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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Não são especialmente bons. São só especiais.

24.12.18, Joana Marques

A minha avó perdeu a mãe no dia em que nasceu.

Foi criada pelo pai e pelo irmão mais velho.

A vida era a vida. Só a vida. Sem sonhos. 

O dia era trabalhar de sol a sol. Para conseguir sobreviver até ao dia seguinte. E começar tudo de novo.

O Natal era quase um dia igual aos outros. 

Quem tinha mãe era diferente. Era difícil mas não tão mau. Dizia-me ela.

- Tive sorte!

Disse-me ela muitas vezes. 

- Nunca tive o sapatinho vazio na manhã de Natal!

Todos os Natais a minha avó deixava o sapatinho na lareira.

A tia, irmã da mãe. A tia Aurora nunca se esquecia dela. E todos os Natais passava lá por casa muito cedo deixava um bolinho embrulhado num paninho dentro do sapatinho.

Todas as manhã a minha avó acordava mais depressa que nos dias anteriores.

Mais depressa que nos dias seguintes. Corria até à lareira e lá estava ele. O bolinho do Natal.

 

Desde que me lembro de ser gente.

Todos os dias de Natal.

Depois da missa.

Eu e os meus primos.

Recebíamos um bolinho igual aos que a minha avó tinha recebido quando era pequena.

A única prenda de Natal que teve na vida.

Embrulhado num paninho. Com um fio verde à volta, a segurar o paninho.

Também dava às noras e aos filhos. Ao meu avô. E ela também tinha o dela.

No final do almoço desembrulhávamos. E comíamos o bolinho.

Não era especialmente bom. Era só especial.

 

Na semana passada estive no Alentejo.

Ainda ando a descobrir a casa. O sótão.

Descobri numa gaveta de um armário do sótão um livrinho de receitas.

A minha avó era analfabeta. Não usava livro de receitas.

Abri-o.

A letra era do meu avô.

Algures no tempo a minha avó deve ter obrigado o homem a escrever as receitas todas.

Até me ri ao imaginar a cena.

A minha avó era mesmo assim, mandona! Mandava no meu avô que era uma beleza...

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Já os fiz.

Já os provei.

Estão iguais aos da minha avó.

Não são especialmente bons. São só especiais.

 

Esta altura é sempre agridoce, para mim. 

Adoro o Natal. Adoro estar com toda a gente que gosto.

Mas...

....sinto saudades. Dos meus avós.

Dos meus padrinhos. 

De amigos meus que partiram cedo demais...

....

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