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Quiosque da Joana

23.02.18

sou da tribo. Dos excessivos.

Joana Marques

Estava no quinto ano. Pelo Natal. Na escola.

Fizemos o amigo secreto. Com a nossa diretora de turma.

Tínhamos de levar um presente . Simbólico. Ou quase.

A minha mãe ajudou-me e fiz um marcador de livro.

Foi feito em papel de aguarela. Pintado por mim.

A minha mãe cortou o papel. Os extremos do marcador ficaram em formato triangular.

Colocou-se uma fitinha num dos extremos.

A minha mãe costumava guardar folhas e pétalas de flores dentro de um dicionário grande.

Colocou-se o marcador dentro do dicionário durante dois dias. E o marcador ficou a cheirar bem.

Embrulhámos, o marcador, dentro de um envelope de papel que a minha mãe me ensinou a fazer. Verde. E o laço era branco. Fui eu que escolhi as cores.

Estava tão orgulhosa do meu presente. 

Era simples. Mas muito bonito. 

Estava ansiosa para que o dia chegasse. Para dar o presente.

E não só. Era criança.

Ansiava também por receber de volta. Um presente qualquer.

O dia da troca de presentes chegou.

E o meu amigo Gui passou lá por casa. Íamos os dois para a escola.

Mostrei-lhe o presente. 

O Gui encolheu os ombros. E disse:

- Nunca mais me lembrei disso.

- Não tens presente??

- Não.

- Como é que não tens presente? Assim não recebes presente. Vais ser o único da aula a não receber nada.

O Gui encolheu os ombros. Não parecia muito preocupado. Eu assumi a preocupação toda.

 

Assim de improviso.

Naquele tempo mínimo que restava, olhei em redor.

Tirei uma moldura. Fui à gaveta dos papeis de embrulho.

Embrulhei a moldura à pressa. E entreguei ao Gui.

O mais irónico. É que na troca de presentes. Eu acabei por ficar com a moldura do Gui. E a moldura retornou a minha casa.

Fiquei desolada. Tinha ajudado um amigo e o universo em vez de retribuir o meu gesto. Não!

Afinal, será que valia a pena ajudar os outros. Preocupar-me com os outros?

Ao longo da vida questionei-me várias vezes.

E a resposta é sim. Sim, vale a pena.

Mas eu não faço só isso.

Valerá a pena fazer o que faço?

Por mais que ache que não. A maioria das vezes sou excessiva. Meto-me onde não sou chamada.

Porque eu não me preocupo só. Eu revoluciono a vida do pobre incauto se for preciso. É só darem-me espaço.

 

 

Um amigo meu é de Viana do Castelo. Mora na Parede. Quando vai ver os pais é um desassossego para mim.

Envio-lhe mensagens de 10 em 10 minutos para saber se está vivo.

O desgraçado tem de parar em TODAS as estações de serviço. Para me enviar uma mensagem.

- Está tudo bem. És uma chata.

Chama-se chata em Aveiras. Em Antuã, não posso  escrever aqui.

Já chegámos a um acordo. Eu não mando mensagens. Ele pára duas vezes para me enviar mensagem e sossegar.

 

Aqui há uns tempos, ainda trabalhava em Lisboa, reuni-me com uma pessoa do Algarve.

Não conhecia o senhor de lado nenhum. 

Falámos o que tínhamos a falar.

Ele voltou para o Algarve. Eu fiz contas de cabeça. E passadas uma horas. Enviei-lhe uma mensagem.

A perguntar se tinha chegado bem.

O senhor ligou-me espantado. Deve ter achado que me tinha enganado.

- Não ligue. Eu sou mesmo assim..

- Agradeço a sua preocupação, já cheguei há mais de uma hora, tive de dar um salto à empresa. Nem a minha mulher nem os meus filhos se dignaram a perguntar se já tinha chegado.

Até fiquei de coração apertado.

Espero não ter provocado uma crise conjugal no casamento do senhor. A intenção nunca foi essa.

No dia seguinte. Recebi flores. Em nome do senhor, a agradecer. A intenção, também não era esta.

 

 

Sempre fui assim. Desde que me lembro de ser gente.

Sou assim para os outros. Comigo sou diferente.

Acho sempre que controlo a minha vida. E por isso nada de mal me vai acontecer.

O que não é verdade. Se fosse, não tinha partido a perna.

 

Quem me conhece já sabe. E não estranha.

Quem não me conhece deve achar que eu sou maluca. Não andará muito longe da verdade.

As mulheres. Reagem simpaticamente. E de forma mais "normal".

Os homens? Bem nos homens temos várias reações possíveis...

Uns quantos, ligam esta preocupação ao coração.

- Deve achar que sou o homem da vida dela.

Ficam para ver no que dá.

 

Outros. Fogem a 7 pés.

- Mal falo com esta e já quer mandar em mim?? 

- Mal falo com esta e já me quer controlar...

Outros. Uma minoria. Percebe. E passa-me a mão pela cabeça....

 

Se alguma vez me disserem.

- Vou ao cinema.

E do outro lado eu responder.

- Quando chegares a casa podes-me enviar uma mensagem?

- Tem cuidado na estrada.

- Leva o casaco que faz frio à noite.

Entre outras pérolas. Dignas das mães mais extremosas.

É normal. Na minha pessoa.

Sou excessiva. Muito excessiva.

Um instinto maternal qualquer. Que nasceu comigo. E que eu não consigo, nunca, desligar.

Eu bem tento moderar. A maior parte das vezes é tarde demais.

Já está. Já disse. Já perguntei. Já enviei mensagem.

Eu sei que tenho mesmo de mudar. Já tentei...mas..

...em 37 anos de vida ainda não consegui limar esta aresta.

Confesso....

...sou da tribo. Dos excessivos.

 

 

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