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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

nem pelo maior palácio do mundo...

15.08.19, Joana Marques

Cresci em Campo de Ourique. Lisboa.

Hoje não será tanto assim mas na altura Campo de Ourique era uma aldeia dentro da cidade.

Todos nos conhecíamos. E os vizinhos eram como se fossem família.

No prédio ao lado ao meu vivia um casal mais ou menos da idade dos meus pais que tinha um filho um pouco mais velho que o meu irmão (eram inseparáveis) e uma filha mais velha que eu dois anos, a Ana que nós carinhosamente chamávamos Aninhas.

 

A Aninhas e o irmão acompanhavam-nos muitas vezes em férias, fins de semana e o contrário também acontecia. Eu e o meu irmão também os acompanhávamos em visitas ou algumas viagens.

 

Um dia. Tinha uns 5 anos, talvez. 

Cheguei a casa com o meu irmão de uma dessas tardes passadas com esses vizinhos.

Semblante carregado. Ameaçava chorar.

Desfiz-me quando o meu pai abriu a porta de casa.

Atirei-me para o tapete. Como se tivesse sido mordida por uma víbora e estivesse a poucos minutos de falecer.

A minha mãe apareceu, alarmada por tamanha algazarra.

O meu pai conhecia-me de ginjeira e aguardou um pouco pelo desfecho de tal agonia.

 

- O que é que se passa? O que é que se passa? 

Perguntava a minha mãe. Em choque e em aflição.

O meu irmão encolhia os ombros.

- Não sei. Começou a chorar mal chegou a casa. Foi mesmo agora...

 

O meu irmão. Rapazinho sensível e querido. #sóquenão

Cutucava-me com o pé e dizia-me:

- Olha lá estás parva!! Nem te empurrei das escadas! Estás a chorar porquê??

- Tiago! O que é que fizeste à tua irmã!!??

Com esta de negar que me tinha empurrado das escadas denunciou algo que os meus pais não sabiam. Desgraçou-se. 

Estava inocente. E desgraçou-se.

Começou ali assim, um bate boca entre a minha mãe. 

E o meu irmão.

Pobre Tiago! Logo naquele dia que até se tinha portado bem.

 

O meu pai com toda a sua infinita paciência tomou conta da ocorrência.

Pegou em mim. Levou-me para sala e eu lá disse o que me ia na alma.

- Eu não quero morar nesta casa!

- Desculpa??

- Eu não quero morar nesta casa. 

- Essa agora! Queres morar onde, então?

- Quero morar na casa da Aninhas!

- A casa da Aninhas é dos pais dela, é mesmo aqui ao lado, vocês estão sempre juntas, achas que há necessidade de morarem juntas??

- A casa da Aninhas é muito maior que a nossa! Eu quero morar na casa da Aninhas....pode ser com vocês...

A minha mãe...

- Não é nada! A casa da Aninhas tem menos dois quartos que a nossa! A Aninhas partilha o quarto com o irmão! 

- Não! Não! Não é a casa da Aninhas aqui do lado. É a casa grande da Aninhas! Eu quero ir morar para a casa grande da Aninhas!! Com vocês...e tudo!

- A casa grande da Aninhas??? Qual casa grande da Aninhas?? Vai lanchar....anda! 

Eu, a muito custo. Com uma dor daquelas grandes na alma....fui lanchar.

Numa cozinha sem graça nenhuma. Numa casa sem graça nenhuma.

A casa grande da Aninhas é que era.....

 

No dia seguinte a minha mãe encontrou a mãe da Aninhas na rua.

A mãe da Aninhas:

- Ontem levámos os miúdos ao Palácio de Queluz. A Joana foi o máximo! Dançou no salão nobre com um funcionário do Palácio e adorou os jardins.

Fez-se luz na cabeça da minha mãe.

Realmente a nossa casa comparada com o Palácio de Queluz era ....

...incomparável!

 

Bastantes anos depois. Muitos anos depois.

A minha empresa fez um daqueles almoços de empresa no Palácio da Pena.

O almoço era servido cá fora mas tínhamos visita guiada ao interior do palácio.

Ao olhar para os tectos só pensava:

- Nunca mais vou ser feliz em minha casa. Como é que é possível viver e ser feliz sem um tecto trabalhado. E um candelabro verde e outro de cristal!

Os meus colegas estavam concentrados nas iguarias e na conversa. E eu só pensava nos tectos do Palácio!

 

Ontem.

Depois de uma passeata grande.

Chegámos a casa.

Despachámos os banhos. Os jantares. As histórias ao deitar.

Quando, finalmente nos sentámos no sofá diz-me o Pedro.

- Adoro esta casa! Nunca me senti tão bem, tão confortável numa casa...

Lembrei-me dos tectos da Pena.

Olhei para os meus tectos. Nus. Com candeeiros simples. 

Encostei-me ao Pedro. E disse-lhe...

- Não a trocava por nada! Nem pelo maior palácio do mundo...

 

....porque esta casa é mais do que uma casa.

Muito mais...

 

Há três anos no Quiosque!

Eu a falar de rins....ainda sem consulta marcada!

 

Há dois anos no Quiosque!

As bolachas da minha vida!

Se trocarem a farinha de grão por farinha de aveia ficam igualmente boas.

Palavra de Joana, a mulher que tem dentro da barriga 4 rins! Só por causa das coisas....

 

Há um ano no Kiosk!

Nunca te esqueças de ti...

....para quem quer um seguir um caminho mais saudável mas está com algumas dificuldades.

Quem já passou por isso pode ajudar...

 

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2 comentários

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    Pedro Rebelo

    15.08.19

    Também são os que mais gosto de ler!
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