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Quiosque da Joana

03.05.18

os meus feijões mágicos

Joana Marques

A minha avó Maria contava-me histórias.

Desde que me lembro.

À noite. Na cozinha.

Depois do jantar.

Não havia televisão. Para ninguém.

Ficávamos a conversar todos.

Nunca me cansava de as ouvir.

E pedia todas as noites. Para ela me contar. Uma e outra vez.

A minha avó. Nunca contava as histórias como elas eram.

Quem conta um conto acrescenta um ponto.

E a minha avó acrescentava. Mudava. E recontava a história.

Provavelmente por não saber mesmo a história como deve ser.

E por isso recriava-a como se lembrava...

 

Era uma vez um menino chamado João. 

Vivia no campo com a mãe.

Tinham como único sustento o que tiravam da terra e uma vaca.

Um dia a mãe ficou doente.

E não conseguia trabalhar.

Não tinham dinheiro para comprar medicamentos.

A mãe pediu ao João para ir à feira e vender a vaca.

E o João assim fez.

No caminho encontrou um velhote. Que lhe propôs o negócio seguinte.

Dás-me a vaca. E em troca dou-te estes feijões mágicos.

O João aceitou. Melhor que dinheiro são feijões mágicos.

Toda a gente sabe disso!

Quando o João chegou a casa. Contou à mãe.

Mostrou orgulhoso os feijões. Mágicos.

A mãe. Não queria acreditar.

Não tinham vaca. Não tinham dinheiro para comprar os medicamentos.

Tinham perdido tudo.

Em desespero e zangada. Atirou com os feijões janela fora.

No dia seguinte. João acordou. E os feijões tinham germinado.

O feijoeiro chegava ao infinito.

João subiu feijoeiro acima e só parou no céu.

E o céu. É o céu.

Só tem coisas boas.

 

- Ah! A mãe diz que o tio Luís está no céu..ele também tinha feijões mágicos?

- Não, Joana. O tio Luís estava muito velhinho e morreu.

- Mas morrer é mau...temos de morrer para ter feijões mágicos.

- Não. Claro que não. Só tens de os encontrar. E tomar conta deles...

- A avó já os encontrou??

- Já.

- Já!? Onde é que eles estavam?

- Alguns com a minha mãe, outros com o meu pai. Com o teu avô. Com o teu pai e com os teus tios. Com vocês.

- Eu nunca te dei nenhum feijão mágico.

- Deste, Joana, deste. Tu é que não percebeste. Os feijões mágicos andam disfarçados. Nós temos de estar atentos. Não os perder. E para isso temos de cuidar muito bem deles.

- E não me podes devolver os feijões mágicos que te dei?

- A seu tempo vais encontrar mais. Não te preocupes com isso.

 

Fiquei destroçada. Eu já tinha tido feijões mágicos. E sem querer dei-os.

Nesse dia. A conversa sobre os feijões mágicos ficou por ali.

Mas no dia seguinte acordei....

...e virei a casa do avesso.

Gaveta por gaveta.

Armário por armário.

Quarto por quarto.

Cozinha.

Casas de banho.

Palheiro.

Capoeira das galinhas.

Barracão das ferramentas.

Forno.

Casinha do gás.

E sabem que mais. Nada. De nada.

Onde é que raio andavam os feijões mágicos.

Ali não estavam. Fiquei com a certeza que ali não estavam.

Deviam estar no banco. Pensei eu.

 

E a vida seguiu o seu rumo.....

 

30 anos depois.

Ontem.

O Pedro deixou a Alice em casa dos meus pais pelas 7h.

Eu. Aproveitei e comecei a trabalhar logo que saíram de casa.

Almocei pelas 13h.

E depois de almoço achei que podia ficar durante a tarde com a Alice.

Tinha de responder a uns emails de trabalho mas podia aproveitar a hora da sesta.

Trouxe a miúda para casa.

A Alice reencontrou o Vasco. O Vasco reencontrou a Alice.

Caos instalado.

Mais. A Alice reencontrou os brinquedos que recebeu pelos anos. E que adora.

Um carrinho de bonecas. E uma cozinha.

E com tamanha diversão. A passar-lhe pelos olhos. A Alice dormiu tanto como eu.....

Estava a cair de sono.

Estava completamente imprópria. Mas debatia-se contra o sono.

Não conseguia brincar de tão cansada. Mas não queria dormir.

Estava resmungona. Chorosa. Ranhosa. E intragável.

- Não durmo. Não durmo. E não durmo.

Como não dormiu. Não comeu.

É o chamado círculo vicioso.

Ou efeito dominó.

Basta falhar aqui qualquer coisa. Tudo se desmorona.

Quando o Pedro chegou.

Não tinha respondido aos emails

Não tinha passeado o Vasco.

Não tinha feito nada de nada.

É a vida. Muitos dias estão para vir assim...e já se sabe. É um erro tremendo, morrer de véspera.

 

O Pedro foi passear o Vasco.

Eu fiquei com a Alice.

E quando voltou. Disse-me para tratar dos emails que ele ficava com os dois.

 

Custa-me tanto trabalhar quando estamos todos em casa.

Tão triste. Não poder estar com eles.

Lá fui. A arrastar-me até ao escritório.

Tinha 33 emails de trabalho para responder.

Decidi responder a 17 e depois dar um prémio a mim própria.

E o prémio era:

- poder sair do escritório. Ir espreitar os 3. E depois voltar e responder aos restantes.

Fiquei mais animada. Depois deste negócio que fiz comigo própria.

Respondi a um. Dois. Três. ......Dezassete.

 

E lá fui. Devagarinho.

Sem fazer barulho.

Lá fui eu espreitar.

E vi o Pedro. Com a Alice ao colo.

Segurava-a com o braço direito.

Estava com um livro. A ler-lhe uma história.

A Alice estava atenta.

Mas ia acrescentando sempre alguma coisa à história.

Provavelmente com razão, nunca o saberemos.

Tinha um bocado de banana na mão. Que ia comendo devagar. As mãos cheias de banana.

Toda ela era banana.

Cabelo.

Pernas.

Cara.

O próprio Pedro. Tinha banana no cabelo. E no queixo. Porque a Alice tem o hábito de nos querer fazer festinhas.

Do lado esquerdo do Pedro.

Estava o Vasco.

Ora olhava para o Pedro. Ora olhava para a Alice.

Depois percebi. Que olhava era para a banana. Segui-a com os olhos. Um cão não é de ferro.

E quando não há frango assado. Banana pode ser uma alternativa.

 

Os três na sala.

E eu. Escondida.

A olhar. Para eles.

 

 

Ali estavam eles.

Finalmente....

.......os meus feijões mágicos.

 

 

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