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Quiosque da Joana

12.08.18

O consultor...

Joana Marques

Nasci em Lisboa e vivi em Lisboa até aos 20 anos.

17 anos em Campo de Ourique. E o restante no Campo Grande.

Alfacinha de gema.

Corri o risco de ficar como aquelas pessoas que não sabe bem de onde vem os ovos.

Definitivamente não saem de dentro da galinha ou seria nojento. Devem ser feitos numa fábrica lá para os lados de não sei bem...

 

Os meus pais não deixaram.

Os meus avós também não. Sobretudo a minha avó.

As férias que eu passava no Alentejo contribuíram e muito para não me tornar numa Alfacinha mete nojo.

Andava entre a água da rega e as couves. Tomava banho de mangueira.

Sujava-me. Toda!

Ia apanhar rãs ao riacho e depositava-as no tanque da minha avó. Ainda hoje não há melhor som do que acordar ao som dos passarinhos e do coaxar das rãs.

Era picada por melgas, mosquitos e por vespas. Era alérgica. Era o diabo.

No verão as minhas sardas explodiam.

Ficava bronzeada sem ter ido uma única vez à praia.

O bronze confundia-se com a sujidade. E a sujidade com o bronze.

A minha mãe esfregava-me as pernas no banho e como deixava de sair sujidade concluía que era do sol.

Tão bom! Melhor que as Caraíbas!

..

 

Ao bronze juntava-lhe nodoas negras. Pouco negras, mais roxas. E galos na cabeça.

Rompia os joelhos vezes sem conta. Rompidela por cima de rompidela. Quando se é criança nada dói....

...só o ter de ir para a cama e deixar de brincar.

Ao domingo era um sarilho.

Vestir-me para ir à missa era um desafio!

- João, já olhaste para a Joana. As pessoas ainda vão pensar que lhe batemos.

Parecia que tinha apanhado uma sova de cinto, mas não. Só tinha vivido à grande durante a semana.

No Alentejo rebolava no pó.

E na palha que estava no celeiro. 

Adotava todo o tipo de bicho. Desde formigas, caracóis, gatos e rãs...

Comia morangos diretamente da planta. Comia tomates como quem come maçãs.

Comia figos até rebentar. E ameixas da ameixoeira lá do fundo. As ameixas perto de casa não eram lá grande coisa.

Subia às árvores e como não sabia descer atirava-me cá para baixo.

No tempo das cerejas comia cerejas e caroços.

E ficava aflita durante uns dias...

- E se me nasce uma cerejeira na barriga??? Como é que vai ser....

30 anos depois tenho algo a crescer na barriga mas não se pode adjetivar de cerejeira...

 

30 anos depois. Este pedaço de Alentejo é meu.

E tive vontade de voltar atrás. Retomar a horta da minha avó. No mesmo local. 

É um desperdício ter terra e não fazer nada. E não só....

...eu tive uma infância tão boa. Tão feliz. Quero fazer o mesmo pelos meus filhos ou filhas....

 

Desde que fiquei com a casa a ideia foi tomando forma na minha cabeça.

Coincidiu com o aparecimento da Alice.

Não quero que ela fique uma criatura citadina com medo de escaravelhos.

Fazer um escândalo sempre que vê uma lagartixa...

A miúda é muito rosa e vaidosa...vamos ver o que é que eu consigo fazer daqui.

 

Antes do Pedro existir. 

O homem não nasceu em Março. Já existia.

Antes do Pedro existir na minha vida, já eu andava com estas ideias.

E a tentar perceber onde é que podia adquirir conhecimento.

Tive sorte, porque o Pedro também é curioso. Gosta de aprender. E vibra tanto quanto eu quando percebemos que conseguimos ter simultaneamente courgettes normais mas também redondas!

Joana e Pedro. Os mete nojo do Campo.

Geeks. Nerds. Da courgette normal e redonda. Do tomate. Da alface. Dos brócolos. Dos melões e das melancias.

 

TANTO TEMPO! TANTO TEMPO, SENHORES!

Que eu passei a assistir aquelas aulas de programação orientada por objetos.

Não teria sido mais útil o ISCTE ter pegado em mim e dito:

- Joana, isto não é para ti! Vai lá estar um mês com o Tio Luís e aprende a fazer alguma coisa de útil!

Isto sim, tinha sido de valor.

 

Luís. Luís Marques.

Conhecido por tio Luís do Casão.

Porque se chama Luís e porque mora num sitio que se chama de Casão...não sei bem porquê.

Tio Luís era primo da minha avó Maria.

Também é meu primo mas eu chamo-lhe tio. 

Tem quase 90 anos e sempre o chamei tio.

Tio Luís do Casão é o meu consultor para a área da agricultura.

Tem me ensinado, aos poucos, que eu não vou para nova e assimilar uma nova disciplina é sempre complicado.

Foi ele que me deu as sementes. Em frasquinhos.

Como é analfabeto não escreve o nome nos frascos. Desenha em cada frasco o tomate, a melancia ou o feijão.

- Estas, Joana! As de Lisboa não chegam aos calcanhares destas...devolve-me os frascos. Fazem-me falta!

Temos um sistema de rega automática mas tio Luís passa pela horta muitas vezes, para ver se está tudo bem.

Quando chego ao Alentejo está tudo fresco.

Quando vê que as coisas se vão estragar, colhe e guarda no frigorífico dele. E depois dá-nos quando aqui chegamos.

Já lhe disse muitas vezes para ficar com as coisas ou dar a quem achar que precisa.

Ele diz que sim que o faz. A verdade é que quando aqui chegamos temos sempre muita coisa à espera.

Foi ele que me convenceu a semear feijões.

- Toma lá estes feijõezinhos. Deita-os na terra...são bons!!

Na altura ainda não comia feijões.

Aceitei por educação.

Não os semeei. Ficaram por aqui, dentro de um armário.

Um dia acordei cedo e vi o frasquinho a olhar para mim.

Larguei as sementes na terra.

Nasceram.

Cresceram.

Fizeram-se feijoeiros.

O tio Luís ligou-me um dia destes.

- Quando é que vens? O feijão já se pode apanhar....

Na sexta-feira, eu e o Pedro fizemos o gosto ao dedo.

Apanhámos os feijões. Uma parte deles.....

Tirámos uma foto só para marcar o momento!

E fizemos uma sopa com eles. A sopa estava mesmo boa mas pode ter só sido impressão nossa...

...coisas de mete nojos do campo. Geeks. Nerds.

 

Eu sei que sou suspeita! 

São lindos, estes feijões!

Ou é só o coração de mãe a falar??

 

 

10 (8) (5).JPG

 O meu consultor!!

O melhor de todos!

 

 Há dois anos no Quiosque!

Trabalhava em Lisboa para uma empresa portuguesa.

Entretanto privatizada e vendida a uns franceses.

As saudades que eu tenho de trabalhar lá.

Da minha equipa.

Do meu chefe.

 

Há um ano no Quiosque!

Um brinde à generosidade dos "colegas" do Sapo.

Aos leitores do Quiosque.

E também ao Sapo, o melhor senhorio de sempre!

 

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Joana Marques

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