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Quiosque da Joana

25.12.17

o meu presente. É o mais belo de todos...

Joana Marques

A minha bisavó Maria. Mãe da minha avó Maria. Era alentejana.

Muito pobre.

Começou a trabalhar muito jovem em casa de uns senhores. Abastados.

Os senhores moravam em Lisboa. Mas iam passando pelo Alentejo. Grandes temporadas.

 

A minha bisavó começou por trabalhar no campo.

E mais tarde. Quando tinha 14 anos foi posta a trabalhar na cozinha da casa grande.

Não podia entrar na sala. Nem nos quartos. Saía da cozinha para a rua. Sempre pela porta de trás.

Era proibido vaguear pela frente da casa grande. E ser vista pelos senhores.

Nem os conhecia sequer. Só ouvia falar deles.

Um dia. Há muito tempo atrás. Uma chávena. Estalada. Foi deitada fora. Os senhores não a queriam mais.

Maria, a minha bisavó. Pegou na chávena.

E a governanta da casa. Uma boa mulher. De sua graça, Luísa. Perguntou-lhe se a queria.

Respondeu que sim.

E levou-a para casa.

Os anos passaram. E todos os dias, Maria bebeu o seu café por ali. Embora estalada. A chávena era o melhor que tinha.

 

Um dia, quando tinha 17 anos, conheceu Francisco. O meu bisavô. Casou com ele pouco depois.

Também Francisco trabalhava nos campos. Dos senhores.

Passado um ano. Nasceu o primeiro filho.

E um tempo depois. Maria a minha avó.

A minha bisavó morreu no parto.

E a minha avó Maria ficou aos cuidados do pai e do irmão.

Também ela foi parar à casa grande. À casa dos senhores.

A minha avó Maria. Casou com Joaquim. Um dos filhos dos donos da casa grande.

Ironia, das ironias. Herdou um dos negócios do pai. E também a casa. E os campos. Do Alentejo. E as chávenas todas da casa.

 

Desde que me lembro de ser gente. Que via. Todas as manhãs. A minha avó, beber o seu chá de cidreira, pela chávena.

Era, eu pequena e insignificante. E não percebia porquê.

- Vó, porque não compras uma chávena com a abelha Maia?

- Porque, esta chávena é a única recordação que tenho da minha mãe.

E assim me calou. Mas não me convenceu.

Se a chávena da abelha Maia era muito mais gira.

Eu tinha duas.

Podia-lhe dar uma e tudo.

Porque raio é que insistia em beber o chá naquela chávena velha e estalada. Nem bonita era.

 

Ontem. O meu amigo secreto. Foi o meu pai.

Passou-me um embrulhinho para as mãos.

- Tem cuidado. É muito frágil.

 

E quando desfaço o embrulho. Vejo a chávena. Que deu de beber à minha bisavó. E à minha avó.

E só consegui pensar. Em como sou uma privilegiada. Por ter agora em meu poder um tesouro tão precioso.

O meu presente é o mais belo de todos. Por tudo.

 

Representa a vida. As voltas. E cambalhotas que dá. E as escolhas. Sim. As nossas escolhas...

 

chavena1.jpg

 

 

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