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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Ó Rosa arredonda a saia...

07.10.18, Joana Marques

A mãe tinha uma grande paixão por rosas.

Tinha roseiras de todas as cores. 

Cuidava delas como quem cuida de um recém nascido.

- Se for uma menina vai ser Maria Rosa.

E foi. Nasceu uma menina. Mas só se chamou Maria.

O pai ficou atordoado com a morte da mulher. E pediu a um vizinho para registar a recém nascida.

- É Maria. Maria Marques.

E Rosa ficou perdida no tempo.

A menina cresceu. Sem mãe. Educada pelo pai e por um irmão mais velho.

Herdou da mãe o gosto por rosas.

Em casa. No pedacinho de quintal que tinham havia sempre rosas.

O pai reclamava. 

- Um dia destes arranco tudo. Para quê ter terra ocupada com isto.

Por mais que reclamasse nunca tocou numa roseira que fosse.

 

Os dias de Maria eram cheios. Nunca foi à escola. Mas trabalhava de sol a sol.

Aos 6 anos, começou a trabalhar no campo.

Uma hora de caminho para lá, outra para cá. Até chegar a casa.

Chuva, Frio. Gelo. O que é que isso interessava?

Ninguém queria saber.

 

Aos dez anos. Ganhou um prémio.

Como era uma excelente empregada. Os patrões falaram com o pai dela.

A partir daquele ano, Maria iria passar todo o mês de Dezembro, no Ribatejo na apanha da azeitona.

Assim, foi.

Dos 10 aos 15 anos. Todos os Dezembros eram iguais. Passados numa terra estranha. Acompanhada de uma tia.

Os donos da terra davam-lhe arroz e feijão. O feijão era guardado para levar para casa. O pai ficava tão feliz quando ela lhe entregava o dinheiro do mês e o feijão poupado.

Comiam arroz com arroz. Ao domingo compravam uma sardinha. Que dividiam pelas duas. A minha avó era mais nova ficava sempre com a parte da cabeça.

Não sabia escrever. Mas escrevia sempre para casa. Pelo menos uma vez por semana.

Pedia a alguém para escrever a carta.

O pai não sabia ler. Mas lia sempre as cartas. 

Pedia a alguém para ler por ele. E pedia também para lhe escrever a resposta à carta.

- Como é que estão as roseiras do quintal?

Perguntava a minha avó.

- Como é que queres que estejam? Raça ruim. Não há meio, nem maneira de secarem...

A minha avó sorria quando ouvia a resposta do pai.

- Ele não gosta das roseiras diz ele. No fundo gosta e muito...

 

O inverno de Santarém. Frio. Chuva. Os pés molhados. A apanhada da azeitona.

Noites mal dormidas.

E um mês que demorava a passar.

Quando passava...

..tudo voltava ao normal.

Maria voltava ao Alentejo. Com o dinheiro que ganhou durante o mês. E uma sacola cheia de feijões.

Voltava. A trabalhar de sol a sol. Uma hora de caminho para um lado, outra hora de caminho para o outro.

 

Um dia chegava a primavera.

E com ela as suas rosas. E voltavam as memórias que não tinha. De ser Maria Rosa. E da mãe que nunca conheceu.

O que tinha certo na vida. Afinal estava errado.

Maria cresceu. E floriu. Fez-se mulher. Bonita. Meiga. 

Joaquim viu-a. 

Quis saber quem era. E nunca mais a largou.

O que estava errado. Fez-se certo. 

 

 

 

Ó Rosa arredonda a saia,

Ó Rosa arredonda-a bem!

Ó Rosa arredonda a saia.

Olha a roda que ela tem.

 

Cantava a minha avó.

Enquanto eu girava e andava à roda  até ficar tonta.

Só parava para lhe dizer.

- Ó vóoooo eu não me chamo Rosa. Eu sou Joana!

A minha avó pegava em mim e ria-se.

- Eu sei que és Joana. Achas que me esqueci? 

- Então porque é que cantas para a Rosa?

- Não é para a Rosa. É para nós. É pela minha mãe. 

 

 

 

Quando herdei a casa dos meus avós, em Dezembro do ano passado, quis encher o quintal de roseiras.

Voltei à casa dos pais da minha avó. 

Mora lá um sobrinho da minha avó. Perguntei-lhe se ainda por lá tinha roseiras. Roseiras da Maria.

Na primavera ligou-me a dizer que tinha um pé de roseira à minha espera.

Do vaso para a terra. Mesmo, mesmo ao lado de casa.

Sem grandes esperanças.

Mas...

...o errado fez-se certo.

Quando cheguei ao Alentejo tive uma surpresa.

A primeira rosa.

 

rosa (2).jpg

Ao longe ....

.....vindo da minha memória...

...voltei a ouvir......

...a voz da minha avó.... 

  

Ó Rosa arredonda a saia,

Ó Rosa arredonda-a bem!

Ó Rosa arredonda a saia.

Olha a roda que ela tem.

 

A minha avó nunca deixou de cantar no meu coração...

 

 

 

Há dois anos no Quiosque!

Uma outra flor...

Sakura!

Gosto tanto destas flores...

 

 

Há um ano no Quioque!

Não escrevi....

 

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