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Kiosk da Joana

Kiosk da Joana

o seu, a seu dono!

26.02.19, Joana Marques

Sou uma desgraça!

Às vezes. Nem sempre. Arrisco a dizer quase nunca. Caio na real.

E percebo que devia ser um bocado mais realista. 

Tenho uma natureza descontraída. Muito descontraída. Otimista. Muito otimista.

E acho que controlo tudo. Tudo. Tudinho.

É como dizer que a Mariana nasce em Março. Só em Março. E apenas em Março.

Uma arrogância da minha parte. Porque na verdade da minha parte não controlo nada.

Mas eu acho que sim. 99% das vezes, acho que sim.

 

Quando o Pedro sugeriu. Aulas de preparação para o parto.

O que é que eu respondi?

- Credo, homem. Não!

- Olha que eu acho que sim. Não só dominas algumas técnicas para pôr em prática na hora do parto como nos podem dar dicas importantes sobre outras questões.

O homem sendo médico dá-me algumas garantias. E eu sendo mãe da Alice também não vou propriamente ao engano. Embora seja diferente. A Alice já cá chegou fresca e fofa! 

O homem tanto insistiu. Eu lá disse que sim.

Tinha-lhe sido aconselhado por um colega, era a mulher dele, enfermeira que dava as aulas.

O colega tinha feito a nossa inscrição.

Eram várias sessões e nós apanhámos o curso a meio mas o colega do Pedro disse que depois podíamos apanhar as sessões que nos faltavam de outro curso e ficaríamos doutorados em partos, bebés e cenas...

 

Um dia.

Fui ter com o Pedro ao hospital. E seguimos os dois para o local que nos tinham indicado.

Apanhámos um trânsito do caneco. E estacionamento nem vê-lo.

Chegámos atrasados. 

Logo que chegámos.

Passaram-nos para as mãos um boneco que iria fazer de Mariana.

Quase pari, a dita cuja.

O boneco era tão branquinho, tão branquinho, tão branquinho que foi batizado pelo Pedro, de Albino.

O Pedro começou a dizer-me ao ouvido que afinal...a minha estadia na Noruega tinha dado frutos. A única maneira de explicar aquele filho tão despigmentado.

 

Na altura já eu estava barriguda e o Pedro ajudou-me a sentar.

O Pedro ficou com o Albino na mão. E quando me ajudou. Voou a  cabeça do Albino.

O Pedro fez o ar mais surpreendido do mundo e discretamente foi apanhar a cabeça voadora.

Eu a falecer. 

Toda a gente a olhar para nós. E lá apareceu o Pedro com a cabeça na mão e disse-me muito calmamente.

- Joaninha, onde é que está o resto?

- No teu bolso....

O Pedro, esse grande querido tinha posto as duas pernas do boneco dentro do bolso do casaco.

Via-se. Um boneco da cintura para cima a sair do bolso direito do casaco do Pedro. Um boneco sem cabeça.

O Pedro. Naturalmente.

Tirou o resto do boneco do bolso e tentou encaixar a cabeça.

Seguiram-se as apresentações.

 

Não sei porquê.

Ficaram todos, com um olhar de surpresa.

Quando dissemos que já tínhamos uma filha.

Foi o Pedro que disse, enquanto a todo o custo tentava encaixar a cabeça no Albino.

- Não tem outro boneco?

Perguntou o Pedro.

- Não. Temos um casal a mais da conta e temos apenas um boneco a mais.

Percebemos que o casal a mais éramos nós que tínhamos entrado quando a turma já estava cheia.

Olhei para o Pedro. A debater-se com o boneco. E comecei a rir...

...disfarçadamente para ninguém ver.

- Dá cá isso.

Tirei-lhe o Albino das mãos.

A enfermeira colocou um vídeo.

E eu...

....comecei a debater-me com o boneco.

- Segura-lhe as pernas, enquanto eu encaixo a cabeça.

Disse eu ao ouvido do homem. 

Tão romântico. 

Há menos de um ano andava eu a fazer almocinhos e a fazer piqueniques na praia.

Ali estava eu a dizer-lhe coisas doces ao ouvido.

 

O homem segurou nas pernas do boneco. E eu delicadamente tentei encaixar a cabeça.

Quando estava quase a conseguir. O boneco saltou. Ele e a perna direita.

Olhei horrorizada para o Pedro.

O Pedro desviou o olhar. E desatou a rir.

 

A sessão prosseguiu.

E a cabeça continuava de fora. Discretamente de fora. Para ninguém notar.

Passou-se a uma parte que tinha a ver com vestir e despir o bebé.

O que foi mau. 

Porque o nosso Albino não tinha cabeça. Nem perna.

 

Respirei fundo.

E fiz uso de anos e anos de hospedeira. 

Usei todo o meu sangue frio.

E disse.

- Temos pena mas temos de ir. Acabámos de receber uma mensagem da babysitter, precisa sair....

Agarrei o Pedro pela mão e ele fez que sim com a cabeça.

Agarrou no boneco. Nas partes do boneco. Deixou dentro de uma caixa de arrumação. E saímos...

Entrámos no carro. Rimos, rimos, rimos, rimos....

E quando o Pedro ia começar a pôr o carro a trabalhar não conseguiu.....

....riamos ainda mais.

Pensei que a Mariana ia nascer naquele dia. 

 

Na marginal. Próximo de casa.

Ainda a relembrar o nosso filho Albino. Olho para o Pedro.

E desato a rir....

...o Pedro olhou para mim. Não consegui dizer nada.

Apontei. Mal apontado. Porque já não tinha forças de tanto rir.

 

Do bolso do casaco do Pedro. Brotava. A perna desmembrada do Albino.

 

No dia seguinte de manhã, o Pedro deixou, a perna do Albino no correio.

O seu a seu dono. E o Albino não nos pertence.

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