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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

os fantasmas não existem...

25.01.19, Joana Marques

As férias no Alentejo eram tudo de bom.

Eu, o meu irmão e os meus primos.

Brincávamos muitas vezes juntos mas havia quem se desse melhor com este e com aquele.

O meu comparsa era o meu primo Filipe.

Eu com 8 anos. Ele com 10.

Passávamos horas e horas fora de casa.

Naquele tempo a infância era mesmo infância.

E as brincadeiras eram para ser brincadas sem horário.

Havia uma regra. 

12h30. Era a hora de almoço.

19h30. Era a hora de jantar.

Se cumpríssemos as horas das refeições.

A vida era nossa. O tempo era nosso. A vida era boa.

 

O meu comparsa. Tinha uma bicicleta. Não era bem dele.

Era de todos nós.

Andava por lá pela arrecadação da minha avó. Era velha e ferrugenta.

Mas andava e era isso que interessava.

Eu nunca soube andar de bicicleta pelo que não havia qualquer crise. O Filipe podia dispor dela a qualquer hora. Mais...

...eu também usufrui-a. Porque não sei muito bem como...ele dava-me boleia.

 

As crianças devem ser protegidas por alguma entidade secreta. Um anjo da guarda, talvez.

Uma bicicleta pequena, conduzida por um puto de 10 anos a todo o vapor com uma miúda de 8 anos pendurada.

Íamos a todo o lado. Percorríamos tudo. Corríamos.

Chegávamos ao Alentejo pálidos e deslavados. Saíamos de lá escurinhos, com cor de saúde.

 

Um dia. O nosso poiso foi na escola primária lá da terra.

Ainda era longe da casa da minha avó. Uns 25 minutos a galopar na bicicleta.

O meu primo conduzia.

E eu Joana, ia pendurada não sei muito bem onde.

Levava uma bola porque na escola havia uma tabela de basquetebol e íamos ficar a jogar toda à tarde.

 

A escola primária era linda. Como todas as escolas primárias antigas.

Não era murada.

Ficava num terreno amplo.

Atrás, fora da escola tinha as casa de banho e um átrio. Com a tal tabela de basquetebol. 

À frente tinha um alpendre do lado esquerdo. Do lado direito tinha 3 grandes janelas.

Cada janela tinha uma espécie de viveiro com flores.

 

Chegámos.

O meu primo tirou do bolso um bocado de giz que tinha pedido, por favor, ao alfaiate lá da terra chamado Tomás.

Começámos a desenhar no chão o jogo da macaca.

Joguei eu. Jogou ele. Joguei eu. Jogou ele. De repente parou de jogar. E...

.....apontou para a primeira janela, quase colada ao alpendre. Disse.

- Ei! Ei! Olha ali um fantasma!!!

Eu olhei.

Nada. Não vi fantasma nenhum.

- Vá joga!

Disse o meu primo.

- Não! Também quero ver o fantasma!

- Achas? Joga, lá! Tu se calhar não consegues ver fantasmas!

- Se tu consegues ver fantasmas, porque é que eu não havia de conseguir ver fantasmas?

- Sei lá. Porque nem toda a gente consegue...

- Ajuda-me a subir à janela, para eu espreitar lá para dentro. Também quero ver o fantasma!

 

O meu primo lá me ajudou, a trepar para o viveiro das flores, para eu espreitar pela janela.

Estava eu concentrada. 

Estava quase, quase a espreitar pela janela quando o meu primo disse, num tom de voz de perigo. A apontar para o alpendre.

- Cuidado, Joana! Sai daí.

Olho de lado. Vejo um ninho de vespas. E algumas vespas na minha direção.

Assustei-me! 

E na ânsia de fugir do ataque iminente.

Bati de frente no telheiro do alpendre.

Assustei-me ainda mais.

Com a parte da frente da cabeça a latejar.

Caí de costas nas escadas que davam acesso ao alpendre.

 

Ali. Jaz. Joana Marques. 

Ali. Estava o fantasma. Não o que procurava. Eu própria era um fantasma.

Ainda estava a tentar perceber o que me tinha acontecido.

Via o meu primo. Com o dedo apontado para mim. A rir que nem um desalmado.

Ria. Ria. Sem conseguir parar.

E continuava a rir.

Se fosse asmático tinha falecido de tanto rir.

 

Ajudou-me a levantar.

