoço do meu avô. E fingia estar meia adormecida.

Se ele achasse que eu estava a dormir ia pegar em mim ao colo, subir as escadas, deitar-me na cama e dar-me um beijo na testa. Eu fingia. Porque gostava que ele me levasse. 

- Esta miúda é um esqueleto. É só ossos!

Dizia o meu avô para a minha avó enquanto se levantava comigo agarrada ao seu pescoço.

 

Agarrada a mim.

A Alice. Calada. Quieta.

O narizito colado ao meu pescoço.

Com os olhos fechados. Eu sei que ela não está a dormir.

Mas não digo mais nada.

Ficamos assim.

Eu e ela. 

 

A minha avó guardou como amuleto desde o dia que conheceu o meu avô a moeda que encontrou.

Não era a original.

Dizia ela que às vezes numa emergência de trocos a ia buscar e repunha-a logo que conseguia. Nunca nos disse onde estava.

Mas toda a gente sabia que a tinha.

Um dia ofereceu a todos os filhos uma moeda de 5$00.

Não pelo valor mas pelo significado.

Há uns anos o meu pai deu a dele à minha irmã, a filha mais velha.

Eu e o meu irmão também tivemos direito a uma.

Quando herdei a casa no Alentejo.

Encontrei a moeda da minha avó dentro de um bule numa cristaleira antiga.

E dei-a à Alice.

Quando o Pedro me pediu em casamento ofereci-lhe a minha.

Convenhamos! Estar casado comigo é muito exigente. O homem ia precisar de sorte e de um canal aberto para falar com Nossa Senhora dos Aflitos!

Quando a Mariana nasceu o Pedro ofereceu a moeda à filha.

 

Não preciso de 5$00 na algibeira.

Sinto que tenho uma mão cheia de tudo.

De tudo!

E quem tem tudo não precisa de nada.

 

 

Queridos amigos. Desejo-vos uma Páscoa.

Com uma mão cheia de tudo.

De tudo!

Porque quem tem tudo, não precisa de nada. 

 

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