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Quiosque da Joana

Quiosque da Joana

Por favor! Contratem-me

16.04.18, Joana Marques

Antes das 7 da manhã.

Estava o Pedro a tomar o pequeno almoço. Eu a dar o pequeno almoço à Alice. E a tentar comer o meu.

O cão de um lado para o outro. A suplicar comida.

Este cão está tramado. No dia em que quiser reivindicar alguma coisa.

Greve de fome. Está fora de questão.

Mas se fizer uma petição online a pedir comida.......está feito na vida...quem assina??

....todos vocês e o Pedro, eu sei....

 

 

Toca o meu telemóvel. Sr. Ludovino.

Uma voz. Aflita. Muito aflita do outro lado. Até me saltou o coração.

- Joana.

-

- Estou doente. Passei ontem o dia nas urgências.

- Então?

Disse eu. Sem respirar. O coração a mil.

- Pois, estou tal e qual D. Sebastião.

- Ehhhhh??

-Vejo tudo como se tivesse nevoeiro.

Ainda pensei em explicar-lhe que esse não era o problema de D. Sebastião.

Mas deixei passar..

 

- Como assim?

A palavra glaucoma...surgiu sem qualquer nevoeiro, na minha mente...

- Tenho uma conjuntivite.

- Ah! Que chatice! Mas isso é fácil de tratar, não é? Deram-lhe alguma coisa, no hospital?

- Umas gotas. É por isso que preciso que venhas cá. Podes vir cá pôr-me as gotas??

- Eu? Posso.....tem a certeza?? Não tenho grande jeito para essas coisas...

- Por favor! O meu filho Miguel é um brutamontes. E o outro também.

- E a mulher do Miguel?

- Nem pensar.

- Então? Está a trabalhar?

- Não sei. Nem perguntei. Não a quero cá a mexer nos meus olhos.

- Ela é enfermeira!

- Não desconverses. Vens ou não vens?

- Estou aí pelas 8. Pode ser?

- Pode.

Disse, com uma voz. Deprimida. Melancólica.

Homem. Que é homem. É hipocondríaco. Faz parte da beleza de ser homem.

E um homem que não seja hipocondríaco não vale a pena.

 

- O que é que aconteceu?

Perguntou-me o Pedro.

- O senhor Ludovino diz que tem a doença de D. Sebastião.

- Gonorreia??

Acho tão fixe os médicos. Como sabem montes de coisas. E já viram muita desgraça. Acham sempre o pior....

- Não. Tem uma conjuntivite. E quer que lhe vá lá pôr umas gotas.

O Pedro riu-se. Eu ri-me. A Alice também se riu...porque nos viu a rir.

O Pedro saiu. A Alice foi com ele.

 

Peguei nas minhas coisas.

Computador incluído.

Presumi que era capaz de ter de ficar a trabalhar em Carcavelos.

Presumi bem. As gotas são para ser postas de 4 em 4 horas.

 

Cheguei.

Sr Ludovino. A choramingar.

- É no esquerdo. É no esquerdo.

Curiosamente. Era o direito que estava encarnado.

Li o papelinho das gotas. Antes que fosse ácido sulfúrico. Ou cianeto.

Disse-lhe para se deitar.

 

- Abra os olhos.

Fechou os olhos.

Abriu a boca.

 

- Abra os olhos.

Abriu o esquerdo.

Fechou a boca.

 

- Não é esse. É o outro.

Fechou o olho.

Abriu a boca.

 

- Abra os olhos. Não é a boca.

Abriu os olhos.

Fechou os olhos.

Abriu a boca.

 

- Ó caneco! Os olhos. Os olhos.

- Joana. Estou com os olhos abertos. Não vês?

- Ok. Abra os olhos.

Abriu a boca.

 

- Sr. Ludovino. Vamos lá concentrar. Abra a boca.

E zás.

Abriu os olhos.

E vá de pôr as gotas em tudo o que mexia.

 

8h da manhã. Done.

Meio dia. Done.

A dona Helena já ajudou. E comentou.

-Também já tive. E punha as gotas sozinha. Queres tentar?

- Ó mulher! Queres que eu fique cego??? Queres???

 

Voltei a Cascais para almoçar e passear o cão.

16h. A dona Helena vai tentar colocar as gotas ao senhor Ludovino, sem a minha ajuda. Vou só supervisionar.

 

Com quatro golos do Sporting! Com mil Slimanis!

Um mundo novo. Senhores!

Todo um mundo novo.

Ando eu. A passear-me em aviões.

Quando tenho uma carreira de sucesso a passar-me ao lado.

Acaba já hoje.

A partir de agora. Vou seguir o meu sonho.

Alguém arrisca??

 

enfermeira.png

 

 

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