E percebemos que tínhamos um problema entre mãos. Segundo o meu primo, a minha testa parecia um ovo estrelado.

- O que é que vamos dizer em casa? Se sabem o que aconteceu nunca mais nos deixam sair...

Anteviu o meu primo.

 

Tinha dores no corpo todo.

Principalmente na cabeça mas passou-me tudo.

Pensar que não podia sair de casa quase me matou.

Para isso mais valia passar as férias em Lisboa....

- Uma coisa é certa não podemos contar a verdade. Se a avó sabe que nos afastámos tanto de casa e que ainda por cima subiste à janela da escola...estás a ver, não estás?

- E o avô?? Se ele sabe?? Vais ver que os outros vão poder continuar a sair e nós vamos ficar trancados de castigo. 

Os outros eram o meu irmão e os meus outros primos. Mais velhos. E com mais juízo.

- Podemos dizer que caímos da bicicleta. E tu não apanhaste nada.

- NÃO! Tiram-nos a bicicleta e depois? Temos de andar a pé!! Diz que tropeçaste e caíste. Podias muito bem estar a andar e caíres.

- É isso. Caí! 

- Caíste e bateste com a cabeça.

- Pois. Caí e bati com a cabeça.

Voltámos para casa. 

Quase morri no caminho. Toda dorida. Encolhida na bicicleta.

 

Entrámos em casa. A minha avó veio ter connosco por causa do lanche.

Ainda tive esperança que ela não desse conta.

Sempre tinha ouvido dizer que as pessoas mais velhas viam mal. 

Todas as minhas esperanças caíram por terra.

Quando ela fez o ar mais horrorizado desta vida.

- Ó Jesus! O que é que te aconteceu.

O tom da minha avó era tão grave que apareceu o meu avô.

O que é que me tinha acontecido era a pergunta. 

Lá estava eu. Na berlinda.

O meu primo antecipou-se e respondeu.

- A Joana caiu.

- Caiu??

Se tivéssemos dito que tinha sido atropelada por uma manada de búfalos era considerado mais credível.

Comecei a ver que a nossa história tinha falhas. Pelo que acrescentei.

- Nós vimos um fantasma. Assustei-me tremendamente. E caí.

Lembro-me como se fosse hoje. De ter dito a palavra tremendamente. E do meu avô se ter desmanchado a rir com a história do fantasma.

O meu primo, atrás do meu avô e da minha avó fazia gestos para não contar a história do fantasma.

- Viste um fantasma? E como é que ele era?

- Eu não o vi. O Filipe é que viu e eu assustei-me tremendamente e caí. 

- E por onde é que vocês andavam?

- Aqui perto. Mesmo aqui perto. Não andávamos Filipe?

- Mesmo, mesmo perto.

 

Chamaram o médico para me ver. Porque estava moída dos pés à cabeça.

No dia seguinte.

Fomos chamados pelo meu avô.

Entrámos no escritório muito a medo.

Entregou-nos a bola.

É o problema das terras pequenas. Toda a gente se conhece. E toda a gente sabe tudo.

A bola tinha sido encontrada na escola. Tinham-na entregue aos meus avós.

Tivemos de contar a história toda. 

Eu tive de contar a história toda.

O meu primo começou a rir....e nunca mais parou.

Apanhámos um raspanete.

E um sermão sobre os perigos da vida.

E sobre a responsabilidade e essas coisas....mas sobretudo por termos ocultado uma parte da verdade.

E que só não nos castigava porque eu já estava a sofrer a minha penitência. Com um corpo num flagelo, só...

Perguntou se tinhamos percebido tudo?

Eu disse que sim com a cabeça. O meu primo disse que sim com a cabeça.

 

Quando saímos do escritório. O meu primo disse:

- Joana, não sei se sabes mas...os fantasmas não existem. Por isso não andes para aí a contar que eu vi um...

- Como não? Mas tu disseste que viste??

- Claro que não! Foi para te assustar!

 

O meu primo Filipe faz hoje 40 anos.

Parabéns!

Sabes, não sabes...que me fazes tremendamente feliz!

 

 

Há dois anos no Quiosque.

O senhor Ludovino. E o Gregório.

 

Há um ano no Quiosque.

Post 1: O Vasco. E o polícia.

Post 2: Uma pessoa parte uma perna. E...

...o tempo que leva até voltar ao normal.

 

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